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O lugar do lugar-comum



Em O Pai dos Burros, o jornalista e escritor Humberto Werneck reúne frases feitas que um dia já foram "novidade"

Edgard Murano


Tão involuntário quanto o uso de uma expressão clichê foi o nascimento de O Pai dos Burros (Arquipélago Editorial), coletânea feita por Humberto Werneck (do excelente O Santo Sujo, Cosac Naify, 2008). A obra surgiu da preocupação do jornalista com expressões que, de tão usadas, perdem a força, como "beleza efêmera", "mistura explosiva" e "sonora vaia".

Cliché é termo de origem francesa para a chapa metálica usada na impressão gráfica. Na literatura, é o estereótipo, o chavão. A ideia de produzir sua própria coletânea do gênero é dos anos 70, quando Werneck partilhava, no Jornal da Tarde, dos preceitos do "jornalismo literário", que evitava a todo custo expressões batidas.

— Por volta de 1972, comecei a anotar lugares-comuns, além de provérbios e expressões idiomáticas muito chapadas. Virou brincadeira, da qual alguns colegas passaram a participar. Virei, sem perceber, uma espécie de gari da semântica. Só mais tarde, nos anos 90, eu me dei conta de que havia ali um embrião de livro - conta.

Todo clichê já foi expressão feliz ou, diz Werneck, um "lugar-incomum". Foi o jornalista Augusto Nunes, diz Werneck, que nos anos 80 teria pela primeira vez usado, na revista Veja, "porões da ditadura" e "anos de chumbo", expressões que acabaram vítimas do próprio sucesso. Para Marcelo Módolo, professor de filologia e língua portuguesa da USP, sem tentativa deliberada de estilizar-se o que se diz, usar clichês é só um vício de linguagem.

— Clichês não são necessariamente negativos. Há uma história da fraseologia por trás deles - afirma Módolo.

Força vital

Módolo ressalta a expressão "o pulo do gato", "aquilo que o mestre não ensina". Viria da história, coligida em Contos Populares Brasileiros (Melhoramentos, 1965) por Lindolfo Gomes, sobre o gato que ensinou artes à onça. Após tudo aprender, ela quis comê-lo. Ele se safou pulando para trás, coisa que não ensinara à onça.

Os clichês são como esse gato. Se os desdenhamos, crendo que não nos ensinam mais nada, corremos o risco de ignorar a força que ainda não lhe foi roubada.

(Revista Língua Portuguesa nº 49, novembro de 2009)