Código Secreto


Eneida Coaracy
Quando os ponteiros do relógio assinalaram quatro horas, o segurança encarregado do controle de senhas disse que eu poderia entrar. Empurrei a pesada porta que dava acesso ao corredor que me levaria à UTI nº 1, que ficava à esquerda. O chão de porcelanato claro parecia refletir a minha enorme ansiedade, à medida que pisava o lustro silencioso das lajotas. O corredor tornara-se infinitamente mais longo e amplo — eu, uma minhoquinha que se arrastava na direção de uma fresta escura e desconhecida.

No terceiro dia de internamento do meu filho, já me considerava uma veterana nessa nova e inóspita arena da vida. Abri a porta que dava acesso aos boxes. Outro segurança conferiu a minha senha e me perguntou se eu sabia quais eram os procedimentos.
— Sim, sei. Tenho que lavar as mãos ali na pia, à direita, antes de me dirigir ao box nº 14, certo?
— Certo, respondeu-me.

Entrei, quase sem perceber nada ao meu redor, buscando somente o número 14, à direita.

Parada aos pés da cama, observava meu filho respirar através de um longo tubo de plástico e refletia sobre como ter certeza de que ele realmente me reconheceria como sua mãe. Meu coração batia apressadamente enquanto o olhar investigava o amontoado de aparelhos e fios ao redor da cama. Notei a ausência de um dreno na sua cabeça, a barba um pouco mais crescida, a fisionomia serena do seu rosto. O resto era exatamente igual ao que eu deixara na tarde anterior. Em seguida, segurei sua mão firmemente, acariciando o dedo indicador. Será que ele me reconheceria?

— Ringo! - chamei quase de repente. Ato contínuo, ele apertou firme minha mão, arregalou o olho direito e mexeu a boca, num esforço supremo, tentando dizer ‘Mamãe!’ O movimento dos lábios se tocando para produzir as bilabiais melodiosas que queria pronunciar não me deixaram sombra de dúvida de que minha estratégia de comunicação havia funcionado.

***

Ringo, nosso cachorro de estimação, partira um ano atrás. A forma como costumava chamá-lo fora motivo de muitas brincadeiras entre mim e meu filho, que freqüentemente imitava a entoação que eu dava quando dizia ‘Ringo!’ Isso havia resultado em um código bem humorado que adotávamos em muitas conversas familiares.

Nosso pastor alemão havia intermediado a comunicação entre mim e meu filho, após o longo silêncio de um coma induzido. Ringo latira dos céus para Augusto, meu filho, que escapara da morte em um violento acidente automobilístico!


Postagens mais visitadas deste blog

Os personagens e seus nomes

Roupa de época

A escrita de uma crônica*