Postagens

Manicada

Imagem
  Luci Afonso Minha paixão por gatos tem apresentado sintomas alarmantes: às vezes me pergunto se estou ficando, como se diz lá em Minas, manicada . Tudo começou, é claro, com a adoção de um gato, depois de outro e mais outro — um macho e duas fêmeas, felizmente, todos castrados. Eles ocupam todos os cantos do apartamento. Sobem e descem da cama a qualquer hora, sem pedir permissão. Deitam-se de lado, de comprido, no meio, no travesseiro, o que for mais confortável. Com pena de acordá-los (quem já observou o sono sagrado dos felinos entenderá por quê), nos encolhemos no espaço restante. Contratamos um fotógrafo profissional para clicar nossos pets o dia inteiro. Escolhidas as melhores poses, cada um ganhou um porta-retrato que faz parte das fotos de família exibidas na estante da sala. O chaveiro da porta principal é uma gatinha prateada com gotas de strass ; o da porta da cozinha, um minigatinho branco de pelúcia; o da caixa de correio, o Garfield; o do carro,...

A lenda do pé de jambo

Imagem
Luci Afonso Dizem que há muito tempo, numa pequena cidade do interior do Brasil, viveu uma menina de pele clara e perfumada como o jambo. Seu nome era Joaninha. Sua família era grande e pobre. O pai vendia queijos na rua, mas o pouco que ganhava era gasto com a pinga. A mãe trabalhava na casa de uma senhora rica e só tinha folga no sábado à tarde. Joaninha era a mais velha de sete irmãos. Chegava da aula, fazia o almoço, servia as crianças e cuidava delas até a noite. Quando o pai chegava bêbado, os irmãos pulavam na cama e fingiam estar dormindo. Ela punha a janta e depois o ajudava a se deitar. Era a hora favorita de Joaninha. Ela pegava o livro que sempre trazia da escola e sentava num toco de árvore no fundo do terreiro, embaixo da luz do poste. Nesse cantinho, lia estórias de pessoas felizes, que tinham tudo o que desejavam. Quando acabava de ler, pensava com força: quero ser feliz, quero ser feliz, quero ser feliz . Uma noite, a menina observou que o toco onde sentava ...

Sposa

Imagem
  Luci Afonso               Io la vidi non appena attraversò il portone di legno. Il lungo vestito la faceva levitare. Era alta ed esigua come un eucalipto, i lunghi ricci castani erano sul punto di esplodere come l’infiorescenza rossa del flamboia [1] .             – La casa sarà lì – disse lei, indicando l’angolo opposto al quale mi trovavo.             Scelse un piccolo ciottolo e lo sotterrò nel futuro locale della costruzione.             – È lanciata la pietra fondamentale – lei proclamò, sorridendo. (È stata un’impressione, o il sole in quel momento ha brillato più forte?)             Tolse i sandali ed attraversò il fiume, bagnandosi i piedi e l’orlo del vestito nell’acqua ...

This spring

Imagem
Luci Afonso This spring I'll stay home. Lying on the couch, I hear the suicidal scream of cicadas. Leaning over the balcony, I gather fresh drops of rain, the first and the last. At night, the moon crosses the blinds of the bedroom and lights up my body, curled on the Egyptian 500-thread sheets. As for company, I only want my son's, my mother's and my cat's, spontaneous extensions of myself. Voices, only those of dear spirits, of small children, or the lonely elderly. Caresses, only those of the wind, which kindly refreshes my face. Men, don't look at me: I'm ugly. Friends, don't look for me: I'm absent. Why meet people? I've met all I can stand. I don't need facts – the world spins without me. I'm only interested in the leaf fallen on the grass and in the poem whispered by the ancient tree. I fade away in this inverted spring. I penetrate the dark depths of the earth to implode my singing, until the white death of the...

Prêmio Melhores Poetas 2014

Imagem
                                       Hotel Golden Tulip Regente, Rio de Janeiro, 08/02/2014

O gato sou eu

Imagem
    Fernando Sabino   — Aí então, eu sonhei que tinha acordado. Mas continuei dormindo. — Continuou dormindo. — Continuei dormindo e sonhando. Sonhei que estava acordado na cama, e ao lado, sentado na cadeira, tinha um gato me olhando. — Que espécie de gato? — Não sei. Um gato. Não entendo de gatos. Acho que era um gato preto. Só sei que me olhava com aqueles olhos parados de gato. — A que você associa essa imagem? — Não era uma imagem: era um gato. — Estou dizendo a imagem do seu sonho: essa criação onírica simboliza uma profunda vivência interior. É uma projeção do seu subconsciente. A que você associa ela? — Associo a um gato. — Eu sei: aparentemente se trata de um gato. Mas na realidade o gato, no caso, é a representação de alguém. Alguém que lhe inspira um temor reverencial. Alguém que a seu ver está buscando desvendar o seu mais íntimo segredo. Quem pode ser essa alguém, me diga? Você deitado aí nesse divã como na cama ...

A arte de não fazer nada

Imagem
Cecília Meireles Dizem-me que mais de metade da humanidade se dedica à prática dessa arte; mas eu, que apenas recente e provisoriamente a estou experimentando, discordo um pouco da afirmativa. Não existe tal quantidade de gente completamente inativa: o que acontece é estar essa gente interessada em atividades exclusivamente pessoais, sem consequências úteis para o resto do mundo.   Aqui me encontro num excelente ponto de observação: o lago, em frente à janela, está sendo percorrido pelos botes vermelhos em que mesmo a pessoa que vai remando parece não estar fazendo nada. Mas o que verdadeiramente está acontecendo, nós, espectadores, não sabemos: cada um pode estar vivendo o seu drama ou o seu romance, o que já é fazer alguma coisa, embora tais vivências em nada nos afetem. E não posso dizer que não estejam fazendo nada aqueles que passam a cavalo, subindo e descendo ladeiras, atentos ao trote ou ao galope do animal. Há homens longamente parados a olhar os patos na ág...