Pequenina crônica para o menino triste


André Giusti

O menino triste que mora em meu prédio está lá embaixo quase todas as vezes em que chego ou saio, sempre levando pela coleira dois ou três cachorros. Não distingo as raças, de cães entendo apenas de fazer festa nos mais dóceis e manter distância dos mais bravos. Só sei que em cada leva que vai para o passeio, são diferentes os bichos. A mãe do menino triste tem 14 cachorros dentro de um apartamento, para a revolta e incômodo dos vizinhos. É do tipo que acha que cachorro é mais importante do que gente, do que criança, que é a melhor espécie de gente. Respeito os bichos, mas ainda penso que as pessoas, apesar de todos os problemas que trazem, são mais importantes.

Morando em um “canil”, é compreensível que o menino viva lá embaixo, invariavelmente com duas ou três coleiras na mão. Passa ao largo das outras crianças do prédio, desvia das correrias. Quando está longe — e quase sempre está — arrisca olhar as brincadeiras, e em meio a cocô, xixi e latidos, parece dar como justo e normal que ser criança não é aventura que ele mereça. Atrás de bola nunca o vi, tampouco sentado no selim forçando as pernas curtas contra os pedais de uma bicicleta. Cercado de quatro, oito, doze patas, segue sua vida de menino sem meninice.

Eu não o cumprimentava. Injustamente, estendia ao garoto o silêncio dispensado à mãe, sem raciocinar que a culpa de se criarem 14 cachorros em um apartamento não é da criança. Aliás, as culpas pelas imbecilidades do mundo nunca são das crianças.

Igualmente errados, os outros vizinhos dispensam ao menino nada além do olhar frio e acusatório que nasce das querelas adultas. Sabedor disso, o menino não foge apenas dos de sua idade. Toma distância também dos grandes, desses mais ainda, pois podem condená-lo pelo erro do qual ele compactua porque é menino, porque menino não tem muito direito de querer ou não. Mantém-se isolado, na companhia de cachorros, falando com cachorros.

Até que outro dia, um dos cães que ele levava latiu para uma de minhas filhas. Nervoso, temendo que o litígio com a vizinhança explodisse ali, tratou de dizer “Calma, ele não vai te morder, ele ‘tá é com medo de você”. E a frase foi seguida de um sorriso trêmulo, tímido, doce. Como eram doces a voz afobada e o sorriso acanhado do menino, que quase pedia permissão para sorrir. Foi a primeira vez que o vi sorrir. Foi a primeira vez que ouvi a voz do menino triste do meu prédio.

Ainda fiquei alguns minutos por ali. E como criança não tem mesmo muito assunto que puxar com adulto, repetiu mais um tanto “ele não vai ter morder, não fica com medo”, embora minha filha já até fizesse festa no focinho do bicho.

Desde lá passo e cumprimento o menino triste do meu prédio. Ele responde com a voz doce e afoita, desacostumado que é a receber “olá, como vai”. Às vezes até sorri, da mesma forma cândida, insegura. Mas quando as outras crianças estão por perto, me olha sério, pedinte, como querendo que eu, por um instante, tome conta dos cachorros para que ele vá correndo viver um momento que seja de meninice.

André Giusti é jornalista/radialista da Band FM Brasília.

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