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Em defesa dos adjetivos

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Adam Zagajewski Ditadores e generais costumam dispensar tudo o que não seja verbo e substantivo Muitas vezes nos mandam cortar nossos adjetivos. O bom estilo, conforme dizem, sobrevive perfeitamente sem eles; bastariam o resistente arco dos substantivos e a flecha dinâmica e onipresente dos verbos. Contudo, um mundo sem adjetivos é triste como um hospital no domingo. A luz azul se infiltra pelas janelas frias, as lâmpadas fluorescentes emitem um murmúrio débil. Substantivos e verbos bastam apenas a soldados e líderes de países totalitários. Pois o adjetivo é o imprescindível avalista da individualidade de pessoas e coisas. Vejo uma pilha de melões na bancada de uma quitanda. Para um adversário dos adjetivos, não há dificuldade: Melões estão empilhados na bancada da quitanda. Todavia, um dos melões é pálido como a tez de Talleyrand quando discursou no Congresso de Viena; outro é verde, imaturo, cheio de arrogância juvenil; outro ainda tem faces encovadas e está perdido num silên...

Anita e a mulher dos sapatos vermelhos

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Nilto Maciel Conversava com minha pupila Anita Sabóia, na sala de minha casa, quando o carteiro gritou meu nome. Sempre faz isso, apesar de haver uma campainha acoplada ao muro. Apressei o passo (ele não anda, vive a correr, sacola repleta de cartas, embrulhos, cobranças), para não deixá-lo esgoelar-se. A caminho de Anita, rasgava o invólucro. Ao chegar ao pé dela, o livro de Carlos Herculano Lopes se mostrou em toda a sua beleza: A mulher dos sapatos vermelhos. Na capa, além das pernas, dos sapatos, do chão e do título, o selo “Geração Editorial”. Abanei as orelhas e fui direto à folha dos dados de catalogação: Crônicas brasileiras, 2010. Você gosta de crônicas? Não muito. Prefere que gênero? Conto. São muito semelhantes. E me pus a dizer tolices: Hoje o conto curto e a crônica são como irmãos gêmeos. Ela sorriu e tomou a palavra: Já namorei um gêmeo, que mandava o outro me testar. Conseguia enganá-la? Muitas vezes. Retomei a posição de falante: Existe até um híbrido de conto curto e...

Noiva

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Luci Afonso Eu a avistei assim que cruzou o portão de madeira. O vestido comprido a fazia levitar. Era alta e esguia como um pé de eucalipto, e os longos cachos morenos estavam a ponto de explodir como a inflorescência vermelha do flamboiã. — A casa será ali — disse ela, apontando para o canto oposto ao qual eu me encontrava. Escolheu um pequeno seixo e o enterrou no futuro local da construção. — Está lançada a pedra fundamental — ela proclamou, sorrindo. (Foi impressão minha, ou nessa hora o sol brilhou mais forte?) Tirou as sandálias e atravessou o riacho, molhando os pés e a barra do vestido na água fresca. Depois, veio até a mata e abençoou cada árvore, tal qual madrinha dadivosa. Chegou perto de mim. — Que espécie é essa? — perguntou. — Não sei — respondeu o homem que a acompanhava. — Está quase morta, nem flores produz mais. Podemos cortá-la, se a senhora quiser. Ela acariciou meu corpo ressequido e meus braços suplicantes. — Não, eu quero revivê-la — e me enlaçou com carinho. ...

Tio Céu

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Luci Afonso   — Mãe, é Deus no telefone! — grita meu filho, assustado e curioso. — Alô! Aqui é Deus! Quem está falando? — pergunta a voz brincalhona, que reconheço de imediato. — Sou eu, tio! — Eu quem? — ele insiste, como se eu ainda fosse criança. — Eu, uai! — respondo, imitando o forte sotaque perdido em terras candangas. — Vou apostar o número do seu telefone na Megassena da virada. — Por quê? — Uai, liguei mil e duzentas e quarenta e uma vezes enquanto estive em Brasília, e dava sempre ocupado ou desligado. Então, como se diz, larguei de lado — ele gosta de exagerar, adora a expressão “como se diz” e tem a mania de inventar números quebrados. — Desculpe, é que às vezes desligo mesmo. — Pra quê, Sá? Telefone é pra ficar ligado! Tento explicar minha rotina: durante a sesta diária, se estou sozinha, desconecto o aparelho fixo para não ter de me levantar e ir até a sala; o celular funciona normalmente. Quando meu filho está em casa, ele atende o fixo, com instruções para me acor...

Estações da Cidade

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" Meu nome é Cores! Sobrenome: Espaço! "  Assim começa o belo ensaio cinematográfico sobre o texto Estações da Cidade , belíssimo exercício poético de Nestor Kirjner sobre as estações climáticas de Brasília. O filme Estações da Cidade participou da Mostra de Brasília Digital do 43º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (novembro 2010). Gostei tanto do filme que criei uma seção especialmente para ele: Te Amo, Brasília! (Vejam à direita no blog.) Transcrevo, com prazer, o e-mail de Nestor Kirjner que apresenta a obra: "Caros amigos e amigas, Amantes da Cultura, É com grande satisfação que encaminho a vocês o belo trabalho cinematográfico feito por nosso amigo cineasta (e violinista) Jorge Martins Rodrigues, que, em meu entendimento, soube valorizar e dar vida e conteúdo a um texto que me solicitou, a partir do criativo filme sobre Brasília por ele realizado, chamado "Estações da Cidade". Minhas palavras procuraram destacar o grande conteúdo...

Quanto fazer!

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Luci Afonso Terminado o exaustivo trabalho da Criação, Deus se espichou na rede para tirar um cochilo. Ligou o rádio para se distrair um pouco: “ Açaí, guardiã, zum de besouro ...” Trocou a emissora. Não suportava letras sem sentido. “ Açaí, guardiã, zum ...” Passou para AM: “ Açaí, guardiã ...” Desligou o aparelho. O jabá do cara era forte. Resolveu descansar sem música mesmo. Não conseguia relaxar. Será que agira certo ao juntar uma serpente, um homem e uma mulher desocupados e um fruto proibido? Em retrospectiva, parecia uma mistura explosiva. E era. Teve a confirmação quando pegou no sono e anteviu, em pesadelo, a confusão em que o mundo iria se meter, da primeira à última mordida. Como corrigir a besteira que havia começado se ele mesmo, ao criar Eva, apaixonara-se desesperadamente e não conseguia afastar os pensamentos libidinosos? Enquanto Deus remexia-se na rede, um enorme besouro aterrissou no nariz do velho e começou a cantar: “ Estaí, guardiã ...” — Uma guardiã! —...

Mensagem

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  Cida Sepulveda Queridas e queridos A chuva me põe melancólica. A chuva que nos abençoa desde sempre. Mensagens de Feliz Natal e Ano Novo pipocam aos olhos, à cabeça, aos ouvidos. A gente se enche de presentes e promessas. Mas, lá na favela, as meninas cujo pai, condenado e preso por molestá-las sexualmente ganhou a liberdade (elas ouviram falar) muito antes de cumprir os 22 anos de cela, elas, quatro lindas garotas, se amontoam junto à mãe e o irmão (que já começa a agredi-las), em dois cômodos abarrotados de coisas, desejos, infortúnios, tédio, medo, solidão, falta... A falta que Manoel de Barros sempre aponta em meus textos: “o amor de alguma falta”. “O amor de alguma falta” que me move; que me vitaliza: usar a palavra para contar a história dos que estão amarrados à condição menor, humilhante, incapacitante, através da poesia, a que não exclui ninguém, muito embora, alguns espíritos doentios costumem dizer que a grande arte é para poucos. Há tanta poesia nessas meninas q...