domingo, 15 de dezembro de 2013

Ser escritor


 

Cristovão Tezza

 Um amigo me disse que acha o maior barato como sou definido na coluna: “Fulano é escritor”. Por incrível que pareça, essa profissão exerce uma misteriosa atração nas pessoas. Há algo de sobrenatural na condição de escritor, um “atestado de diferença” que põe o leitor imediatamente em guarda, ou com uma admiração inexplicável, ou com uma justificada desconfiança. O escritor, como o espião, exerce uma atividade secreta. Reconhecemos de imediato os advogados, os engenheiros, os enfermeiros, os garis, os médicos (e até mesmo os deputados e vereadores, por um deslocamento de sentido, já que eles apenas cumprem funções por um período de tempo) como profissionais regulamentados, definidos claramente por um conjunto de regras que vão desde o aprendizado formal, chancelado pelo Estado, até a entrega de um diploma que nos autoriza a ser o que somos 
Mas quem nos “autoriza” a ser escritores? Começa por aí. Minha profissão é uma fraude, ou, dizendo de outro modo, somos livres-atiradores, mais ou menos como os bicheiros, mas felizmente sem sofrer nenhuma perseguição legal – pelo menos em tempos democráticos. No máximo uma carta furiosa para a redação ou um livro encalhado. Somos mais ou menos tolerados. Temos de assumir uma certa cara-de-pau, e declarar, sem vergonha: “Sou escritor”. Somos mais definidos pelo fim do que pelo início – um engenheiro é um engenheiro mesmo que jamais tenha erguido uma casa, mas um escritor sem obra pontificará no máximo na mesa de bar, que, aliás, é uma espécie incontornável de escola na formação de qualquer escritor que se preze. Escritores também são seres naturalmente clandestinos – em geral não gostam de pertencer a clubes e, como os ornitorrincos, resistem às classificações científicas. Claro que há as academias, as uniões de escritores, os grupos aqui e ali revolucionários, mas nada disso tem, nem de longe, a milésima parte do poder de um Crea, por exemplo, ou de uma OAB. Aliás, frequentemente esses agrupamentos oficiais de escritores acabam na mesa do bar sendo objeto de escárnio implacável de escritores avulsos e desparceirados.
Do ponto de vista prático, ser escritor é um mau negócio. Se fosse bom, bastaria abrir os classificados desta Gazeta para encontrar dezenas de chamadas do tipo “Contratam-se romancistas; pedem-se referências”, “Precisa-se de um poeta concretista”, “Estamos aceitando contistas com carteira assinada; salário inicial R$ 3.500 + produtividade”, “Urgente: sonetistas para trabalhar nas férias, especialização em alexandrinos, contrato de 60 dias, assistência médico-odontológica incluída”. Claro que isso é um sonho. Ninguém quer um escritor para nada. E no entanto trabalhamos sem parar. Estou sempre na luta, para garantir meu espaço – antes que o jornal anuncie nos classificados: “Precisa-se de um cronista com assunto para as terças-feiras”.

 Um operário em férias, Cristovão Tezza. Crônicas. Editora Record, 2013.
 
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segunda-feira, 18 de novembro de 2013

O nascimento da crônica





Machado de Assis

Há um meio certo de começar a crônica por uma trivialidade. É dizer: Que calor! Que desenfreado calor! Diz-se isto, agitando as pontas do lenço, bufando como um touro, ou simplesmente sacudindo a sobrecasaca. Resvala-se do calor aos fenômenos atmosféricos, fazem-se algumas conjeturas acerca do sol e da lua, outras sobre a febre amarela, manda-se um suspiro a Petrópolis, e La glace est rompue; está começada a crônica.

 Mas, leitor amigo, esse meio é mais velho ainda do que as crônicas, que apenas datam de Esdras. Antes de Esdras, antes de Moisés, antes de Abraão, Isaque e Jacó, antes mesmo de Noé, houve calor e crônicas. No paraíso é provável, é certo que o calor era mediano, e não é prova do contrário o fato de Adão andar nu. Adão andava nu por duas razões, uma capital e outra provincial. A primeira é que não havia alfaiates, não havia sequer casimiras; a segunda é que, ainda havendo-os, Adão andava baldo ao naipe. Digo que esta razão é provincial, porque as nossas províncias estão nas circunstâncias do primeiro homem.

Quando a fatal curiosidade de Eva fez-lhes perder o paraíso, cessou, com essa degradação, a vantagem de uma temperatura igual e agradável. Nasceu o calor e o inverno; vieram as neves, os tufões, as secas, todo o cortejo de males, distribuídos pelos doze meses do ano.

 Não posso dizer positivamente em que ano nasceu a crônica; mas há toda a probabilidade de crer que foi coetânea das primeiras duas vizinhas. Essas vizinhas, entre o jantar e a merenda, sentaram-se à porta, para debicar os sucessos do dia. Provavelmente começaram a lastimar-se do calor. Uma dizia que não pudera comer ao jantar, outra que tinha a camisa mais ensopada que as ervas que comera. Passar das ervas às plantações do morador fronteiro, e logo às tropelias amatórias do dito morador, e ao resto, era a coisa mais fácil, natural e possível do mundo. Eis a origem da crônica.

 Que eu, sabedor ou conjeturador de tão alta prosápia, queira repetir o meio de que lançaram mãos as duas avós do cronista, é realmente cometer uma trivialidade; e contudo, leitor, seria difícil falar desta quinzena sem dar à canícula o lugar de honra que lhe compete. Seria; mas eu dispensarei esse meio quase tão velho como o mundo, para somente dizer que a verdade mais incontestável que achei debaixo do sol é que ninguém se deve queixar, porque cada pessoa é sempre mais feliz do que outra.

Não afirmo sem prova.

 Fui há dias a um cemitério, a um enterro, logo de manhã, num dia ardente como todos os diabos e suas respectivas habitações. Em volta de mim ouvia o estribilho geral: que calor! Que sol! É de rachar passarinho! É de fazer um homem doido!

Íamos em carros! Apeamo-nos à porta do cemitério e caminhamos um longo pedaço. O sol das onze horas batia de chapa em todos nós; mas sem tirarmos os chapéus, abríamos os de sol e seguíamos a suar até o lugar onde devia verificar-se o enterramento. Naquele lugar esbarramos com seis ou oito homens ocupados em abrir covas: estavam de cabeça descoberta, a erguer e fazer cair a enxada. Nós enterramos o morto, voltamos nos carros, c dar às nossas casas ou repartições. E eles? Lá os achamos, lá os deixamos, ao sol, de cabeça descoberta, a trabalhar com a enxada. Se o sol nos fazia mal, que não faria àqueles pobres-diabos, durante todas as horas quentes do dia?

As Cem Melhores Crônicas Brasileiras. Editora Objetiva:  Rio de Janeiro, 2007.

Glossário

Baldo ao naipe = completamente nu
Canícula = grande calor atmosférico
Casimira = tecido encorpado de lã, usado em geral para vestuário
masculino
Coetânea = contemporâneo
Debicar = zombar de, escarnecer
La glace est rompue = o gelo está rompido
Prosápia = linhagem
Tropelias amatórias = brincadeiras de amor






  
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segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Oração do Novo Leitor



Arte: Eudaldo Sobrinho e Felipe Cavalcante

Luci Afonso

Às professoras e alunos do EJA


Palavra Nossa

Palavra Nossa, que derramais o Mel,
Significado seja o Vosso Nome.
Venha a nós a Vossa Linguagem
Seja feita a Vossa Verdade,
Assim na voz como no papel.
O Sentido nosso de cada dia dai-nos hoje.
Abençoai as sentenças
Que temos aprendido
Salvai nossa imaginação
Fortalecei o que graças a Ti
Compreendemos. 
Amém.

Eu sou digno
Senhor, eu sou digno
de que o livro entre em minha alma;
lerei uma só palavra e serei salvo.

Herdeiro de Deus
Herdeiro de Deus,
Que lançais o poema no mundo,
Semeia a Palavra em nós.
Herdeiro de Deus,
Que lançais o poema no mundo,
Dai-nos a Voz.

Novembro de 2013



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Pequeno improviso para Miliane



Luci Afonso

Escuta escuta escuta. Poesia poesia poesia.
Roda roda roda. Feliz feliz feliz.
Anda anda anda. Agora agora agora.
Ensino ensino ensino. Aprendo aprendo aprendo.
Palavra fome palavra fome palavra fome.
Atenção atenção atenção atenção atenção atenção.
Fala fala fala. Nasce nasce nasce.
Vive.
Vive.
Vive.

Ora.
Outubro de 2013
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A segunda cigarra


Luci Afonso

Levanta, filho! A manhã está fresca com a chuva da noite. O céu de tão azul parece pintura. A grama ainda está úmida, há poças dágua no parquinho. As crianças estão começando a descer. Lembra o Tavinho? Já está andando: dá uma corridinha, para, corre de novo, às vezes cai. A avó, preocupada, fica atrás dele. Os dois dão uma corridinha, param, correm mais um pouco. Tem babá nova no prédio, daquele menino chorão que eu não sei o nome. Acho que é Pedro. Dona Rita viajou de novo para ver a irmã doente. Vou fazer uma visitinha ao Seu Inácio, coitado, ficou sozinho.

Escutou a primeira cigarra, filho? Foi ontem antes da chuva. Todo ano dizem que elas vão ser extintas, todo ano elas voltam! Já pensou, acabar essa cantoria que a gente adora? A Dévon ficou doida na janela, querendo pegar o bichinho. Vamos achar uma pra ela brincar? Preciso lembrar de pedir ração. Também é hora da vacina. Abriu uma clínica ali na quadra. Peguei o cartão, tem um nome engraçado.

Conseguiu dormir, filho? Sonhei a noite inteira com a vovó. A Dévon ficou arranhando a porta do quarto. Seu irmão ligou, já era tarde. Eu disse que você estava melhor. Que saudade! Será que está tomando os remédios? Por falar nisso, é hora do seu. Ele vem em dezembro, se o curso não estiver muito puxado. Já fez dois roteiros!

E o violão, filho? A casa ficava tão alegre quando você tocava! O professor ligou te procurando. Eu disse que você ia voltar logo. Ele mandou as últimas aulas pro seu e-mail. Aquela menina da sua turma também ligou. Aquela gordinha, de aparelho, eu sempre esqueço o nome. Ela quer te visitar.

Está com fome, filho? Seu pai foi na padaria, vai trazer a broinha que você gosta. Pedi pra ele também trazer pão de queijo, me deu vontade. O almoço hoje é comida chinesa, vamos pedir ao meio-dia. Quando a vista estiver boa, eu volto a cozinhar.

Escutou, filho? A segunda cigarra!

Luta, filho!

Outubro de 2013
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sábado, 2 de novembro de 2013

Meu ideal seria escrever...



Rubem Braga

 Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está doente naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse -- "ai meu Deus, que história mais engraçada!". E então a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para contar a história; e todos a quem ela contasse rissem muito e ficassem alegremente espantados de vê-la tão alegre. Ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa, enlutada, doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e depois repetisse para si própria -- "mas essa história é mesmo muito engraçada!".
 Que um casal que estivesse em casa mal-humorado, o marido bastante aborrecido com a mulher, a mulher bastante irritada com o marido, que esse casal também fosse atingido pela minha história. O marido a leria e começaria a rir, o que aumentaria a irritação da mulher. Mas depois que esta, apesar de sua má vontade, tomasse conhecimento da história, ela também risse muito, e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para o outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem juntos.
 Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera a minha história chegasse -- e tão fascinante de graça, tão irresistível, tão colorida e tão pura que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria; que o comissário do distrito, depois de ler minha história, mandasse soltar aqueles bêbados e também aqueles pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse -- "por favor, se comportem, que diabo! Eu não gosto de prender ninguém!". E que assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à minha história.
 E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e fosse contada de mil maneiras, e fosse atribuída a um persa, na Nigéria, a um australiano, em Dublin, a um japonês, em Chicago -- mas que em todas as línguas ela guardasse a sua frescura, a sua pureza, o seu encanto surpreendente; e que no fundo de uma aldeia da China, um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho dissesse: "Nunca ouvi uma história assim tão engraçada e tão boa em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até hoje para ouvi-la; essa história não pode ter sido inventada por nenhum homem, foi com certeza algum anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou que já estivesse morto; sim, deve ser uma história do céu que se filtrou por acaso até nosso conhecimento; é divina".
 E quando todos me perguntassem -- "mas de onde é que você tirou essa história?" -- eu responderia que ela não é minha, que eu a ouvi por acaso na rua, de um desconhecido que a contava a outro desconhecido, e que por sinal começara a contar assim: "Ontem ouvi um sujeito contar uma história...".
 E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a minha história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que está doente, que sempre está doente e sempre está de luto e sozinha naquela pequena casa cinzenta de meu bairro.

A crônica acima foi extraída do livro "A traição das elegantes", Editora Sabiá - Rio de Janeiro, 1967, pág. 91.

Imagem: http://universonatural.wordpress.com/2010/08/




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segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Elas disseram...

Foto: Márcia Oliveira


Amei seu livro "Velhota, eu?". Torcia para que não acabasse nunca! Maravilhoso!
Beijos
Vânia Moreira Diniz

Querida Luci, só hoje li o novo Velhota. Adorei, adorei. Ri sozinha e chorei escondida enquanto pintava meu cabelo no salão...
Beijos e muito obrigada.

Maria Célia Corrêa

Muito sucesso, moça. O livro é maravilhoso.
Olivia Maria Maia

Querida Luci Afonso, estou amando o presente que você me ofereceu: a sua obra Senhora dos Gatos – literatura de excelência.

Onã Silva


Olá, Luci, recebi o novo Velhota e fiquei louca de alegria, ainda mais vendo o meu texto na orelha. Já o indiquei para uma aluna minha para que trabalhe com os educand@s jovens e adultos na escola onde ela está estagiando. Li para ela uma das minha crônicas preferidas: Barriguda. Ela adorou. Beijo grande e parabéns por tamanha belezura com que nos presenteia. 

Miliane Benício 


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quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Canto das Letras

É hoje! Participe deste agradável encontro com a literatura e a música brasiliense. Apresentação: Marco Antunes.


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domingo, 15 de setembro de 2013

Novo Velhota, eu?

                                           Arte: Eudaldo Sobrinho e Patrícia Meschick


O lançamento foi um sucesso e uma delícia!

Comentário da escritora Fátima Bueno:

Bom dia, Luci,
 Ontem, quando cheguei do lançamento, li de uma vez o Senhora dos gatos e fui adiante no Velhota, eu?
Gostei muito!  Ri, fiquei emocionada, surpresa, intrigada, entre outras reações. É isso que a boa escrita revela, o dom de mexer com nossa emoção.
 Além do mais, sou também uma senhora dos gatos, sempre os tenho por perto, na verdade gatas, uma de cada vez, e as considero companhias indispensáveis…
 beijos
 Fatima



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quinta-feira, 29 de agosto de 2013

56º Sarau da Câmara dos Deputados


CASA GRANDE & SENZALA e as três raças tristes


Homenagem aos 80 anos de publicação da obra de Gilberto Freyre
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quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Delicioso cupcake



Depois de vários meses no forno, saiu quentinha a segunda edição do Velhota, eu?, com belo projeto gráfico dos jovens designers Eudaldo Sobrinho e Patricia Meschick (vencedora do Prêmio Jorge Salim de Excelência Gráfica 2013, categoria Design Gráfico, pelo livro Senhora dos Gatos). 

São quinze novas crônicas, além daquelas que os leitores já amam, como "Barriguda", "Antiginástica", "Sexo, mentiras e pão de queijo". Lançamento em breve deste delicioso cupcake.
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segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Antologia bilíngue Pensieri in Parole


Pela primeira vez vou participar de uma antologia internacional, com meu texto "Noiva" traduzido para o italiano. Iniciativa da A.C.I.M.A. - Associação Cultural Internacional Mandala, com sede na Itália.
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3º Encontro Literário do Lago Norte

Com a escritora Kelly Vyanna




Foi um prazer participar do evento promovido pelo Sindicato dos Escritores do Distrito Federal e conhecer escritores que são verdadeiros militantes poéticos.
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domingo, 18 de agosto de 2013

Senhora dos Gatos ganha prêmio


Senhora dos Gatos acaba de ganhar o Prêmio de Excelência Gráfica Jorge Salim edição 2013 na categoria Designer Gráfico, além de ter sido finalista na categoria Livros de Textos. O livro foi impresso pela Athalaia Gráfica e Editora.
Considerado um dos mais importantes eventos gráficos do país, o prêmio é outorgado pelo Sindicato das Indústrias Gráficas (Sindigraf-DF) e pela Associação Brasileira de Indústrias Gráficas (Abigraf-DF). 
A equipe de criação contou com Patrícia Meshick, ganhadora do prêmio Designer Gráfico; com Lelo, ilustrador; e com Márcia Bandeira, ilustradora e diretora de arte.


Patrícia Meschick, vencedora do prêmio

Lelo e Márcia Bandeira
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sábado, 17 de agosto de 2013

Se a catraia não virar

É hoje! 
Do fundo do rio vem a voz acreana de Olivia Maria Maia, nos convidando a embarcar nessa catraia cheia de emoção.




Conheça textos de Olivia Maria Maia neste blog, no respectivo marcador à direita. E, se tiver coragem,  venha fazer a travessia que nos propõe a autora!
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quarta-feira, 14 de agosto de 2013

AMANHÃ - CANTO DAS LETRAS


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domingo, 11 de agosto de 2013

Se a catraia não virar


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domingo, 4 de agosto de 2013

Exitus letalis



Rubem Fonseca

Em matéria de leitura eu sou onívoro, ou polífago, se preferem. Leio tudo o que aparece na minha frente. Mas as duas leituras preferidas por mim são, respectivamente, poesia e bula de remédio. Guardo, ou guardava todas as bulas dos remédios que eu consumia (mas não sou hipocondríaco), e fiquei muito desgostoso quando a caixa cheia delas sumiu. Até hoje não sei se alguém a furtou (havia bulas não apenas em português, mas em inglês, francês, espanhol e alemão; muitas vezes eu comprava um remédio só para ter uma bula, mesmo se fosse em uma língua com a qual eu estivesse pouco familiarizado) ou se foi uma vingança soez de algum inimigo, ou excesso de zelo de alguma faxineira ao limpar o chamado Quarto dos Macacos, um cômodo que tenho na minha casa. O que aconteceu, o sumiço da caixa de bulas, é um mistério. Ela não possuía qualquer valor de mercado, e eu não tenho inimigos, ainda mais tão terríveis a ponto de fazer um agravo dessa natureza, roubar um bem que me era tão precioso. E as faxineiras estão proibidas de entrar no Quarto dos Macacos, a não ser acompanhadas por mim. A minha empregada fixa é maníaca por limpeza e sempre diz palavras desanimadoras sobre a bagunça do Quarto dos Macacos. Mas não obstante ela seja obrigada a ler uma hora por dia — em qualquer um das centenas de livros que tenho na minha estante — sob pena de eu torcer o braço dela, eu nunca a obriguei a ler bula de remédio. Ela não pode ser a responsável. Mas o certo é que aquele acervo fantástico de mais de mil bulas desapareceu, para meu profundo desgosto.
A bula, da mesma forma que a poesia, tem as suas metáforas, os seus eufemismos, os seus mistérios, e as partes melhores são sempre as que vêm sob os títulos “precauções” e/ou “advertências” e “reações adversas”. Essa parte da bula certamente é produzida por uma equipe da qual fazem parte cientistas, gramáticos, advogados especializados em ações indenizatórias, poetas, criptógrafos, advogados criminalistas, marqueteiros, financistas e planejadores gráficos. Você tem que alertar o usuário dos riscos que ele corre (e não se iludam, todo remédio tem um potencial de risco), ainda que eufemicamente, pois se o doente sofrer uma reação grave ao ingerir o remédio, o laboratório, através dos seus advogados, se defenderá dizendo que o doente e o seu médico conheciam esses riscos, devidamente explicitados na bula.
Vejam esta maravilha de eufemismo, de figura de retórica usada para amenizar, maquiar ou camuflar expressões desagradáveis empregando outras mais amenas, ou incompreensíveis. Trecho da bula de um determinado remédio: “Uma proporção maior ou mesmo menor do que 10% de…” (não cito o nome do remédio, aconselhado pelo meu advogado) “pode causar uma toxidade que pode evoluir para exitus letalis” (o itálico é da bula).
Qual o poeta, mesmo entre os modernos, os herméticos ou os concretistas, capaz de eufemizar, camuflando, de maneira tão rica, o risco de morte — “evoluir para exitus letalis”?
Ao criar essa bula, seus autores precisavam evitar qualquer dos vocábulos que poderiam dizer diretamente, em bom vernáculo, o que significa esse risco — exitus letalis — que o usuário do remédio enfrenta: falecer, morrer, expirar, perecer. Mas isso tem que ser evitado, é assustador, muito mais do que as gírias bem-humoradas do cotidiano, como abotoar o paletó, apagar, bater as botas, comer capim pela raiz, embarcar deste mundo para um melhor, empacotar, entregar a rapadura, esticar a canela, ir para a cidade dos pés juntos, ir para a cucuia, vestir o pijama de madeira, virar presunto. (Eles, os autores da bula, evidentemente não poderiam dizer, como deviam, para que a choldra os entendesse: “Se você tomar este remédio pode bater as botas” ou “ir para a cucuia”. O departamento jurídico não deixaria.)
Para dar apenas dois exemplos de como essas duas palavras latinas juntas são sedutoras: existe uma banda de rock com esse nome na Alemanha, ou pelo menos existia da última vez em que estive nesse país comprando bulas de remédio; a editora Geração Editorial publicou um livro intitulado Exitus letalis O direito a uma morte digna, do dr. Reginaldo Ustariz Arze. O dr. Kevorkian devia ter usado essa terminologia quando ajudava os seus pacientes a morrerem. Talvez não se desse tão mal.
Cenário de filme dramático. Dois velhos hospitalizados, doentes, em cadeiras de rodas, conversam.
Primeiro doente: “O meu médico resolveu marcar o meu exitus letalis para a semana que vem”.
Segundo doente: “O que é isso?”
Primeiro doente: “Não sei. Acho que tem a ver com essas pintas escuras da minha cabeça. Deve ser uma daquelas intervenções a laser. Mas não estou preocupado, o meu médico e a minha família cuidam bem de mim”.
Segundo doente: “A medicina está muito adiantada”.
Infelizmente eu não tenho mais a minha coleção universal de bulas de remédio. Mas hoje comprei, ao acaso, um remédio na farmácia e fui logo atraído por este trecho da bula, esta maravilha escrita em letras miudinhas, a famosa small print usada pelos advogados vigaristas americanos nos contratos que realizam com os otários: “O produto é bem tolerado, podendo causar dor de cabeça, edema, fadiga, sonolência, náusea, dor abdominal, rubor, palpitações, tonturas” (juro que não estou inventando coisa alguma, agora é que vem a parte melhor), “alopecia, função intestinal alterada” (um bom eufemismo para caganeira, com perdão da palavra), “artralgia, astenia, dispepsia, dispnéia, hiperglicemia, hiperplasia gengival, ginecomastia, impotência” (caramba!, o cara pode ficar broxa!), “aumento da freqüência urinária, leucopenia, mal-estar, mudança nos humores” (Cenário: Paciente: Doutor, não fui alertado que podia sentir vontade de me matar. Médico: Como não? Veja aqui, mudança de humores, mal-estar. Vontade de se matar é, conforme a literatura médica, o pior de todos os mal-estares), “neuropatia periférica, pancreatite, sudorese, síncope, trombocitopenia, vasculite e distúrbios visuais, hipotireoidismo, hepatite, icterícia”.
Tenho esta obra-prima aqui na minha frente. Estou pensando em mandar enquadrá-la. Encerro por aqui. Quem estiver interessado em saber o que é alopecia, ginecomastia, artralgia, leucopenia e outros termos que não conhece, que vá ao dicionário. Que passem bem, todos.

Rubem Fonseca. O romance morreu. Crônicas. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 

Imagem: http://mdemulher.abril.com.br/saude/



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domingo, 14 de julho de 2013

O romance morreu?





Rubem Fonseca

Muito antes de publicar o meu primeiro livro eu já ouvia dizer que o romance e o conto estavam mortos. Parece que a primeira morte teria sido anunciada ainda em 1880, não obstante, como todos sabem, Emily Dickinson, Tchekov, Proust, Joyce, Kafka, Maupassant, Henry James, o nosso Machado, Eça, Mallarmé, as Bronte, Fernando Pessoa (um pouco mais tarde) estivessem ativos naquela época.
No início do séc. XX, com o lançamento, por Henry Ford, do Ford Model T, um automóvel popular, construído numa linha de montagem, um carro barato que em poucos anos vendeu mais de quinze milhões de unidades, as Cassandras afirmaram que agora a literatura de ficção, na qual se incluía a poesia, estava mesmo com os dias contados. Dentro de pouco tempo todas as pessoas teriam automóvel e usariam o carro para passear, fazer compras, namorar em vez de ficarem em casa lendo. Ou porque não soubessem o que lhes reservava o futuro, ou lá porque fosse, o certo é que muitos escritores, como Yeats, Benavente, Galsworthy, Selma Lagerlof, Rilke, Kavafis, Edna St. Vincent Millay continuaram escrevendo, e talvez até mesmo tivessem um Model T na garagem deles.
Nova anunciação mortal veio logo em seguida, causada pelo cinema, denominado de Sétima Arte. Uma pesquisa da época mostrou que em cada 100 pessoas 80 freqüentavam o cinema e 2 (duas!) liam livros de ficção. Agora mesmo é que a literatura, enfim, havia morrido. Desta vez não tinha salvação. Mas Sinclair Lewis, Thomas Mann, Bunin, Céline, Ana Akhmatova, O’Neill, Pirandello, e muitos outros não sabiam disso. (Os dois últimos são autores de teatro, mas o teatro começou a morrer antes).
Depois nova morte foi profetizada, quando do advento da televisão. Mas William Faulkner, Eliot, Gide, Hesse, Quasimodo, Pasternak, Camus, Hemingway, Beckett, Seferis, Kawabata, Mauriac, Steinbeck e muitos mais não pararam de escrever. Que diabo, esses caras não liam os jornais? Não sabiam que a literatura de ficção havia morrido?
Afinal veio o golpe de misericórdia: o computador e a Internet. Era a pá de cal. Mas o que estava acontecendo? Quem são (ou eram) esses loucos escrevendo poesia e romance – Carlos Drummond de Andrade, Czeslaw Milosz, João Cabral, Pablo Neruda, Montale, Heinrich Böll, Saul Bellow, Isaac Bashevis Singer, Octavio Paz, Brodsky, García Márquez (“se você diz que o romance está morto, não é o romance, é você que está morto”), Canetti, Günter Grass, Kenzaburo Oe, Saramago, João Ubaldo, Ferreira Gullar e um montão de outros? O que na realidade está acontecendo?
Existem muitos estudos interessantes e extensos sobre o assunto, como o da ensaísta Leila Perrone-Moisés, em seu livro Altas literaturas (Companhia das Letras, 1998). Uma coisa talvez esteja acontecendo: a literatura de ficção não acabou, o que está acabando é o leitor. Poderá vir a ocorrer este paradoxo, o leitor acaba mas não o escritor? Ou seja, a literatura de ficção e a poesia continuam existindo, mesmo que os escritores escrevam apenas para meia dúzia de gatos pingados?
Kafka escrevia para um único leitor: ele mesmo. Recordo Camões. Ele era um arruaceiro, e acabou na prisão, ou por motivos de suas rixas ou por ter se envolvido com a infanta Dona Maria, irmã do rei João III. Para obter o perdão do rei ele propôs-se a servi-lo na Índia, como soldado. Lá ficou 16 anos e, afinal, a bordo de um navio voltou para Portugal, acompanhado de uma jovem indiana, que ele amava, e a quem dedicou o lindo soneto “Alma minha gentil, que te partiste”. O navio naufragou e Camões só pensou, durante o naufrágio, em uma coisa: salvar o manuscrito dos Lusíadas e dos seus poemas. Deixou a mulher amada morrer afogada (confesso que especulo), e perdeu todos os seus bens, mas salvou os seus manuscritos. Para quem ler? Estávamos no século 16 e muita pouca gente em Portugal sabia ler. Mas Camões pensou nesse punhado de leitores, era para eles que Camões escrevia, não importava quantos fossem eles.
Os leitores vão acabar? Talvez. Mas os escritores não. A síndrome de Camões vai continuar. O escritor vai resistir.

Rubem Fonseca. O romance morreu. Crônicas. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.  



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segunda-feira, 8 de julho de 2013

Não existem trezentos poetas



Rainer Maria Rilke


(...) Estou sentado e leio um poeta. Há muitas pessoas no salão, mas não as notamos. Elas estão nos livros.  Às vezes se movem nas páginas como se estivessem dormindo e se virassem entre dois sonhos. Ah, como é bom estar entre pessoas que leem. Por que não são sempre assim? Você pode se aproximar de uma delas e tocá-la de leve: ela não sente nada. E se, ao levantar, você encosta um pouco em seu vizinho e se desculpa, ele inclina a cabeça para o lado em que ouviu a sua voz, seu rosto se volta na sua direção e não o vê, e seu cabelo é como o cabelo de alguém que dorme. Como isso faz bem. E estou sentado e tenho um poeta. Que sorte. Agora talvez haja trezentas pessoas lendo no salão; mas é impossível que cada uma tenha um poeta. (Sabe Deus o que elas têm.) Não existem trezentos poetas. (...)


Rainer Maria Rilke. Os cadernos de Malte Laurids Brigge. L&PM, Porto Alegre, RS, 2010, p. 32.
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O que é conto e o que é crônica?



Marco Antunes

Quero dirimir um pouco das dúvidas sobre o que é conto e o que é crônica. O assunto é difícil mesmo. A coisa se dá em terreno ambíguo muitas vezes, mas, como sempre digo para meus alunos, nenhum autor está escrevendo e de repente interrompe porque queria escrever uma crônica e lhe saiu um conto. A importância disso é epistemológica somente.
Percebam, conto está centrado na ação, no conflito desenvolvido pela narrativa, preservando quatro unidades, segundo Massaud Moisés: a de espaço (um conto procura situar-se em poucos cenários, feito uma peça de teatro); a de tempo (como o conto é breve por definição, raramente se faz um bom conto com cortes no tempo, dando saltos na história, etc.); a de ação (o conto é avesso a peripécias narrativas, ao vaivém, a saltos, a desmembramentos cronológicos começa e vai até o fim sem desvios) e, por último, a unidade mais importante: a unidade de tom o conto tem que causar uma única impressão, que pode ser de humor, terror, piedade, ironia, drama, tragédia, etc.
É isso, como regra o conto é uma pequena estória com conflito que se resolve impactantemente no final. Mais modernamente se tentam outras soluções, mas o conto clássico é assim.
A dúvida de gênero entre conto e crônica surge porque a narração não é estranha à crônica, pode sim haver, mas é preciso que a intenção de fotografar uma época (sentido original de crônica) se sobreponha à de contar. No conto se conta para fabular ou pelo prazer de contar, mas na crônica se "conta" para fotografar, comentar, registrar, etc. Costumes, facetas humanas, tipos, fatos peculiares são típicos da crônica. No conto, o foco está no conflito, a personagem no conto não é apenas um instrumento de que se vale o escritor, mas o próprio foco de interesse, o indivíduo em si... Na crônica a personagem vale mais pelo que diz do todo, de sua época ou de sua coletividade que por si só. Quando, no entanto a voz autoral dá palpites, emite opiniões, analisa fatos, etc. aí não tem que duvidar, é crônica e fim de papo. Alguns contos flertam demais com a crônica, mesmo narrando depois e contando, afinal, uma estória, perdem a unidade de tom. Não há dúvida se tratar de crônica quando não narra nada, só reflete as opiniões do autor. Portanto, só há a possibilidade de confundir um com o outro quando uma crônica se permite uma narração, quando não, fim de dúvida. É crônica sem apelação.
            Resumindo: crônica e conto são mesmo um território de mútuas invasões. A diferença, por assim dizer, está na intenção do autor: se era narrar, expor uma estória ou parábola, então é conto; se era opinar, ainda que como exemplo conte uma estória, então é crônica. A dúvida está naquela estória leve, simples, que mais parece um instantâneo da vida. Aí o objetivo de fixar um modo especial daquele tempo, daquela cultura, daquele povo está subjacente e predomina. Então, mesmo que o autor nada comente ou opine, está claro, pela ligeireza do fato, a intenção de apenas retratar o tempo; nesse caso, por mais narrativo e contado que pareça, ainda é crônica. O conto pede dilema, conflito, drama!

Marco Antunes é escritor, professor e Coordenador do Núcleo de Literatura do Centro Cultural da Câmara dos Deputados.

(Texto adaptado pela autora do blog.)
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segunda-feira, 1 de julho de 2013

Vai ficar tudo bem



Luci Afonso

O que impressiona, à primeira vista, é a gentileza espontânea com que acolhe todas, da mais humilde à mais elegante.
— Como vai?— faz questão de levantar-se da sua mesa e de recebê-las na antessala, com o forte aperto de mão e o sorriso aberto. É um especialista famoso, mas mantém uma simplicidade comovente.

Está à vontade entre miomas, cistos e calcificações. Contornos imprecisos não o confundem. Linfonodos patológicos não o assustam. Imagens sólidas hipoecogênicas, ele as decifra sem hesitação. Tumores, ele os encara com a firmeza e a competência de quem sabe removê-los. Seu entusiasmo é reconfortante. Sua confiança é uma manta de lã numa noite fria.
— Não se preocupe, vai ficar tudo bem — ele costuma dizer às pacientes aflitas.
Salvou-me de três diagnósticos errados, que me causaram uma angústia e um desespero intensos. Imagino que, como eu, muitas encontraram nele o alívio da dor que se experimenta ao se confrontar uma doença fatal.
Há muitos anos, o médico nº 1 identificou, levianamente, sinais que apontavam a necessidade de fazer uma punção, palavra temida na época, sinônimo de dor e prelúdio inevitável de sofrimento:
— Se prepare psicologicamente para levar uma agulhada — dissera ele, meio rindo e revirando os olhos, gesto que repetia com frequência e que interpretei como exercício de relaxamento ocular. Depois se descobriu que era louco e nem sequer formado na área.
A possibilidade de ter câncer de mama me abalou profundamente. Conhecia mulheres que enfrentaram o problema e se curaram, mas uma amiga querida não tivera a mesma sorte.
Foi a primeira vez que procurei o especialista.
De início, ele estranhou que eu me consultasse com o médico nº 1, pois já se especulava sobre a sua insanidade. Ao ler o diagnóstico, se indignou com a irresponsabilidade do colega:
 — Discordo. Nada do que ele diz faz sentido. Você não tem nada.
Suas palavras e sua segurança me tranquilizaram.
Anos depois, resolvi engravidar e procurei o médico nº 2. Ele rapidamente chegou a duas conclusões: a) o DIU que havia sido colocado pelo médico louco nº 1 não podia ser tirado porque ele não deixara à mostra o fio para ser puxado; b) eu precisava fazer uma histerectomia urgente, devido à presença de um mioma uterino de grandes dimensões. Só uma mulher pode entender como me senti ao saber que teria de me submeter a um procedimento arriscado e mutilante, que extrairia de mim o símbolo maior da feminilidade e me privaria de realizar o sonho de ser mãe. Recorri novamente ao especialista. 
— Discordo. O mioma é calcificado, basta acompanhar sua evolução. Quanto ao DIU, eu vou tirá-lo pra você.
Com muita habilidade e alguma anestesia, ele remexeu meu útero até encontrar o aparelhinho, já totalmente enferrujado. Pelas suas mãos me senti liberta, pronta para gerar uma nova vida. Daí a alguns meses engravidei e dei à luz um menino, que amamentei principalmente no seio esquerdo. 
Não bastassem os dois alarmes falsos, o terceiro ocorreu há cerca de apenas um mês, quando o médico nº 3, muito simpático e bem-intencionado, classificou como de alto risco alguns nódulos e microcalcificações encontrados na mama esquerda. Passei vários dias com medo de que desta vez, eu poderia, sim, ter um tumor. Cheguei a imaginar como seria para a família, sobretudo para meu filho adolescente, viver sem mim.  Até que ouvi o especialista:
 — Discordo. Esse tipo de nódulo não tem importância. As calcificações também são benignas.
Senti um alívio imediato: há tempo suficiente para criar meu filho, escrever meus livros e plantar palavras.

O que impressiona, à saída, é a gentileza espontânea com que acompanha todas, da mais humilde à mais elegante.
— Prazer em revê-la — faz questão de levantar-se da sua mesa e de levá-las até a antessala, despedindo-se com o forte aperto de mão e o sorriso aberto.  O especialista em curar as dores femininas transita por estágios elevados de humanidade.





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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira