segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Viagem ao Sul de Mim

                                



Luci Afonso

Na sexta-feira à tarde, após longa viagem de ônibus, com diversas paradas, embarques e desembarques, chego a Três Corações, pequena cidade no Sul de Minas. Venho cumprir a promessa de visitar tia Maria Afonsina, que não vejo há quarenta anos. Estou exausta e, ao mesmo tempo, emocionada em rever a irmã do meu falecido pai.
A família me espera no portão.
A voz delicada eu já conhecia. Agora estou frente a frente com a figura miúda de olhos claros e cabelos brancos. O tempo passou para todos nós. Choro muito em nosso reencontro. Ela tem o olho seco, conforme me explica mais tarde: chora por dentro, sofre mais.
— Temos uma surpresa — ela diz, conduzindo-me à suíte que ocuparei nos dias seguintes.
Sobre a antiga cômoda há uma rosa e uma fotografia em preto e branco. O ano é 1959. O cenário é um famoso restaurante da época. Há várias pessoas na mesa, mas me concentro no jovem casal à direita. Ele veste terno escuro e ela, vestido decotado. São meus futuros pais antes de se casar, antes sequer de planejar minha existência. Estão felizes.
Tia Afonsina preparou um lanche à moda mineira: a mesa está repleta de quitandas. Tio Rubens passa o café, enquanto converso com o primo Rubinho. O primo Carlos Alberto está cuidando da companheira doente e virá mais tarde. Também estou enferma de corpo e alma, mas não toco no assunto. O corpo não tem cura; a alma talvez encontre algum alívio entre os parentes que acabei de conhecer. Nosso tom de voz é baixo e tranquilo, como se nos conhecêssemos a vida inteira. Falamos do que foi e do que poderia ter sido. Avaliamos o presente, concluindo, como naquele filme italiano, que estamos todos bem. Indagamos sobre o futuro, que, a partir desta visita, parece cheio de possibilidades — uma segunda infância.  
Minha tia tem a saúde frágil. Perdeu muito peso, sente dores nas juntas. Seus braços são de passarinho. Não está enxergando direito, mas a audição é boa. Eleita a moça mais bonita de Araxá, onde morávamos, ainda conserva traços da antiga beleza nos olhos verdes e na figura esbelta que desliza pela casa. Usa saias e vestidos de cores claras. Não dispensa o ruge nem o batom, mesmo que não vá sair.
Passamos imediatamente a olhar as fotografias de família que ela guarda numa caixa. Seleciono várias para copiar. Elas mostram uma mulher deslumbrante, corpo sinuoso, olhos tentadores, cabelo escuro deslizando pelos ombros. Muitas são do casamento civil e religioso: a noiva se contempla ao espelho; desce do carro à porta da igreja; inspeciona, com o noivo, os presentes espalhados na cama.
Meus pais não têm fotos do casamento. Ninguém sabe por quê. Tia Afonsina não se lembra, nem o marido. Continua a dúvida: os noivos não quiseram ou não puderam registrar o momento? Aonde terei que ir para encontrar essa resposta? O acaso, como diz o poeta, permitirá que eu a encontre?
Mostro a minha tia o vestido branco de renda que comprei num shopping em Uberlândia. Não sei quando vou usá-lo, pois não planejo ir a festas de fim de ano.
— Você está querendo casar — ela comenta.
Faz muito calor. À tardezinha, o vento começa a soprar, enquanto os sinos da igreja anunciam a missa das sete. Tia Afonsina se acomoda no banco de madeira forrado com almofadas e estica as pernas para aliviar o inchaço. Depois, empurra a cortina e aproxima o rosto da janela. Ela se sente sozinha durante a semana, quando o marido e o filho estão fora. Tio Rubens lava a louça antes de ligar a TV. Ele só assiste ao telejornal quando as notícias são boas. Eles me contam que os amigos da sua idade estão morrendo, e isso lhes dá medo.
No sábado, vamos almoçar e passear pela cidade. No domingo, primo Rubinho toca violão, enquanto a mãe canta marchinhas de carnaval. Eu me arrisco a acompanhá-la. O pai não deixa faltar café com pão de queijo. O primo Carlos Alberto serve água fresca da mina e, às vezes, se fecha na varanda para fumar. A companheira tem câncer. Eu te amo, ele repete ao telefone, na esperança de curá-la.
Na última noite, adiamos ao máximo a hora de dormir. São tantas perguntas a fazer, tantos vazios a preencher no passado vivido a distância, mas compartilhado pelo afeto. Já sinto saudades dessa família que também é minha e que só agora encontrei no extremo sul de mim.
De quantos corações se faz uma vida? De quantas lembranças se faz um passado? De quantos perdões se faz uma alegria?
Minha tia e eu nos despedimos com um longo abraço. Na janela do ônibus, aceno ao primo Rubinho. Na bagagem, a fotografia em preto e branco. Na alma, a certeza de que meus pais um dia foram felizes e de que finalmente tenho posse legítima dessa felicidade. 

Comentários no Facebook

Luciana Oliveira Fiquei emocionada
20 de outubro às 11:48

Francisco Miranda Belo texto, Luci. Fico orgulhoso de você!
20 de outubro às 13:59

Tarlei Martins Viajando na leitura, me vi desembarcando numa terceira margem de mim. Texto lindo, como tudo que você assina. Abs, Tarlei
20 de outubro às 14:07

Sandra Daher Oi, Luci Afonso, você me fez chorar com a beleza dessa intimidade cotidiana, comum aos interioranos. E a ilustração está perfeita. Parabéns, obrigada.
20 de outubro às 18:09

Cinthia Kriemler Você me emocionou duplamente, Luci Afonso. Pela crônica linda e pelas lembranças do Sul de Minas, onde passava as férias na minha infância e adolescência, pertinho de Três Corações (ora em Varginha, terra de minhas primas, ora em Caxambu — mamãe era de Baependi e tenho parentes em Caxambu). Você, como se diz no interior, "matou a pau"! Parabéns!
20 de outubro às 18:19

Esther Lima Souza Luci que espetáculo de crônica familiar você sempre brilhante eu vi todas as pessoas e cenas relatadas.
20 de outubro às 23:08

Joyce Cavalccante  Que texto emocionante. Lindo. Deslocou meu coração. Obrigada querida Luci. Agradeço a Rebra tê-la conhecido. Beija da joyce
21 de outubro às 07:28  


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domingo, 27 de setembro de 2015

Primeira Antologia Bilíngue Brasil-Holanda












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sábado, 30 de maio de 2015

Posse na Academia Samambaiense de Letras





                                                    Samambaia, DF - 24 de abril de 2015
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terça-feira, 26 de maio de 2015

Escritora Amiga do Clube Literário de Andrelândia

 
Recebi, com muita alegria, o Certificado de Escritora Amiga do Clube Literário de Andrelândia (CLAN). Pequenos gestos como este fazem toda a diferença.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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segunda-feira, 2 de março de 2015

Profissão Escritora



Luci Afonso

Estou preenchendo o formulário de check-in no Rio Othon Palace.
— Algum problema, senhora? — pergunta o recepcionista, ao notar o meu olhar perdido nas ondas do outro lado da avenida.
— Não, tudo bem — disfarço, o sorriso cansado.
Volto a atenção ao questionário. Falta responder ao item “Profissão”, que tem sido causa de angústia desde que me aposentei.
Funcionária pública? Fui por trinta anos, não sou mais.
Taquígrafa? Ninguém sabe o que é.
Analista Legislativo? Idem.  
Aposentada? Não é profissão, é estado de graça.
Revisora? Cansei-me de consultar gramáticas e dicionários para corrigir erros alheios. Bastam os meus.
Estudante? Soa ridículo na minha idade. Digitadora? Secretária? Tradutora? Professora?
Começo a tremer, minha visão se turva, mas tomo coragem ao responder: escritora. Serei castigada pela minha audácia? Pela minha pretensão? Escritor tem um quê de sagrado, uma aura de mistério, um toque de glamour. É um ser não identificado. Bicho raro.
Assino o formulário e o devolvo ao recepcionista, que confere as informações.
— Ah, a senhora é escritora? — ele comenta em tom levemente irônico.
— Sim — respondo com firmeza.
— Tem carteirinha?
— De quê?
— De escritor.
— Para quê?
— Curiosidade, nunca vi uma.
— Não, não tenho.
— A senhora é famosa?
— Ainda não.
— Hum. Escreve livros?
— Claro.
— De que tipo? — ele insiste.
— Do tipo escrito.
— Ah! — ele desiste e me entrega a chave.
Abro as cortinas da suíte para ver o mar de Copacabana. O sol invade o quarto. A ducha é deliciosa. Fecho as cortinas e me deito para descansar um pouco antes do evento em que receberei um prêmio de excelência literária. Logo adormeço ao som do mar.
 Estou numa sala de aula para fazer o Teste do Escritor, necessário à obtenção da Carteira do Escritor. Preciso responder 50% das questões para ser aprovada. Todas são subjetivas. Não há certo nem errado.

Teste do Escritor
a)    Você nasceu da palavra e vice-versa? Sim.
b)    Comunica-se com o mundo por escrito, na falta da voz? Sim.
c)     A palavra foi seu brinquedo preferido na infância? Sim.
d)    É sua melhor amiga? Sim.
e)     Precisam uma da outra? Sim.
f)       Já brigaram alguma vez? Sim, mas logo fazemos as pazes.
g)    O que você faz quando uma nova palavra bate à porta? Marque mais de uma opção, se necessário.
I.             (X) Aceita sem hesitar o pedido de amizade.
II.          (X) Pede que ela se junte às outras e aguarde sua vez.
III.       (X) Consulta os antecedentes dela no Houaiss.
h)    Como você lida com uma palavra tímida? Marque mais de uma opção, se necessário.
I.      ( ) Você a deixa quieta no canto da memória.
II.   (X) Você a convida para um chá, antes de lhe fazer um convite.
III. ( ) Você a força a entrar no texto.
i)       O que veio primeiro, o ovo ou a palavra?...
Toca o despertador. Carteirinha de escritor é o livro, eu penso enquanto desço no elevador. Ao sair para a homenagem, dou um livro autografado ao recepcionista do hotel, não sem antes fazer um rápido teste de interpretação. Ele passa no teste. Isso me tranquiliza: um escritor não pode desperdiçar palavras.
             O vaivém das ondas me saúda: bo-a noi-te es-cri-to-ra... Entro no táxi e vou receber meu prêmio.
 
 
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 Maria Amélia Elói Que lindo, Luci Afonso! Adorei! Indubitavelmente, sua profissão é essa!
3 de março às 16:35
 Raquel Melo Adorei, Luci Afonso!
4 de março às 13:13
 Tarlei Martins Adorei, Luci!! Parabéns: pelo texto e pelo prêmio!
3 de março às 19:30
 Angela Menezes Delgado Parabéns, Luci!
10 de março às 07:13
 Maria Teresa Valença Adoro seus textos!!!!
27 de maio às 15:49




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terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Feira do Desapego Brasília 2015


 
A Feira faz parte do movimento “Gratificaria”, a Feira da Gratidão, que nasceu na Argentina e que tem acontecido em cada vez mais cidades ao redor do mundo, inclusive BH, Montes Claros, Ubá, Rio, Volta Redonda.

Nessa feira as pessoas levam o que quiserem ou nada, e pegam o que quiserem ou nada. Cada um doa aquilo que tem em abundância para quem vai fazer bom uso.
Não há noção de reciprocidade, cada um dá por dar sem esperar nada em troca, ou apenas recebe, sem “ter” que dar nada. É um espaço para questionar a ideia de escassez, e refletir sobre quanto é o suficiente, liberando-se do que é excesso.

O QUE DAR (OU PEGAR)

COISAS que eu não uso mais e que podem ter melhor destino nas mãos do outro: roupas, sapatos, Cds, brinquedos, livros, acessórios, coisas de casa, mudas de plantas...

TALENTOS, o que eu sei fazer muito bem e quero compartilhar: música, dança, expressões artísticas e culturais, massagens, terapias, abraços, cafunés, quitutes e outras coisas gostosas...

OPORTUNIDADES: de conviver, de se encantar, de repensar a utilidade do que eu tenho, do que e quanto é suficiente e, claro, de receber algo de alguém.
E o que mais couber na sua imaginação e puder trazer benefício para todos.
É gratuito e é para quem precisar.

IMPORTANTE: Você não precisa ficar ‘tomando conta’ das suas coisas, pois já não são suas.

Se você não souber ou não tiver algo para levar, tudo bem, leve a si mesmo e se dê a chance de encontrar algo de que precise!

ONDE: Lago do Parque Da Cidade, pelo estacionamento 10

QUANDO: dia 21/02/15, Sábado, de 10h às 17h.

QUEM PODE IR: quem quiser!

Preparem suas cangas e seus "desapegos", pois dia 21 estaremos em clima de doação e generosidade no parque da cidade. Lembrando que é uma feira de doação, não de troca, que nada será vendido e que cada um será responsável por cuidar do seu lixo. Levem algo para comer e, se puderem, levem a mais para dividir com os outros.
 
 
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sábado, 24 de janeiro de 2015

Quase tudo




Tarlei Martins

 “Um livro aberto tem o exato desenho de duas asas. E quando se abrem as asas de um livro, quem voa somos nós. A bordo de um livro, sinto-me como se estivesse sendo guiado por um tapete mágico bordado de palavras do começo ao fim.”

“Preciso dessa saída diária de mim para voltar com mais força ao meu eixo. Sem esse espraiar-se sedento por várias geografias humanas, eu dificilmente me reconheceria no que tenho de nítido e preciso. Para me encontrar por inteiro, preciso sair de mim. E, para sair de mim, nada melhor que o tapete mágico das palavras.”

“Frase do Eduardo Giannetti que está no livro A ilusão da alma: ‘Fixado o centro, tudo o mais se ordena’. Sinto que tenho um centro. O meu centro é a leitura. É a leitura que alarga enormemente a minha circunferência existencial. A leitura é um passaporte precioso que permite a mais fantástica das viagens – que é a viagem de si a si mesmo.”

“Escrever será sempre um ofício de artesãos pacientes. Não há pressa que faça nascer um texto. (...) Só o que desejo: ser um artesão das palavras. E viver sob a certeza de que quanto mais escrevo, mais escravo.”

“Por que é que eu demorei tanto a descobrir como funciono? É aquela velha pretensão de todo escrevente de fazer textos longos, elaborados, profundos... Agora sei que fui talhado para as miudezas, para o ordinário (...) Sou pássaro de voo curto que não sabe voar para longe de si mesmo. E se não consigo abdicar da ancoragem biográfica em tudo que escrevo, que eu consiga pôr no que escrevo um pouquinho de arte – a arte que sustenta a vida real.”

“Há quem costume ser acometido de delírios de grandeza. Eu sou acometido de delírios de miudeza. (...) O meu olhar amoroso para a vida menor vive me premiando com belezas baldias escondidas nas dobras do quase invisível. E tudo porque, acho, não tenho um olhar domesticado. Não perdi a capacidade de assombro, de espanto diante do belo gratuito e de tudo o mais que é da vida.”
 
*Trechos do livro Quase Nada. Crônicas – ou quase! Tarlei Martins. Brasília: Thesaurus, 2013.
                (Imagem: Pássaro da Liberdade, pintura de Clarice Lispector, 1975)


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Ligia Fregapani Adorei. 24 de janeiro às 20:55 ·

Meire Fernandes Que texto maravilhoso! Querida Luci Afonso. (Tarlei Martins). Amei, simplesmente. Abs para você. 25 de janeiro às 15:03 ·

Eneida Soares Coaracy Adorei! Voei com o autor e me senti pássaro. Quero mais! 25 de janeiro às 21:50

Olivia Maria Maia Maia Muito lindo!!! Adorei tantas coisas mas, particularmente com isso, cheguei a me identificar muito: " Há quem costume ser acometido de delírios de grandeza. Eu sou acometido de delírios de miudeza. (...) O meu olhar amoroso para a vida menor vive me premiando com belezas baldias escondidas nas dobras do quase invisível". 25 de janeiro às 21:56
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domingo, 11 de janeiro de 2015

Basófoba, eu?


Luci Afonso
Ele se senta ao meu lado na cama. A careca reluz em contraste à roupa preta. As olheiras profundas realçam os olhos escuros. A boca é pálida, quase transparente.
— Quem é o senhor? — pergunto.
— Sou o encarregado do seu caso no Departamento de Tombos e Quedas. Vim fazer o relatório diário.
— Mas fiz o pedido há quatro meses...
— O número de funcionários caiu muito — logo percebo sua pretensão a humorista.
Ele pega a prancheta:
— Sempre é tempo, não é mesmo? Vejamos... Hoje é 31 de outubro... Dia das Bruxas. Alguma ocorrência?
— Levei um tombo hoje de manhã.
— Tombo ou queda?
— Qual a diferença?
— Tombo é barulhento, espalhafatoso; queda é silenciosa, quase imperceptível.
— É tombo mesmo.
— Foi grave?
— Não, apenas ralei joelhos e cotovelos.
— Nível 1: escoriações leves localizadas.
— É, mas tem um detalhe.
— Qual?
— Eu caí na faixa privativa dos ônibus e quase fui atropelada.
— Então, nível 5: provável risco de vida. A senhora teve ajuda?
—Não, tive um sermão.
— De quem? — ele pergunta.
— De um brigadista à paisana.
— O que ele disse?
— Ele me recomendou que prestasse mais atenção. 
— O que a senhora respondeu?
— Eu o mandei à merda.
— É preciso tratar bem os brigadistas. Nunca se sabe quando vamos precisar deles. Retomando: foi seu primeiro tombo?
— Não. Da primeira vez, bati o rosto.
— Este foi mais leve, então.
— Exceto pelo detalhe de que poderia ter morrido.
— Felizmente, não morreu.
Fico em silêncio.
— A senhora vai escrever sobre isso?
— Como o senhor sabe que eu escrevo?
— Li toda a sua obra. Devo dizer que me diverti bastante.
— Não achei graça nesse episódio.
— Ainda não... — ele emenda, com familiaridade.
— É, ainda não...
Começo a imaginar que graça haveria em ter caído no asfalto e quase ter sido atropelada por um ônibus. Só se eu mudasse alguns detalhes: uma bicicleta aqui, uma moto ali, personagens...
— Quando foi mesmo o primeiro tombo?
— Há quatro meses.
— A frequência está boa.
Ele preenche algumas questões “sim” ou “não”.
— Qual a última coisa de que a senhora se lembra antes de cair?
— Lembro-me de estar em pé.
— Hum-hum. Alguma outra observação?
— Senti muita angústia.
— É normal. A senhora se considera basófoba?
— ...?
— Tem medo de cair?
— Não.
— Ainda não... — ele anota no formulário.
 Chegamos à última página.
— A senhora já experimentou algum delírio?
— Este é o primeiro.
— Hum-hum. Algo mais a declarar?
— Estou com muito sono.
 Ele me estende a prancheta:
— Por favor, rubrique todas as páginas no canto inferior direito.
Ele espera cortesmente, confere a papelada e some pela janela:
— Durma bem. Volto amanhã, se Deus quiser.
Acordo um pouco confusa da soneca da tarde. Lembro vagamente de ter sonhado com um homem sentado na cama. A fantasia de Halloween está pronta no cabide: uma releitura sexy de bruxa, com short curto, meia-calça preta e saltos altíssimos. Meus joelhos e cotovelos ainda doem. Só espero não levar outro tombo.

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Raquel Melo Adorei!
11 de janeiro às 21:00

Eneida Soares Coaracy Delicioso delírio onírico!
11 de janeiro às 22:05

Sandra Daher Muito bom Luci Afonso, ri muito no seu conto! Parabéns pelo aniversário,  tenha um grande ano!
11 de janeiro às 23:33

Cinthia Kriemler Que delícia! Só você para criar um ambiente desses!
12 de janeiro às 00:53 

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sábado, 3 de janeiro de 2015

Pequena Grande Mãe




Luci Afonso


O nome “Isolda” tem origem incerta. Na versão grega, significa “a que protege”. É também o nome de uma princesa no poema épico “Tristão e Isolda”, inspirado numa lenda celta. Nome forte, antigo, impõe respeito, igualzinho à dona.

Nos meus dois últimos anos na Câmara, trabalhei ao lado de Isolda no Cefor – Centro de Treinamento. Foi preciso coragem. Quando nervosa, ela é um perigo! Dava bronca em mim, no marido, na empregada, no marceneiro, na moça do telemarketing, em quem cruzasse o seu caminho. Mas a braveza passava logo, e o sorriso se abria. Trabalhava sem parar e não gostava de ver ninguém desocupado. Era extremamente objetiva, rigorosa, exigente, eficiente, superprodutiva. Enquanto eu fazia um texto, ela fazia quatro, e começava imediatamente a próxima tarefa.

Quem a conhece sabe que ela faz mil coisas ao mesmo tempo – escreve poesia, declama, canta no coral, faz teatro, coordena grupos de dança circular, dá oficinas aos terceirizados da Câmara, ensina jogos cooperativos, apresenta saraus, entrevista convidados num programa de TV (do qual também é produtora), participa de eventos literários na cidade e no país. Será que esqueci alguma coisa? Luta ferozmente pelo que acredita. Graças a ela, o programa Canto das Letras, da TV Câmara, chegou neste mês à 29ª edição, mostrando o talento de escritores e músicos brasilienses.

Nas horas vagas, Isolda cuida da família, dos amigos, dos vizinhos, de pessoas carentes em geral, da casa, do gato, do planeta. Cuidou de mim quando precisei. Sabem aquela luz que toda noite atravessa o céu de Brasília e que muitos pensam ser um satélite? Não é um satélite: é o amor de Isolda dando voltas e voltas no mundo sem se cansar; é a Pequena Grande Mãe velando nosso sono.

Isolda não tem fronteiras. (Aliás, o Médicos sem Fronteiras foi inspirado nela.) E agora, então, que é imortal? Em 19 de agosto deste ano, Isolda Marinho tomou posse, como escritora imortal, à Cadeira nº 40 da Academia de Letras do Brasil – Seção DF. Seu patrono é Pablo Neruda. Ninguém mais segura a poeta alagoana.

O senso de humor e a presença de espírito são conhecidos de todos os que frequentam os saraus. Sua veia cômica e sua intensidade dramática contagiam qualquer plateia. Onde houver um sarau, lá estará Isolda, declamando sua poesia ou a de outros poetas. Tudo fica mais engraçado ou mais comovente na sua voz.

Isolda tem três grandes amores: a vida, a vida e a vida. Não perde uma chance de ser feliz. Corre atrás da alegria e a enlaça pela cintura. Juntas, elas dançam até a última música da última festa. Se o corpo dói, ela toma um Dorflex. Se é a alma que dói, ela toma um poema, de preferência com gosto de fruta. Mesmo que seja o cítrico doce do Beijo de Tangerina, seu terceiro livro, concebido de sobras de lágrimas, resquícios de placenta e estilhaços de retina.

Tenho certeza de que ao se aposentar vai fazer milhões de coisas, enquanto eu faço uma ou duas. Só me resta a inveja – branca, não, que essa não existe; inveja roxa de amora ou vermelha de morango.

Isolda, só três:

Isolda Poeta.

Isolda Carinho.

Isolda Marinho.

(Texto em homenagem à poeta Isolda Marinho, lido no 62º Sarau da Câmara dos Deputados.)

(Ouçam o texto e a resposta de Isolda Marinho no Portal Cultura Alternativa, de Anand Rao.)

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Isolda Marinho Não canso de ler e reler este belíssimo texto que Luci escreveu em minha homenagem. Muito emocionada e agradecida, não sei bem se sou mesmo tudo isso. Sei que gosto de viver intensamente e, de preferência, fazendo os outros felizes.
2 de dezembro de 2014 às 14:29

Tarlei Martins Se a Luci escreveu, Isolda, merece toda fé...
2 de dezembro de 2014 às 15:12

Maria Amélia Elói Foi lindo, Luci Afonso. Fiquei maravilhada com a homenagem.
2 de dezembro de 2014 às 15:20

Cinthia Kriemler Lindo texto. Como quem o inspirou. E como quem o escreveu. Emoção pura. Merecido de verdade!
2 de dezembro de 2014 às 15:32

Maria Amélia Costa Costa Muito lindo Luci Afonso! Parabéns às duas.
2 de dezembro de 2014 às 15:57

Cristiane Bernardes foi lindo mesmo! adorei! A Isolda merece!
2 de dezembro de 2014 às 18:36

Deliane Leite bela homenagem
2 de dezembro de 2014 às 19:02

Ádyla Maciel Lindo!
2 de dezembro de 2014 às 19:09

Raquel Melo É tudo verdade, Luci Afonso.! Isolda Marinho é essa riqueza de gente! Linda homenagem!
2 de dezembro de 2014 às 19:44

Angela Menezes Delgado Eu que nem conheço a Isolda, fiquei com vontade de. Parabéns, Lucy pelo seu belíssimo texto!
3 de dezembro de 2014 às 09:00

Nádima Nascimento Linda linda queridas, homenagem mais do que procedente feita com a exatidão delicada da amiga escritora!

3 de dezembro de 2014 às 20:16
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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira