Silêncios




Alexandra Rodrigues


I.
Ela tinha-se especializado em recortar silêncios: agrestes, ensolarados, marítimos, delicados origamis suspensos no fio do sentir. Colecionava os silêncios em baús de espuma e maresia.
Havia dias em que os silêncios a visitavam de manhãzinha, ainda ensonados, sonhadores. Eram os silêncios perfumados do despertar. Silêncios que espreitavam através da vidraça e enfeitiçavam o dia.
Havia silêncios trancados à chave em uma caixa de vidro translúcido. E também silêncios azuis de solidão inacabada. E procissões de silêncios cristalinos atravessados por finos raios de luz.
Havia silêncios que gemiam ao vento, silêncios de brisas e eternidades que ressoavam na catedral da existência como sinos de domingo. E que guiavam passos inseguros no labirinto do infinito.

II.
O silêncio infiltrou-se lentamente pela sola dos pés e conseguiu chegar até à alma. Ela sentia-se leve como um passarinho que reencontra a direção do sol.
O silêncio foi penetrando, devagarzinho, pelas frestas de internas janelas que se abriam para misteriosas felicidades.
A harmonia emprestava suas harpas à tessitura do silêncio. Leves penugens esvoaçavam, abraçadas ao vento.
Acordes de luz nadavam no lago cósmico da quietude. Lágrimas de silêncio mergulhadas em oceânicas transparências .
Como brisa suavemente soprada na flor, pétalas de silêncio perfumado desprendiam-se da alma de todas as coisas.

III.
As cores do dia derretiam-se lentamente dentro da paisagem do entardecer. Como se a noite fosse um convidado esperado depois das últimas pinceladas de azul.
Nessa hora o céu esbatia a paisagem do dia e inventava toalhas de estrelas. O crepúsculo abaixava suas sombras indecisas até elas se esconderem em enigmáticas florestas de sonhos e devaneios.
Das últimas águas da consciência respingavam sensações que se diluíam na serenidade da noite.
Era chegada a hora de adormecer o silêncio.

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