Prefácio ao Guardião da Manhã



Nestor Kirjner


A artista ousa! Cercada de literatos, respeitada por seu talento, ela poderia qualificar sua obra recorrendo a um nome de peso da literatura brasiliense. Mas Luci Afonso acredita em seus signos, e o convite para este Prefácio chega surpreendentemente ao Velho Menestrel, com a constatação de que há música, e muita música, nas crônicas com que Luci enfeita nosso cotidiano.

Não escolher um escritor consagrado, mas um poeta musical desconhecido! A ousadia de Luci me faz personagem de uma confissão. Ela confessa que seus poemas são temas musicais que, como diria Paulinho da Viola, só não têm melodia, pra não perder o valor.

E a leitura das crônicas confirma essa suspeita! A música da vida permeia as palavras da escritora, a poesia caracteriza a prosa cotidiana, Luci compõe musicalmente belos textos e, convidando-me ao prefácio, me faz parceiro de sua arte! Infelizmente, não sei “cantar” suas deliciosas crônicas plenas de leveza, e permaneço estático, apenas um humilde e ávido espectador de sua percepção do cotidiano.

Mas não pense o leitor que leveza e delícia pressupõem superficialidade. Absolutamente! A denúncia está em cada palavra que Luci escreve. Tu encontrarás nos textos aparentemente leves a solidariedade em face das dores da condição humana, perceberás a indignação com o egoísmo e a gratuidade da violência, vivenciarás a revolta da autora para com o cinismo e a indiferença da competitiva e absurda sociedade de consumo que todo santo dia nos obrigam a engolir, sem digerir. A diferença é que, forjadas na linha precisa e preciosa de autores como Rubem Braga, Fernando Sabino e Veríssimo, as crônicas de Luci Afonso associam pitadas femininas de ternura e poesia a diálogos ágeis e bem-humorados e, tal como na valsa de Orestes Barbosa, ela “pisa nos astros, aparentemente distraída”. E tu, leitor, sorris da tragédia do dia-a-dia e te divertes com a ironia da desgraça cotidiana, sem perceber que a poesia sutil de Luci permanecerá na corrente do teu sangue, impregnada definitivamente nos poros de tua perplexidade.

A cada crônica, tu quererás mais, pois a sensação pós-leitura é de um extremo bem-estar. E, sem querer, uma música qualquer virá a tua memória, para atestar que a poesia de Luci Afonso vai muito além que um simples ato de literatura. Os Velhos Menestréis que o digam! Leitores atentos, o que lhes resta é ser guardiães das manhãs e cantar canções que lhes venham à memória e ao coração. Versos que Luci Afonso repetirá com arte extrema, arrancando lágrimas da platéia. E que gerarão, depois, uma nova “safra” de crônicas cotidianas e profundas, dando (quem sabe?) a um pintor ou a um fotógrafo sensível a chance de atender a um novo pedido da escritora, e prefaciar um terceiro (e cada vez mais brilhante) livro de crônicas. Pois, como já “entreguei” a vocês, Luci Afonso vai muito além da simples literatura. A crônica de Luci é arte, e arte não se define com rótulos ou com limites...


Nestor Kirjner é poeta e compositor de Brasília.

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