Hífen é castigo de Deus



Dad Squarisi



O hífen é castigo de Deus? É. Se alguém tinha dúvida, a reforma ortográfica se encarregou de acabar com ela. O texto do acordo é tão impreciso que deixou perguntas, perguntas e perguntas no ar. Onde encontrar respostas? No Vocabulário ortográfico da língua portuguesa (VOLP). Mas ele estava desatualizado. Finalmente a Academia Brasileira de Letras divulgou a obra. Nota explicativa ajuda a tirar grilos da cabeça. Nela, explicitam-se os princípios que nortearam o VOLP.

São quatro. Um: respeitar a lição do acordo. Dois: estabelecer uma linha de coerência do texto como um todo. Três: acompanhar o espírito simplificador do acordo. O quarto e mais importante: preservar a tradição ortográfica quando das omissões do acordo. Em bom português: exceções só as explícitas. Como no jogo do bicho, vale o que está escrito.

Eis um exemplo. O acordo manda usar hífen quando o prefixo é seguido de h. É o caso de anti-humano, super-homem, a-histórico. Citou uma exceção — subumano, cujo uso está consagrado. Pintou a confusão. Voltaríamos a escrever in-hábil, des-habitado e re-haver? O quarto princípio diz que não. Eles continuam como dantes no quartel de Abrantes. Vamos às novidades.

Exigem o tracinho

a. Os prefixos seguidos de h: anti-higênico, super-homem, micro-história, extra-humano, co-herdeiro, proto-história, sobre-humano, ultra-heróico, a-histórico. Exceções: subumano, coerdeiro, coabitação, reaver, anistórico, anepático, desumano, inumano, inábil (e derivados).

b. Além, aquém, ex, pós, pré, pró, recém, sem, vice, sota, soto, vizo: além-mar, aquém-muros, ex-presidente, pós-graduação, pré-primário, pró-reitor, recém-chegado, sem-terra, vice -presidente, sota-piloto, soto-mestre, vizo-rei.

c. Os prefixos terminados em vogal ou consoante seguidos por palavra começada pela mesma vogal ou consoante: anti-inflamatório, auto-observação, contra-ataque, micro-ondas, semi-internato, hiper-rico, inter-racial, sub-bloco, super-romântico. Exceção: co-, re-, pre- e pro se juntam ao segundo elemento mesmo quando ele acaba com a mesma letra: coordenar, coobrigação, reeleição, preencher, proótico (e derivados).

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Sub- usa mais um hífen — com palavra iniciada por r: sub-região, sub-raça.
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Nos prefixos terminados em vogal que se juntam a palavras começadas por r ou s duplicam-se o r e o s pra manter a pronúncia: antirrábico, antissocial, biorritmo, contrassenso, infrassom, microssistema, minissaia, multissecular, neossocialismo, semirrobusto, ultrarrigoroso.

d. Circum e pan seguidos por vogal, m, n: circum-escolar, circum-navegação, pan-arábi co, pan-mágico, pan-negritude.

e. Bem e mal seguidos de vogal e h: bem-aventurado, bem-estar, bem-humorado, mal-afortunado, mal-estar, mal-amado. Mas: bem-criado (malcriado), bem-ditoso (malditoso), bem-falante (malfalante), bem-mandado (malmandado), bem-nascido (malnascido), bem-soante (mal-soante), bem-visto (malvisto).

f. Os sufixos de origem tupi-guarani açu, guaçu e mirim: amoré-guaçu, anajá-mirim, capim-açu.

g. Palavras compostas que mantêm a própria acentuação: ano-luz, arco-íris, decreto-lei, médico-cirurgião, tenente-coronel, tio-avô, amor-perfeito, guarda-noturno, mato-grossense, norte-americano, porto-alegrense, sul-africano, afro-asiático, azul-escuro, segunda-feira, conta-gotas, guarda-chuva, couve-flor, blá-blá-blá, reco-reco, trouxe-mouxe, zigue-zaguear.

h. Encadeamento de vocábulos: Brasília-São Paulo, Liberdade-Igualdade-Fraternidade.

i. Expressões latinas aportuguesadas: in octavo, mas in-oitavo; via crucis, mas via-crúcis.

Rejeitam o hífen

a. Os prefixos terminados em vogal ou consoante diferente da vogal ou consoante com que se inicia o segundo elemento: aeroespacial, agroindústria, antieducação, autoescola, coedição, coautor, infraestrutura.

b. Não, quase: não alinhado, não agressão, não governamental, quase fumante.

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