Mulheres e Atitudes

Liana Ferreira





Marlene caminhou com passos firmes em direção à cozinha. Decisão tomada. Olhava para o chão e via passar uma a uma as cerâmicas desgastadas, envolvidas por encardido rejunte. Àquela hora, o mundo parecia tranqüilo, apenas um cachorro vagabundo insistia em latir tristemente como se quisesse lembrá-la de que a paz era apenas aparente. Chegou à cozinha com sensações iguais às que experimentou ao chegar do Maranhão. Uma vida desconhecida descortinava-se à sua frente e ela tinha de vivê-la. Também, como há vinte anos, não estava preparada, ainda assim não tinha medo. Sabia o que tinha de fazer e o faria naquela madrugada fria de junho, porque não agüentava mais um único dia igual aos que vinham-se sucedendo.

Afastou o plástico que servia de porta para o armário de utensílios embaixo da pia e abaixou-se para pegar a panela. Não queria fazer barulho para não acordar as pessoas que dormiam naquela casa pequena . Encheu devagar a panela com água e a colocou sobre o fogão. Procurou a caixa de fósforos no lugar de costume mas não a encontrou. Enquanto voltava pelo corredor, olhou para dentro do quarto dos filhos. Quatro adolescentes amontoados num pequeno cubículo dormiam tranqüilamente e pareciam felizes, apesar das privações a que estavam expostos.

Quando saiu do Maranhão por iniciativa do marido, tinha 26 anos e três filhos. Largou família e amigos e todas as suas referências foram sendo deixadas para trás enquanto atravessava dois mil quilômetros de estradas emburacadas. Não voltou mais à sua cidade e em meio às atribulações em que sua vida estava mergulhada, isso não fazia mais a menor diferença, perdera o sentido.

Entrou em seu quarto pé ante pé, esgueirando-se até a cadeira ao lado da cama. João Henrique roncava alto e dormia o sono dos bêbados. Pegou o maço de cigarros do marido e tirou de dentro dele o isqueiro pequeno e azul. Olhou mais uma vez para aquele rosto tentando identificar algum traço do homem a quem acreditou amar no passado, mas não encontrou o mais remoto vestígio. Não saberia dizer em que profundezas foram enterrados os seus sonhos de então. Não encontrava mais prazer em nada, nem no trabalho, seu último refúgio. Pensava nisso enquanto caminhava de volta ao fogão. Faz várias tentativas para acender a chama do isqueiro sem sucesso, mas não desiste. A principal lição que aprendeu na vida foi a da persistência. Com perseverança e muito trabalho abriu um pequeno salão de beleza em sociedade com uma amiga também nordestina. Dali conseguia tirar o sustento da família. Há muito João Henrique deixara de trabalhar e ajudar nas despesas da casa.

A ponta do dedo polegar já estava ardendo quando conseguiu acender o isqueiro e transferir a chama para a boca do fogão. Sentou-se no banquinho de madeira junto à mesa e esperou que a água fervesse. Tinha esperado muito pela vida. Houve até um tempo em que esperava que o marido mudasse de atitude e chegou a acreditar que isso fosse possível. Mas a cada ano ele ficava mais velho e mais bruto. Bebia e tornava-se valente. Enquanto ele lhe dirigia todo tipo de agressão verbal uma raiva muda ia crescendo dentro do seu peito. Não mostrou a ninguém esse sentimento, manteve-o oculto na alma. Nutria um imenso desprezo por esse homem que foi incapaz de amá-la e que não demonstrava sentir por ela ao menos um pouco de respeito.

Apagou o fogo e retirou a panela com cuidado. O vapor d’água que saía da panela atingiu-lhe o rosto e fez com que aumentasse ainda mais a dor que sentia nos inúmeros hematomas causados pela surra que ela levara ao chegar do trabalho, enquanto, aos gritos, ele a chamava de vagabunda.

Marlene caminhou com passos firmes em direção ao quarto. Parou ao lado de João Henrique que roncava e dormia o sono dos bêbados, e sem titubear derramou quase toda a água fervente da panela em seu ouvido direito, cozinhando-lhe os miolos.

Voltou à cozinha com passos vacilantes, derramou o resto da água quente numa caneca, misturou um pouco de café solúvel e açúcar, e sentou-se novamente no banquinho para tomar seu café e esperar o dia amanhecer.

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