domingo, 4 de dezembro de 2011

Canto das Letras IV



A última edição do ano do programa Canto das Letras vai contar com a participação da escritora e jornalista Dad Squarisi; do economista, filósofo e escritor André Sathler, e do músico Carlinhos Piauí.

Num bate papo informal, J. Abreu e Isolda Marinho conversam com os convidados sobre literatura, processo de criação, prazeres e dificuldades da arte de escrever.

Os convidados

Dad Squarisi nasceu no Líbano, é professora, jornalista e escritora, residente em Brasília desde 1968. Cursou Letras na UnB e fez especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Exerceu a função de consultora legislativa do Senado Federal. É editora de Opinião do Correio Braziliense, comentarista da TV Brasília e professora de edição de textos do Centro Universitário de Brasília. Assina as colunas Dicas de Português, publicada em 15 jornais do país; Na Ponta da Língua, publicada no suplemento infantil Super, do CB; e Língua Solta, destinada a pré-vestibulandos. Participa de bancas examinadoras de concursos e ministra palestras sobre comunicação e expressão oral e escrita. Tem 5 obras publicadas com este tema.

André Sathler é economista, mestre em Informática e Comunicação e doutor em Filosofia. Escreve regularmente para periódicos científicos e tem dois livros acadêmicos publicados. Lotado no Cefor, no Núcleo de Interação Cidadã, da Coordenação de Educação para a Democracia, começou na literatura, participando de concursos de poesia e publicou seu primeiro romance Davi no Divã (Jacyntha Editores). Atualmente, tem dois romances aguardando publicação, 391 e Reflexos.

Carlinhos Piauí é poeta cantador, vencedor de festivais de música, formado em percussão pela Escola de Música de Brasília. Defensor da cultura popular, traz na bagagem histórias de seu povo, lendas, folguedos e a alegria de sua gente nordestina. Gravou dois cds: Conterrâneo e Estrada e Terreiro. Entre suas influências: Jackson do Pandeiro, Ivanildo Vila Nova, Luis Gonzaga e Alceu Valença Atualmente, é diretor cultural da Administração Regional do Gama. Autor do projeto Caravana Cantadores das Águas, em que faz o levantamento sobre os costumes e tradições do povo ribeirinho do rio Parnaíba no Piauí, onde documenta os diversos expoentes da cultura popular da região.

 

 Serviço

Canto das Letras
9 de dezembro
12:30h
Auditório da TV Câmara
Câmara dos Deputados
Entrada franca
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sábado, 3 de dezembro de 2011

Canto das Letras III




O Espaço Cultural Zumbi dos Palmares promoveu no dia 11 de novembro, com o apoio da TV Câmara, mais uma edição do programa Canto das Letras. Realizado mensalmente, agora no horário do almoço, a fim de possibilitar a maior participação dos colaboradores da Casa, o Canto das Letras recebeu a presença da cantora Marina Andrade e dos escritores Anderson Braga Horta e Francis Espíndola, que apresentaram ao público a paixão pela arte e as diferentes visões que possuem da literatura.

A primeira cantora a participar do programa, revelou gostar mais de compor do que cantar. “Adoro colocar música num texto já pronto. Seja de poetas consagrados, seja de poetas menos conhecidos, como meus amigos poetas de Brasília. Em alguns casos, parece que a melodia já vem certa para aquelas palavras”, explicou Marina.

O tema-chave dessa edição foi a diferença de inspirações que levam pessoas tão diferentes a possuírem o dom da literatura e da música. Anderson Braga, 77, e Francis Espíndola, 19, contaram como veem a literatura atualmente e quais são as expectativas dos artistas para os próximos anos. As motivações que os levam a seguir uma carreira artística com aspirações e visões de mundo tão diferentes, tendo como influência a diferença de idade, tornou o papo ainda mais interessante.

Ao ser questionada sobre o futuro e se existem metas a alcançar na área literária, Francis respondeu não ter qualquer pretensão de escrever muitos livros, nem ganhar prêmios. Apenas escreve e pretende seguir escrevendo, enquanto tiver inspiração.
Anderson deixou uma mensagem para os jovens escritores de hoje: “Vivam, aproveitem a vida e o tempo, sem se deixar levar pelos modismos. Leiam, escrevam”.”

O programa

Em formato de talk-show, o Canto das Letras alia música e literatura, contemplando artistas de Brasília. O apresentador, em um bate-papo informal em que a plateia pode participar, faz a leitura dramatizada de textos dos escritores e conversa sobre carreira e processo de criação, entremeando com as composições.

Convidados

Anderson Braga Horta

Mineiro de Carangola, em Brasília desde 1960, o poeta, contista, ensaísta e crítico literário foi Diretor Legislativo da Câmara dos Deputados. Membro do Sindicato dos Escritores do Distrito Federal, da Academia Brasiliense de Letras e da Academia de Letras do Brasil, Anderson tem mais de 30 obras publicadas. Entre muitos títulos, é vencedor do Prêmio Jabuti de 2001, pela Câmara Brasileira do Livro, e do Prêmio Internacional de Literatura Brasil-América Hispânica, em 2007.

Francis Espíndola

Brasiliense, 19 anos, estudante do terceiro semestre do curso de Letras-Português na Universidade de Brasília, a jovem escritora Francis Espíndola Borges começou a escrever aos 11 anos. Fez um projeto de livro romance infanto-juvenil por volta dos 14 anos e, a partir daí, mantém cadernos e blogs literários. Enquanto aguarda o resultado do Prêmio Literatura do Sesc, ao qual concorre com um livro de contos, Francis frequenta, há um ano, o Núcleo de Literatura do Espaço Cultural Zumbi dos Palmares, onde troca experiências, aprende e se aperfeiçoa na arte de escrever, que faz tão bem.

 Marina Andrade
Cantora, compositora e violonista, Marina Andrade tem um trabalho vasto em musicar textos de poetas consagrados, dentre eles Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Augusto dos Anjos e Fernando Pessoa.

Merece destaque é o CD Versos Íntimos, de Augusto dos Anjos, com nove poemas musicados, nas versões blues, pop, samba, rock e folk. Marina é produtora de trilha sonora para espetáculo teatral e do documentário Eu, estranho personagem, produzido pela TV Senado. Gravou ainda os CDs E a canção é tudo, de sambas antigos, e Canção Excêntrica, com músicas sobre poemas de vários outros poetas consagrados.

Revista da Casa - Câmara dos Deputados, nº 149, 28/11/2011

Canto das Letras
Realização: Espaço Cultural Zumbi dos Palmares
Apresentação: J. Abreu
Produção: Isolda Marinho e Goya Oliveira
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sábado, 26 de novembro de 2011

Aceita-se




Luci Afonso


Aprendi cedo a fazer trocas. Um silêncio por uma aprovação, um sorriso por um carinho, uma dor por um doce, um dente por um ioiô, um ioiô por uma bicicleta.

Aos sete anos, ganhei de Natal um bambolê e a primeira bicicleta. Não dei importância ao primeiro, mas fiquei fascinada pela segunda. Aprendi a andar nela sozinha, no quintal de terra onde antes morava nosso cachorro louco, que teve de ser morto a tiro de espingarda. Agora o lugar era só meu, e eu aproveitava para fazer coisas escondidas, como levar um tombo após o outro. Até que, num domingo depois da missa, veio a inspiração:
— Meu Deus, se o Senhor não me deixar cair, vou beijar o chão três vezes!
Deus ouviu minha súplica, porque na primeira tentativa me equilibrei o suficiente para pedalar até o muro. Renovei o pedido em voz alta e fui atendida. Gritei, e não caí mais. Ninguém presenciou o milagre, por isso a surpresa foi geral quando, naquele dia mesmo, ainda com o gosto de terra, comecei a me exibir na rua.
A proeza causou inveja no meu irmão Porquinho (alguns o chamavam de Leitão), que passou a roubar a bicicleta para andar com os amigos. Se eu tentava recuperá-la, era recebida a pedradas, que nunca acertavam, mas garantiam o domínio masculino da brincadeira.
Após uma semana, já conformada com o bambolê, estranhei quando Porquinho me procurou com jeito de negociante:
— Você tem um dente mole, né?
— Uai, você quer o meu dente?
— Não, bobona, eu quero é o ioiô.
O molar superior estava quase caindo, mas eu trancava os lábios quando alguém se aproximava com o barbante. Havia, na época, uma campanha da prefeitura para incentivar a extração de dentes de leite: “Um dente por um ioiô”.
— Você me devolve a bicicleta?
— Devolvo.
Na manhã seguinte, entrei na fila que dava voltas na pracinha. Quando chegou minha vez, escancarei a boca e deixei que o homem de branco puxasse o dente. Sangrou sem dor. Chorei de alegria: minha bicicleta estava salva.

Passados quarenta anos, a voz suave da neurologista explica que minha condição vai se agravar com o tempo, mas que há grande esperança de cura com o desenvolvimento das células-tronco embrionárias. Dói sem sangue. Não ganho ioiô. Não há trocas, somente a pedrada certeira de Deus.

 
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domingo, 9 de outubro de 2011

Senhora dos Gatos



Luci Afonso

Desceu do ônibus por volta das dezenove horas, como de costume, e quando começou a caminhar percebeu que era seguida. Virou-se, mas não viu ninguém. Andou mais rápido. Quando já entrava na quadra, ouviu um gemido. Tomando coragem, refez seus passos e a viu escondida atrás de uma quaresmeira. A pata direita sangrava. Os olhares de fêmea se cruzaram:
— Você quer que eu te salve?
A gata hesitou, mas finalmente aproximou-se da mulher e esfregou-se na sua perna. Rose sentiu um arrepio e soube, então, que encontrara a razão de sua vida.
Pegou o animal com cuidado e o levou até o apartamento nas 400. Usou o edredom que havia sido da filha para forrar o chão do quarto de hóspedes. Após limpar e tratar os ferimentos, encheu duas vasilhas de plástico com leite e água.
— Você vai se chamar Dévon. — A gata assentiu, lambendo as mãos da salvadora.
Na manhã seguinte, ao sair para o trabalho, Rose estava diferente. Não se sentiu sozinha no ônibus lotado. Respondeu ao bom-dia das colegas de repartição com a alma leve, ao contrário dos últimos meses, em que nem se dava ao trabalho de cumprimentá-las. O toque constante do telefone não a incomodou. A voz do chefe, antes insuportável, soou simpática.
Como estava sem serviço, passou o dia pesquisando na Internet sobre entidades que cuidavam de gatos abandonados. Descobriu uma ONG e filiou-se na hora. A secretária enviou por e-mail o estatuto, o termo de adoção e um manual de cuidados com bichanos.
Antes do almoço, resolveu tomar o remédio para a febre que começara há alguns dias. A comida do bandejão cheirava bem e estava saborosa. Será que haviam trocado a firma? Tomou suco e comeu sobremesa, o que dificilmente fazia. Duas horas depois, estava de novo faminta e devorou um pacote de biscoitos.
Foi com alegria que pegou o zebrinha cheio e se equilibrou durante as loucas manobras do motorista. Havia comprado ração e caixa de areia para Dévon, além de um ratinho de brinquedo. Subiu correndo as escadas do prédio e, ao abrir a porta, constatou, surpresa, que o apartamento estava vazio. Nenhum sinal da gata, nem do edredom no quarto de hóspedes, nem das vasilhas com leite e água, nem dos curativos na pia.
— A diarista! — ela deduziu imediatamente. Pegou o celular e digitou, enraivecida, o número da moça. Com certeza, ela havia se livrado do animal sem consultá-la. O telefone estava na secretária eletrônica. Gravou todos os xingamentos que conseguiu lembrar e despediu a abusada.
Não conseguiu dormir. Imaginava ouvir um miado e um leve arranhão na porta da sala. O corredor, porém, estava vazio. Deixou as janelas abertas, na esperança de que a gata voltasse.
Faltou ao trabalho nos próximos dias e mandou dizer que estava doente. Não tinha fome nem sede. Perdeu a noção do tempo. Quando estava claro, deitava-se no sofá. Quando escurecia, acomodava-se na cama.
Uma noite, não suportando mais a ausência de Dévon, desceu à sua procura. Chovia forte, mas não se preocupou em levar a sombrinha. Logo à saída do prédio, escorregou numa poça de lama e feriu a perna na cerca do jardim. Um fio de sangue escorreu até os chinelos.
A intuição lhe dizia que encontraria a gata no mesmo lugar. Andou lentamente até a quaresmeira sem se importar com a dor, que aumentava a cada passo.
Esperou longo tempo na chuva, tremendo por causa da febre. Notou que uns gatos se aproximavam. Quando pensava em voltar, Dévon saiu de trás da árvore:
— Você quer que eu te salve?
          Rose não hesitou: foi até a gata e deixou que lambesse a perna ensanguentada.
            Na linda manhã que seguiu a tempestade, acordou sem dor em outro mundo, em que ela e os gatos se compreendiam e se amavam sem abandono.

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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira