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Mostrando postagens de 2010

Quanto fazer!

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Luci Afonso
Terminado o exaustivo trabalho da Criação, Deus se espichou na rede para tirar um cochilo.

Ligou o rádio para se distrair um pouco: “Açaí, guardiã, zum de besouro...”
Trocou a emissora. Não suportava letras sem sentido.
Açaí, guardiã, zum...”
Passou para AM: “Açaí, guardiã...” Desligou o aparelho. O jabá do cara era forte.
Resolveu descansar sem música mesmo. Não conseguia relaxar. Será que agira certo ao juntar uma serpente, um homem e uma mulher desocupados e um fruto proibido? Em retrospectiva, parecia uma mistura explosiva.
E era. Teve a confirmação quando pegou no sono e anteviu, em pesadelo, a confusão em que o mundo iria se meter, da primeira à última mordida. Como corrigir a besteira que havia começado se ele mesmo, ao criar Eva, apaixonara-se desesperadamente e não conseguia afastar os pensamentos libidinosos?
Enquanto Deus remexia-se na rede, um enorme besouro aterrissou no nariz do velho e começou a cantar: “Estaí, guardiã...”
— Uma guardiã! — ele finalmente entendeu…

Mensagem

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Cida Sepulveda

Queridas e queridos

A chuva me põe melancólica. A chuva que nos abençoa desde sempre. Mensagens de Feliz Natal e Ano Novo pipocam aos olhos, à cabeça, aos ouvidos. A gente se enche de presentes e promessas. Mas, lá na favela, as meninas cujo pai, condenado e preso por molestá-las sexualmente ganhou a liberdade (elas ouviram falar) muito antes de cumprir os 22 anos de cela, elas, quatro lindas garotas, se amontoam junto à mãe e o irmão (que já começa a agredi-las), em dois cômodos abarrotados de coisas, desejos, infortúnios, tédio, medo, solidão, falta... A falta que Manoel de Barros sempre aponta em meus textos: “o amor de alguma falta”.
“O amor de alguma falta” que me move; que me vitaliza: usar a palavra para contar a história dos que estão amarrados à condição menor, humilhante, incapacitante, através da poesia, a que não exclui ninguém, muito embora, alguns espíritos doentios costumem dizer que a grande arte é para poucos. Há tanta poesia nessas meninas que visitei h…

E por vezes

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David Mourão-Ferreira
E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
Nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
Lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos

(Poema recitado no Sarau de Portugal.)

Sarau de Portugal

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Tuka Villa-Lobos canta Amália Rodrigues, Madredeus, Dulce Pontes e Mariza

Poemas de

Camões
Almada Negreiros
António Gedeão
José Régio
Raul Solnado
Florbela Espanca
Antero de Quental
Mário Sá Carneiro
Miguel Torga
Antunes da Silva
Fernando Pessoa

No sarau serão revelados os vencedores nas 10 categorias do 6º Desafio dos Escritores.
Sarau de Portugal

16 de dezembro
Instituto Cervantes - 707/907 SUL
20h
Coquetel: bacalhau, vinho e sobremesas conventuais
Entrada franca

Quinta Crônica Especial

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Ligados pelas palavras

Sérgio Maggio
Com entrada franca, Quinta Crônica reúne a poeta Isolda Marinho e o cronista e romancista Gabriel Marinho, em noite com canções de Djavan.
Eles adoram brincar com as palavras. Fazem delas companheiras de todas as horas. De vocábulos, Isolda constrói poemas, e Gabriel, crônicas e romances. Mãe e filho, de sobrenome Marinho, dialogam com a língua portuguesa para expressar sentimentos e inquietudes. Na quinta-feira, dia 9 de dezembro, às 19h30, com entrada franca, eles se encontram no Quinta Crônica para falar de aproximações e diferenças. No palco do Auditório do Cefor (Centro de Formação da Câmara dos Deputados), o ator e diretor J. Abreu dramatiza os textos dos Marinho, enquanto o músico Alex Souza interpreta canções de Djavan, numa espécie de talk-show ao vivo. "O bacana é reunir duas gerações de literatura da mesma família. Ele traz a juventude . Ela, a experiência. Acredito que será rico e produtivo", observa J. Abreu.
Em cena, Isolda e Ga…

Aos Amantes da Cultura

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Nestor Kirjner

Caros amigos e amigas, Amantes da Cultura,


Quero fazer um convite especial a todos vocês, Amantes da Cultura. Em sua terceira montagem teatral, a Cia. de Teatro Bazáridas ousa novamente, e apresenta-nos um texto de Shakespeare, que é sempre uma prova de fogo para qualquer grupo de teatro que se preze. Depois do sucesso da montagem anterior (uma adaptação de "Dom Quixote", de Cervantes), agora a Bazáridas nos traz uma adaptação de uma das mais polêmicas peças do bardo genial, "O Mercador de Veneza".
Todo mundo sabe o quanto é penoso fazer teatro no Brasil. Por isso, é sem nenhum constrangimento que peço a todos os Amantes da Cultura que prestigiem essa montagem e divulguem-na entre seus amigos motivados pela arte ou pela admiração ao teatro.
Com certeza, não convidaremos dona Bárbara Heliodora para enxergar defeitos e cair de pau nos detalhes da montagem. Mas convidaremos você a avaliar e talvez valorizar esse esforço de um grupo de jovens visionários, q…

Crônica nº. 1

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Rachel de Queiroz

Tanto neste nosso jogo de ler e escrever, leitor amigo, como em qualquer outro jogo, o melhor é sempre obedecer às regras. Comecemos portanto obedecendo às da cortesia, que são as primeiras, e nos apresentemos um ao outro. Imagine que pretendendo ser permanente a página que hoje se inaugura, nem eu nem você — os responsáveis por ela, — nos conhecermos direito. É que os diretores de revista, quando organizam as suas seções, fazem como os chefes de casa real arrumando os casamentos dinásticos: tratam noivado e celebram matrimônio à revelia dos interessados, que só se vão defrontar cara a cara na hora decisiva do "enfim sós”.
Cá estamos também os dois no nosso "enfim sós" — e ambos, como é natural, meio desajeitados, meio carecidos de assunto: Comecemos pois a falar de você, que é tema mais interessante do que eu. Confesso-lhe, leitor que diante da entidade coletiva que você é, o meu primeiro sentimento foi de susto —, sim, susto ante as suas proporções qua…

O gigolô das palavras

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Luis Fernando Veríssimo

Quatro ou cinco grupos diferentes de alunos do Farroupilha estiveram lá em casa numa mesma missão, designada por seu professor de Português: saber se eu considerava o estudo da Gramática indispensável para aprender e usar a nossa ou qualquer outra língua. Cada grupo portava seu gravador cassete, certamente o instrumento vital da pedagogia moderna, e andava arrecadando opiniões. Suspeitei de saída que o tal professor lia esta coluna, se descabelava diariamente com as suas afrontas às leis da língua e aproveitava aquela oportunidade para me desmascarar. Já estava até preparando, às pressas, minha defesa ("Culpa da revisão!", "Culpa da revisão!"). Mas os alunos desfizeram o equívoco antes que ele se criasse. Eles mesmos tinham escolhido os nomes a serem entrevistados. Vocês têm certeza que não pegaram o Veríssimo errado? Não. Então vamos em frente.
Respondi que a linguagem, qualquer linguagem é um meio de comunicação e que deve ser julgada exclus…

Li e Amei

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Fiquei encantada com o livro "Estou na quadra", de Fátima Bueno, Thesaurus Editora, 2010, e o recomendo a todos os que amam Brasília, em especial a Asa Norte.



Leia um capítulo do livro.


(Digigrafia: Lígia de Medeiros) 
Conheça o projetoIconografia Aplicada DF, que Fátima Bueno integra como artista plástica.

40º Sarau da Câmara dos Deputados

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Serviço
Baile de Máscaras em Veneza - 40º Sarau Literomusical da Câmara dos Deputados
Data: 25/10/2010
Hora: 20 horas
Local: Teatro Garagem do SESC na 913 Sul.
Coquetel: festival de massas com vinho

Entrada franca

Esta primavera

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Luci Afonso
Esta primavera vou ficar em casa.
Deitada no sofá, ouço o grito suicida das cigarras. Debruçada na varanda, recolho pingos frescos de chuva, os primeiros e os últimos. À noite, a lua atravessa a persiana do quarto e ilumina meu corpo, enrodilhado no lençol de quinhentos fios egípcios.
Companhia, só quero a do filho, da mãe e do gato, prolongamentos espontâneos de mim. Vozes, somente a dos fantasmas queridos, das crianças bem pequenas ou dos velhinhos solitários. Carícias, apenas a do vento que gentilmente me refresca o rosto.
Os homens não me olhem: estou feia. Os amigos não me procurem: estou ausente. Para quê encontrar pessoas? Já conheci todas que posso suportar.
Não preciso de fatos — o mundo gira sem mim. Só me interessam a folha caída na grama e o poema sussurrado pela árvore antiga.
Desvaneço nesta primavera invertida. Embrenho-me na profundidade escura da terra para implodir meu canto, até que a morte branca do ipê venha me nutrir de seiva bruta para a próxima estação.…

Carta

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Mário Quintana Meu caro poeta,

Por um lado foi bom que me tivesses pedido resposta urgente, senão eu jamais escreveria sobre o assunto desta, pois não possuo o dom discursivo e expositivo, vindo daí a dificuldade que sempre tive de escrever em prosa. A prosa não tem margens, nunca se sabe quando, como e onde parar. O poema, não; descreve uma parábola traçada pelo próprio impulso (ritmo); é que nem um grito. Todo poema é, para mim, uma interjeição ampliada; algo de instintivo, carregado de emoção. Com isso não quero dizer que o poema seja uma descarga emotiva, como o fariam os românticos. Deve, sim, trazer uma carga emocional, uma espécie de radioatividade, cuja duração só o tempo dirá. Por isso há versos de Camões que nos abalam tanto até hoje e há versos de hoje que os pósteros lerão com aquela cara com que lemos os de Filinto Elísio. Aliás, a posteridade é muito comprida: me dá sono. Escrever com o olho na posteridade é tão absurdo como escreveres para os súditos de Ramsés II, ou para…

A rosca

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Luci Afonso
— Já chegou?

— Será que vem hoje?

— Está atrasado!

— Custava telefonar?

Todo dia aguardava-se ansiosamente a chegada do Túlio, muito querido pelo temperamento alegre e brincalhão, mas, principalmente, pela deliciosa rosca rainha que trazia há quase vinte anos para o café da manhã. Alguns colegas vinham trabalhar em jejum para saborear a iguaria; outros, mais antigos, que já poderiam ter se aposentado, não o faziam por causa da rosca. A copeira, Dona Joana, apesar do diabetes, sempre garantia um pedaço. Ninguém conseguia se concentrar no trabalho antes de comer uma fatia.
Às 9h40min, Túlio descia a escada com os cheirosos embrulhos. Sempre trazia acompanhamentos: pães de queijo quentinhos, bolos variados e pães de mel. Um adolescente ficava à porta, encarregado de dar o sinal: — Chegou! — a notícia se espalhava e, em minutos, o corredor estava lotado.
A fama da rosca ultrapassara as fronteiras da seção e alcançara os ouvidos do Diretor, que abriu espaço na agenda para provar a…

Exposição de Motivos

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Luci Afonso

Sr. Diretor,

Venho respeitosamente solicitar a transferência dos servidores relacionados em anexo, pelos motivos que exponho a seguir.
Esclareço que a principal razão deste pedido é a contínua insubordinação da referida equipe às determinações desta gerência, bem como o inaceitável descumprimento do horário por nós estabelecido.
Destaco, entre outros, os procedimentos que considero inadmissíveis:
- a equipe costuma trabalhar a portas fechadas, sempre às gargalhadas — suspeita-se do uso de alguma substância ilícita;
- os servidores foram surpreendidos fazendo brincadeiras absurdas, como a alegada “dança das cadeiras”, supostamente destinada ao relaxamento e à descontração;
- ditos servidores perdem muito tempo em atividades inúteis, como soltar bolhas de sabão, argumentando que tal exercício favoreceria o espírito criativo — não apenas soltaram as bolhas, mas pularam, dançaram, fotografaram e escreveram sobre o assunto;
- são adeptos da moda hippie, chegando ao cúmulo de tirar os …

O livro de Olivia

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Mario Pontes

Neste livro de estreia, Em rio que menino nada raia não ferra, Olivia Maria Maia reconstitui, com notável força poética, paisagens e figuras humanas do início de sua vida em meio às terras, florestas, águas, dias e noites do Acre. Por vários motivos, a ficção de Olivia atrai o interesse do leitor. Primeiro, pelo modo firme como suas narrativas são construídas, proporcionando um bom equilíbrio entre os elementos memorialísticos e a invenção dramática. Segundo, pela qualidade do humor, que não interfere na viagem ao interior dos personagens, mas contribui, ao contrário, para revelar sua riqueza ou pobreza interior. Finalmente, porque ela capta os movimentos da existência no âmbito do próprio ato de viver, levando suas criaturas a entrar e sair vivas das histórias, e não apenas a circular sem propósito no interior de cada página.


O cearense Mario Pontes é jornalista e escritor. Publicou diversos livros de ficção e ensaios. Traduziu 25 livros, entre os quais “O saber grego”.
(…

Escrevo porque...

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Gabriel Marinho
Escrevo para exorcizar fantasmas. São muitos e alguns se esquivam. Escrevo para espantar e trazer meus sentimentos à tona, sendo louco e, ao mesmo tempo, curando a minha loucura. Escrevo por destinação, vício, doença, patologia. Escrevo para justificar uma vida que eu não gostaria que fosse minha.
Imagino e idealizo sempre. Todos os defeitos são louváveis perto dos meus. Cada vida sofrida e amaldiçoada é a dádiva que anseio. Toda família desajustada e cada má influência são o âmago de um lar que jamais tive.
Dos meus mundos, apenas quem surge na minha imaginação participa. Cada derrocada, irregularidade, queda, quebra, choro e dor são perfeitamente dinamizados para me causar admiração e inveja, atingindo a beleza que os meus problemas jamais revelam.
Escrever é uma dádiva e uma maldição. Às vezes, mais um do que outro.
Muito suor e sangue nos dedos. Uma centrífuga acende na cabeça. Está bom? Está horrível? Nunca estará como eu pretendo.
O escritor é um guerreiro indômi…

Em rio que menino nada raia não ferra

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Em rio que menino nada raia não ferra é o primeiro livro de contos e crônicas de Olivia Maria Maia, que será lançado na próxima terça-feira, 17 de agosto, às 19h30, no Martinica Café, na 303 Norte.
Olivia Maria Maia nasceu em Rio Branco — Acre, onde viveu a infância entre banhos em rios e igarapés e brincadeiras em quintais sem cercas. Mora em Brasília desde 1972.
Uma mulher que se transforma em criança, com a alma cintilando nos olhos. Mulher do norte, firme e forte, que às vezes fraqueja, mas nunca foge da luta; que dança ciranda, frevo e samba, imitando o compasso da vida, e bota muita gente pra dançar quando roda a baiana; que tanto sabe tocar os atabaques como as harpas dos anjos.
E Olivia vai por aí, na procissão da vida, com todo o cuidado com o andor, pois o santo é de barro, lembrando o que lhe disse o Bita, profeta das ruas acreanas: ainda vai chover muito nesse teu roçado. Agradecida, ela roga que as águas do céu sejam abençoadas por Vênus, Atena, Ísis, Yemanjá, que fertilize…

Pequeno texto para Cinthia

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Luci Afonso
Busco as palavras de Cinthia quando estou sedenta, e nelas sempre me sacio. Uma frase, e a tristeza desvanece; outra, e a solidão se retira, sem argumento.
Tantas palavras!... Se está triste, ela escreve. Se está feliz, também. Inspira, escreve, expira, reescreve. Humaniza sujeitos, esculpe advérbios, semeia adjetivos.
...E tão belas! A florzinha miúda e o jardim recatado nunca mais ficarão sem poda. A saudade descansa, a esperança enflora: há grandeza plantada aqui.
Um parágrafo de Cinthia suaviza dores do corpo ou da alma — um conto inteiro pode curar o câncer.




Leia alguns contos de Cinthia Kriemler neste blog.
Conheça as palavras abraçadas de Cinthia.
Veja fotos do lançamento no fotolog à direita.

Religare

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Nascido no Rio de Janeiro e criado em Brasília, o artista plástico Marco Aurélio Tavares, o Lelo, cresceu ouvindo relatos do pai, de origem nordestina, sobre as romarias em Juazeiro do Norte, Estado do Ceará. Ao ver reportagens sobre os devotos do Padre Cícero, o artista sentiu-se atraído pela força da expressão de pessoas humildes, muitas idosas, que tinham na fé a principal razão de viver.
Em 1990, Lelo começou a acompanhar manifestações religiosas pelo sertão do Nordeste. Conheceu de perto os romeiros, compartilhando suas refeições, rezas e cantos. Tirou centenas de fotos, muitas transformadas em telas grandes, outras, em pequenos relicários. Algumas pinturas foram reproduzidas no livro-catálogo Religare, que também compõe esta exposição.
Na mostra Religare, o artista une fotografia, desenho e pintura para dar o testemunho apaixonado da profunda religiosidade do povo brasileiro, que, em meio à pobreza e ao sofrimento, encontra forças para dialogar tranquilamente com Deus. O olhar pur…

“Desde pequeno, ouviu dizer que é diferente”

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Gabriel Marinho

Luci Afonso pensa como a maioria. Cada um tem a sua própria acepção da palavra. A conotação pode ser boa ou ruim. Tantos julgamentos e ideias que às vezes pensam que eu não tenho a mínima noção de como sou. O que é ser diferente para mim?
As diferenças mudam conforme o tempo, de acordo com a idade, as descobertas e a vivência. Alteram-se os meios, jamais a palavra.
Diferença invisível, fácil de ser misturada com as normalidades, que se agiganta quando provocada, no bom e no mau sentido.
Diferença que te coloca acima do outro e que jamais deve ser admitida. A linha divisória da arrogância é tão fácil de ser rompida que é preciso se policiar.
Diferença que te mantém vivo por dádiva ou equívoco. Os diferentes mudam o mundo, nunca a si mesmos.
Diferença que me faz triste por não ter e feliz por possuir. Enquanto não somos descobertos, o que temos perde o sentido.
Diferença por diferença, quem não tem? Num mundo de valores distorcidos, cabe a todo mundo julgar. Menos você.

Parvoíces

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Alexandra Rodrigues
Parvoíces do teu primo – foram as primeiras palavras que li no ar, contaminadas ainda de solo lusitano. Estavam escritas em letra familiar num envelope que acompanhava meia dúzia de presentes escolhidos com a ternura de quem muito bem se quer e pouco se encontrara nos últimos anos. Parvoíces, um termo que se infiltrara nos subterrâneos da minha memória. Uma palavra de sentido duvidosamente pejorativo, que navegava pelo oceano de memórias do meu passado. Sabia que era impossível traduzir. Ainda tentei fazê-lo, mas era uma parvoíce traduzir intenções que só fazem sentido na cultura portuguesa. E assim, pus-me a relembrar as parvoíces vividas na última tarde de visita a Lisboa, na esperança de compreender o sentimento que percorre tão inusitado vocábulo.
Eram três horas da tarde de um escaldante domingo de Agosto. Embrenhei-me pelas estreitezas misteriosas de Alfama na direção do saudoso beco das origens, berço de meus pais. Vi-me cercada pelas alturas apertadas de préd…

Carta de uma estudante do Parque Oziel

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Campinas, 14 de junho de 2010

Olá! Luci Afonso, meu nome é Jéssica, tenho 14 anos e queria lhe dizer que gostei muito do seu livro.
Li ele pela metade, mas cada crônica que li, fiquei imaginando as cenas. Eu entendi quase todos, menos o "Suspeito moreno, alto e forte" que eu não entendi o final.
Mas você está de parabéns, o seu livro é muito bom! E interessante. Eu nunca gostei de ler, mas o seu livro despertou a minha imaginação. Quando eu começo a ler, não consigo parar até meus olhos arderem.
Eu gostei da crônica da mulher que consultava um psiquiatra que a tratava muito mal, e no final da história ela descobre que o psiquiatra e mais um homem eram assassinos.
E também gostei da crônica do menino que tinha inflamação nas pernas e ele não andava, achei muito interessante porque você usou muito a sua imaginação e eu também usei para entender a crônica. E foi muito solidário as duas senhoras que o ajudaram.
Parabéns, continue escrevendo!

Jéssica Françoso


Brasília, 27 de junho de 201…

Os 4 Rs

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Luci Afonso

Os catadores da cooperativa de reciclagem que nos visitam esta manhã são humanidade pura. Cem por cento gente. Altamente recomendados pela Organização Mundial de Saúde.
Janilson é diretor-presidente, motorista, ajudante de serviços gerais, apartador de brigas e técnico de futebol. Trabalha o dia inteiro e, à noite, aprende a ler. Adora a palavra “cidadania”. Sempre foi empreendedor: assim que chegou a Brasília, adquiriu o primeiro cavalo — carinhosamente batizado de César Sampaio, em homenagem ao ídolo — e construiu a primeira carroça. Aos poucos, foi aumentando e terceirizando a frota equina, até não precisar mais trabalhar na rua. Hoje, tem carro. Sua maior revolta é a desclassificação do time da cooperativa no último campeonato da segunda divisão brasiliense.




Cícero tem a mesma idade de Brasília. Baiano trabalhador, para desmentir a má fama dos conterrâneos. Vaidoso e falante, tem muita história pra contar de hoje pra ontem. Foi garrafeiro, andou de carroça pelo país, derr…

Alento em Branco Maior

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Luci Afonso
O homem construiu o ambiente urbano em concreto e agora busca respirar no vazio branco que lhe resta em meio aos edifícios sem cor. Neste cenário, a natureza é só um detalhe: em vermelho, como a vida, ou em azul, como o céu.
Sufocado pela paisagem árida que forjou com descuido e indiferença, o ser humano procura a sensação de liberdade à beira de um espelho d’água que ainda o refresca ou ao lado de outro ser — um amigo, um pássaro, uma flor — que ainda o compreende.
É difícil fazer o simples. Na mostra Alento em Branco Maior, o jovem Helano Stuckert constrói um diálogo eloquente entre os poucos elementos que compõem suas fotografias. Desapego e simplicidade são marcas na vida e na obra deste artista que, ao longo de quatro anos, registrou momentos de intensa solidão e de luminosa esperança nas metrópoles por onde andou.
Escondido atrás da lente, Helano realça a amplidão branca em contraste às duras linhas do concreto, à sombra de grades e muros que aprisionam e à geometria …