sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

BANCA SEM PAREDE

BRASÍLIA ASSISTE A RARA CONJUNÇÃO CÓSMIC0-ARTÍSTICA-SENSORIAL-DEGUSTATIVA




POR QUÊ? Porque precisamos transformar o mundo com arte.

QUEM? Escritores incríveis, ilustradores sensacionais, artistas plásticos fantásticos.

QUANDO? Sábado, 10 de dezembro, a partir das 13h.

ONDE? No ponto de maior concentração energética do planeta. Vênus rege a Ala de Escritores e Editoras Independentes.

PICNIK NA PRAÇA DOS CRISTAIS
facebook.com/picniknocalcadao
www.picnik.art.br
bancasemparede@gmail.com
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quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Como nasce uma velhota




Conheça o processo de criação do livro Velhota, eu? 2ª edição 2013
Equipe
Luci Afonso (autora) 
Patrícia Meschick (design e diagramação
Eudaldo Sobrinho - Neno (design e ilustrações)






https://www.behance.net/gallery/26185751/Velhota-eu

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terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Resenha de Velhota, eu? no Bússola Literária





Palavra do Editor

Arisson Tavares da Silva

Novembro de 2016




Nossa sugestão de leitura para o mês de novembro de 2016 foi Velhota, Eu?, de Luci Afonso.

Já de cara, gostei muito da capa e da diagramação da segunda edição do livro (revisada e ampliada). Não é a toa que outra obra da autora, Senhora dos Gatos, foi finalista do 55º Prêmio Jabuti de Literatura na categoria Melhor Ilustração e ganhou o 14º Prêmio Jorge Salim de Excelência Gráfica na categoria Design Gráfico. Enfim, com as ilustrações de Eudaldo Sobrinho e diagramação de Patrícia Meschick, o livro já me encantou só pela qualidade gráfica.

Após começar a leitura, percebi que, para acompanhar textos tão interessantes, a diagramação na verdade estava à altura. Para mim, que conheci pessoalmente a autora, foi divertido ver por meio das letras uma Luci ousada e 100% cômica (que vive escondida por trás de uma senhora aparentemente tímida e de voz baixa).

A crônica que deu nome ao livro é uma prova disso. A narração mostra o sentimento estranho que nasce ao ser chamado de "velho" pela primeira vez. Também ri muito ao ler o texto Barriguda, no qual as pessoas perguntam de quantos meses está o bebê (sendo que ela não está grávida).

Outro destaque é a Oração de uma Recém-Aposentada, na qual satiriza com maestria os medos e anseios de quem vive esta realidade. Também gostei da crônica Ando Esquecendo as Palavras, que apresenta como remédio para memória a leitura em um texto bem inteligente.

Mas não pense que a obra só retrata temas da terceira idade. Pelo contrário! O livro traz algumas crônicas bem poéticas, nas quais é preciso refletir para compreender, além de textos picantes e situações da infância.

No fim, a obra apresenta duas análises bem bacanas, uma do escritor Marco Antunes e outra de Antero Barbosa, que trazem definições de crônica. Tratam-se de dois prefácios (da primeira e da segunda edição).

Gostei muito do livro e indico para todos os tipos de leitores adultos, principalmente os que gostam de se divertir com textos inteligentes (só não indico para os leitores mirins por conter textos um pouco mais salientes, se é que me entende)
.
Fiquei curioso para experimentar novas obras da autora. Sensacional!

http://abussolaliteraria.blogspot.com.br/2016/11/palavra-do-editor-novembro-de-2016.html



A resenha foi também publicada no blog do Arisson:




http://evolucaodecrescentetextos.blogspot.com.br/2016/12/resenhando-12-velhota-eu-de-luci-afonso.html
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domingo, 4 de dezembro de 2016

Bate-papo com Luci Afonso



QUEM DISSE QUE ALUNO NÃO GOSTA DE LER?




Gosta, sim, pelo menos os alunos da E.M. Profa. Auxiliadora Paiva, em Araxá, Minas Gerais.

Veja as fotos do nosso encontro:

https://www.facebook.com/profile.php?id=100000434529474&sk=photos&collection_token=100000434529474%3A2305272732%3A69&set=a.1355298954494576.1073741844.100000434529474&type=3&pnref=story


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terça-feira, 13 de setembro de 2016

Querido Fred


                                                                                                     Luci Afonso

Olhou bem a sua volta, para certificar-se de que não era seguida. Apesar do sol forte, vestia moletom com capuz e óculos escuros enormes, que comprara na Feira dos Importados. Viu-se refletida numa vitrine e concluiu que estava mesmo irreconhecível. Deu duas voltas no prédio antes de descer o lance de escadas para o subsolo mal iluminado.
Eram quatro horas da tarde. Ninguém à vista. As poucas lojas pareciam vazias, inclusive a lojinha do canto, a que se destinava.  Tinha cronometrado toda a operação, sem possibilidade de erro. Virou-se à esquerda e entrou. Uma jovem punk veio atendê-la com um sorriso de fazer inveja:
— Pois não, senhora. Posso ajudá-la?
Nas outras tentativas, tinha chegado até este ponto e recuado, com a desculpa de que se enganara de loja. Hoje, porém, tomou coragem e respondeu:
— Sim, querida.
— Acho que sei o que a senhora deseja. Me acompanhe, por favor.
Foi levada a outra sala, repleta do produto que desejava.
— A senhora tem alguma preferência?
 Olhou as paredes em volta. Tanta variedade que era impossível escolher. Ela só queria sair o mais rápido dali, antes que chegasse alguém.
— Posso dar uma sugestão? — perguntou a vendedora, com uma naturalidade desconcertante.
— Sim, por favor.
Ela escolheu um objeto da vitrine e explicou: — Este é o ideal para quem está começando. É anatômico e usa pilhas AA, fáceis de trocar...
— Quanto? — ela sussurrou.
— Oitenta e quatro reais, incluídas as pilhas. Garantia de um ano.
— Tem desconto no dinheiro?
— Cinco por cento. Sai por apenas 79,80.
— Você tem algum de até 60 reais? É o que tenho na bolsa.
— Tem este, de 59,90 — ela mostrou o produto —, mas sem pilhas. Requer operação manual.
— Vou levar.
— Com ou sem bolas?

— É o mesmo preço? — a vendedora balançou afirmativamente a cabeça e acrescentou:
— É uma boa opção. Este modelo tem muita saída.
— Embrulhe bem, por favor.
— É para presente?
— Não... sim.
— CPF na nota?
— Não precisa.
— Dotz?
— Não.
Saiu da loja com uma sacola preta discreta, sem identificação. Ao entrar em casa, foi direto para o quarto, escondeu a sacola numa gaveta secreta do guarda-roupa e a chave numa gaveta secreta do criado-mudo. 
Esperou todos dormirem para desembrulhá-lo. Era imponente. Na sua base se lia “made in China”. Onde teriam os chineses arranjado o molde?
O anterior, comprado pela Internet, custara apenas 29,90. Tinha pilhas, mas era tão pequeno que o apelidara de Barney. Um dia, esqueceu-o debaixo do travesseiro e a empregada o jogou no lixo, pensando se tratar de uma embalagem vazia. Estava decidido: o novo se chamaria Fred. Tirou o pijama, apagou a luz e se preparou para a estreia. Nesse exato instante, a porta do quarto se abriu: esquecera-se de trancá-la. Felizmente, não era seu filho. Era Hannah, a gatinha branca que sempre dormia com ela. Deixou que se acomodasse e foi trancar a porta. Sempre esquecia o quanto Hannah era curiosa. Quando voltou, a gata já se escondera no forro da cama e mordia Fred com raiva. Indignada, expulsou-a do quarto, desta vez lembrando de trancar a porta.
Partiu para a segunda tentativa. Calçou as meias-ligas de renda preta, passou o batom vermelho paixão e deitou-se na penumbra. As carícias apenas começavam quando ouviu um batido leve na porta. Agora era seu filho, reclamando que a merda da Internet estava fora do ar. Depois de uma eternidade ao telefone com a merda do suporte técnico, descobriram que o problema era a merda de um fio mal conectado ao modem. Resolvido o problema, abraçou o filho e desejou-lhe boa noite.
— Durma com Deus, meu filho.
— Tá.
Agora tinha que dar certo. Deitou-se, relaxou e pensou no namorado, no sexo ardente que faziam, nas fantasias que só ele sabia realizar. Mas ele estava a 500 quilômetros de distância. Tinha de se contentar com Fred. Pegou-o debaixo do travesseiro e ia começar a usá-lo quando se ouviu um estrondo e um gemido. Pôs o roupão e foi verificar do que se tratava.
A mãe idosa caíra da cama e gemia, segurando a perna direita. Era quase surda e tinha perdido metade da visão devido a uma catarata que ela teimava em não operar. Queixava-se de uma forte dor na perna e não conseguia se levantar. O SAMU foi chamado e constatou a fratura no fêmur direito. Levada ao hospital, foi engessada e ficou em observação durante horas, sendo liberada quando o dia já clareava.
Ela acomodou a mãe, deu-lhe os remédios e voltou para a cama para dormir um pouco, pois começava às 8h no trabalho. Na confusão, esquecera-se de Fred. Lembrava-se vagamente de tê-lo guardado, mas estava com muito sono para abrir as gavetas secretas. Hannah dormia espichada na cama.
Dormiu umas duas horas, arrumou-se e foi trabalhar. Passou o dia numa espécie de sonho, em que apareciam o namorado, Fred, Hannah e a mãe engessada. Voltou mais cedo, cuidou da mãe, do filho e da gata, e se trancou de novo no quarto.
Pegou a chave secreta no criado-mudo e abriu a gaveta secreta do guarda-roupa. Fred não estava lá. Vasculhou o quarto e só então prestou atenção na gata. Levantou-a e descobriu que seu querido Fred estava em pedaços. Hannah acordou por um breve instante, mudou de posição e continuou a dormir o sono justo dos gatos.


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sábado, 27 de agosto de 2016

A banca exterminadora


Luci Afonso

Apoiei-me bem no tampo da mesa, dei um grito e levantei-me, ignorando a dor dilacerante nas coxas. Abaixo da cintura, tudo doía. Era preciso enorme esforço para levantar da cadeira ou da cama. O ortopedista diagnosticara inflamação no ciático. Isso porque, nos últimos três meses, eu passara horas incontáveis ao computador, escrevendo meu Trabalho de Conclusão de Curso. Apesar da idade, era a primeira vez que eu fazia o TCC. Quando mais jovem, eu começara a faculdade quatro vezes sem terminá-la. Sempre a mesma história: eu passava no vestibular, iniciava o semestre, ia desanimando, começava a faltar e acabava deixando o curso.
Desta vez, pretendia me formar. O fluxo curricular se invertera, porque eu havia abandonado o Estágio Supervisionado II por medo dos alunos. Agora, ao TCC se seguiriam dois semestres de estágio obrigatório, mas eu só conseguia pensar num problema de cada vez. Terminada a Licenciatura, planejava fazer uma breve pausa, e logo depois uma pós-graduação. Tinha inveja quando alguém me dizia: “estou fazendo uma pós”.
Eu escrevera 51 páginas, 15.397 palavras, 82.971 caracteres sem espaço, 98.205 caracteres com espaço, 401 parágrafos e 1.688 linhas. Consultei vinte livros, 17 artigos acadêmicos, 4 teses de mestrado, uma de doutorado, dicionários diversos. Dediquei especial atenção ao aporte teórico. A orientadora estava satisfeita com o resultado. Senti-me confiante.
Chegou o dia da apresentação. Arrumei cabelo e unhas, vesti uma roupa social. Contratei o serviço do UberBlack e convoquei meu filho a me acompanhar, depois de convencê-lo a tomar banho e a trocar de roupa. Saímos com bastante antecedência, porque a universidade era longe. Eu fazia o curso a distância. Esse seria meu primeiro contato com os professores.
Encontrei a orientadora bem antes do horário agendado, para fazermos os acertos finais. Ela estava aflita porque o PowerPoint ficara muito extenso e ela precisara cortar dezessete slides. Sem problema, eu disse. Meu filho se encarregaria da projeção.
A examinadora chegou um pouco atrasada por causa do trânsito. Era a única na plateia, o que me deixou nervosa: não havia mais ninguém para eu olhar. Aplicando os conhecimentos adquiridos na Oficina de Retórica feita há uns dez anos, adotei o olhar de paisagem, que não se fixa em nenhum ponto específico. Isso me ajudou a suportar os longos quinze minutos da apresentação.
Terminada a defesa da monografia, sentei-me para ouvir as considerações da mestra. O trabalho estava muito bom, ela disse, exceto pelo aporte teórico: eu confundira a análise de discurso de linha francesa com a análise de discurso de linha inglesa. São teorias opostas.
Ela havia lido as 51 páginas no fim de semana e fez questão de explicar cada anotação. Minha confiança foi diminuindo aos poucos. Uma lágrima ameaçou despontar no olho direito. Mantive-me firme enquanto pude, para não causar nenhum trauma ao meu filho, mas desabei quando ela disse que eu havia apenas tangenciado o aporte teórico.  Levantei-me com um grito de dor e pretendia sair correndo da sala, mas elas me abraçaram e me fizeram sentar novamente, enquanto uma delas buscava um copo d’água.
— Não estressa, mãe — disse meu filho, segurando meu ombro.
— Não fique assim, isso é comum — informou a orientadora.
A linguagem acadêmica é muito diferente da literária. Se eu fosse escrever uma crônica, também teria dificuldade — completou a examinadora
À medida que eu me acalmava, elas discutiam uma forma de me ajudar. Decidiram que eu receberia a nota mínima, sob condição de refazer o trabalho em trinta dias, e que conforme o resultado minha nota poderia aumentar. Aceitei.
Enquanto aguardo novas instruções, faço fisioterapia motora para coluna lombar, coxas, joelhos e mãos. Tudo continua doendo, mas estou tranquila: entre mim e o diploma, apenas dois semestres de estágio com alunos da rede pública de ensino. O que pode dar errado? Tenho certeza de que me formarei até os sessenta anos. Depois, vou parar de estudar. Pensando bem, pós-graduação para quê?


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terça-feira, 26 de julho de 2016

Alice pegou o seio


Luci Afonso
Eu brincava de luzes na sala, quando Dôra apareceu na porta da cozinha:
Alice pegou o seio! ela disse, radiante. A segunda neta levara doze horas para nascer e, passados três dias, ainda não pegara o seio materno, que explodia em leite.
A notícia me encheu de esperança. Eu brincava de luzes quando estava triste. Pegava duas ou três pulseirinhas coloridas e transparentes, colocava no braço esquerdo e o movimentava ao sol. De preferência, às dez da manhã, por causa da inclinação da luz. Me sentava perto da janela e observava o reflexo estendendo-se pela sala e criando um círculo ao meu redor. Sempre gostei de reflexos. Parecem carinhos.
Além de brincar de luzes, nos dias mais difíceis segunda, quarta, sexta e domingo eu fazia uma festa de mentirinha. Ligava o rádio bem alto, tirava os chinelos e girava descalça pela casa. Parecia louca, mas estava só triste. A gatinha me concedia a dança a contragosto, e meu filho servia de parceiro relutante, mas gentil.
O melhor mesmo para vencer a tristeza em diferentes graus e latitudes era saber que alguém estava feliz. Alice, por exemplo. Parto difícil, nascera frágil demais para sugar o leite. A mãe se desesperava e a avó permanecia atenta ao celular, até que chegou a novidade.
Ao longo do dia, recebemos boletins frequentes:
Não quer largar mais! Dôra comemorou.
Está mamando feito uma bezerrinha!
Arrotou!
Chorou quando a enfermeira tirou o seio!
Sorriu quando estava mamando!

Alice pegou o seio. Imagino os dedos miúdos acariciando a pele da mãe, enquanto os olhos arregalados acompanham os reflexos do sol na janela. Hoje não seria mais preciso brincar de luzes, nem fazer festa de mentirinha. Alguém estava feliz de verdade.                                                                                                                                                         


Comentários no Facebook

Tarlei Martins  Tão lindo, tão vivo! E tudo colhido no altar do cotidiano. Obrigado por compartilhar! 26 de julho às 10:39

Maria Célia Morici Corrêa   Que delícia de crônica! 26 de julho às 12:50
                                                                                       
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domingo, 26 de junho de 2016

Consentimento



Luci Afonso


Lavar a louça com detergente branco como o gozo da noite passada.

Arrumar a cama, cobrindo os vestígios de amor no lençol.

Dobrar cobertores e alisar travesseiros.

Abrir a janela para iluminar o quarto.

Trocar toalhas manchadas de prazer.

Lavar roupas íntimas a mão com sabonete cremoso.

Separar a lingerie vermelha e as calcinhas de seda.

Deixar de molho para tirar o cheiro do sexo.

Vestir as meias-ligas de renda preta.

Usar a tornozeleira dourada.

Posicionar o espelho na beira da cama.

Esperar nua o barulho da chave na porta.

Abrir devagar o zíper da calça preta.

Gritar “ai, amor”, quando ele a tomar com força.

Consentir quando ele a chamar de “quase noiva”.

Dizer ao seu ouvido “Aceito”, quando ele rugir de prazer.

Ninguém me disse que era tão fácil ser feliz.



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Cinthia Kriemler Que plenitude, hein? Quanta vida nessas marcas e manchas. Feliz por você! E surpresa de te ver escrever poema. O que não faz o amor! 26 de junho às 15:20

Miliane Nogueira Benício Tão bela a sua maneira do seu dizer, amada Luci Afonso.

27 de junho às 22:33

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domingo, 22 de maio de 2016

A vista de cima



                                                                                                                                    Luci Afonso

Beatriz e Cecília Valentina brincam embaixo de um jovem ipê amarelo. Uma delas sobe no pequeno galho onde despontam os primeiros brotos, a menos de dois metros de altura.
Como é a vista aí de cima? — pergunta Beatriz, que está no chão.
Cecília Valentina observa em volta e responde, com enlevo:
— É linda, Beatriz!

Saio cedo para caminhar. Uso chapéu bordado e levo câmera de bolso para registrar os acontecimentos diários flores caídas, folhas ao vento, pessoas ao despertar. É a melhor parte do dia, antes dos sintomas e flutuações dos remédios. A médica recomendou olhar bem onde piso. Já levei dois tombos, típicos da fase em que me encontro, mas não consigo fixar os olhos no chão pelo menos, não enquanto velhinhos encantadores e senhoras estrangeiras tristes cruzarem o meu caminho.
Tenho uma coisa com velhinhos: compartilhamos a insistência em viver. Lembro o Sr. Rubens, o velhinho torto que morava no outro prédio. Fofinho e cheiroso. O Sr. Pernambuco, nobre guardador de carros e de poesia. Dona Flor, esvaindo-se dignamente como a última chama.
Não conheço pessoalmente os velhinhos atuais, por isso dei número a cada um. O Sr. 01 usa bengala, dá passos miudíssimos e leva uma eternidade para chegar ao outro bloco. Tem movimentos mínimos. Por que se dá ao trabalho de sair de casa? O Sr. 02 exibe seu carrinho motorizado, dando voltas e voltas na quadra. Deve ser rico para ter um carrinho desses. Há um assento de passageiro. Talvez eu lhe peça carona qualquer dia. O Sr. 03 é acompanhado por uma morena forte que o leva pelo braço. Eles conversam animadamente. A Sra. 04 também usa bengala e é cuidada por uma jovem quieta e calada. Duas solidões que não se abraçam.
No meio do trajeto, encontro a Sra. Estrangeira 01. É asiática. Anda sempre olhando para o chão e, com certeza, não leva tombos. Não levanta os olhos nem mesmo quando cruza com alguém. Usa um chapeuzinho bege, combinando com a roupa. Nenhum traço de cor, nenhuma estampa. Eu me confundo com o amarelo dos ipês, o vermelho dos flamboiãs e o azul-claro do céu. Às vezes, a paisagem se camufla em mim.
A cada passo, imagino um mundo perfeito. O Sr. 02 convidaria o Sr. 01 para andar no carrinho motorizado; o Sr. 03 caminharia de braços dados com a Sra. 04, conversando animadamente, as cuidadoras rindo ao lado. A Sra. Estrangeira 01 se vestiria de estampado e sorriria sem motivo. Eu perderia o medo de cair.
Cecília Valentina tem razão: é linda a vista aqui de cima.
                                                                                              Janeiro 2016 

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Tarlei Martins   Lindeza guardada em palavras, como sói acontecer pela arte dos grandes cronistas. Gostei em especial deste " Às vezes, a paisagem se camufla em mim". Abs!! 23 de maio às 10:40

Maria Amélia Elói   Suave. Uma delícia. 23 de maio às 11:17

            Francine Figueiredo    Como suas crônicas me encantam! 23 de maio às 14:19  



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domingo, 15 de maio de 2016

Bom dia, Deus


Luci Afonso

Não uso despertador. Às sete em ponto, minha gata Hannah abre a porta do quarto e pula na cama, querendo pescocinho — nome que dei ao carinho no pescoço, que a faz ronronar de prazer. Em troca, ela me lambe com sua linguinha áspera e morde meu dedão do pé, seu eu não estiver acordada. O pescocinho é repetido várias vezes ao dia, e é ela que determina a duração. Quando está satisfeita, levanta-se e vai cuidar da vida.
Durmo mais um pouco. Às sete e quarenta e cinco, Anacleide traz a bandeja com o café da manhã, junto com uma flor que ela roubou no caminho. Não, ela não é homoafetiva, é uma alma pura que se apaixonou por mim e me cerca de cuidados, como se tivesse adotado uma criança grande.   
Preparo-me para caminhar. Faz um pouco de frio, mas eu gosto assim. Me aconchego em mim mesma e dou três voltas na quadra. A cada dia aumento o trajeto, em busca de mais endorfinas.  Depois do banho morno, coloco o vestido longo que sempre uso em casa e os colares de sementes miúdas que eu mesma fiz, a cor combinando com a da roupa. Batom, perfume, e estou pronta para trabalhar.
Dirijo-me ao escritório, bem em frente ao quarto. Acendo o incenso, faço a oração do dia e ligo o computador. As palavras estão lá, frescas e inspiradas pelos sonhos da noite. Elas me esperam para mais um dia de conversas e negociações. Confabulamos em silêncio até sermos interrompidas pelo telefone.
Às dez e trinta, meu namorado liga. Estamos a nove horas de ônibus de distância, mas o encantamento continua. Em seguida, Anacleide traz a bandeja com a vitamina de frutas e o café coado na hora, junto com outra flor. Hannah quer mais um pescocinho. Descanso um pouco enquanto a acaricio.
Vou ao quarto do meu filho doente. Abro a porta e observo o gigante magro encolhido debaixo do edredom, como se ainda estivesse dentro de mim. O cabelo está grande e feio, a barba o faz parecer um homem de cem anos. Passa dias sem tomar banho e insiste em usar uma camiseta velha, cheia de buracos. Só nos abraçamos a meu pedido. Ele me dá beliscadinhas no braço, como jeito de fazer carinho. Sua tristeza, aliada à minha, é mais do que posso suportar. Fecho a porta devagar, remoendo-me de culpa.
Hoje fomos convidados para uma festa de aniversário.  Festas me doem. Meu corpo esqueceu como se dança, meu coração não se lembra  de como sentir alegria. Mas iremos, meu filho e eu, na esperança de algum milagre.
Retorno às palavras, remédio de uso contínuo e prolongado.  Anacleide traz mais um café, Hannah vem pedir outro pescocinho. O dia segue. É o que temos pra hoje, como diria o poeta sem nome.
                                                                                                         Maio/2016

Comentários no Facebook:


Eneida Soares Coaracy     Bom dia Luci! Mergulhei no seu dia. Que seu domingo siga manso e iluminado. Bj   15 de maio às 13:03

Maria Célia Morici Corrêa      Vc é muito forte, Luci! Parabéns! Beijo 15 de maio às 14:41

             Marcia Bandeira     Luci, que texto tão belo e tão triste e tão revelador da alma humana. Sua sensibilidade me emociona profundamente. Beijo nos corações seu e do Ramon🌸🌻🌸 15 de maio às 21:03 
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domingo, 1 de maio de 2016

Para Olivia


Luci Afonso
Olivia querida,
Quando soltamos os balões coloridos em direção ao céu e dissemos em coro “Elicio! Elicio!”, senti-me tão viva!  Quanto mais alto voavam, mais forte era meu desejo de viver. Me perdoa? Seu grito “Acaboooou!”, quase partindo-a em duas, ecoa em mim após tantos dias. Onde encontrou forças para colocar a poesia na roda? Como se lembrou de distribuir rosas, poemas e balões coloridos? Por que agradeceu, quando é você que merece gratidão?
Ao velar o corpo de Elicio, você parecia cuidar de um filho no berço ou de uma planta no jardim. Você reparou que o sol se escondeu, que as nuvens escureceram, que o vento se aquietou? O tempo fechou os olhos e fez um minuto de silêncio para que vocês se despedissem em paz.
Outros falecimentos aconteciam à nossa volta naquela tarde, mas nenhum de um poeta, como o nosso. Dizem que o outono é a estação do ano preferida de quem parte (talvez pela temperatura amena), e a mais temida de quem fica. Dizem também que o fim de tarde é propício a grandes despedidas, pois é nessa hora que se abre o portal do adeus.
Você sabia que minhas palavras voltaram ali mesmo, depois de longo silêncio? Elas haviam me deixado por algum motivo que não sei explicar talvez medo de não ter nada a dizer , mas eu as reencontrei enquanto observava os balões subindo, subindo, até desaparecerem no ar. Chegando em casa, corri ao computador para escrever, antes que elas de novo se sentissem óbvias e desimportantes e se calassem.
 Não é a primeira vez que suas palavras despertam as minhas, adormecidas por alguma razão menor. Estou lidando novamente com seus textos, e sua voz me chega nítida e clara. Não é a primeira vez que sua paixão visceral pela vida — mesmo na ausência dela — me inspira e contagia. Não é a primeira vez que o seu amor ilumina o meu receio de sofrer. Eu estava presente na noite celeste em que vocês se conheceram, e estou agora, na tarde terrestre em que se despedem. Descobri que amo de verdade o homem que já pensei em deixar. Como não agradecer?
Metade de você era verso, Olivia. A outra metade sempre será poesia. O universo fecha os olhos e faz um minuto de silêncio, enquanto os balões coloridos alcançam o eterno finito de Elicio.




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domingo, 10 de abril de 2016

Posse na Academia Internacional de Cultura - AIC








Brasília, DF, 31 de março de 2016
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sábado, 9 de abril de 2016

Boas-Vindas




Luci Afonso
Bom dia.
Confesso que não esperava sua visita. Não acreditei quando me contaram que o senhor havia chegado. Por que eu? Por que agora? Por que para sempre?
Não poderia esperar mais um pouco?
Esforcei-me para acomodá-lo, mas no fundo eu me rebelava contra sua presença em minha vida. Claro que eu tinha ouvido falar do senhor, mas parecia algo tão remoto. Nunca pensei vê-lo de perto. De dentro. Ao lado. À frente.
Não sei como dizer... O senhor não é bem-vindo. Perdoe a franqueza, mas sei que já ouviu isso antes. Eu queria que nunca tivesse me olhado, que nunca tivesse me tocado. Eu seguiria tranquila.
Agora que veio, porém, é preciso recebê-lo bem. Arrumar o quarto, fazer a cama, espanar os móveis. Um hóspede será sempre um hóspede. É bom perguntar o que pretende, do que precisa, quanto tempo planeja ficar. Ou há alguma maneira de convencê-lo a ir embora?
Desde que o senhor chegou, não durmo direito. Passeio pela varanda, conversando com a noite. Não tenho fome, não dou risada. Passo todo o tempo a observá-lo. Pensei que o senhor gostasse de gente mais velha, já vivida, já aproveitada no tempo. Não sabia de sua fascinação pela idade madura, quando ainda se colhem frutos macios. Nem de sua recente obsessão pela juventude, quando ainda se está plantando a árvore.
Tudo bem. Já que o senhor está aqui, farei o melhor que puder para tornar agradável sua estada. Vou apresentá-lo à família. Passearemos à tarde e conversaremos muito. Estaremos sempre juntos. Tentaremos ser amigos.
Mas, se um dia o senhor descobrir que sua vinda foi um engano, que o senhor na verdade procurava alguém muito parecido comigo, quero ser a primeira a saber. Darei uma festa de despedida. Soltarei fogos. Pularei sem medo de cair.
(Ininteligível.) Como? Não foi um engano? Mas por que eu e não outros? (Ininteligível.) Como? Por que outros e não eu?

Não nos apressemos. Temos a vida inteira. O tempo está do nosso lado, principalmente do seu.
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terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Monstrinho


Luci Afonso

Nossa rua tem um retardado que vive numa cadeira de rodas. O nome dele é Geraldo, mas longe dos adultos nós o chamamos de Monstrinho. Fui eu que inventei o apelido, porque ele se parece muito com um monstro que tem no livro da escola.

Geraldo é filho do Zedelino, dono do boteco na esquina com a avenida Getúlio Vargas. O lugar vive cheio, ora de pinguços jogando truco, ora de crianças encardidas comprando balinhas. Todo mundo diz que o Zedelino tem muito dinheiro guardado, mas ninguém tem certeza. Ele só usa roupas surradas e dirige uma Kombi caindo aos pedaços para transportar mercadorias. Eles moram nuns cômodos fedidos no segundo andar do boteco.

Monstrinho passa o dia na janela, olhando o movimento. Só sai para ir ao médico na Santa Casa. Dizem que ele vai viver pouco, por causa do retardamento. Também, pra que viver muito desse jeito? Melhor morrer logo. Igual à mãe dele, que morreu no parto.

Ele nos observa com atenção enquanto jogamos bola à tarde. Sou doido por futebol. Os meninos me chamam de perna de pau, mas sou muito bom no gol. Monstrinho torce por mim. Quando agarro uma bola, ele se mexe na cadeira e sacode os braços deformados. É muito engraçado.
  
No intervalo da pelada, entramos correndo no boteco atrás das balas que o Zedelino nos dá para brincarmos com o filho. De tão velhas, estão grudadas no papel, mas chupamos assim mesmo. Subimos as escadas escuras e fingimos rir com o retardado, quando na verdade estamos é rindo dele. Quando nos vê, ele balança os braços desengonçados, solta grunhidos e expele a baba viscosa. É nojento. Ficamos poucos minutos por causa do fedor de mofo e urina. Na saída, digo ao seu ouvido: tchau, Monstrinho!, o que o faz se agitar ainda mais, dando a impressão de alegria.

Eu e Monstrinho fazemos aniversário quase juntos: ele no dia 9, eu no dia 10. Este ano o Zedelino convidou todas as crianças da rua para a festa do filho. Vestiu-o de camisa nova, sentou-o perto da janela e desceu para esperar os convidados. Só apareceram os bêbados de costume. Ele os reuniu, subiram as escadas e cantaram parabéns. Assistimos a tudo escondidos na varanda de casa. Quase morremos de rir.

Ainda não contei que meu pai tem um comércio grande no Mercado Municipal, descendo a Igreja Matriz. Dá tanto lucro que ele precisa de três empregados para atender os clientes. Nossa casa é a mais bonita da rua. Tem dois andares, varanda em cima. Meu quarto é enorme, cheio de brinquedos.

Na manhã do meu aniversário, a campainha tocou logo cedo. Era o Zedelino, com uma bola embrulhada num papel todo amassado. Ele me deu os parabéns, me entregou o presente e ficou esperando. Entendi logo: ele queria que eu convidasse o Monstrinho para minha festa, mas fiquei calado até que ele desistiu e foi embora. Convidar o retardado para quê? Ele nem deve saber o que é uma festa.

Depois dos parabéns, meu pai me abraçou com força e se trancou na biblioteca. Estávamos estourando balões na varanda quando ouvimos o tiro. Os homens arrombaram a porta e correram para o hospital, mas ele já estava morto. Ouvi cochichos sobre dívidas de jogo, falência, penhora e outras palavras complicadas. Minha mãe disse que precisaríamos nos mudar.

Quando chegamos do enterro, saí andando sem rumo. Era quase noite, a rua deserta. Sentia ódio de todo mundo. Avistei o retardado na luz fraca da janela. Entrei no boteco. O Zedelino não estava no balcão; os fregueses tomavam a dose diária de pinga. Subi as escadas sem ruído. Monstrinho cochilava e despertou quando me viu. Eu disse oi, Monstrinho, e dei-lhe um beliscão que o fez ganir de dor. Continuei beliscando os braços atrofiados, joguei-o no chão e chutei sua cara até sair sangue. Ele urrava como um animal ferido. Atraído pelo barulho, o pai surgiu na escada, agarrou meu braço até quase quebrar e me mandou embora. Não pude ver seus olhos no escuro.

Fiquei no quarto vários dias, com medo da polícia, mas o Zedelino não contou a ninguém o que havia acontecido. Uma noite, a campainha tocou. Era ele. Conversou um tempão com a minha mãe e saiu. Ela subiu a escada, sem fôlego, para me dar a notícia: o Zedelino resgataria todas as nossas dívidas, e nós lhe pagaríamos a juro baixo e a longo prazo. Podíamos permanecer na casa. Ele só fez um pedido, que ela atendeu prontamente: dali em diante, eu brincaria toda tarde com o filho dele, em vez de jogar bola com os outros meninos.

Antes de atravessar a rua, vejo o Monstrinho me esperando na janela. Com repugnância, subo até o quarto espremido e fétido. Agora tem uma empregadinha que nunca nos deixa sozinhos. Ele me olha em silêncio, o corpo disforme jogado na cadeira de rodas, a cara cheia de hematomas. Assistimos ao futebol dos meus amigos a tarde inteira. O Zedelino só me deixa ir quando está escurecendo. Tudo culpa do retardado. No primeiro descuido da empregadinha, vou empurrar a cadeira escada abaixo, para que ele quebre todos os ossos e morra. Só assim poderei jogar bola de novo.

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Kelly Vyanna Sem palavras diante de um texto tão duro, mas também tão repugnantemente humano. Parabéns, querida Luci Afonso. Autora acadêmica da ASLAS.


Maria Montillarez Parabéns!  Um texto incrível, mas cheio da crua realidade.
12 de janeiro às 12:27  
  

                                               
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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira