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Mão de sopa




Luci Afonso

Além de estar temporariamente surda e afônica devido à forte gripe, ela já não enxergava bem. Por isso, escrevi em letras bem grandes: QUER SOPA? Seus olhos brilharam e o polegar levantou-se, com entusiasmo. Minha sopa era inigualável. As tias de Minas, grandes cozinheiras de forno e fogão, diziam que eu havia sido abençoada com mãos de sopa — minha única habilidade culinária.
FRANGO OU COSTELA? Ela simulou um movimento curto de asas, indicando a primeira opção. Depois, juntou as mãos no formato de um pão e o cortou com uma faca imaginária, lembrando que ela não dispensava o acompanhamento.
PIMENTA? O polegar e o indicador se aproximaram, indicando “só um pouquinho”.
Ela fechou os olhos. Precisávamos nos comunicar por escrito porque ela se recuperava da infecção de ouvido que causara a perfuração do tímpano. Antes, ela ainda escutava um pouco se gritássemos. Porém, recusava o aparelho com medo de que caísse dentro da orelha.
Era avessa a médicos, mas há cerca de uma semana, chorando de dor, me pedira que a levasse ao hospital. Segurou minha mão enquanto tomava duas injeções, uma na veia, outra no bumbum. A contragosto, aceitou ficar no meu apartamento, que era mais próximo. Gostava mesmo era da chácara, onde mexia com a terra o dia inteiro, só parando para almoçar e assistir à Sky de noite.
QUER VER TELEVISÃO? Aceno negativo.
ESTÁ COM FRIO? Aceno afirmativo, enquanto se agasalhava debaixo do edredom azul que eu lhe trouxera. Encolhida como um animalzinho, logo adormeceu.
— Ela vai ficar no meu quarto? — perguntou o neto, contrariado.
— Sim.
— Mas e o computador, vou ter que jogar no escuro?
— É por poucos dias.
Shit!
Juntei o macarrão aos legumes, feijão e frango do almoço e acrescentei o tempero. Logo fui cutucada pela figura desgrenhada e impaciente: ESTÁ PRONTA? Respondi que não e, encostando as mãos em concha no rosto, mandei que ela se deitasse.
Em alguns minutos, o cheiro bom invadia o apartamento e impregnava as casas vizinhas.
 — Pode chamar a vovó! — gritei em direção ao quarto.
— Ela não está dormindo, está sentada, com o olho fechado.
— Então, podem vir.
Sentamo-nos à mesa da cozinha. Um, dois, três pratos cada, e fomos para a varanda fazer a digestão. O gato aninhou-se no colo do meu filho. Ficamos os quatro em silêncio.
ESTÁ COM SONO? Amassei o comprimido que ela não conseguia engolir, dissolvi num pouco dágua e dei-lhe uma balinha para tirar o gosto ruim. Depois de pingar as gotinhas no seu ouvido, aconcheguei-a sob o edredom e apontei o dedo para cima: DURMA COM DEUS.
Fiz carinho no menino e no gato acomodados no sofá, verifiquei as portas e diminuí as luzes. Dormi em paz na casa silenciosa, ainda cheirando a sopa e a infância.