Uma pessoa em busca de palavras



Maria Amélia Costa












Ela gosta de livrarias, principalmente aquelas que têm, anexo, um café. Gosta de ficar ali para folhear, apalpar, procurar, sentir. Sentir cheiro de livro tomando café. Foi em uma livraria que encontrou a professora e escritora da qual ela prefere não dizer o nome, agora.

Conversa vai, conversa vem foi feito o convite para conhecer uma oficina de literatura. Levou o convite nas páginas de um livro de crônicas que acabara de ser autografado. Naquele momento o convite já estava aceito.

Depois da decisão veio a dúvida. Será que deveria ir? Pesquisou pelas páginas da internet - nessa bisbilhotice tão, aparentemente, fácil nos dias atuais. Da pesquisa ficou a impressão de que se tratava de um grupo muito específico de funcionários da Câmara dos Deputados. Deve ser um monte de gente metida a besta, pensou. Mas, sem que falasse nada, o convite foi reforçado e então resolveu ir e ver o que acontece.

No calor de quase meio dia de um dia quente de início de primavera no ano 2007, foi. Deu várias voltas à procura de uma vaga no estacionamento público e quando já pensava em desistir, encontrou um cantinho para deixar o carro. Agora não havia mais desculpas. Subiu para o oitavo andar e pelo caminho ia pedindo informações sobre a sala tal em frente à sala tal onde o grupo estaria reunido.

Abriu a porta devagar, entrou e sentou em uma cadeira posicionada próximo a porta. Cautelosa, não queria incomodar e se manteve ali, observando. Durante os primeiros momentos só queria ficar assim, compondo o sentido de estar ali. Percebeu-se acolhida e se entregou para aquela possibilidade. Atenta e curiosa deixou que cada poro seu se abrisse para entrar aquela sensação boa de alimentar-se com a arte em forma de poesia e de música. De música e de poesia.

Mas havia, também, alimento em forma de comida. Ofereceram-lhe, mas ela, tímida, não aceitou. Não aceitou porque achou que seria abusado chegar assim na hora do almoço e almoçar. Ao mesmo tempo se deu conta da indelicadeza. O cheiro bom que fazia voltas em seu torno lhe dizia que não deveria ter recusado. Por vezes, enquanto cantavam, liam poesia e comiam, ela sentiu um misto de prazer e fisgadas de arrependimento. Nas horas seguintes daquele dia não conseguiu esquecer o cheiro da refeição e meditou: a poesia, a música, o encontro, tudo isso poderia experimentar em outros momentos, mas a comida... E isso lhe enchia a boca de frustração úmida. Ela ainda não sabe direito porque coisas assim causam efeitos assim – duradouros.

Diante do pequeno grupo, no interior das indagações que fazia, ela se perguntou: Por que, nesse lugar, com tantas pessoas em salas fechadas se fecham para encontros assim? Era uma pergunta de criança, ela sabia.

Nesse dia, saiu com a certeza de que voltaria. E voltou.

Chegou mais cedo para o segundo encontro. Percebeu que o grupo havia aumentado com a presença de outras pessoas. A primeira coisa que pensou foi se não estaria sobrando na sua estrangeirice inusitada.

Sentou, cruzou as pernas e ocupou o espaço porque queria que o espaço, também, se sentisse ocupado por ela, num momento de verdadeira comunhão. Depois de um tempo se deu conta do próprio silêncio e que a sua presença, feita de um corpo atento e miúdo, poderia causar estranhamentos. Nesse estado disse para si mesma que precisava falar, dizer alguma coisa, uma bobagem que fosse. E continuou calada. Melhor que dizer besteira. Convenceu-se num monólogo de si para si.

No espaço aéreo da pequena sala as vozes, os risos, os feitos, os escritos, e os silêncios de suspiros profundos se entrelaçavam tecendo uma trama densa, quase visível. Ela apreciava, num tipo de paquera, como se não conseguisse ultrapassar a soleira de entrada. Não sabia, ao certo, se estava dentro ou se estava fora.

Nesse dia ninguém cantou ninguém comeu. Houve no que lhe pareceu, uma saciedade absoluta causada pelo tão presente Manuel Bandeira que veio como presente numa bandeja cheinha de poesia. De história, também. E ninguém, tendo aguçado os seus cinco ou seis sentidos, precisava de mais nada.

Foi embora prometendo que voltaria e se apresentaria dizendo: esta sou eu. E deixaria que o tempo cuidasse do resto. Mas aí aconteceu de alguém querer perguntar: Quem é você? E ela respondeu: Uma pessoa em busca de palavras.











Viver de palavras tem sido o meu ofício.
Sou professora com formação em Pedagogia, especialização em Filosofia e mestrado em Educação. Trabalhei com crianças por alguns anos, mas é atuando em magistério superior com formação de professores/as que experimento estimulantes desafios.
Nasci no Maranhão, mas desde meados da década de sessenta que Brasília é a minha morada. Foi aqui que nasceram os meus dois filhos.
Aprecio muito a cidade, notadamente, quando as tardes de agosto pintam o céu com nuances avermelhadas e quando ela se veste com o colorido da primavera.
Gosto de leitura, de música, de dança; de silêncio e contemplação, ar puro, amigos. Gosto do verde no meu quintal; do cheiro de terra molhada; de ver a chuva caindo.
Identifico-me com a simplicidade e com a complexidade que há em tudo.Gosto, também, de um casal de jandaias barulhentas que faz amor sob o telhado da minha casa.

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