Sarau das Estações




Luci Afonso


A sacerdotisa examina o templo. Almofadas de veludo se espalham pelo chão; as velas estão acesas. A fonte está prestes a desaguar-se, e os símbolos estão ávidos para serem decifrados.
O pequeno sino anuncia a comitiva: feiticeiras-madrinhas em túnicas branco-negras; poetas dos minutos, dos ventos e das fadas; menestréis de melodias quânticas e de vilas brancas. Todos vestem a pureza de alma e a compartilharão durante a noite.

Os convidados se refazem da jornada ao som de alaúdes. Servem-se de bandejas de frutos doces e taças de água pura. Daí a pouco vão saborear o vinho. Embaixadores de reinos distantes se reconhecem e se saúdam. Percorreram grandes distâncias e anseiam pela colheita de palavras maduras.

O patriarca entra amparado pelas poetisas do afeto. Traz no braço uma ave belíssima e desconhecida, de longa plumagem branca. Abre a cerimônia numa língua encantada e depois permanece em silêncio eloqüente, acariciando o pássaro enquanto os presentes prestam reverência ao mais sábio entre eles.

Em breve o objeto mágico adentrará o recinto. Eis que a anfitriã o traz, a passos calmos, e o deposita no centro da sala. Os poetas se perfilam para repartir descobertas que lhes sustentarão o espírito até o equinócio seguinte. Um deles se adianta e toma o bastão da palavra, dando início ao ritual perpétuo.

A poesia é servida.

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