Pátria Palavra



(Para Alexandra Rodrigues)

Pela manhã, a cigana no espelho a convida a seguir em direção à aventura do deserto.
Antes de partir, tem tarefas inadiáveis: libertar o filho da tarefa de caça e devolver a borboleta azul ao âmago da floresta; transformar-se em fada madrinha e vestir a menina de Cinderela sem a abóbora; acolher a ternura do companheiro criado depois dos peixes, dos dinossauros e das aves; dar um pulo na Espanha e beijar a testa de Ramón Sampedro antes que navegue mar adentro; aninhar no colo os meninos e meninas de São Paulo enquanto a cidade cicatriza; conferir a dor nas salas de espera do mundo.
À tarde, os alunos aguardam a professora transvital para juntos buscarem o nome das coisas. Ela os presenteia com um passeio ao Museu da Palavra. Na exposição Papele, ouvirão vozes de quilombos em volta da fogueira, na noite cheia de Áfricas e serenidades. Na mostra Civilização, assistirão ao combate de guerreiros modernos ecoando gritos de guerra e ostentando símbolos tribais pela posse do troféu pré-histórico. Na instalação Planeta, dançarão com os tikunas a dança verde da paz, os pés assentados no barro vermelho do Alto Solimões. No pavilhão Homem, encontrarão machos delicados exercitando o masculino no diálogo com as forças da sensibilidade. Na seção Casa-Mãe, percorrerão largas avenidas da memória e serão acolhidos no útero quente da Terra, a salvo de distâncias e abismos.
À noite, a andarilha do Cosmos tira as sandálias rasteiras douradas, lava os pés humildes com água morna e perfumada e pousa a alma na folha em branco. Alexandra escreve, e suas palavras são ouvidas no coração do Universo.
Imagem: Safo (Afresco, Pompéia, século I d.C.)

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