Nocturno em Sol Maior


Antero Barbosa


O mundo da “Crónica” é a biografia de um modelo literário que ainda hoje ostenta o título de enteado. Não detendo o estatuto dos filhos legítimos, o romance, a novela, o conto, o poema, a poesia. Sendo aparentado a um texto que é um pastiche, a chiclet, de consumo imediato, para ler e deitar fora no mesmo dia, de natureza efémera e volátil, de vida mais curta ainda que a dos insectos que duram um único verão.
Há autores contemporâneos que contradizem esta definição de leveza e usam na Crónica a profundidade. Rubem Braga e António Lobo Antunes, a título de exemplo.
Mas outros há, efectivamente, que, apesar do músculo de seu estilo, a fazem mergulhar na leveza e no light. Designadamente Arnaldo Jabor e Margarida Rebelo Pinto.
Não é a crónica um modelo recente, bem pelo contrário. Atingiu um enorme apogeu no século XIX, século de fulgor jornalístico, porque era o jornal o seu meio privilegiado de veiculação. Daí o seu carácter fugaz de mera notícia diária. Autores houve aí de renome, exímios cronistas: o português Fialho de Almeida, o brasileiro Machado de Assis, o espanhol Leopoldo Alas “Clarin”.
Embora em moldes diferentes, a crónica histórica atinge a mais alta expressão da prosa do Renascimento português com João de Barros, o mais alto estilo medieval com Fernão Lopes e representa alguns dos primeiros documentos literários da língua em textos em prosa de feição historiogáfica, nomeadamente os que se constroem em torno da figura de D. Afonso Henriques (Crónica Geral de Espanha de 1344 e Crónicas Breves de Santa Cruz de Coimbra, IV). De referir que nesta época, textos há que são designados pelo seu masculino: os cronicões.
Mas nós podemos remontar muito mais longe. Ao ano de 460 A.C., ao escriba Esdras, a quem alguns estudiosos imputam a autoria do Livro das Crónicas, incluído no Antigo Testamento, que ele próprio terá copilado.
O que fica dito serve de mero enquadramento ao livro de crónicas de Luci Afonso, “Velhota, Eu?”.
“Crónicas”, não há que fugir ao termo, pois ele vem expresso desde logo na capa, por baixo do título e do nome da autora.
Crónicas que, também aqui, e um pouco como acontece noutros autores, se debruçam sobre o quotidiano, a abordagem do real, também do irreal de que falava José Gomes Ferreira, do rio social que desliza, flui e desemboca.
É um real largamente transfigurado, em que nos é permitido entrar e acompanhar, muitas vezes apenas visionar através de letras e imagens e metáforas.
No quadro em que se desenrolam as cenas invariavelmente deparamos com o vulto de uma figura que o transfigura. É inevitável, impõe-se-nos essa visão. É Luci Afonso, mais propriamente é a narratária.
É ela que nos serve de guia, é ela que ordena o caos das incidências, é ela que lima as asperezas do mundo que mostra e do texto que escreve, é ela que inverte o sentido do que vê ou vive ou cria ou inventa, é ela que lhe cola esse tom imprescindível à crónica: a ironia.
A maioria dos textos são largamente conseguidos, revelando aspectos que ou são novos ou acrescentam ou ampliam os já conhecidos. Enumeraremos três.
A ironia, o humor, o grotesco, são considerados como a excelência na elaboração de crónicas. Autores há que se distinguem por essa arte ou mestria. A de fazer sorrir, a de derrotar com a crítica, a de provocar o riso. Luci Afonso dispõe dessa técnica e desse talento. Conseguindo provocar o riso aberto de quem lê solitário na casa sozinha, riso franco, irresistível, de corpo que se torce. Mas essa técnica é sublimada quando o riso, de tão sincero e irreprimível, se transforma em choro. É o que acontece nessa soberba crónica que leva o título de “O massacre dos quirópteros”.
Por vezes a crónica deixa a onda violenta ou sádica da turbamulta social e desliza na praia doce da prosa poética. É um risco, decerto, mas é a prova de que a inovação e a experimentação devem ser sempre tentadas e aplaudidas. “Diário”, crónica anual dos meses todos, horóscopo tecido de metáforas e alegorias, obra de poesia e pintura e música, assombra pela transgressão. E no final, larga o manto de crónica como a cascavel muda de pele. E o que fica?: para mim, um excepcional poema em prosa, moldado a uma escola literária que muito admiramos: o surrealismo.
“Poemas amantes” é uma pequena obra-prima? Poderá ser, mas não apenas por ser pequena, o molde de texto mais apreciado deste século: que se bebe de um trago, como umas gotas de nevoeiro, uma taça de espumante, ou a hóstia na boca da beata. Porque, além da sua perfeição formal, da síntese de conteúdos, é também a súmula de uma das faces da vida actual. E que demonstra que a felicidade é o que é, é-o quando se vive e por quem a vive, ainda que possa por outrem ser apelidada de baixa e ridícula.
Prova também que pode perdurar em séculos futuros o ambiente e a atmosfera de séculos passados. O clarão poético que brilhou em salões de Paris, do Rio ou do Porto, nas mortas noites de novecentos pode ressurgir ou ressuscitar? “Poemas amantes” prova que sim. Que é possível coincidirem os espíritos de séculos diferentes. Ou, então, que o século actual é feito dos anteriores e que nele ainda vive ou pode perdurar o século XIX, e a Idade Média e inclusivamente épocas mais retardadas.
Mas o que “Poemas amantes”, e o livro globalmente, provam é que, mais e melhor do que do dia-a-dia Luci Afonso nos fala da noite: do noite-a-noite. Porque é na noite, ou nos lugares fechados e escondidos da luz do sol que se desenrola e desdobra o teatro, ao mesmo tempo dramático, épico e cómico de uma das faces do nosso tempo: a vida cultural. Onde, mais que nunca, o que se digladia e analisa e estremece não é mais a poesia ou o poema: são as pessoas. As pessoas amantes de poemas, nomeadamente.
A face da vida cultural, uma das faces do livro se expande em textos tais como “Os soldadinhos de chumbo”, “Ele e elas“ “Agonia e êxtase”. Então “Poemas amantes”, engastado como num rosário à maioria dos textos do livro, expõe um fresco pictórico que se desenrola a nossos olhos. E que demonstra uma predominância. Essa mesma, a da vida cultural, espécie de mulher que se prostitui por gosto nos sítios onde se joga a roleta intelectual de letras e emoções.



Antero Barbosa nasceu no Porto, Portugal, em 1956. É poeta, ficcionista, ensaísta e crítico, licenciado em Estudos Portugueses e dirigente em Escola de Ensino Superior.

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