Vai ficar tudo bem



Luci Afonso

O que impressiona, à primeira vista, é a gentileza espontânea com que acolhe todas, da mais humilde à mais elegante.
— Como vai?— faz questão de levantar-se da sua mesa e de recebê-las na antessala, com o forte aperto de mão e o sorriso aberto. É um especialista famoso, mas mantém uma simplicidade comovente.

Está à vontade entre miomas, cistos e calcificações. Contornos imprecisos não o confundem. Linfonodos patológicos não o assustam. Imagens sólidas hipoecogênicas, ele as decifra sem hesitação. Tumores, ele os encara com a firmeza e a competência de quem sabe removê-los. Seu entusiasmo é reconfortante. Sua confiança é uma manta de lã numa noite fria.
— Não se preocupe, vai ficar tudo bem — ele costuma dizer às pacientes aflitas.
Salvou-me de três diagnósticos errados, que me causaram uma angústia e um desespero intensos. Imagino que, como eu, muitas encontraram nele o alívio da dor que se experimenta ao se confrontar uma doença fatal.
Há muitos anos, o médico nº 1 identificou, levianamente, sinais que apontavam a necessidade de fazer uma punção, palavra temida na época, sinônimo de dor e prelúdio inevitável de sofrimento:
— Se prepare psicologicamente para levar uma agulhada — dissera ele, meio rindo e revirando os olhos, gesto que repetia com frequência e que interpretei como exercício de relaxamento ocular. Depois se descobriu que era louco e nem sequer formado na área.
A possibilidade de ter câncer de mama me abalou profundamente. Conhecia mulheres que enfrentaram o problema e se curaram, mas uma amiga querida não tivera a mesma sorte.
Foi a primeira vez que procurei o especialista.
De início, ele estranhou que eu me consultasse com o médico nº 1, pois já se especulava sobre a sua insanidade. Ao ler o diagnóstico, se indignou com a irresponsabilidade do colega:
 — Discordo. Nada do que ele diz faz sentido. Você não tem nada.
Suas palavras e sua segurança me tranquilizaram.
Anos depois, resolvi engravidar e procurei o médico nº 2. Ele rapidamente chegou a duas conclusões: a) o DIU que havia sido colocado pelo médico louco nº 1 não podia ser tirado porque ele não deixara à mostra o fio para ser puxado; b) eu precisava fazer uma histerectomia urgente, devido à presença de um mioma uterino de grandes dimensões. Só uma mulher pode entender como me senti ao saber que teria de me submeter a um procedimento arriscado e mutilante, que extrairia de mim o símbolo maior da feminilidade e me privaria de realizar o sonho de ser mãe. Recorri novamente ao especialista. 
— Discordo. O mioma é calcificado, basta acompanhar sua evolução. Quanto ao DIU, eu vou tirá-lo pra você.
Com muita habilidade e alguma anestesia, ele remexeu meu útero até encontrar o aparelhinho, já totalmente enferrujado. Pelas suas mãos me senti liberta, pronta para gerar uma nova vida. Daí a alguns meses engravidei e dei à luz um menino, que amamentei principalmente no seio esquerdo. 
Não bastassem os dois alarmes falsos, o terceiro ocorreu há cerca de apenas um mês, quando o médico nº 3, muito simpático e bem-intencionado, classificou como de alto risco alguns nódulos e microcalcificações encontrados na mama esquerda. Passei vários dias com medo de que desta vez, eu poderia, sim, ter um tumor. Cheguei a imaginar como seria para a família, sobretudo para meu filho adolescente, viver sem mim.  Até que ouvi o especialista:
 — Discordo. Esse tipo de nódulo não tem importância. As calcificações também são benignas.
Senti um alívio imediato: há tempo suficiente para criar meu filho, escrever meus livros e plantar palavras.

O que impressiona, à saída, é a gentileza espontânea com que acompanha todas, da mais humilde à mais elegante.
— Prazer em revê-la — faz questão de levantar-se da sua mesa e de levá-las até a antessala, despedindo-se com o forte aperto de mão e o sorriso aberto.  O especialista em curar as dores femininas transita por estágios elevados de humanidade.





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