Caminhos por dentro

Maria Amélia Costa


Era um desses finais de manhã de sol quente.

Acabara de sair do consultório e se dirigia para o shopping. Em breve o calor do sol ficaria lá fora. Combinara com o filho de se encontrarem, mas ainda era cedo para o almoço e ele talvez demorasse a chegar. A porta automática se abriu, ela entrou e logo sentiu o conforto fresco que circula pelo interior de lugares assim. Ao seu lado havia muita gente nesse ir e vir que marca a humanidade inquieta dos humanos. Estava cercada por essas criaturas e sentia-se confortável. O conforto a fez sorrir enquanto subia pela escada rolante evitando segurar naquelas laterais que também rolam, mas que não acompanham com a mesma velocidade os degraus que sobem e descem como se tivessem vida própria – observara. Num pensamento solto avaliou que havia uma cumplicidade velada porque o consultório do psicólogo, o da massagista e o do dentista que ela, agora, freqüentava ficavam todos ali, nas imediações do lugar. Mas não se deteve nesse pensamento preferindo ver o lado prático de coisas assim. Naquele dia fora ao dentista.
Se perguntassem ela diria que não gosta de freqüentar esses ambientes, mas, estranhamente, passava sempre por ali e sentia o conforto que já mencionou. Era nessas horas que se evidenciavam seus paradoxos e contradições e ela aproveitava para dar para si mesma, lições complexas da sua humanidade. Lições impositivas. Lições que ultrapassavam o espaço das lousas que usava, mas que ela, numa rebeldia juvenil, preferiria mudar de assunto. No fundo, o que não queria era se perder em elucubrações vãs e sem rumo deslizando por lousas invisíveis, não confiáveis. E não podia ficar parando, o tempo todo, para se dedicar a essas lições, por vezes, exigentes.

Andou sobre saltos firmes, com passos firmes de quem já sabe aonde vai. Usava saia na altura dos joelhos deixando-lhe à mostra as pernas bronzeadas. A gola da blusa preta contornava-lhe o pescoço até a altura do queixo tocando-o a cada movimento lateral que ela fazia com a cabeça, involuntariamente. Ou fazia-o voluntariamente para sentir a carícia da gola e sabê-la sua. O preto da blusa compunha um contraste com o colorido floral da saia estampada. Enquanto ela andava, já no piso superior, a seda do tecido fazia movimentos em contornos sinuosos formando um desenho ondular que tocava, levemente, uma e outra perna. Dobrou para a direita e entrou pela porta da livraria que dá acesso ao café. Dirigiu-se à moça do caixa e ao sorrir para a moça a moça perguntou:

— Pois não...O que vai ser hoje?
— Olá... - Disse num cumprimento alegre e acrescentou: — O de sempre, um café pequeno, com leite, e um pão de queijo. Obrigada.

Não sentia fome. Estava de certa forma, preenchida de algum tipo de alimento que ela não conseguia dizer o que era. Só sabia que estava satisfeita e por isso não precisava satisfazer esse tipo de necessidade. Mas o café com pão de queijo fazia parte daquele ritual.

Como a atendente não tinha troco para a quantia em dinheiro que lhe dera pagou com cartão e dirigiu-se a uma mesa. Não era sempre que encontrava mesas para ficar sozinha. Parece que lugares com gente desconhecida e se movimentando era um nicho para sua solidão – convenceu-se em seguida numa lição ligeira. Talvez por isso ela se refugiasse ali todas as vezes que queria ficar só ao passar por aquele lugar. Enquanto aguardava o pedido olhou por todo o ambiente como se estivesse procurando alguém ou alguma coisa que, de fato, não queria encontrar. Foi até uma das prateleiras que já conhecia e escolheu um livro. Em seguida voltou e sentou para esperar, sem pressa. Gosta de se sentir assim, livre para levantar, ir até a prateleira, escolher um livro e voltar. No seu ritmo. No seu tempo. Voltar e sentar.

(Uma pausa para dizer do seu jeito de sentar.)

O seu jeito de sentar expressa uma cadência que vem, como que, carregada de alguma intencionalidade. Antes de ocupar a cadeira por inteiro, cruza as pernas colocando a esquerda sobre a direita, suavemente, como se buscasse conforto, sem urgência, no primeiro movimento. Dobra o braço direito sobre a coxa esquerda a qual está sobre a direita e os dedos de ambas as mãos se entrelaçam segurando-se num encontro finalizador. Só então ela recosta-se com leveza de plumas para levantar a cabeça, altiva.

Naquele dia os cabelos estavam soltos e, no movimento jogou-os, levemente, para trás.

Do lugar que estava via as duas portas de entrada e toda a extensão do balcão da cafeteria. Observou que as demais mesas que compunham o ambiente estavam ocupadas apesar de haver poucas pessoas no interior da loja de livros. Dali estava exposta, de frente, mas não se importava em ser vista. Outrora isso a incomodaria, agora, se diverte porque lhe parece que tudo é muito simples. “Você não precisa mais se esconder” – releu daquele lugar, em algum outro lugar de um passado recente.

Sentia no corpo o conforto. Esperava sem pressa repousando naquela sensação de que as coisas estão nos lugares que devem estar. Em cada respiração profunda sentia expandir espaços de interioridade que possibilitavam essa visão crescente de si mesma, de um ser que nasce e vai ocupando superfícies de frescor e de fertilidade. Na maturidade, os brotos da juventude. Observar do lugar que está dá um sentido novo para coisas que ela gosta de guardar. Distraiu-se em pensamentos tecidos na presença desse estar assim. Tessitura só possível na solidão de quem se vê por dentro. No contraponto desses pensamentos, mas ainda se vendo por dentro, lembrou do filho que estava a caminho, apressado, em algum lugar por onde ela já passara. Saber que pode ver por cima do ombro, pontos de ultrapassagem. Doloridos pontos que exibem, ainda, pingos escurecidos de líquidos vertidos. Alguns doloridos pontos. Doce sabedoria dos que fizeram caminhos. Poder estar ali sentada. Saber que vai ser encontrada sem precisar sair do lugar. Não naquele momento.

— Aqui está... Bom apetite! - Era a moça com o café.
— Obrigada... - E pediu, sorrindo: — Açúcar mascavo, por favor?!

Tentou se concentrar na leitura do livro enquanto tomava o café e comia o pão de queijo, mas sem que pudesse ou quisesse impedir, deslizava, suavemente, para lugares ora próximos ora distantes. E ficou assim, indo, vindo e se demorando em movimentos de percursos que delicadamente seguravam a xícara, viravam a página do livro e vasculhavam dobras, cavidades, atalhos, numa varredura singular de quem decifra, docemente, cada um dos seus mistérios e segredos. Em busca de mais conforto e como se quisesse manter conexão com o mundo cruzava e descruzava as pernas em regularidades que só a intuição responde. O livro. O café. E tudo o mais. Nessa aderência de si mesma percebeu-se íntima da própria intimidade em movimentos que adquiriram a velocidade de um tempo lento, ofegante. Velocidade própria de urgências que não são urgentes. Acercou-se de si em meio a toda aquela gente sabendo que podia mergulhar, revirar tudo, fazer contornos e ninguém iria perceber. Desbravar espaços tão familiares e tão desconhecidos.

Sentia-se um pouco acima. Mais acima. Distante. “Isso é soberba!” Disse em viva voz o amigo tão presente, numa carinhosa e mesurada censura. Mas ela não deu bola para aquele comentário porque, vindo dele, chegava como um afago. E ela se entregou, sorrindo, para a querida lembrança...

— Podemos sentar aqui? - Levantou a cabeça. Era um casal que se aproximara.
— Sim... Claro! Por favor. É um prazer. - Disse com a expressão de quem, em viagem, acabara de chegar, em um lugar estranho.

Era um bonito e sorridente casal na faixa etária dos sessenta anos (supôs), desses que depois de longos percursos (supôs) se deleitam em perambulagens de quem tem o tempo a seu dispor (supôs). Ela parou para dar atenção ao casal, ou atenção a si mesma naquele desdobrar-se.

O tempo passou. O casal foi embora. O filho chegou e saíram abraçados na intimidade de quem cedeu às entranhas.

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