Senhora dos Gatos



Luci Afonso

Desceu do ônibus por volta das dezenove horas, como de costume, e quando começou a caminhar percebeu que era seguida. Virou-se, mas não viu ninguém. Andou mais rápido. Quando já entrava na quadra, ouviu um gemido. Tomando coragem, refez seus passos e a viu escondida atrás de uma quaresmeira. A pata direita sangrava. Os olhares de fêmea se cruzaram:
— Você quer que eu te salve?
A gata hesitou, mas finalmente aproximou-se da mulher e esfregou-se na sua perna. Rose sentiu um arrepio e soube, então, que encontrara a razão de sua vida.
Pegou o animal com cuidado e o levou até o apartamento nas 400. Usou o edredom que havia sido da filha para forrar o chão do quarto de hóspedes. Após limpar e tratar os ferimentos, encheu duas vasilhas de plástico com leite e água.
— Você vai se chamar Dévon. — A gata assentiu, lambendo as mãos da salvadora.
Na manhã seguinte, ao sair para o trabalho, Rose estava diferente. Não se sentiu sozinha no ônibus lotado. Respondeu ao bom-dia das colegas de repartição com a alma leve, ao contrário dos últimos meses, em que nem se dava ao trabalho de cumprimentá-las. O toque constante do telefone não a incomodou. A voz do chefe, antes insuportável, soou simpática.
Como estava sem serviço, passou o dia pesquisando na Internet sobre entidades que cuidavam de gatos abandonados. Descobriu uma ONG e filiou-se na hora. A secretária enviou por e-mail o estatuto, o termo de adoção e um manual de cuidados com bichanos.
Antes do almoço, resolveu tomar o remédio para a febre que começara há alguns dias. A comida do bandejão cheirava bem e estava saborosa. Será que haviam trocado a firma? Tomou suco e comeu sobremesa, o que dificilmente fazia. Duas horas depois, estava de novo faminta e devorou um pacote de biscoitos.
Foi com alegria que pegou o zebrinha cheio e se equilibrou durante as loucas manobras do motorista. Havia comprado ração e caixa de areia para Dévon, além de um ratinho de brinquedo. Subiu correndo as escadas do prédio e, ao abrir a porta, constatou, surpresa, que o apartamento estava vazio. Nenhum sinal da gata, nem do edredom no quarto de hóspedes, nem das vasilhas com leite e água, nem dos curativos na pia.
— A diarista! — ela deduziu imediatamente. Pegou o celular e digitou, enraivecida, o número da moça. Com certeza, ela havia se livrado do animal sem consultá-la. O telefone estava na secretária eletrônica. Gravou todos os xingamentos que conseguiu lembrar e despediu a abusada.
Não conseguiu dormir. Imaginava ouvir um miado e um leve arranhão na porta da sala. O corredor, porém, estava vazio. Deixou as janelas abertas, na esperança de que a gata voltasse.
Faltou ao trabalho nos próximos dias e mandou dizer que estava doente. Não tinha fome nem sede. Perdeu a noção do tempo. Quando estava claro, deitava-se no sofá. Quando escurecia, acomodava-se na cama.
Uma noite, não suportando mais a ausência de Dévon, desceu à sua procura. Chovia forte, mas não se preocupou em levar a sombrinha. Logo à saída do prédio, escorregou numa poça de lama e feriu a perna na cerca do jardim. Um fio de sangue escorreu até os chinelos.
A intuição lhe dizia que encontraria a gata no mesmo lugar. Andou lentamente até a quaresmeira sem se importar com a dor, que aumentava a cada passo.
Esperou longo tempo na chuva, tremendo por causa da febre. Notou que uns gatos se aproximavam. Quando pensava em voltar, Dévon saiu de trás da árvore:
— Você quer que eu te salve?
          Rose não hesitou: foi até a gata e deixou que lambesse a perna ensanguentada.
            Na linda manhã que seguiu a tempestade, acordou sem dor em outro mundo, em que ela e os gatos se compreendiam e se amavam sem abandono.

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