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A visita


Não vejo o Sr. José Maria há alguns dias e não consigo esquecê-lo. Em algum ponto do trajeto entre casa e trabalho, certamente à vista de algum ipê amarelo úmido de chuva, os desejos do meu taxista de confiança se misturaram aos meus.
Decido visitá-lo à noite no ponto-casa. Encontro-o sentado num banco de madeira, assistindo à TV. Ele se espanta com meu vulto vermelho emergindo do escuro — estou de vestido vermelho, salto alto, brincos de argola e pulseira. Ele está à vontade, de chinelos. Não sei qual de nós está mais surpreso com a improvável visita.
Ele se levanta para me cumprimentar e pela primeira vez o vejo de pé. Meu amigo é de uma feiúra cativante: magro, um pouco mais baixo que eu, rosto pequeno, olhos pretos minúsculos, nariz grande, orelhas enormes. As mãos rústicas e miúdas parecem gravetos. Os dentes que não perdeu estão escurecidos.
Ele me indica o banco, pega uma cadeira e começamos a conversar. Observo à minha volta: os sapatos debaixo do banco, algumas camisas em cabides pendurados numa corda, o colchão enrolado numa cama improvisada. Uma televisão e uma cômoda velhas. Tento justificar minha presença no ponto de táxi malcuidado: vou comprar uma torta de frango na Torteria di Lorenza, ali do lado, estacionei dentro da quadra porque na comercial não tinha vaga, avistei seu carro e resolvi dar um “alô”.
Entrego-lhe a última crônica que escrevi baseada em seus relatos, ele a guarda junto às outras numa pasta para ler depois. Fico sabendo que já foi personagem de outro cronista, um cliente admirador que teve o texto publicado no Correio. Na parede ainda há a marca do durex que segurava o recorte de jornal, que lhe trouxe fama durante algum tempo e causou muita inveja entre os colegas. A irmã tem a matéria, e ele vai me trazer uma cópia.
O celular toca ao som da marcha nupcial. Ele responde que já vai, mas se senta novamente e retomamos a prosa. De repente, estamos na varanda da sua casa no sítio. É fim de tarde. A velha empregada passa o café cheiroso em coador de pano e o serve em copinhos de alumínio esmaltados. Saboreamos o café enquanto ouvimos a chuva no telhado e o grito das araras nas mangueiras carregadas de frutos.
Ele me conta que o dentista o está enrolando no tratamento. Eu lhe confidencio que estou trocando de carro e vou fazer uma surpresa ao meu filho. Trocamos detalhes sobre os dois assuntos, inventamos outros. Ele me convida para o churrasco de inauguração do sítio, ainda sem data marcada — antes é preciso construir a casa e comprar o boi; eu o chamo para um cafezinho em meu apartamento.
Os cabides balançam na corda como galhos ao vento. Estamos agora debaixo de um carvalho antiqüíssimo iluminado por vaga-lumes. O Sr. José Maria é o duende-chefe da floresta nevoenta. Tem uma barba comprida, usa um gorro verde e fuma cachimbo enquanto me conta os segredos de todas as criaturas. Promete me transformar numa fada se eu me casar com ele.
De novo a marcha nupcial. A cliente está aflita pelo táxi, ele diz, sem entrar em detalhes. Talvez vá seguir o marido, talvez vá procurar companhia para a noite ou, simplesmente, precise ir para casa. O Sr. José Maria se torna sério, diferente do motorista tagarela que me conduziu por uma semana e coloriu minha rotina nos primeiros dias de primavera.
É hora de nos despedirmos. Tenho vontade de envolvê-lo num abraço quente e apertado, mas me limito a dar-lhe boa noite. Sinto-me absurdamente feliz pela invasão nos seus domínios e anseio a próxima visita para roubar sem piedade os tesouros ocultos na boca sem dentes.