Convite para o aniversário de um perdedor

Marco Antunes








Eu quero convidá-lo
para comemorar o nascimento
de um cara que viveu muitos anos atrás.


Um sujeito franzino
que nunca teve porte de general
e não sonhou jamais
conduzir exércitos e batalhas.


Um pobretão de família obscura
cujo pai não passava de um simples operário
e a mãe, pelo que se sabe, fora apenas doméstica.


Nosso homenageado
jamais se sentou
entre os letrados de sua época
como um igual.

Suas letras eram mínimas,
sua erudição inexistente
e jamais investigou as sutilezas da filosofia
ou enfrentou os mistérios da ciência.


Dir-se-ia um homem comum
que respeitava os costumes
e cumpria as datas culturalmente acordadas.


Você, com todo direito me perguntará agora
pelos feitos que o notabilizam
para que se o comemore.


É uma justa pergunta
sem resposta previsível
ou com respostas povoadas
mais de negativas que de afirmativas.


Não lutou batalhas
nem ganhou uma guerra;
Não construiu monumentos
nem governou seu povo;
Não viajou pelos campos abstratos da mente
nem descortinou novas terras;
Não escreveu livros,
aliás, nada escreveu
além de umas poucas palavras na areia,
depois apagadas.
Não fez eloqüentes discursos
às portas da lei,
Não pintou a sublimidade,
Não esculpiu a grandeza humana,
Não compôs cantos aos deuses.
Nada!

Nada fez ou realizou
daquele tipo de feitos
que mereça estátuas
e odes heróicas dos poetas deslumbrados.
Nada!


Pior, foi derrotado publicamente
e sofreu morte sem dignidade
entre ladrões.
Era, em suma, um daqueles homens
a quem os americanos chamam de perdedor:
um zero à esquerda entre nós, brasileiros.

Mesmo assim, jamais reabilitado
pelos tribunais que o condenaram,
mesmo relegado à própria sorte
pelos poucos que o seguiram no mundo...
Mesmo sepultado em túmulo de empréstimo,
mesmo vilipendiado e zombado de todos,
Mesmo perseguido depois de morto
pelos historiadores e dialéticos
mesmo questionado e até confinado
em limites folclóricos
como lenda improvável,
mesmo remorto a cada
nova moda filosófica que surgiu
nos longos séculos que mais o soterraram,
mesmo demolido por discípulos
a serviço de seus próprios egos,
mesmo desonrado a cada dia
pelos que ainda se lhe dizem fiéis...
Ele, um erro na ortografia
do livro da história.


Mesmo assim,
Ele faz aniversário
e é preciso comemorar.

Porque mesmo garantindo
trazer uma espada contra a paz,
nunca se ouviu dizer que dela tenha tomado
contra outro homem qualquer;

Porque mesmo sem que se tenha provas
de que pôs os pés fora de sua terra
não há nação suficientemente distante
em que alguém não jure de pés juntos
que o tenha encontrado um certo dia
quando precisou de um amigo;



Porque mesmo sem ter escrito
uma única palavra para a eternidade
numa época sem recursos de mídia e gravação,
tudo o que disse sobreviveu no coração
de alguns que lhe entenderam a mensagem;


Porque morto, sem provas empíricas
de ressurreição além de um túmulo vazio
e da palavra de uns poucos como ele,
e mesmo que não a tenha experimentado jamais...
Mesmo assim,
Ele dividiu o tempo impalpável em dois:
um que o precedia, outro que se lhe seguia!
Ele derrubou impérios
e em seu nome se ergueram outros!
Ele foi autor de algumas poucas palavras
que o vento não esqueceu
e que sobrevivem como tesouros de sabedoria!
Ele é o improvável que se fez indispensável!
Ele é o impossível em forma de Epifania!
Ele é o mais cabal desmentido
de nossa solidão universal!
Ele é o Deus de carne, osso e sangue visíveis
que sempre procuramos!
Ele ainda é a melhor resposta,
mesmo que nunca perguntemos!










Marco Antunes é professor de Literatura, escritor, ator e Coordenador do Núcleo de Literatura do Espaço Cultural da Câmara dos Deputados.


Postagens mais visitadas deste blog

Roupa de época

Os personagens e seus nomes

A escrita de uma crônica*