A segunda cigarra


Luci Afonso

Levanta, filho! A manhã está fresca com a chuva da noite. O céu de tão azul parece pintura. A grama ainda está úmida, há poças dágua no parquinho. As crianças estão começando a descer. Lembra o Tavinho? Já está andando: dá uma corridinha, para, corre de novo, às vezes cai. A avó, preocupada, fica atrás dele. Os dois dão uma corridinha, param, correm mais um pouco. Tem babá nova no prédio, daquele menino chorão que eu não sei o nome. Acho que é Pedro. Dona Rita viajou de novo para ver a irmã doente. Vou fazer uma visitinha ao Seu Inácio, coitado, ficou sozinho.

Escutou a primeira cigarra, filho? Foi ontem antes da chuva. Todo ano dizem que elas vão ser extintas, todo ano elas voltam! Já pensou, acabar essa cantoria que a gente adora? A Dévon ficou doida na janela, querendo pegar o bichinho. Vamos achar uma pra ela brincar? Preciso lembrar de pedir ração. Também é hora da vacina. Abriu uma clínica ali na quadra. Peguei o cartão, tem um nome engraçado.

Conseguiu dormir, filho? Sonhei a noite inteira com a vovó. A Dévon ficou arranhando a porta do quarto. Seu irmão ligou, já era tarde. Eu disse que você estava melhor. Que saudade! Será que está tomando os remédios? Por falar nisso, é hora do seu. Ele vem em dezembro, se o curso não estiver muito puxado. Já fez dois roteiros!

E o violão, filho? A casa ficava tão alegre quando você tocava! O professor ligou te procurando. Eu disse que você ia voltar logo. Ele mandou as últimas aulas pro seu e-mail. Aquela menina da sua turma também ligou. Aquela gordinha, de aparelho, eu sempre esqueço o nome. Ela quer te visitar.

Está com fome, filho? Seu pai foi na padaria, vai trazer a broinha que você gosta. Pedi pra ele também trazer pão de queijo, me deu vontade. O almoço hoje é comida chinesa, vamos pedir ao meio-dia. Quando a vista estiver boa, eu volto a cozinhar.

Escutou, filho? A segunda cigarra!

Luta, filho!

Outubro de 2013

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