Carta de uma estudante do Parque Oziel


Campinas, 14 de junho de 2010


Olá! Luci Afonso, meu nome é Jéssica, tenho 14 anos e queria lhe dizer que gostei muito do seu livro.

Li ele pela metade, mas cada crônica que li, fiquei imaginando as cenas. Eu entendi quase todos, menos o "Suspeito moreno, alto e forte" que eu não entendi o final.

Mas você está de parabéns, o seu livro é muito bom! E interessante. Eu nunca gostei de ler, mas o seu livro despertou a minha imaginação. Quando eu começo a ler, não consigo parar até meus olhos arderem.

Eu gostei da crônica da mulher que consultava um psiquiatra que a tratava muito mal, e no final da história ela descobre que o psiquiatra e mais um homem eram assassinos.

E também gostei da crônica do menino que tinha inflamação nas pernas e ele não andava, achei muito interessante porque você usou muito a sua imaginação e eu também usei para entender a crônica. E foi muito solidário as duas senhoras que o ajudaram.

Parabéns, continue escrevendo!

Jéssica Françoso

 
Brasília, 27 de junho de 2010


Querida Jéssica,

Fiquei muito feliz com sua carta. A maior alegria de um escritor é saber que alguém gostou do que ele escreveu. Que bom que o meu livro despertou a sua imaginação! Para isso servem os livros.

Eu gosto de ler desde criança, mas sempre é tempo de despertar o amor pela leitura. Você é muito jovem e ainda pode descobrir que os livros são grandes amigos e companheiros. Continue lendo. Se você gosta de crônicas, procure ler Luis Fernando Verissimo ou Fernando Sabino. Eles são muito divertidos.

Explico o que você não entendeu: em "Suspeito moreno, alto e forte", falo sobre um episódio de racismo que aconteceu no Plano Piloto, que é o “bairro rico” de Brasília. No final, todos percebem que a mulher chamou a polícia por causa do preconceito contra o homem moreno de aparência humilde.

A crônica sobre o psiquiatra tem um pouco de verdade e um pouco de ficção, como muitos textos meus. Gosto muito da estória e sempre me divirto quando a releio.

O Menino, na verdade, é o galo de estimação da Dona Maria, uma das personagens da crônica “Amém!”. Ele existe mesmo. Em nenhum momento eu disse que era um galo, mas dei várias pistas ao longo do texto. Se você puder reler a estória, procure essas pistas.

Jéssica, obrigada pela carta tão carinhosa, que a Profa. Cida Sepulveda gentilmente me encaminhou. São palavras assim que me incentivam a continuar escrevendo.

Vou publicar sua carta no meu blogue. Se puder, visite: http://luciafonso.blogspot.com/

Um grande abraço,
Luci Afonso

De: Aparecida Sepulveda
Data: domingo, 27 de junho de 2010 12:21
Para: Luci Afonso de Oliveira

Cara Luci,

Não te escrevi antes por falta de tempo. A Jéssica é uma ótima aluna. Quero apenas te informar que o Parque Oziel é resultado de uma das maiores invasões da América Latina. Procure no youtube Parque Oziel vídeos e você conhecerá um pouco do mundo dos jovens que ganharam seu livro. Alguns ganharam como prêmio por terem desenvolvido um bom trabalho. Outros, porque pertencem a uma classe comportada (o caso da Jéssica) e ontem, na Festa Junina, dez livros foram colocados como prenda. Vi dois jovens enlevados porque ganharam o livro. Uma menina, muito pobrezinha, veio falar comigo, com o livro na mão, alisando-o, "dona, eu adoro ler".


A Jéssica não tem dinheiro para comprar livros. De todo modo, é bem possível que sua orientação faça algum sentido para ela. Se ela encontrar na biblioteca os autores que você sugere, certamente, ela os emprestará. Creio que você receberá mais cartas. Na verdade, eu demorei para liberar os livros, exatamente por falta de tempo, porque gosto de fazer as coisas de forma organizada, e não apenas dar o livro, aleatoriamente.

Um abração, Cida



A escritora e professora Cida Sepulveda, formada em Letras (UNICAMP), mora em Campinas, SP. Publicou Sangue de Romã, poemas, em 2004, e Coração Marginal, contos, em 2007. (aparecidasepu@gmail.com)

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