Primo, prima



Luci Afonso


— Está feliz, prima?

A voz carinhosa a despertou do meio-sono em que se encontrava desde que a caipirinha lhe subira de repente à cabeça, no show de forró. Não dançaram nenhuma música, ele com reumatismo, ela com artrose. Em compensação, beberam e trocaram confidências a noite inteira, enquanto os membros mais jovens do grupo arrumavam pares na pista de dança.

A embriaguez inesperada a deixara leve e risonha e lhe servira de pretexto para se apoiar no braço forte, que não largara mesmo depois de passado o efeito da bebida. Do forró saíram para o bar do Gonçalinho, em busca do famoso mexidão, que rebatia qualquer bebedeira, e de lá resolveram esticar até o Cristo, o ponto mais alto da pequena cidade, para assistir ao nascer do dia.

Sentaram-se debaixo da Árvore dos Enforcados, a mais antiga da região, e na qual, segundo a lenda, escravos revoltosos eram punidos com a morte. A madrugada estava fria e úmida, mas não sentiam frio nem se incomodavam com o chuvisco que começara a cair.

— Sempre quis fazer isto – ele disse.
— Acho que você estava esperando por mim – ela brincou, repousando a cabeça no ombro macio.

Tinham a mesma idade, com a diferença de apenas dois meses. Passaram a infância juntos e não se viam há mais de vinte anos, desde quando ela se mudara para a capital. Pareciam-se no nome, na força, nas lutas vencidas.

Ele lhe contou sobre a namorada que conhecera na Internet, depois de terminar o longo casamento.
— É uma mulher encantadora!
Ela lhe falou do relacionamento com um homem mais velho, e que acabara há poucos meses.
— Nenhum outro me deu tanto prazer...

Eram quase seis horas. O dia clareava, apesar de nublado, e as luzes da cidade começavam a se apagar. A da Igreja Matriz, em cujo altar haviam recebido o batismo e a primeira comunhão. As da avenida principal, onde frequentavam o grupo escolar. As da Rua São Vicente, em que moravam quando crianças, e as da pracinha na qual brincavam à noite, em bandos.

— Que paz! – ele exclamou, com um longo suspiro.
— Este momento vale toda a minha vida – ela falou baixinho.
— Está feliz, prima?
— Quase – ela respondeu, aconchegando-se ao corpo quente e generoso do primo, do pai, do tio, do avô, do homem, do homem.

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