This spring


Luci Afonso
This spring I'll stay home.

Lying on the couch, I hear the suicidal scream of cicadas. Leaning over the balcony, I gather fresh drops of rain, the first and the last. At night, the moon crosses the blinds of the bedroom and lights up my body, curled on the Egyptian 500-thread sheets.

As for company, I only want my son's, my mother's and my cat's, spontaneous extensions of myself. Voices, only those of dear spirits, of small children, or the lonely elderly. Caresses, only those of the wind, which kindly refreshes my face.

Men, don't look at me: I'm ugly. Friends, don't look for me: I'm absent. Why meet people? I've met all I can stand.

I don't need facts – the world spins without me. I'm only interested in the leaf fallen on the grass and in the poem whispered by the ancient tree.

I fade away in this inverted spring. I penetrate the dark depths of the earth to implode my singing, until the white death of the Ipê tree comes to nourish me with the raw sap for the next season.

(Ouça este texto em Crônica&Voz, gravado por Eneida Coaracy.)


                                  

Esta primavera
Esta primavera voy a quedarme en casa.
Acostada en el sofá, oigo el grito suicida de las cigarras. Asomada al balcón, recojo gotas frescas de lluvia, las primeras y las últimas. A la noche, la luna atraviesa la persiana del cuarto e ilumina mi cuerpo, enrollado en la sábana de quinientos hilos egipcios.
Compañía, sólo quiero la del hijo, de la madre y del gato, prolongaciones espontáneas de mí. Voces, solamente la de los fantasmas queridos, de los niños pequeños o de los viejitos solitarios. Caricias, sólo la del viento que gentilmente me refresca el rostro.
Los hombres que no me miren: estoy fea. Los amigos no me busquen: estoy ausente. ¿Para qué encontrar personas? Ya conocí a todas las que puedo soportar.
No preciso de hechos — el mundo gira sin mí. Sólo me interesan la hoja caída en el césped y el poema susurrado por el árbol antiguo.
Desvanezco en esta primavera invertida. Me oculto en la profundidad oscura de la tierra para implosionar mi canto, hasta que la muerte blanca del lapacho venga a nutrirme de savia bruta para la próxima estación.


                                


Esta primavera

Esta primavera vou ficar em casa.

Deitada no sofá, ouço o grito suicida das cigarras. Debruçada na varanda, recolho pingos frescos de chuva, os primeiros e os últimos. À noite, a lua atravessa a persiana do quarto e ilumina meu corpo, enrodilhado no lençol de quinhentos fios egípcios.

Companhia, só quero a do filho, da mãe e do gato, prolongamentos espontâneos de mim. Vozes, somente a dos fantasmas queridos, das crianças bem pequenas ou dos velhinhos solitários. Carícias, apenas as do vento que gentilmente me refresca o rosto.

Os homens não me olhem: estou feia. Os amigos não me procurem: estou ausente. Para quê encontrar pessoas? Já conheci todas que posso suportar.

Não preciso de fatos — o mundo gira sem mim. Só me interessam a folha caída na grama e o poema sussurrado pela árvore antiga.

Desvaneço nesta primavera invertida. Embrenho-me na profundidade escura da terra para implodir meu canto, até que a morte branca do ipê venha me nutrir de seiva bruta para a próxima estação.  
                                               
(Imagem: Detalhe de ilustração de Márcia Bandeira e Lelo)

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