Na ponta da língua



Luci Afonso


Ano novo, língua nova: a reforma ortográfica da língua portuguesa fez sua estreia em 1º de janeiro deste ano. Tem gente que apoia a iniciativa porque facilitará a expressão das ideias. Outros creem que só veio complicar.

Muita coisa caiu com a reforma, mas quem está preocupado com as mudanças pode ficar tranquilo: a antiga ortografia vale até 2013, bem ao jeitinho brasileiro. Até lá, está tudo em cima.

O que mudou?

O trema, por exemplo, sucumbiu aos frequentes ataques sofridos ao longo de décadas. Espera-se que a extinção do inofensivo sinal apazigue os ânimos dos seus arqui-inimigos.

Na sequência, algumas palavras perderam o acento. Agora, a gente para o carro no aeroporto, pega o avião para Bocaiuva — se houver —, come uma saborosa pera durante o voo e desembarca sem enjoo. E tudo para ir a uma assembleia!

A única má notícia, que todos já esperavam, é que o famigerado hífen continua mudando de endereço, sem explicação. Tudo bem que ele não seja mais necessário ao mandachuva ou ao paraquedista, mas para que intrometer-se num micro-ondas ou num micro-ônibus, separando letras irmãs? Só para manter a fama de mal-humorado?

Por último, e menos importante, as letras k, w e y, usadas extraoficialmente desde o descobrimento do Brasil, foram reincorporadas ao nosso alfabeto. Para inglês ver.

Não há motivos para temer a reforma ortográfica. Ela é controvertida, mas quem não é? Ela não é supercomplicada nem hiperconfusa, como andam dizendo, e sim complexa e abrangente. Quanto às exceções, toda reforma que se preza tem centenas, e esta apenas segue a regra.

Não trema. A reforma está na ponta da língua. Não há contraindicações, mas existe grande possibilidade de causar erros “co-laterais”.
(Imagens gentilmente cedidas pelos donos das respectivas línguas.)

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