Procura-se




Luci Afonso

Não aprendi a miar, só a gemer. Fui abandonada no matagal e perseguida por seres gigantes (aprendi que eram pessoas), que mataram meus irmãos. Meu pelo branco se sujou de lama e minha barriga doeu pelo lixo que comi.

Uma noite, enquanto dormia, puseram-me numa caixa e levaram-me para um lugar cheio de bichos como eu (fiquei sabendo que éramos gatos). Ganhei água e ração. Fui arranhada e mordida e, para me defender, mordi e arranhei.

Colocaram-nos numa gaiola, e fomos para um lugar grande e barulhento (uma pétishóp, disseram). Pessoas entravam e saíam, carregando um de nós. Todos foram levados, menos eu. Ouvi coisas como “feinha”, “selvagem”, “doente”.

Depois de algum tempo, alguém perguntou:
— Só sobrou ela?
— Só, mas ela é muito boazinha.

Fiz barulho para chamar atenção. Queria muito sair dali.
— Ela não mia?
— Não, mas a senhora pode ensiná-la.

Feinha, selvagem, doente e sem saber miar? Quem iria me querer?
— Vou ficar com ela.

Mudei-me para um apartamento grande e confortável, onde nada me faltava. Ganhei um ratinho de brinquedo, um colar com meu nome, uma casinha. Procurava retribuir os cuidados da senhora comportando-me bem, engolindo os comprimidos que ela me dava, usando sempre a caixinha de areia e não derrubando nada.

— Miau! - ela tentava me ensinar todo dia, pondo-me no colo. — Miau! - ela insistia.

Engordei, meu pelo ficou brilhante, não precisei mais de remédios. Todos me achavam linda.

A senhora é que não estava bem. Dormia quase o dia inteiro, andava devagar pela casa, a cabeça baixa, os olhos molhados. Um dia resolvi fazer-lhe uma surpresa: pulei na cama bem cedo, cheguei perto do seu rosto e disse “Miau!” pela primeira vez.

Ela não acordou (entendi o que era saudade).


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