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Boas-Vindas




Luci Afonso
Bom dia.
Confesso que não esperava sua visita. Não acreditei quando me contaram que o senhor havia chegado. Por que eu? Por que agora? Por que para sempre?
Não poderia esperar mais um pouco?
Esforcei-me para acomodá-lo, mas no fundo eu me rebelava contra sua presença em minha vida. Claro que eu tinha ouvido falar do senhor, mas parecia algo tão remoto. Nunca pensei vê-lo de perto. De dentro. Ao lado. À frente.
Não sei como dizer... O senhor não é bem-vindo. Perdoe a franqueza, mas sei que já ouviu isso antes. Eu queria que nunca tivesse me olhado, que nunca tivesse me tocado. Eu seguiria tranquila.
Agora que veio, porém, é preciso recebê-lo bem. Arrumar o quarto, fazer a cama, espanar os móveis. Um hóspede será sempre um hóspede. É bom perguntar o que pretende, do que precisa, quanto tempo planeja ficar. Ou há alguma maneira de convencê-lo a ir embora?
Desde que o senhor chegou, não durmo direito. Passeio pela varanda, conversando com a noite. Não tenho fome, não dou risada. Passo todo o tempo a observá-lo. Pensei que o senhor gostasse de gente mais velha, já vivida, já aproveitada no tempo. Não sabia de sua fascinação pela idade madura, quando ainda se colhem frutos macios. Nem de sua recente obsessão pela juventude, quando ainda se está plantando a árvore.
Tudo bem. Já que o senhor está aqui, farei o melhor que puder para tornar agradável sua estada. Vou apresentá-lo à família. Passearemos à tarde e conversaremos muito. Estaremos sempre juntos. Tentaremos ser amigos.
Mas, se um dia o senhor descobrir que sua vinda foi um engano, que o senhor na verdade procurava alguém muito parecido comigo, quero ser a primeira a saber. Darei uma festa de despedida. Soltarei fogos. Pularei sem medo de cair.
(Ininteligível.) Como? Não foi um engano? Mas por que eu e não outros? (Ininteligível.) Como? Por que outros e não eu?

Não nos apressemos. Temos a vida inteira. O tempo está do nosso lado, principalmente do seu.