Um amor na contramão



Alexandra Rodrigues

A mulher seguiu, obediente, a placa que indicava o caminho à direita, evitou a contramão com medo de contrariedades e atolou-se por ali mesmo, em terra de certezas.

Era mulher feita, desfeita em pesadelos de nuvens altas. O amor a chamava do outro lado da rua.
Um amor de pé quase descalço.
Um amor de suave estremecimento e simplicidade na casa do coração.
Um amor de vegetação ressecada coroada de raras e enigmáticas flores vermelhas.
Um amor de transparências aquáticas onde fluía a força da água em pedra dura, esculpindo vales e silêncios.
Um amor de essencialidades amanhecidas que massageavam a alma.
Um amor de sabedoria anunciada no sibilar de singelas palavras que cruzavam internos caminhos.
Um amor que cantava o sabiá e observava a formiga na folha paciente do verde dia.
Um amor de tarde para a noite, cristal coberto de pequeninas flores azuis.
Um amor de sossego que despertava a luz do sol e se banhava no córrego da lua.
Um amor cozinhado em fogo de lenha.

A mulher esperou os homens chegarem, dois homens, e acenou-lhes com as incertezas do amor. Foram encontrá-la no meio do caminho, colocando pedrinhas na roda da vida para desatolar o carro da alma. Era necessária força para erguer a carruagem do eu e fazê-la seguir pela alameda da vida. E eles, tão simples, tão rasantes, tão agora...
Ela entrou dentro de si mesma e subiu pela ladeira proibida. A contramão a faria encontrar sua própria mão.

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