Pular para o conteúdo principal

As marcas do clichê


Frases e expressões sedimentadas podem facilitar a comunicação, mas não contribuem para a renovação do idioma.

Braulio Tavares

Nos cursos de jornalismo, professores mandam a turma redigir um trabalho qualquer e depois vão anotando os clichês que aparecem: "Ferragens retorcidas... os bravos soldados do fogo... tórrido romance... corpo escultural... posição privilegiada...". São clichês, lugares-comuns, junções de substantivos e adjetivos que um dia, quando foram usadas pela primeiríssima vez, provocaram no leitor um agradável susto-de-novidade. Hoje, após milhões de repetições, são indício de preguiça mental.

Os clichês são invisíveis e onipresentes e só damos pela sua existência quando estamos à sua procura. Basta escrevermos pensando apenas no assunto, e não na linguagem, para que eles desabrochem. Não os vemos porque eles fazem parte da paisagem, como os semáforos e os orelhões. São expressões prontas, "prêt-à-porter", que nos dispensam de pensar.

Exemplo

Por exemplo: usei acima o termo composto "susto-de-novidade", que não pode ser encontrado em nenhum dicionário. É uma expressão rara, mas acho que qualquer pessoa entende. (É também uma expressão metalinguística: a reação que produz em nós é seu próprio significado.) Se eu continuar a usá-la, ela se tornará familiar. Se todo mundo começar a usá-la, daqui a alguns anos será um insuportável clichê.

Há uma anedota sobre o sujeito que foi ver o Hamlet pela primeira vez e queixou-se de que a peça estava cheia de clichês: "Ser ou não ser, eis a questão", "Tem algo de podre no reino da Dinamarca", "O resto é silêncio"... As grandes frases, quando se popularizam, viram lugar-comum. É o perigo de autores como Nelson Rodrigues, cujas expressões extremamente criativas acabaram virando chavões: "Óbvio ululante", "Calçar as sandálias da humildade", "Elas gostam de apanhar", "O olho rútilo e o lábio trêmulo"... São ótimas, mas devemos evitá-las. Deixemos que repousem apenas nas páginas imortais (olha o clichê!) do velho Nelson.

Relatividade

O clichê serve de atalho, quando estamos com preguiça de pensar e queremos chegar logo ao ponto principal. Em vez de passarmos cinco minutos à procura de uma maneira nova de dizer algo, dizemos da maneira que todo mundo já se acostumou a ouvir. Mas parar para pensar neles pode ser um bom exercício nas faculdades: fazer uma lista de clichês e inventar uma nova maneira de dizê-los. Quem os criou não os criou do nada e sim a partir de uma situação, um fato concreto, uma associação de ideias. Este processo pode ser refeito para produzir um resultado novo, desde que você seja um redator de mão-cheia. (Olha o clichê!)

Os estudiosos da poesia oral já observaram que grande parte dessa poesia é feita de clichês que se repetem. São expressões que, metrificadas de acordo com o ritmo usado nos poemas, podem ser transpostas de um poema para outro para novas utilizações. Uma descrição vívida e sonora passa de poema em poema, de personagem em personagem, incorporando-se ao estilo.

Estudiosos do nosso romanceiro popular registram muitas dessas expressões. Um personagem diz:
"Sou conde barão
de espora no pé
e espada na mão".

É uma descrição simples, sonora, com uma imagem visual forte... E pode ser encontrada em numerosos romances em versos. É um clichê - ou melhor, foi um clichê, dentro da cultura em que esses romances eram recitados. Você talvez a esteja encontrando pela primeira vez, e isso mostra que conceitos como clichê, originalidade, novidade e tradição são relativos.

Instrumentais

Existem também os clichês instrumentais. São aquelas expressões que não denotam coisas nem seres, apenas servem de conectivos entre as partes do discurso. Estes são ainda mais invisíveis, transparentes, e por isso mesmo mais perigosos.

Se pegarmos qualquer artigo de jornal ou revista vamos encontrar expressões como "é forçoso observar que", "e por que não dizer", "a obra gira em torno de", "faz-se necessário ressaltar", "cumpre registrar que", "não é outra coisa senão", "e como não poderia deixar de ser"...

É crime usá-las? Felizmente não, mas quando precisamos fazer cortes num texto porque ultrapassamos a quantidade de caracteres-com-espaços sugerida pelo editor, são essas expressões as primeiras que cortamos sem dó nem piedade.


Sedimentada

"Sem dó nem piedade", aliás, é um belo dum clichê, concordam? O clichê não é feito propriamente de palavras, porque nunca nos damos o trabalho de ler individualmente cada uma das palavras que o compõem. Lemos o sintagma inteiro e compreendemos com que intenção ele foi posto ali. Dó, piedade, nenhum destes termos será levado ao pé da letra ("ser levado ao pé da letra...?"). Importa apenas a função semântica que o conjunto irá cumprir dentro da frase.

O clichê pode ser um vício de linguagem, mas é um vício inevitável, porque não podemos ser criativos o tempo todo. A comunicação ficaria difícil se cada vez que disséssemos algo tivéssemos de fazê-lo de uma maneira completamente nova. O lugar-comum é linguagem sedimentada, previamente aceita, que já foi decodificada, assimilada e nos serve porque é instantânea como café solúvel, rápida como aquelas saladas já cortadinhas e embrulhadinhas em plástico. Se eu digo que Fulano é um espírito de porco ou que Sicrano meteu os pés pelas mãos, posso confiar que serei compreendido sem dificuldade. O clichê torna a linguagem mais rápida e mais coletiva, mas ao mesmo tempo a torna menos criativa e menos pessoal.

Não se pode evitar totalmente o clichê, mas é possível policiar seu uso. O melhor exercício é ler coisas escritas pelos outros e anotar numa folha todos os clichês encontrados. Depois, fazer o mesmo com os próprios textos e tentar criar formas alternativas de dizer aquilo. Em vez de "Fulano e Sicrana tiveram um tórrido romance", podemos dizer: "Tiveram um caso daqueles de incendiar os lençóis".

Braulio Tavares é compositor, autor de Contando Histórias em Versos (Editora 34, 2005). btavares13@terra.com.br
(Revista Língua Portuguesa nº 49, novembro de 2009)