Deu zebra


Tarde de sábado, 30 graus, umidade a 20%. Mãe e filho vão ao cinema no Pátio Brasil. Escolhem um filme sobre uma zebra que, abandonada ainda filhote pelo zoológico, é encontrada por um fazendeiro e cresce ao lado de cavalos puro-sangue, pensando ser um deles. Stripes, como passa a ser chamada, é motivo de chacota de animais e homens, mas não desiste do sonho de vencer a corrida mais importante da região.
O menino corre para pegar a almofada infantil. Na fileira de trás, uma velhinha corcunda e cheirosa também foi colocada numa almofada e balança os pés, satisfeita, enquanto se delicia com um saco de pipoca. Durante o filme, será a vez de chupar balinhas, com um ruidoso movimento de sucção que se contrapõe à trilha sonora.
Enquanto o filho se diverte com a estória, a mãe volta no tempo e constata, com alguma tristeza, que, ao contrário de Stripes, sempre se sentiu zebra, e que para isso contou com a ajuda de muitos que não lhe perdoavam a estranhez nem a superioridade.
Na infância, Magrela, Palito, Esqueleto.
- Quantos ossos tem um esqueleto? - Perguntava-lhe a tia infeliz na frente de todos, para humilhá-la. As aulas de Educação Física eram um suplício. Além de não conseguir dar as cambalhotas obrigatórias, os cambitos pareciam esticar ainda mais no short de elástico. As meninas riam, em vingança contra o desempenho excelente nas outras matérias.
Na adolescência, Eucalipto, Seriema, Espigão.
- Vai, Espigão! - gritava a torcida de handebol, quando ela partia para o ataque. Era o nome de uma novela de sucesso à época, e foi também o apelido dado por um rapaz de 1 metro e meio que a perseguia no ginásio.
Depois dos 20, foi enchendo de corpo, até ostentar, com orgulho, a fama de “falsa magra”. Abusava das saias curtas, conquistou inúmeros namorados, era invejada por outras mulheres. Achou que duraria para sempre.
Estava redondamente enganada: na gravidez, ganhou 20 quilos que nunca mais perdeu.
- Você tinha um corpo tão bonito! - comentavam as colegas, com indisfarçado prazer.
O sobrepeso a deprimia, assim como a extrema magreza na juventude. Aos 40 anos, simpática e roliça, sentia-se tão desajeitada quanto a menina esquelética no grupo escolar.
Sua mente se volta para o filme. Chegou o grande dia: Stripes está em último lugar, mas vai ultrapassando um a um os puros-sangues. As crianças batem os pés e a velhinha, palmas — as balinhas acabaram, e agora ela tem as mãos livres. A mãe se junta à torcida pela zebra, que, no último minuto, vence a corrida.
As luzes se acendem. Mãe e filho agora se acomodam no McDonald’s. Ela vê sua imagem multiplicada nos espelhos do shopping e, no instante silencioso e súbito, compreende: sente-se zebra porque nunca se soube puro-sangue. Ainda é tempo: enquanto pede 2 Mclanches Felizes, cheeseburger sem picles e Coca-Cola, olha timidamente para si mesma e recebe de volta uma multidão de sorrisos encantadores.

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