Tio Céu


Luci Afonso 

— Mãe, é Deus no telefone! — grita meu filho, assustado e curioso.
— Alô! Aqui é Deus! Quem está falando? — pergunta a voz brincalhona, que reconheço de imediato.
— Sou eu, tio!
— Eu quem? — ele insiste, como se eu ainda fosse criança.
— Eu, uai! — respondo, imitando o forte sotaque perdido em terras candangas.
— Vou apostar o número do seu telefone na Megassena da virada.
— Por quê?
— Uai, liguei mil e duzentas e quarenta e uma vezes enquanto estive em Brasília, e dava sempre ocupado ou desligado. Então, como se diz, larguei de lado — ele gosta de exagerar, adora a expressão “como se diz” e tem a mania de inventar números quebrados.
— Desculpe, é que às vezes desligo mesmo.
— Pra quê, Sá? Telefone é pra ficar ligado!
Tento explicar minha rotina: durante a sesta diária, se estou sozinha, desconecto o aparelho fixo para não ter de me levantar e ir até a sala; o celular funciona normalmente. Quando meu filho está em casa, ele atende o fixo, com instruções para me acordar somente em casos de extrema urgência; o celular fica na secretária eletrônica. Estamos treinando o gato para telefonista, mas, por enquanto, ele só aprendeu a discar o 193. Nos fins de semana...
— Que trem complicado, Sô! Melhor, como se diz, mandar telegrama.
— Tem razão, tio — concordo, quase certa de que não existe mais esse antigo recurso usado para transmitir más notícias: “FULANO MORREU PT ENTERRO AMANHÃ PT” ou “CASA PEGOU FOGO VG VENHA RÁPIDO PT”.
Puxo outro assunto:
— O senhor tem escrito?
— Aqui e ali, umas coisinhas... — Especialista em acrósticos, ele se inspira em familiares e amigos para fazer poemas que geralmente trazem uma mensagem de cunho espiritual. Todo ano é premiado em concursos de talentos da maturidade. Também costuma redigir cartas a alguém que esteja em dificuldades (tenho uma que recebi há vinte anos e que ainda me serve de alento). Quem já o viu escrevendo jura que é psicografia: os imensos olhos azuis quase se fecham, enquanto a mão humilde rabisca o papel.
— Vamos publicar? — Faz tempo venho sugerindo uma edição dos manuscritos, que ele guarda com zelo.
— Me deixa passar a limpo — ele novamente desconversa.
Na família grande, mas desunida, meu tio é o único que faz questão de ligar para os parentes em datas especiais ou situações críticas. Quando atravessei momentos de desamparo, foi a voz caridosa que me socorreu. Em ocasiões tristes, como o Natal, é a lembrança generosa que me consola. Dele ouvi as primeiras palavras gentis sobre meu pai:
— Cicinho era muito alegre. Bom cunhado, bom pai — e passou a narrar estórias de como se divertiam juntos.
Hoje meu tio tem muitos telefonemas pela frente.
— Como se diz, estou ligando para desejar feliz Natal.
— Para o senhor também, para a Luiza, o Daniel...
— Eles foram ontem para São Paulo, só voltam dia 2. Vão ficar lá dez dias, quatro horas e trinta minutos. Por falar nisso, preciso desligar: já estamos falando há cinco minutos, quinze segundos e doze milésimos.
— Mas o senhor vai passar o Natal sozinho?
— Sozinho, não. Com Deus. Tchau-tchau.
Sempre desconfiei de onde vinha a voz do tio Célio.
Volto ao meu cochilo: Deus está em boa companhia.

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