Quase tudo




Tarlei Martins

 “Um livro aberto tem o exato desenho de duas asas. E quando se abrem as asas de um livro, quem voa somos nós. A bordo de um livro, sinto-me como se estivesse sendo guiado por um tapete mágico bordado de palavras do começo ao fim.”

“Preciso dessa saída diária de mim para voltar com mais força ao meu eixo. Sem esse espraiar-se sedento por várias geografias humanas, eu dificilmente me reconheceria no que tenho de nítido e preciso. Para me encontrar por inteiro, preciso sair de mim. E, para sair de mim, nada melhor que o tapete mágico das palavras.”

“Frase do Eduardo Giannetti que está no livro A ilusão da alma: ‘Fixado o centro, tudo o mais se ordena’. Sinto que tenho um centro. O meu centro é a leitura. É a leitura que alarga enormemente a minha circunferência existencial. A leitura é um passaporte precioso que permite a mais fantástica das viagens – que é a viagem de si a si mesmo.”

“Escrever será sempre um ofício de artesãos pacientes. Não há pressa que faça nascer um texto. (...) Só o que desejo: ser um artesão das palavras. E viver sob a certeza de que quanto mais escrevo, mais escravo.”

“Por que é que eu demorei tanto a descobrir como funciono? É aquela velha pretensão de todo escrevente de fazer textos longos, elaborados, profundos... Agora sei que fui talhado para as miudezas, para o ordinário (...) Sou pássaro de voo curto que não sabe voar para longe de si mesmo. E se não consigo abdicar da ancoragem biográfica em tudo que escrevo, que eu consiga pôr no que escrevo um pouquinho de arte – a arte que sustenta a vida real.”

“Há quem costume ser acometido de delírios de grandeza. Eu sou acometido de delírios de miudeza. (...) O meu olhar amoroso para a vida menor vive me premiando com belezas baldias escondidas nas dobras do quase invisível. E tudo porque, acho, não tenho um olhar domesticado. Não perdi a capacidade de assombro, de espanto diante do belo gratuito e de tudo o mais que é da vida.”
 
*Trechos do livro Quase Nada. Crônicas – ou quase! Tarlei Martins. Brasília: Thesaurus, 2013.
                (Imagem: Pássaro da Liberdade, pintura de Clarice Lispector, 1975)


Comentários no Facebook:


Ligia Fregapani Adorei. 24 de janeiro às 20:55 ·

Meire Fernandes Que texto maravilhoso! Querida Luci Afonso. (Tarlei Martins). Amei, simplesmente. Abs para você. 25 de janeiro às 15:03 ·

Eneida Soares Coaracy Adorei! Voei com o autor e me senti pássaro. Quero mais! 25 de janeiro às 21:50

Olivia Maria Maia Maia Muito lindo!!! Adorei tantas coisas mas, particularmente com isso, cheguei a me identificar muito: " Há quem costume ser acometido de delírios de grandeza. Eu sou acometido de delírios de miudeza. (...) O meu olhar amoroso para a vida menor vive me premiando com belezas baldias escondidas nas dobras do quase invisível". 25 de janeiro às 21:56

Postagens mais visitadas deste blog

Roupa de época

Os personagens e seus nomes

A escrita de uma crônica*