O cronista e o travesseiro


Conceição Freitas

Se a literatura fosse uma cama, a crônica seria o travesseiro. Não tem a imponência nem a robustez do romance, não suporta todas as dores do humano, mas na sua reduzida extensão territorial nos retira do embate diário do viver, convida o sono a se aproximar, abre as portas do sonho, nos afasta momentaneamente dos fatos implacáveis do cotidiano.

Tem gente que não dorme sem seu travesseiro. Eu não durmo sem minhas crônicas. Não as minhas minhas, óbvio. As minhas escritas pelos meus cronistas preferidos. Leio nem que seja um parágrafo ou releio ou trileio. Deixo que o cronista cante no meu ouvido a sua doce canção de ninar.

Fosse escolher a crônica que mais gosto de todas quantas já li, diria que é a de Clarice Lispector sobre Brasília. Não é um texto, é uma revelação, uma epifania. (“Sou atraída aqui pelo que me assusta em mim. — Nunca vi nada igual no mundo. Mas reconheço esta cidade no mais fundo de meu sonho. O mais fundo de meu sonho é uma lucidez.”)

Pego ao léu outras crônicas que me servem de travesseiro. Uma bem curtinha, que me faz rir riso de criança, nem é de um cronista muito conhecido. É do Luís Martins e se chama Tragédia concretista. Ele brinca com a forma das palavras, a sua concretude. Começa assim: “O poeta concretista acordou inspirado. Sonhara a noite toda com a namorada. E pensou: lábio, lábia. O lábio em que pensou era o da namorada, a lábia era a própria”.

Entre os grandes da crônica, meus mestres do fim de noite, está um que também não é muito conhecido pelos textos-travesseiros. É o Millôr, o genial Millôr que faz o maior charme em Notas de um ignorante, na qual ele desfila as muitas humilhações que diz sofrer continuamente. “Em matéria de cultura encontro imediatamente quinhentas pessoas, só entre as que conheço, que sabem mais línguas do que eu, leram mais, falam melhor e mais logicamente, conhecem mais de teatro e citam com precisão escolas filosóficas, afirmando que tal pensamento pertence a esta e contradiz aquela. Que fiz eu?” Dá pra ver que não apenas o poeta é um fingidor, o cronista também.

O Veríssimo é um dos meus travesseiros preferidos, que dona Lúcia me entenda. A da gramática dá vontade de decorar, mas como tenho memória de lesma, deixo o gaúcho encostado na cama, sempre. Se um escritor tivesse de respeitar a gramática com o rigor de um lexicógrafo, diz o filho do seu Erico, “acabaria impotente, incapaz de uma conjunção. A Gramática precisa apanhar todos os dias para saber quem é que manda”.

Antológica também é a crônica de Nelson Rodrigues que definiu o complexo de vira-latas do brasileiro, escrita às vésperas da Copa de 58. Nem é um dos textos mais primorosos da flor de obsessão, mas isso não teve a menor importância. Em sete curtos parágrafos, ele definiu um dos traços mais fortes do caráter verde-e-amarelo.

Acabou meu espaço, que pena. Porque tinha muito mais crônica pra lembrar, cronista pra me embalar, travesseiro pra me acalmar. Ainda bem que, se tudo der certo, mais uma noite virá.

Correio Braziliense / Crônica da Cidade - 07/05/09
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