Felis cattus domesticus L., SRD



Luci Afonso

Gatos são amaldiçoados, desde que um deles serviu urina a Jesus. Têm pacto com o Demônio e com feiticeiras. São dissimulados, interesseiros e preguiçosos. Quando não gostam de uma pessoa, atacam-na diretamente na jugular, sem chance de defesa. Não se apegam a ninguém, não fazem carinho nem gostam de ser tocados.

Eu acreditava firmemente nessas ideias e chegara a afirmar, em diversas ocasiões, que odiava gatos, que eles me davam medo e agonia. Por isso, fui apreensiva à feirinha de doação de animais, na manhã de sábado, procurar um gatinho para meu filho, disposta a enfrentar meus temores para que ele tivesse a companhia de um bicho de estimação. Ainda estávamos traumatizados por várias tentativas fracassadas de criar cachorros e sabíamos que pássaros, tartarugas e peixes não interagem com o dono.

Avistei imediatamente o filhote de pelo claro e listrado, no meio de outros que miavam nervosos e assustados com os barulhos da feira. Ele nascera há dois meses em apartamento, portanto, era de família, meigo e dócil, e não tinha maus hábitos adquiridos na rua. Meu filho o abraçou até chegarmos em casa, já com a ração, a caminha, a areia e as caixas que serviriam de banheiro.

Nos primeiros dias, um ou outro xixi fora do lugar, depois o uso correto e espontâneo das caixas de areia, seguido por um som que significava: “Acabei”. Uma ou outra planta derrubada, na exploração do novo território, depois o andar leve e gracioso entre os móveis e objetos. Um ou outro pulo mal calculado, seguido de exibições impressionantes de agilidade e equilíbrio.

Apaixonamo-nos pelo gatinho sem raça definida e resolvemos chamá-lo Patinha — sobrenome Oliveira, na ficha da clínica veterinária. Ele se reveza em nosso colo e em nossa cama, dorme a tarde inteira num buraco que fez na parte de baixo do colchão, fica quietinho quando saímos e nos recebe com gemidos de saudade.

À noite, nós três ronronamos, aconchegados e tranquilos: jamais, em hipótese nenhuma, haverá latidos no meio da noite nem surpresas indesejadas no tapete da sala. Meu receio se esvai, como se a vida inteira eu esperasse ter um gato. Prometo a mim mesma nunca mais odiar o que não conheço.

Sempre que chego do trabalho, jogo a bolsa no sofá e pergunto, com a mesma voz que usava com meu filho ainda bebê:
— Cadê o gatinho da mamãe?
Ele aparece com cara de sono e dá um miadinho de contentamento:
— Estou aqui, mamãe, estou bem aqui.


(Imagem: Gato Amarelo, de Aldemir Martins)

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