Um recado amoroso para minha amiga Rosângela

Maria Amélia Costa









Querida Rosângela:
Ontem pela manhã e em tempos anteriores eu dizia pra você:
Querida, tenha cuidado. Sei que você não está enxergando direito e por isso não consegue manter-se no seu eixo. Confusa, nesse labirinto das labirintites, você anda em zigue-zague numa cadência estranha.
Por vezes, num movimento em espiral que a faz levar a mão à cabeça você diz:
Por favor, me ajudem eu ainda não estou bem.
Todo mundo sabe o quanto sofrem aqueles — e, principalmente, aquelas — que se distanciam do eixo que os mantém. Dizem que labirintite é uma coisa horrível! Mas é o distanciamento (de eixo, quero dizer!) o que nos maltrata.

Mais uma vez, querida, cuidado. Por esses dias você estava saindo, a duras penas, de uma depressão. Todos sabem, também, que depressão é um buraco fundo, escuro e escorregadio. Há até quem escute línguas estranhas e promessas vãs quando adentra por buracos assim.
Para uma pessoa com depressão e labirintite parece que não há salvação.

Mas...
Ontem, ainda, eu a vi dançar com seu traje de cigana, como uma cigana.
Linda!
Leve e graciosa, na pontinha dos pés, você rodopiou espalhando em torno do seu eixo o desvario de quem se lança ao mais sedutor dos abismos. Em seu torno voavam franjas prateadas em pequenas peças que se desprendiam para compor a sua aura iluminada.

Você dançava para o seu novo amor.
Do seu sorriso vi saindo partículas da alma que não se suportando mais em si mesma precisava, docemente, espalhar-se por aí.

Na cumplicidade dos quatro ou cinco elementos que aqueciam o céu do meu viver guardei aquela imagem e você continuou a bailar noite adentro enfeitando a noite.

Ontem, ainda em cuidados que nos aprisionam eu insistia, dizendo: — Querida, não vá se machucar nas solturas desses tempos doces. São tempos que nos seduzem e nos deixam assim, cegas e fora do eixo; sem rumo, sem prumo, sem norte. Esses tempos, sem nos avisar, nos levam num bailado de loucas por caminhos que não têm volta. São caminhos de perdição.
Querida, não perca o juízo.

Mas, isso foi ontem.
Hoje eu quero tecer um tapete de flores para você e acompanhar esses passos que te levam...
A ti e ao teu amor, tenro ainda.
Hoje, quero dizer que você está pura e linda nesses tempos de entrega. Esses são os melhores tempos. Os de loucura. Abra todas as compotas e se deixe inundar por esse vinho novo. Embriague-se. Enlouqueça e diga ao mundo dessa boa nova. Espalhe-se pelas ondas desse rodopio desvairado e envolva céus, terras e tudo o mais que houver entre esses céus e terras.

Viva! Seja intensa com o seu amor.

E que Deus me perdoe porque é nisso que, finalmente, eu acredito.

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