É meu!



— É meu! É meu! É meu! - A mulher saiu correndo da outra ponta do bloco e veio gritando furiosa em minha direção, debaixo da forte chuva. Já eram 14 horas e, aparentemente, ela também estava atrasada para o trabalho.
— Não, dona, eu sou é dela - explicou calmamente o Sr. José Maria, saindo do táxi e apontando para mim.
— Mas eu chamei faz tempo! - ela insistiu.
— Foi radiotáxi? É assim mesmo: a senhora paga menos, mas espera mais. Já deve estar chegando.
Ficamos os três ensopados, enquanto ela se convencia de que eu não roubara o táxi que ela esperava há mais de 20 minutos.
— A senhora pode me ceder a vez? - suplicou ela, me oferecendo uma nota de 10 reais. Eu estava meio dura, mas nem me passou pela cabeça aceitar a oferta. O Sr. José Maria valia muito mais.
— Desculpe, o chefe corta o meu ponto - menti. Para sorte de todos, o radiotáxi dela chegava nesse instante. Despedimo-nos e nos acomodamos nos respectivos carros.
— Tem gente que se desespera à toa, né? – comentou meu motorista. Enquanto falava, ele passava um pano grosso no vidro. A chuva se transformara em tempestade, e em poucos minutos o carro estava completamente embaçado.
— Ainda bem que eu estou tranqüilo - continuou ele. — Só esperando desinchar a gengiva para fazer o implante. Tem que cortar no osso e...
Fiquei preocupada com a possibilidade de um acidente.
— O senhor não prefere ligar o desembaçador? - sugeri.
— Seria bom, mas quebrou.
Ele viu o meu cabelo molhado.
— A senhora quer uma toalha? No porta-luvas tem uma que eu sempre uso.
— Não precisa...
— Está limpinha, lavei a semana passada...
— Obrigada, não.
— A senhora imagina que está difícil até lavar roupa? No ponto não tem tanque, só uma pia...
— Ponto?
— É, eu não contei para a senhora? Estou morando no ponto de táxi, para economizar. Só até janeiro, quando eu termino de pagar umas dívidas. Tem um quartinho bom lá, o pessoal me deixou ocupar. O problema é o telefone, que toca sem parar. De noite diminui um pouco, eu dou umas cochiladas. Também aproveito a bandeira 2. Faltam dois cheques da cerca...
— Cerca?
— É, comprei umas terras no Goiás, tive que cercar antes de comprar as vacas. Saiu quase 10 mil. Mais 6 mil do dentista... Quando eu pagar os cheques, vou morar na roça. O problema é que roça não dá dinheiro. Vou ter que alugar a permissão do táxi para pagar a maldita...
Desta vez, interroguei-o somente com os olhos.
— Minha ex-mulher. A senhora acredita que pago 500 reais a ela todo mês? O pior é que não pode atrasar, dá cadeia. Já se foi a casa, agora é a pensão. Será justo?
Não tive tempo de pensar numa resposta.
— Parece que ela arrumou outro, bebe feito um condenado, nem trabalha. Estou sustentando dois vagabundos.
A esta altura, estávamos envoltos num denso nevoeiro, como nos filmes americanos, só que dentro do carro. Os outros veículos eram vultos assustadores que se moviam à nossa volta. Comecei a temer pela nossa segurança, mas o Sr. José Maria parecia acostumado a dirigir nessas condições.
— O seu marido também é funcionário público? - indagou, tranqüilo, como se o sol brilhasse firme naquela tarde de quarta-feira.
— Sou separada - respondi.
— A senhora me desculpe, mas bonitona desse jeito? - O olhar curioso me encarou no retrovisor, enquanto a mão continuava esfregando o vidro.
— Fui eu que quis - justifiquei.
Um vulto gigantesco apareceu à nossa direita: era o Anexo IV.
— Como é que a senhora consegue vaga aqui a esta hora?
— Tenho vaga privativa - respondi, procurando o dinheiro na bolsa.
— Amiga dos figurões?
— Não, cargo de direção.
— Hum, a senhora deve ganhar bem... - insinuou ele, piscando o olho direito.
Na próxima vez, definitivamente, o radiotáxi.

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