Literatura sem mitificação


Brasília, sábado, 02 de maio de 2009

Núcleo de leitura na Câmara dos Deputados promove discussões, oficinas e ajuda autores potenciais a perder o medo de arriscar

Pablo Rebello
Fotos: Cadu Gomes/CB/D.A Press

Coordenador do espaço, Marco Antunes defende que o importante para escrever é ter vontade de trabalhar


No oitavo andar do Anexo 4 da Câmara dos Deputados existe uma sala sem número, meio escondida, onde os jogos de poder praticados pelos políticos não têm vez. Em um ambiente com poucos metros quadrados, conhecido e frequentado por algumas centenas de pessoas, as palavras fluem como poesia e a imaginação toma asas. Ali, talentos ocultos se manifestam e textos de toda sorte são produzidos por alunos apaixonados pela arte da escrita. Muitos, inclusive, realizam o sonho de publicar um livro só seu.

A pequena sala leva o nome de Núcleo de Literatura do Espaço Cultural Zumbi dos Palmares da Câmara dos Deputados. O local começou a ser usado como sala de aula seis anos atrás, graças às ações do professor Marco Antunes. Na época, ele prestava assessoria para um partido político e, depois de apreciar algumas exposições que tomavam conta dos corredores da Casa, percebeu que queria trabalhar mesmo com cultura. Com isso em mente, abordou o coordenador do Espaço Cultural e perguntou se tinha como começar um trabalho de literatura. “Para minha surpresa, a resposta foi positiva”, contou.

Assim, o professor fez um projeto e iniciou um ciclo de leitura, onde os alunos se reuniam para ler e discutir grandes autores. Os ciclos incentivaram o professor a bolar uma oficina de contos. Hoje, ele acumula diversos cursos oferecidos para a comunidade gratuitamente. Um dos mais procurados é o de produção de contos, crônicas e poesias. Os cursos são de segunda a sexta, sempre na parte da manhã.

As aulas possuem um caráter dinâmico e os papéis de professor e aluno chegam a se confundir. “Costumo dizer que me sinto um grande anfitrião. Minha tarefa é receber as pessoas e deixar que elas manifestem o que têm de melhor”, resumiu Marco Antunes. “Supostamente, sou o professor, mas, na prática, acho que aprendo mais do que os outros. Ouço tudo que é dito pelos alunos e, muitas vezes, os questionamentos deles me forçam a dar uma resposta que se apresenta como solução para uma dúvida que eu não sabia que tinha.”

Para alguém que entra na sala pela primeira vez, o ambiente pode parecer pequeno. Mas o professor já recebeu e recusou propostas de mover o grupo para uma sala maior. “Essa sala nos dá um acolhimento maior e mais calor humano. Aqui tentamos acabar com o paradigma do escritor solitário, inseguro e acostumado a guardar trabalhos na gaveta. Sabemos que o escritor, no momento em que termina a obra, quer mais é ter opiniões sobre ela. Literalmente mostrar a criança para o mundo”, detalhou Marco Antunes.

Voz alta

Durante as aulas, os alunos são incentivados a ler em voz alta o que escreveram. Atitude que quebra barreiras para muitos, principalmente no que diz respeito à timidez. E o professor costuma brincar bastante com os estudantes mais assíduos. “Quando é que vai sair a publicação do livro mesmo?”, pergunta com frequência. Provocação que surte efeito. Aos poucos, os alunos começam a sentir o prazer de verem os trabalhos publicados, como já ocorreu com Luci Afonso, 49 anos, Roberto Klotz, 51, Alexandra Rodrigues, 51, e Isolda Marinho, 48.

Alguns, como Alexandra e Isolda, já tinham publicado obras anteriormente. Outros, tinham livros na gaveta, como o caso de Roberto. Mas todos concordam que as aulas melhoraram a qualidade dos trabalhos. “Aqui, descobri que também podia ser cronista”, contou Alexandra, que já lançou o livro de crônicas Minha avó botou um ovo, além do livro de poesias O nome das coisas. Ela resume o que faz com uma frase: “Escrevo para que a asa não se parta na curvatura do voo”.

Isolda tem dois livros publicados, Sementes de amora e O viço do verso, ambos de poesia. E não é a única a escrever na família. “Meu filho, atualmente com 19 anos, também passou a demonstrar interesse pela literatura e está prestes a publicar o primeiro romance”, detalhou a mãe.

Crítica, ironia e uma pitada de humor
As aulas no Núcleo de Literatura ajudaram Luci a redescobrir a paixão que tinha pela literatura. “Quando era mais nova, gostava muito de escrever. Mas tinha parado por desânimo e só voltei à ativa depois que descobri este lugar”, afirmou. Desde então, ela lançou o livro de crônicas Velhota, eu? e também se prepara para lançar um outro livro. Apesar da aparência tímida, Luci é dona de um texto que mistura crítica com ironia, sem deixar de lado o humor e a delicadeza.

No caso de Roberto Klotz, ele decidiu cinco anos atrás mudar de vida. Largou a engenharia civil e começou a escrever. No início, era autodidata. Até que, em um sarau, descobriu as aulas na Câmara dos Deputados. “Já tinha descoberto algumas oficinas, mas não sentia empatia com nenhuma delas, que pareciam mais interessadas em arrancar o meu dinheiro. Aqui, me sinto em casa”, lembrou Roberto. “Além disso, meus textos sofreram uma evolução fantástica desde que comecei as aulas.”

Para o professor Marco Antunes, o sucesso dos alunos deve-se aos esforços deles próprios e da perseverança de cada um. “Não acredito muito nesta história de talento, mas sim na vontade de trabalhar. Acho que qualquer pessoa com vontade de desenvolver a arte de escrever pode se tornar um escritor. Por último, não acredito em uma literatura que não seja engajada. Para mim, a escrita deve ter a intenção de provocar mudanças tanto em quem escreve quanto na sociedade na qual essa pessoa vive para ter importância. Caso contrário, se torna uma literatura morta”, concluiu.

PARTICIPE
Quem tiver interesse em saber mais ou se inscrever no Núcleo de Literatura do Espaço Cultural Zumbi da Câmara dos Deputados, basta acessar o site
http://literaturadecamara.sites.uol.com.br/
Subeditores: Cibelle Colmanetti // Gustavo Cunha // Márcia Delgado
Coordenador: Roberto Fonseca
Tels. 3214-1180 • 3214-1181

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