Brancas de Neve




Luci Afonso


Os homens aproveitam o sábado para pescar com amigos no Lago e se recusam a levá-las. As duas sentem um leve desejo de vingança.

A tarde está quente. Escolhem uma garrafa de vinho geladíssima e sentam-se no carpete, decididas a se embebedar. Conhecem-se há pouco tempo, mas vivem se encontrando para almoçar, fazer compras ou simplesmente bater papo. Riem muito juntas, por qualquer motivo.

A dona da casa recolhe livros infantis espalhados pelo chão, entre eles o de Branca de Neve. Pertencem à filha de sete anos, que está passando o fim de semana na casa dos avós.

Depois de algumas taças de vinho, ela sugere:
— Vamos brincar de Branca de Neve?
— Como é? - pergunta a outra.
— Você nunca brincou?
— Nunca - ela mente.

— É assim: eu sou a rainha má e você é a princesa boa. Eu te dou uma maçã envenenada, você morde e cai no sono. Os anões pensam que você morreu e te preparam um leito de flores. O príncipe vem e te acorda com um beijo...

— Cadê os anões?
— Foram pescar.
— E o príncipe?
— Também.
— Estou cansada desses anões.
— São uns bobos.
— E do príncipe...
— É um chato.
— Mas, sem eles, não dá pra brincar.

— Dá, sim. É só mudar o enredo.
— Como?
— Eu te dou a maçã envenenada, você morde. Eu mesma te coloco no leito de flores, finjo que sou o príncipe e te desperto com um beijo.
— Aposto que não tem maçã. Nem flores...
— Tem, sim. Comprei hoje de manhã.
— Estou com calor demais para brincar - desculpa-se a jovem.
— É só tirar a roupa.

A rainha escolhe a maçã mais vermelha e ordena:
— Coma.

Branca de Neve morde a fruta com os dentes branquíssimos e desfalece.

A rainha a conduz ao leito e lentamente distribui as flores sobre o corpo da jovem. Depois, afasta-se para observá-la dormindo. Passa-se longo tempo até que decida ressuscitá-la.

Quando os homens retornam, encontram o apartamento vazio. Elas já partiram para a floresta encantada, repleta de prazeres e delícias, sem anões ou príncipes para estragar a estória.

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