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Quanto fazer!


Luci Afonso

Terminado o exaustivo trabalho da Criação, Deus se espichou na rede para tirar um cochilo.

Ligou o rádio para se distrair um pouco: “Açaí, guardiã, zum de besouro...”

Trocou a emissora. Não suportava letras sem sentido.

Açaí, guardiã, zum...”

Passou para AM: “Açaí, guardiã...” Desligou o aparelho. O jabá do cara era forte.

Resolveu descansar sem música mesmo. Não conseguia relaxar. Será que agira certo ao juntar uma serpente, um homem e uma mulher desocupados e um fruto proibido? Em retrospectiva, parecia uma mistura explosiva.

E era. Teve a confirmação quando pegou no sono e anteviu, em pesadelo, a confusão em que o mundo iria se meter, da primeira à última mordida. Como corrigir a besteira que havia começado se ele mesmo, ao criar Eva, apaixonara-se desesperadamente e não conseguia afastar os pensamentos libidinosos?

Enquanto Deus remexia-se na rede, um enorme besouro aterrissou no nariz do velho e começou a cantar: “Estaí, guardiã...”

— Uma guardiã! — ele finalmente entendeu, antes de acordar no chão. — Uma guardiã da humanidade! Mas será que ela dará conta da missão?

Nesse momento, o rádio misteriosamente ligou-se sozinho: “Para ser o serviçal de um samurai...” Desta vez, captou a mensagem de primeira: — Um ajudante, é claro! Basta criar uma guardiã e dar-lhe um auxiliar para juntos socorrerem os bobos que “comerem a maçã” — não pôde evitar um risinho malicioso.

Satisfeito com a solução encontrada, só restava formatar as criaturas. A guardiã seria mulher, é claro, pois desde o início já se sabia que era o sexo forte. Combativa, incansável, colérica, se necessário, e amorosa ao extremo. Mas e o ajudante? Outra mulher? Deus sentiu um arrepio ao imaginar duas Evas juntas, mas controlou-se. Não podia correr o risco.

Um anjo era uma boa alternativa. Ou uma criança. Melhor ainda, um anjo-criança! Exausto, Deus começou a delirar: — Terá o poder da telecinese, da telepatia, da invisibilidade, a força do Hulk, as garras do Wolverine...

Ao perceber o exagero, resumiu: — Falará até sem palavras e abençoará com a simples presença todo lugar onde estiver.

Dizendo isso, deu a tarefa por terminada, tomou meio Lexotan e desabou na rede.

Aaaaaiii, quanto fazer, mas eu tô tão feliz! — cantarolou antes de mergulhar no sono.


(Esta crônica foi escrita para presentear Isolda Marinho, minha "amiga oculta" deste ano.)