terça-feira, 26 de julho de 2016

Alice pegou o seio


Luci Afonso
Eu brincava de luzes na sala, quando Dôra apareceu na porta da cozinha:
Alice pegou o seio! ela disse, radiante. A segunda neta levara doze horas para nascer e, passados três dias, ainda não pegara o seio materno, que explodia em leite.
A notícia me encheu de esperança. Eu brincava de luzes quando estava triste. Pegava duas ou três pulseirinhas coloridas e transparentes, colocava no braço esquerdo e o movimentava ao sol. De preferência, às dez da manhã, por causa da inclinação da luz. Me sentava perto da janela e observava o reflexo estendendo-se pela sala e criando um círculo ao meu redor. Sempre gostei de reflexos. Parecem carinhos.
Além de brincar de luzes, nos dias mais difíceis segunda, quarta, sexta e domingo eu fazia uma festa de mentirinha. Ligava o rádio bem alto, tirava os chinelos e girava descalça pela casa. Parecia louca, mas estava só triste. A gatinha me concedia a dança a contragosto, e meu filho servia de parceiro relutante, mas gentil.
O melhor mesmo para vencer a tristeza em diferentes graus e latitudes era saber que alguém estava feliz. Alice, por exemplo. Parto difícil, nascera frágil demais para sugar o leite. A mãe se desesperava e a avó permanecia atenta ao celular, até que chegou a novidade.
Ao longo do dia, recebemos boletins frequentes:
Não quer largar mais! Dôra comemorou.
Está mamando feito uma bezerrinha!
Arrotou!
Chorou quando a enfermeira tirou o seio!
Sorriu quando estava mamando!

Alice pegou o seio. Imagino os dedos miúdos acariciando a pele da mãe, enquanto os olhos arregalados acompanham os reflexos do sol na janela. Hoje não seria mais preciso brincar de luzes, nem fazer festa de mentirinha. Alguém estava feliz de verdade.                                                                                                                                                                                                                                                
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domingo, 26 de junho de 2016

Consentimento



Luci Afonso


Lavar a louça com detergente branco como o gozo da noite passada.

Arrumar a cama, cobrindo os vestígios de amor no lençol.

Dobrar cobertores e alisar travesseiros.

Abrir a janela para iluminar o quarto.

Trocar toalhas manchadas de prazer.

Lavar roupas íntimas a mão com sabonete cremoso.

Separar a lingerie vermelha e as calcinhas de seda.

Deixar de molho para tirar o cheiro do sexo.

Vestir as meias-ligas de renda preta.

Usar a tornozeleira dourada.

Posicionar o espelho na beira da cama.

Esperar nua o barulho da chave na porta.

Abrir devagar o zíper da calça preta.

Gritar “ai, amor”, quando ele a tomar com força.

Consentir quando ele a chamar de “quase noiva”.

Dizer ao seu ouvido “Aceito”, quando ele rugir de prazer.

Ninguém me disse que era tão fácil ser feliz.



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Cinthia Kriemler Que plenitude, hein? Quanta vida nessas marcas e manchas. Feliz por você! E surpresa de te ver escrever poema. O que não faz o amor! 26 de junho às 15:20

Miliane Nogueira Benício Tão bela a sua maneira do seu dizer, amada Luci Afonso.

27 de junho às 22:33

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domingo, 22 de maio de 2016

A vista de cima



                                                                                                                                    Luci Afonso

Beatriz e Cecília Valentina brincam embaixo de um jovem ipê amarelo. Uma delas sobe no pequeno galho onde despontam os primeiros brotos, a menos de dois metros de altura.
Como é a vista aí de cima? — pergunta Beatriz, que está no chão.
Cecília Valentina observa em volta e responde, com enlevo:
— É linda, Beatriz!

Saio cedo para caminhar. Uso chapéu bordado e levo câmera de bolso para registrar os acontecimentos diários flores caídas, folhas ao vento, pessoas ao despertar. É a melhor parte do dia, antes dos sintomas e flutuações dos remédios. A médica recomendou olhar bem onde piso. Já levei dois tombos, típicos da fase em que me encontro, mas não consigo fixar os olhos no chão pelo menos, não enquanto velhinhos encantadores e senhoras estrangeiras tristes cruzarem o meu caminho.
Tenho uma coisa com velhinhos: compartilhamos a insistência em viver. Lembro o Sr. Rubens, o velhinho torto que morava no outro prédio. Fofinho e cheiroso. O Sr. Pernambuco, nobre guardador de carros e de poesia. Dona Flor, esvaindo-se dignamente como a última chama.
Não conheço pessoalmente os velhinhos atuais, por isso dei número a cada um. O Sr. 01 usa bengala, dá passos miudíssimos e leva uma eternidade para chegar ao outro bloco. Tem movimentos mínimos. Por que se dá ao trabalho de sair de casa? O Sr. 02 exibe seu carrinho motorizado, dando voltas e voltas na quadra. Deve ser rico para ter um carrinho desses. Há um assento de passageiro. Talvez eu lhe peça carona qualquer dia. O Sr. 03 é acompanhado por uma morena forte que o leva pelo braço. Eles conversam animadamente. A Sra. 04 também usa bengala e é cuidada por uma jovem quieta e calada. Duas solidões que não se abraçam.
No meio do trajeto, encontro a Sra. Estrangeira 01. É asiática. Anda sempre olhando para o chão e, com certeza, não leva tombos. Não levanta os olhos nem mesmo quando cruza com alguém. Usa um chapeuzinho bege, combinando com a roupa. Nenhum traço de cor, nenhuma estampa. Eu me confundo com o amarelo dos ipês, o vermelho dos flamboiãs e o azul-claro do céu. Às vezes, a paisagem se camufla em mim.
A cada passo, imagino um mundo perfeito. O Sr. 02 convidaria o Sr. 01 para andar no carrinho motorizado; o Sr. 03 caminharia de braços dados com a Sra. 04, conversando animadamente, as cuidadoras rindo ao lado. A Sra. Estrangeira 01 se vestiria de estampado e sorriria sem motivo. Eu perderia o medo de cair.
Cecília Valentina tem razão: é linda a vista aqui de cima.
                                                                                              Janeiro 2016 

Comentários no Facebook:

Tarlei Martins   Lindeza guardada em palavras, como sói acontecer pela arte dos grandes cronistas. Gostei em especial deste " Às vezes, a paisagem se camufla em mim". Abs!! 23 de maio às 10:40

Maria Amélia Elói   Suave. Uma delícia. 23 de maio às 11:17

            Francine Figueiredo    Como suas crônicas me encantam! 23 de maio às 14:19  



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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira