O massacre dos quirópteros



Luci Afonso

— Mãe, olha o passarinho preto!
— Quieto, meu amor, já vai começar!
O auditório estava lotado. O diretor dava as boas-vindas ao público e anunciava o primeiro item do programa.

O menino só conseguia prestar atenção no bicho esquisito que surgira de repente do teto. Parecia um passarinho, mas tinha cara feia e asas sem penas. Apareceram mais dois e começaram a sobrevoar o palco.

— Mãe, olha! – Desta vez, ela enxergou as pequenas criaturas, mas não conseguiu identificá-las. — Fique quietinho, meu bem, é parte do cenário, - mentiu. Estava concentrada no recital.

À medida que transcorria a apresentação, outros saíram do telhado e passaram a voar também sobre a platéia. O salão estava muito quente e as portas, fechadas. Algumas pessoas notaram a estranha movimentação, até que um sussurro percorreu o recinto:
— Morcegos!

A partir daí, o público passou a observar os mamíferos voadores. Seu número parecia aumentar a cada salva de palmas. Um casal na última fileira tentou, discretamente, deixar o auditório, mas a porta principal estava trancada — por medida de segurança, o zelador só a abriria às 22 horas, quando terminasse o evento. Ainda eram 20h30min. As portas laterais, por sua vez, estavam obstruídas pelo equipamento de som. O casal voltou ao seu lugar em silêncio.

A esta altura, todos acompanhavam o voo das criaturas, agora mais numerosas. O diretor, ao perceber a apreensão geral, tentou relaxar os presentes:
— Estamos com sorte! Para os chineses, os morcegos trazem muita felicidade. – Como ninguém ali era chinês, não funcionou. Todos estavam visivelmente tensos, e alguns já se levantavam para ir embora, sem saber que ainda não poderiam sair.

Para segurar a plateia, o diretor pulou alguns pontos do programa e anunciou a última atração, o cantor Fred Jr., que executaria algumas músicas da Bossa Nova. Em seguida, passariam ao coquetel. As pessoas voltaram a se sentar, contrariadas.

Fred Jr., muito conhecido na cidade, sofrera recentemente de síndrome do pânico e há muito tempo não se apresentava em público. Hoje seria sua volta ao palco. Não conseguira decorar as letras e ensaiou o tempo todo nos bastidores, sem perceber o que se passava lá fora. Surpreso, foi chamado antes da hora combinada.

Entrou, decidido, e já começava a dedilhar o violão quando notou que algo estava errado. As pessoas olhavam para o alto, nervosas, e pareciam não notar a presença dele. Olhou também e sentiu um arrepio. Tinha medo de tudo que voasse, de mosquito a avião, mas tinha pavor irracional e incontrolável das criaturas horripilantes que agora enchiam a sala.

Respirou fundo e tentou distrair o público e a si mesmo com uma brincadeira:
— Acho que estão promovendo o filme do Batman! – Ninguém riu. Ele começou a cantar, mas a voz saiu fraca e desafinada. Os morcegos se agitaram, e um deles fez vôo rasante na cabeça de Fred Jr. Aterrorizado, ele largou o microfone e saiu correndo para a porta. Muitos o seguiram.

— Está trancada! – avisou o casal que tentara escapar. As mulheres se desesperaram, as crianças começaram a gritar. Os morcegos se inquietaram ainda mais. Os homens fingiram controlar o medo.

Um ambientalista argentino subiu numa cadeira e gritou em portunhol:
— Calma, pessoal, ellos son pacíficos!

Um senhor careca, de óculos minúsculos, pediu a palavra. Além de apreciador de poesia, era biólogo e doutor em quirópteros (nome científico dos morcegos). Para tranqüilizar os presentes, explicou que 90% da ordem Chiroptera eram sementívoros e apenas 10%, hematófagos, ou seja, era mínima a probabilidade de alguém ali ser mordido. Além disso, argumentou, os morcegos vampiros, ou Desmodus rotundus, só atacavam em zonas rurais para se alimentar ou se defender — como, aliás, havia acontecido, há poucos dias, num condomínio do Distrito Federal.

A explicação teve efeito oposto: os homens se juntaram, pegaram a mesa de madeira maciça e tentaram derrubar a porta. Aumentaram os gritos e o choro. O frenesi se instalou entre bichos e humanos. Os celulares foram acionados para chamar a Polícia, o Corpo de Bombeiros e o IBAMA.

O auditório se transformou em campo de batalha. O ambientalista, contrariando seus princípios, abateu com sua pasta alguns morcegos, para defender as damas em perigo. Uma poetisa que sempre se apresentava com um cachecol aproveitou-o para enforcar uns três. As mulheres mais valentes usavam seus chales para capturar e matar os nojentos animais. Os homens recorriam aos paletós. O menino que os vira primeiro pegou um filhotinho e guardou-o para dissecação, um de seus hobbies.

Fred Jr. se escondeu atrás do palco, mas um morcego havia chegado ali antes e estava à espreita — um Desmodus rotundus, o único na sala. O cantor, desesperado ao ver tão próxima a repugnante criatura, tentou atingi-la com o violão, acertando, sem querer, a cabeça do diretor, escondido no mesmo local. Ambos desmaiaram, um, pelo golpe, outro, pelo pavor, e o vampiro pôde se alimentar à vontade.

Todos os quirópteros foram abatidos, exceto o Desmodus, que depois de satisfeito se refugiou novamente no telhado, à espera de nova vítima. A porta foi arrombada, e descobriu-se o zelador em sono profundo no subsolo do prédio. A Polícia e os Bombeiros chegaram e atenderam prontamente aos dois homens inconscientes, que tinham dois grandes furos no pescoço. Eles despertaram, desmaiaram de novo, ao saber que haviam sido mordidos, e receberam dose preventiva de vacina anti-rábica. O IBAMA não foi encontrado.

A sindicância instaurada pelos proprietários do auditório não concluiu de quem foi a culpa pelo incidente. Muitos a atribuíram ao zelador; outros, a Fred Jr., enquanto os estudiosos apontavam causas naturais, como a baixa umidade e o período de acasalamento, o que tornaria os quirópteros mais irritadiços.

Não se chegou a laudo conclusivo, mas o evento ocupou o noticiário nacional por várias semanas e ficou registrado no imaginário brasiliense como o mais aterrorizante sarau literário-musical realizado na Capital da República.

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