Guidons e garupas



Luci Afonso


As pernas doíam, o fôlego acabava, o suor escorria enquanto eu levava Neusa ladeira acima, na velha bicicleta. Fazíamos o trajeto todo dia até a pracinha onde brincávamos. Ida e volta, eu no guidom, ela na garupa.

Conhecíamo-nos há meses. No aniversário da menina, a mãe deu uma grande festa. Coloquei o vestido novo, peguei o presente e esperei no portão, até o último minuto, o convite que não veio. Fui dormir imaginando o que eu fizera de errado para não merecê-lo.

Cresci pensando que grosserias, esquecimentos e agressões eram, de alguma forma, minha culpa. Engoli tantos sapos, e tão gordos, que logo precisei de ajuda para expeli-los.

O Dr. Martelo, assim conhecido pelos contundentes e eficazes métodos de trabalho, ensinou-me (pow!) a regra de ouro para identificar os falsos amigos — um mais zero dá um; zero mais zero dá zero; um menos um, também. Quando um mais um são dois, dois mais dois são quatro e assim por diante, não há dúvida: são verdadeiros.

Sapos regurgitados, contas refeitas, alta médica. Continuo perdoando indelicadezas, mas sem maquiar os fatos. Nas palavras de uma sábia cronista, quem tem só uma cara apanha muito (pow!) até distinguir amizades autênticas de meras “experiências”.

Não sei se ainda fabricam bicicletas com garupa; é que eu não carrego mais neusas.

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