domingo, 19 de dezembro de 2010

Quanto fazer!


Luci Afonso

Terminado o exaustivo trabalho da Criação, Deus se espichou na rede para tirar um cochilo.

Ligou o rádio para se distrair um pouco: “Açaí, guardiã, zum de besouro...”

Trocou a emissora. Não suportava letras sem sentido.

Açaí, guardiã, zum...”

Passou para AM: “Açaí, guardiã...” Desligou o aparelho. O jabá do cara era forte.

Resolveu descansar sem música mesmo. Não conseguia relaxar. Será que agira certo ao juntar uma serpente, um homem e uma mulher desocupados e um fruto proibido? Em retrospectiva, parecia uma mistura explosiva.

E era. Teve a confirmação quando pegou no sono e anteviu, em pesadelo, a confusão em que o mundo iria se meter, da primeira à última mordida. Como corrigir a besteira que havia começado se ele mesmo, ao criar Eva, apaixonara-se desesperadamente e não conseguia afastar os pensamentos libidinosos?

Enquanto Deus remexia-se na rede, um enorme besouro aterrissou no nariz do velho e começou a cantar: “Estaí, guardiã...”

— Uma guardiã! — ele finalmente entendeu, antes de acordar no chão. — Uma guardiã da humanidade! Mas será que ela dará conta da missão?

Nesse momento, o rádio misteriosamente ligou-se sozinho: “Para ser o serviçal de um samurai...” Desta vez, captou a mensagem de primeira: — Um ajudante, é claro! Basta criar uma guardiã e dar-lhe um auxiliar para juntos socorrerem os bobos que “comerem a maçã” — não pôde evitar um risinho malicioso.

Satisfeito com a solução encontrada, só restava formatar as criaturas. A guardiã seria mulher, é claro, pois desde o início já se sabia que era o sexo forte. Combativa, incansável, colérica, se necessário, e amorosa ao extremo. Mas e o ajudante? Outra mulher? Deus sentiu um arrepio ao imaginar duas Evas juntas, mas controlou-se. Não podia correr o risco.

Um anjo era uma boa alternativa. Ou uma criança. Melhor ainda, um anjo-criança! Exausto, Deus começou a delirar: — Terá o poder da telecinese, da telepatia, da invisibilidade, a força do Hulk, as garras do Wolverine...

Ao perceber o exagero, resumiu: — Falará até sem palavras e abençoará com a simples presença todo lugar onde estiver.

Dizendo isso, deu a tarefa por terminada, tomou meio Lexotan e desabou na rede.

Aaaaaiii, quanto fazer, mas eu tô tão feliz! — cantarolou antes de mergulhar no sono.


(Esta crônica foi escrita para presentear Isolda Marinho, minha "amiga oculta" deste ano.)
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Mensagem


 Cida Sepulveda


Queridas e queridos

A chuva me põe melancólica. A chuva que nos abençoa desde sempre. Mensagens de Feliz Natal e Ano Novo pipocam aos olhos, à cabeça, aos ouvidos. A gente se enche de presentes e promessas. Mas, lá na favela, as meninas cujo pai, condenado e preso por molestá-las sexualmente ganhou a liberdade (elas ouviram falar) muito antes de cumprir os 22 anos de cela, elas, quatro lindas garotas, se amontoam junto à mãe e o irmão (que já começa a agredi-las), em dois cômodos abarrotados de coisas, desejos, infortúnios, tédio, medo, solidão, falta... A falta que Manoel de Barros sempre aponta em meus textos: “o amor de alguma falta”.

“O amor de alguma falta” que me move; que me vitaliza: usar a palavra para contar a história dos que estão amarrados à condição menor, humilhante, incapacitante, através da poesia, a que não exclui ninguém, muito embora, alguns espíritos doentios costumem dizer que a grande arte é para poucos. Há tanta poesia nessas meninas que visitei hoje, sábado, 18 de dezembro de 2010, tarde chuvosa, inocente e bela como os olhos cintilantes de jovens que brotam da terra invadida.

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E por vezes




David Mourão-Ferreira

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
Nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
Lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos

(Poema recitado no Sarau de Portugal.)
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domingo, 12 de dezembro de 2010

Sarau de Portugal

Tuka Villa-Lobos canta Amália Rodrigues, Madredeus, Dulce Pontes e Mariza

Poemas de

Camões
Almada Negreiros
António Gedeão
José Régio
Raul Solnado
Florbela Espanca
Antero de Quental
Mário Sá Carneiro
Miguel Torga
Antunes da Silva
Fernando Pessoa

No sarau serão revelados os vencedores nas 10 categorias do 6º Desafio dos Escritores.

Sarau de Portugal

16 de dezembro
Instituto Cervantes - 707/907 SUL
20h
Coquetel: bacalhau, vinho e sobremesas conventuais
Entrada franca
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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Quinta Crônica Especial


Ligados pelas palavras


Sérgio Maggio

Com entrada franca, Quinta Crônica reúne a poeta Isolda Marinho e o cronista e romancista Gabriel Marinho, em noite com canções de Djavan.

Eles adoram brincar com as palavras. Fazem delas companheiras de todas as horas. De vocábulos, Isolda constrói poemas, e Gabriel, crônicas e romances. Mãe e filho, de sobrenome Marinho, dialogam com a língua portuguesa para expressar sentimentos e inquietudes. Na quinta-feira, dia 9 de dezembro, às 19h30, com entrada franca, eles se encontram no Quinta Crônica para falar de aproximações e diferenças. No palco do Auditório do Cefor (Centro de Formação da Câmara dos Deputados), o ator e diretor J. Abreu dramatiza os textos dos Marinho, enquanto o músico Alex Souza interpreta canções de Djavan, numa espécie de talk-show ao vivo. "O bacana é reunir duas gerações de literatura da mesma família. Ele traz a juventude . Ela, a experiência. Acredito que será rico e produtivo", observa J. Abreu.

Em cena, Isolda e Gabriel Marinho vão falar de processo de criação, influências e histórias de vida. Autora de Sementes de amora, Viço do verso e Beijo de tangerina, Isolda iniciou-se na poesia ainda menina de 14 anos. "Ainda guardo até hoje cadernos e folhas avulsas de meus escritos daquela época. Descobri na poesia uma forte aliada, uma amiga companheira, mãe e irmã", conta a mãe de Gabriel que, aos 17 anos, escreveu o romance O mundo depois do fim. "Dizem que herdei dela a veia poética para escrever, com muitas metáforas. Acredito que, nesse aspecto, a única diferença seja o discurso", aponta o filho.

Na ocasião, os autores vão autografar seus livros.

A venda do livro Beijo de Tangerina vai para a Campanha Natal sem Fome

Será servido coquetel.

Quinta Crônica

Dia 9 de dezembro (quinta-feira)
19h30
Auditório do Cefor (Via N3 - Setor de Garagens Ministeriais Norte - Complexo Avançado da Câmara dos Deputados - Bloco B).
Contato 3216-1816, pela manhã, ou 8153-8707.
Entrada franca.
Classificação indicativa livre.

(Vejam Fotos/Eventos à direita.)
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quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Aos Amantes da Cultura



Nestor Kirjner


Caros amigos e amigas, Amantes da Cultura,


Quero fazer um convite especial a todos vocês, Amantes da Cultura. Em sua terceira montagem teatral, a Cia. de Teatro Bazáridas ousa novamente, e apresenta-nos um texto de Shakespeare, que é sempre uma prova de fogo para qualquer grupo de teatro que se preze. Depois do sucesso da montagem anterior (uma adaptação de "Dom Quixote", de Cervantes), agora a Bazáridas nos traz uma adaptação de uma das mais polêmicas peças do bardo genial, "O Mercador de Veneza".

Todo mundo sabe o quanto é penoso fazer teatro no Brasil. Por isso, é sem nenhum constrangimento que peço a todos os Amantes da Cultura que prestigiem essa montagem e divulguem-na entre seus amigos motivados pela arte ou pela admiração ao teatro.

Com certeza, não convidaremos dona Bárbara Heliodora para enxergar defeitos e cair de pau nos detalhes da montagem. Mas convidaremos você a avaliar e talvez valorizar esse esforço de um grupo de jovens visionários, que, ao invés de dedicar-se a um projeto mais rentável e de fácil apelo popular, prefere reavivar um dos maiores autores de todos os tempos, num texto que propõe polêmica e reflexão.

Ora, direis, ouvir fofocas! E as fofocas dirão que estou apenas tomado por uma crise de corujice explícita! Talvez! A diretora é minha nora, meu filho é um dos protagonistas, e minha filha pertence ao elenco de apoio. Mais nepotismo, é impossível!!! Mas também sou um espectador privilegiado do sacrifício e do idealismo dos Bazáridas, para que essa montagem saísse do papel e se transformasse em realidade.

Axé! Saravá! Amém! Que todos os santos e orixás se unam para proteger o trabalho dessa garotada. Aí, nos porões da arte, habita a verdadeira nação. E, num Natal em que estaremos motivados pelo início tardio, mas eficaz, da guerra ao narcotráfico, vou ver a peça dos meninos com outros olhos. Olhos mais brasileiros, talvez! E olhos de quem ama a busca da Arte,com A maiúsculo, como uma verdadeira obsessão! Que os santos e orixás, aproveitando o embalo, protejam a nós, espectadores, da massificação e da mediocridade.

Ave, Bazáridas! Boa sorte!

Um abraço do Nestor Kirjner. (nestorkirjner@terra.com.br)

Serviço

Local: Espaço Cultural Renato Russo, na 508 Sul.
Data e horário: sábado, dia 4/12, às 21 horas;
                        domingo, dia 5/12, às 20 horas.
Ingressos: 20,00 (inteira) e 10,00 (meia).
Quem paga meia: Crianças, idosos, professores da fundação, estudantes com carteirinha e doadores de um quite escolar (caderno, lápis, apontador e borracha).
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domingo, 21 de novembro de 2010

Crônica nº. 1


Rachel de Queiroz


Tanto neste nosso jogo de ler e escrever, leitor amigo, como em qualquer outro jogo, o melhor é sempre obedecer às regras. Comecemos portanto obedecendo às da cortesia, que são as primeiras, e nos apresentemos um ao outro. Imagine que pretendendo ser permanente a página que hoje se inaugura, nem eu nem você — os responsáveis por ela, — nos conhecermos direito. É que os diretores de revista, quando organizam as suas seções, fazem como os chefes de casa real arrumando os casamentos dinásticos: tratam noivado e celebram matrimônio à revelia dos interessados, que só se vão defrontar cara a cara na hora decisiva do "enfim sós”.

Cá estamos também os dois no nosso "enfim sós" — e ambos, como é natural, meio desajeitados, meio carecidos de assunto: Comecemos pois a falar de você, que é tema mais interessante do que eu. Confesso-lhe, leitor que diante da entidade coletiva que você é, o meu primeiro sentimento foi de susto —, sim, susto ante as suas proporções quase imensuráveis. Disseram-me que o leitor de O CRUZEIRO representa pelo barato mais de cem mil leitores, uma vez que a revista põe semanalmente na rua a bagatela de 100.000 exemplares.

Sinto muito, mas francamente lhe devo declarar que não estou de modo nenhum habituada a auditórios de cem mil. Até hoje tenho sido apenas uma autora de romances de modesta tiragem; é verdade que venho há anos frequentando a minha página de jornal; mas você sabe o que é jornal: metade do público que o compra só lê os telegramas e as notícias de crimes e a outra lê rigorosamente os anúncios. O recheio literário fica em geral piedosamente inédito. E agora, de repente, me atiram pelo Brasil afora em número de 100.000! Não se admire portanto se eu me sinto por ora meio “gôche”.

Dizem-me, também que você costuma dar sua preferência a gravuras com garotas bonitas a contos de amor, a coisas leves e sentimentais. Como, então, se isso não é mentira, conseguirei atrair o seu interesse? Pouco sei falar em coisas delicadas, em coisas amáveis. Sou uma mulher rústica, muito pegada à terra, muito perto dos bichos, dos negros, dos caboclos, das coisas elementares do chão e do céu. Se você entender de sociologia, dirá que sou uma mulher telúrica; mas não creio que entenda. E assim não resta sequer a compensação de me classificar com uma palavra bem-soante.

Nasci longe e vivo aqui no Rio, mais ou menos como num exílio. Me consolo um pouco pensando que você, sendo no mínimo cem mil, anda espalhado pelo Brasil todo e há de muitas vezes estar perto de onde estou longe; e o que para mim será saudosa lembrança, é para você o pão de cada dia. Seus olhos muitas vezes ambicionarão isto que me deprime, — paisagem demais, montanha demais, panorama, panorama, panorama. Tem dia em que eu dava dez anos de vida por um pedacinho bem árido de caatinga, um riacho seco, um marmeleiral ralo, uma vereda pedregosa, sem nada de arvoredo luxuriante, nem lindos recantos de mar, nem casinhas pitorescas, sem nada deste insolente e barato cenário tropical. Vivo aqui abafada, enjoada de esplendor, gemendo sob a eterna, a humilhante sensação de que estou servindo sem querer como figurante de um filme colorido. Até me admira todo o mundo do Rio de Janeiro não ser obrigado a andar de “sarong”. Mas, cala-te boca; para que fui lembrar? Capaz de amanhã sair uma lei dando essa ordem.

Apesar entretanto de todas essas dificuldades, tenho a esperança de que nos entenderemos. Voltando à comparação dos casamentos de príncipe, o fato é que as mais das vezes davam certo. Não viu o do nosso Pedro II com a sua Teresa Cristina? Ele quase chorou de raiva quando deu de si casado com aquele rosto sem beleza, com aquela perna claudicante; porém com o tempo se acostumaram, se amaram, foram felizes, e ela ganhou o nome de Mãe dos Brasileiros. Assim há de ser conosco, que eu, se não claudico no andar, claudico na gramática e em outras artes exigentes. Mas sou uma senhora amorável, tal como a finada imperatriz, e de alma muito maternal. A política é que às vezes me azeda mas, segundo o trato feito, não discorreremos aqui de política. Em tudo o mais sempre me revelo uma alma lírica, cheia de boa vontade; eu sou triste um dia ou outro, não sou mal- humorada nunca. E tenho sempre casos para contar, casos de minha terra, desta ilha onde moro; mentiras, recordações, mexericos, que talvez divirtam seus tédios.

Você irá desculpando as faltas, que eu por meu lado irei tentando me adaptar aos seus gostos. Quem sabe se apesar de todas as diferenças alegadas temos uma porção de coisas em comum?

Vez por outra hei de lhe desagradar, haveremos de divergir; ninguém é perfeito neste mundo e não sou eu que vá encobrir meus senões. Tenho as minhas opiniões obstinadas — você tem pelo menos cem mil opiniões diferentes — há, pois, muito pé para discordância.

Mas quando isso suceder, seja franco, conte tudo quanto lhe pesa. Ponha o amor próprio de lado, que lhe prometo também não fazer praça do meu. Lembre-se de que há um terreno de pacificação, um recurso extremo, a que sempre poderemos recorrer: fazemos uma trégua no desentendimento, procurando esquecer quem dos dois tinha ou não tinha razão; damos o braço e saímos andando por este mundo, olhando tudo que há nele de bonito ou de comovente: os casais de namorados nos bancos de jardim, o garotinho cacheado que faz bolos na areia da praia, a luz da rua refletida nas águas da baía, ou simplesmente o brilho solitário da estrela da manhã.

Depois disso, não precisaremos sequer de fazer as pazes; nos seus cem mil variadíssimos corações, como no meu coração único só haverá espaço para amizade e silêncio.

Há anos sei que é infalível o resultado da estrela da manhã.


(Esta é primeira crônica escrita por Rachel de Queiroz para a coluna “Ultima Página” na revista “O Cruzeiro”, em 01/12/1945. )


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domingo, 7 de novembro de 2010

O gigolô das palavras



Quatro ou cinco grupos diferentes de alunos do Farroupilha estiveram lá em casa numa mesma missão, designada por seu professor de Português: saber se eu considerava o estudo da Gramática indispensável para aprender e usar a nossa ou qualquer outra língua. Cada grupo portava seu gravador cassete, certamente o instrumento vital da pedagogia moderna, e andava arrecadando opiniões. Suspeitei de saída que o tal professor lia esta coluna, se descabelava diariamente com as suas afrontas às leis da língua e aproveitava aquela oportunidade para me desmascarar. Já estava até preparando, às pressas, minha defesa ("Culpa da revisão!", "Culpa da revisão!"). Mas os alunos desfizeram o equívoco antes que ele se criasse. Eles mesmos tinham escolhido os nomes a serem entrevistados. Vocês têm certeza que não pegaram o Veríssimo errado? Não. Então vamos em frente.

Respondi que a linguagem, qualquer linguagem é um meio de comunicação e que deve ser julgada exclusivamente como tal. Respeitadas algumas regras básicas da Gramática, para evitar os vexames mais gritantes, as outras são dispensáveis. A sintaxe é uma questão de uso, não de princípios. Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer "escrever claro" não é certo mas é claro, certo? O importante é comunicar. (E quando possível surpreender, iluminar, divertir, comover... Mas aí entramos na área de talento, que também não tem nada a ver com Gramática.) A Gramática é o esqueleto da língua. Só predomina nas línguas mortas, e é de interesse restrito a necrólogos e professores de Latim, gente em geral pouco comunicativa. Aquela sombria gravidade que a gente nota nas fotografias em grupo dos membros da Academia Brasileira de Letras é de reprovação pelo Português ainda estar vivo. Eles só estão esperando, fardados, que o Português morra para poderem carregar o caixão e escrever sua autópsia definitiva. É o esqueleto que nos traz de pé, certo, mas ele não informa nada, como a Gramática é a estrutura da língua mas sozinha não diz nada, não tem futuro. As múmias conversam entre si em Gramática pura.

Claro que eu não disse tudo isso a meus entrevistadores. E adverti que minha implicância com a gramática na certa se devia à minha pouca intimidade com ela. Sempre fui péssimo em Português. Mas — isto eu disse — vejam vocês, a intimidade com a Gramática é tão dispensável que eu ganho a vida escrevendo, apesar da minha total inocência na matéria. Sou um gigolô das palavras. Vivo às suas custas. E tenho com elas a exemplar conduta de um cáften profissional. Abuso delas. Só uso as que conheço, as desconhecidas são perigosas e potencialmente traiçoeiras. Exijo submissão. Não raro, peço delas flexões inomináveis para satisfazer um gosto passageiro. Maltratando-as, sem dúvida. E jamais me deixo dominar por elas. Não me meto na sua vida particular. Não me interessa seu passado, suas origens, sua família nem o que outros já fizeram com elas. Se bem que não tenha também o mínimo escrúpulo em roubá-las de outro, quando acho que vou ganhar com isto. As palavras, afinal, vivem na boca do povo. São faladíssimas. Algumas são de baixíssimo calão. Não merecem o mínimo respeito.

Um escritor que passasse a respeitar a intimidade gramatical das suas palavras seria tão ineficiente quanto um gigolô que se apaixonasse pelo seu plantel. Acabaria tratando-as com a deferência de um namorado ou com a tediosa formalidade de um marido. A palavra seria a sua patroa! Com que cuidados, com que temores e obséquios ele consentiria em sair com elas em público, alvo da impiedosa atenção dos lexicógrafos, etimologistas e colegas. Acabaria impotente, incapaz de uma conjunção. A Gramática precisa apanhar todos os dias para saber quem é que manda.
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domingo, 31 de outubro de 2010

Li e Amei


Fiquei encantada com o livro "Estou na quadra", de Fátima Bueno, Thesaurus Editora, 2010, e o recomendo a todos os que amam Brasília, em especial a Asa Norte.








 Conheça o projeto Iconografia Aplicada DF, que Fátima Bueno integra como artista plástica.

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domingo, 24 de outubro de 2010

40º Sarau da Câmara dos Deputados


Serviço
Baile de Máscaras em Veneza - 40º Sarau Literomusical da Câmara dos Deputados
Data: 25/10/2010
Hora: 20 horas
Local: Teatro Garagem do SESC na 913 Sul.
Coquetel: festival de massas com vinho

Entrada franca
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sábado, 16 de outubro de 2010

Esta primavera


Luci Afonso

Esta primavera vou ficar em casa.

Deitada no sofá, ouço o grito suicida das cigarras. Debruçada na varanda, recolho pingos frescos de chuva, os primeiros e os últimos. À noite, a lua atravessa a persiana do quarto e ilumina meu corpo, enrodilhado no lençol de quinhentos fios egípcios.

Companhia, só quero a do filho, da mãe e do gato, prolongamentos espontâneos de mim. Vozes, somente a dos fantasmas queridos, das crianças bem pequenas ou dos velhinhos solitários. Carícias, apenas a do vento que gentilmente me refresca o rosto.

Os homens não me olhem: estou feia. Os amigos não me procurem: estou ausente. Para quê encontrar pessoas? Já conheci todas que posso suportar.

Não preciso de fatos — o mundo gira sem mim. Só me interessam a folha caída na grama e o poema sussurrado pela árvore antiga.

Desvaneço nesta primavera invertida. Embrenho-me na profundidade escura da terra para implodir meu canto, até que a morte branca do ipê venha me nutrir de seiva bruta para a próxima estação.
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Carta




Mário Quintana
Meu caro poeta,

Por um lado foi bom que me tivesses pedido resposta urgente, senão eu jamais escreveria sobre o assunto desta, pois não possuo o dom discursivo e expositivo, vindo daí a dificuldade que sempre tive de escrever em prosa. A prosa não tem margens, nunca se sabe quando, como e onde parar. O poema, não; descreve uma parábola traçada pelo próprio impulso (ritmo); é que nem um grito. Todo poema é, para mim, uma interjeição ampliada; algo de instintivo, carregado de emoção. Com isso não quero dizer que o poema seja uma descarga emotiva, como o fariam os românticos. Deve, sim, trazer uma carga emocional, uma espécie de radioatividade, cuja duração só o tempo dirá. Por isso há versos de Camões que nos abalam tanto até hoje e há versos de hoje que os pósteros lerão com aquela cara com que lemos os de Filinto Elísio. Aliás, a posteridade é muito comprida: me dá sono. Escrever com o olho na posteridade é tão absurdo como escreveres para os súditos de Ramsés II, ou para o próprio Ramsés, se fores palaciano. Quanto a escrever para os contemporâneos, está muito bem, mas como é que vais saber quem são os teus contemporâneos? A única contemporaneidade que existe é a da contingência política e social, porque estamos mergulhados nela, mas isto compete melhor aos discursivos e expositivos, aos oradores e catedráticos. Que sobra então para a poesia? — perguntarás. E eu te respondo que sobras tu. Achas pouco? Não me refiro à tua pessoa, refiro-me ao teu eu, que transcende os teus limites pessoais, mergulhando no humano. O Profeta diz a todos: "eu vos trago a verdade", enquanto o poeta, mais humildemente, se limita a dizer a cada um: "eu te trago a minha verdade." E o poeta, quanto mais individual, mais universal, pois cada homem, qualquer que seja o condicionamento do meio e da época, só vem a compreender e amar o que é essencialmente humano. Embora, eu que o diga, seja tão difícil ser assim autêntico. Às vezes assalta-me o terror de que todos os meus poemas sejam apócrifos!

Meu poeta, se estas linhas estão te aborrecendo é porque és poeta mesmo. Modéstia à parte, as disgressões sobre poesia sempre me causaram tédio e perplexidade. A culpa é tua, que me pediste conselho e me colocas na insustentável situação em que me vejo quando essas meninas dos colégios vêm (por inocência ou maldade dos professores) fazer pesquisas com perguntas assim: "O que é poesia? Por que se tornou poeta? Como escrevem os seus poemas?" A poesia é dessas coisas que a gente faz mas não diz.

A poesia é um fato consumado, não se discute; perguntas-me, no entanto, que orientação de trabalho seguir e que poetas deves ler. Eu tinha vontade de ser um grande poeta para te dizer como é que eles fazem. Só te posso dizer o que eu faço. Não sei como vem um poema. Às vezes uma palavra, uma frase ouvida, uma repentina imagem que me ocorre em qualquer parte, nas ocasiões mais insólitas. A esta imagem respondem outras. Por vezes uma rima até ajuda, com o inesperado da sua associação. (Em vez de associações de idéias, associações de imagem; creio ter sido esta a verdadeira conquista da poesia moderna.) Não lhes oponho trancas nem barreiras. Vai tudo para o papel. Guardo o papel, até que um dia o releio, já esquecido de tudo (a falta de memória é uma bênção nestes casos). Vem logo o trabalho de corte, pois noto logo o que estava demais ou o que era falso. Coisas que pareciam tão bonitinhas, mas que eram puro enfeite, coisas que eram puro desenvolvimento lógico (um poema não é um teorema) tudo isso eu deito abaixo, até ficar o essencial, isto é, o poema. Um poema tanto mais belo é quanto mais parecido for com o cavalo. Por não ter nada de mais nem nada de menos é que o cavalo é o mais belo ser da Criação.

Como vês, para isso é preciso uma luta constante. A minha está durando a vida inteira. O desfecho é sempre incerto. Sinto-me capaz de fazer um poema tão bom ou tão ruinzinho como aos 17 anos. Há na Bíblia uma passagem que não sei que sentido lhe darão os teólogos; é quando Jacob entra em luta com um anjo e lhe diz: "Eu não te largarei até que me abençoes". Pois bem, haverá coisa melhor para indicar a luta do poeta com o poema? Não me perguntes, porém, a técnica dessa luta sagrada ou sacrílega. Cada poeta tem de descobrir, lutando, os seus próprios recursos. Só te digo que deves desconfiar dos truques da moda, que, quando muito, podem enganar o público e trazer-te uma efêmera popularidade.

Em todo caso, bem sabes que existe a métrica. Eu tive a vantagem de nascer numa época em que só se podia poetar dentro dos moldes clássicos. Era preciso ajustar as palavras naqueles moldes, obedecer àquelas rimas. Uma bela ginástica, meu poeta, que muitos de hoje acham ingenuamente desnecessária. Mas, da mesma forma que a gente primeiro aprendia nos cadernos de caligrafia para depois, com o tempo, adquirir uma letra própria, espelho grafológico da sua individualidade, eu na verdade te digo que só tem capacidade e moral para criar um ritmo livre quem for capaz de escrever um soneto clássico. Verás com o tempo que cada poema, aliás, impõe sua forma; uns, as canções, já vêm dançando, com as rimas de mãos dadas, outros, os dionisíacos (ou histriônicos, como queiras) até parecem aqualoucos. E um conselho, afinal: não cortes demais (um poema não é um esquema); eu próprio que tanto te recomendei a contenção, às vezes me distendo, me largo num poema que vai lá seguindo com os detritos, como um rio de enchente, e que me faz bem, porque o espreguiçamento é também uma ginástica. Desculpa se tudo isso é uma coisa óbvia; mas para muitos, que tu conheces, ainda não é; mostra-lhes, pois, estas linhas.

Agora, que poetas deves ler? Simplesmente os poetas de que gostares e eles assim te ajudarão a compreender-te, em vez de tu a eles. São os únicos que te convêm, pois cada um só gosta de quem se parece consigo. Já escrevi, e repito: o que chamam de influência poética é apenas confluência. Já li poetas de renome universal e, mais grave ainda, de renome nacional, e que no entanto me deixaram indiferente. De quem a culpa? De ninguém. É que não eram da minha família.

Enfim, meu poeta, trabalhe, trabalhe em seus versos e em você mesmo e apareça-me daqui a vinte anos. Combinado?


(Poesia Completa, Ed. Nova Aguilar, 2006)

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domingo, 10 de outubro de 2010

A rosca




Luci Afonso

— Já chegou?

— Será que vem hoje?

— Está atrasado!

— Custava telefonar?

Todo dia aguardava-se ansiosamente a chegada do Túlio, muito querido pelo temperamento alegre e brincalhão, mas, principalmente, pela deliciosa rosca rainha que trazia há quase vinte anos para o café da manhã. Alguns colegas vinham trabalhar em jejum para saborear a iguaria; outros, mais antigos, que já poderiam ter se aposentado, não o faziam por causa da rosca. A copeira, Dona Joana, apesar do diabetes, sempre garantia um pedaço. Ninguém conseguia se concentrar no trabalho antes de comer uma fatia.

Às 9h40min, Túlio descia a escada com os cheirosos embrulhos. Sempre trazia acompanhamentos: pães de queijo quentinhos, bolos variados e pães de mel. Um adolescente ficava à porta, encarregado de dar o sinal: — Chegou! — a notícia se espalhava e, em minutos, o corredor estava lotado.

A fama da rosca ultrapassara as fronteiras da seção e alcançara os ouvidos do Diretor, que abriu espaço na agenda para provar a guloseima. Após fartar-se (dizem que até lambeu os dedos), fez questão de cumprimentar o funcionário:

— São servidores abnegados como V.Sa. que engrandecem a instituição.

— Obrigado, Excelência — respondeu Túlio, emocionado.

— V.Sa. poderia dar a receita ao meu chefe de gabinete?

— Não posso, Excelência. Segredo de família.

— Tenho disponível uma FC-5...

— Lamento, Excelência. Prometi à minha avó.

— No leito de morte?

— Não, ela ainda está viva.

— Tudo bem, então. Se mudar de ideia, podemos até pensar numa FC-6...

— Muito grato, Excelência.

Com o tempo, constatou-se que a rosca tinha propriedades medicinais. Uma colega que sofria de depressão crônica e que tentara, sem êxito, várias terapias, acreditava ter sido curada graças à fatia ingerida diariamente. Um senhor da Seção de Finanças atribuía à mesma causa a recuperação da vista no olho esquerdo. Uma senhora paraplégica do Anexo IV voltara a andar. Um recém-concursado vítima de grave acidente recebeu a rosca por via intravenosa e saiu do coma.

Nas pesquisas anuais do Departamento de Recursos Humanos, a rosca era apontada, pela maioria dos entrevistados, como o principal fator de motivação no trabalho. Túlio, no entanto, permanecia alheio às repercussões do seu nobre gesto. Nem a ida ao Programa do Jô, nem a Medalha de Honra ao Mérito recebida do Presidente Lula abalaram a humildade tuliana.

Apenas um fato alterou a rotina do generoso homem: em sociedade com a avó, precisou abrir uma padaria e confeitaria para atender à crescente demanda. A Túlio’s Roscas acaba de ser eleita, pela “Revista VEJA Brasília - Comer & Beber 2009/2010”, o melhor estabelecimento do gênero no Distrito Federal.

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sábado, 25 de setembro de 2010

Exposição de Motivos




Luci Afonso


Sr. Diretor,

Venho respeitosamente solicitar a transferência dos servidores relacionados em anexo, pelos motivos que exponho a seguir.

Esclareço que a principal razão deste pedido é a contínua insubordinação da referida equipe às determinações desta gerência, bem como o inaceitável descumprimento do horário por nós estabelecido.

Destaco, entre outros, os procedimentos que considero inadmissíveis:

- a equipe costuma trabalhar a portas fechadas, sempre às gargalhadas — suspeita-se do uso de alguma substância ilícita;

- os servidores foram surpreendidos fazendo brincadeiras absurdas, como a alegada “dança das cadeiras”, supostamente destinada ao relaxamento e à descontração;

- ditos servidores perdem muito tempo em atividades inúteis, como soltar bolhas de sabão, argumentando que tal exercício favoreceria o espírito criativo — não apenas soltaram as bolhas, mas pularam, dançaram, fotografaram e escreveram sobre o assunto;

- são adeptos da moda hippie, chegando ao cúmulo de tirar os sapatos para trabalhar — mais grave ainda, um ou outro traje sensual feminino chegou a suscitar quebra de decoro;

- têm o estranho hábito de usar roupa da mesma cor em determinados dias e de ostentar acessórios esdrúxulos, como chapéus e óculos coloridos;

- comem muito e consomem cafeína em excesso durante o expediente;

- deixam a sala vazia das 12 às 14 horas, devido ao péssimo hábito de sair para almoçar juntos;

- tratam com excessiva consideração os funcionários mais humildes, dando a estes a falsa impressão de serem tão importantes quanto os demais servidores (chegaram ao ponto de publicar no boletim um cordel do encarregado da limpeza!);

- em vez de atender estritamente às demandas institucionais, produzem textos eróticos, escatológicos ou que afrontam a moral e os bons costumes da sociedade cristã;

- têm a irritante mania de ter ideias.

Em suma, esta gerência avalia que os supracitados indivíduos criativos, autênticos e independentes não contribuem para a implementação das diretrizes acordadas no programa de gestão estratégica da instituição. Sendo assim, em consonância com as habilidades de relacionamento adquiridas no exercício desta função gerencial, rogo pela imediata remoção dos referidos elementos para bem longe da minha visão sistêmica.

Nestes termos, peço deferimento.
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O livro de Olivia




Mario Pontes


Neste livro de estreia, Em rio que menino nada raia não ferra, Olivia Maria Maia reconstitui, com notável força poética, paisagens e figuras humanas do início de sua vida em meio às terras, florestas, águas, dias e noites do Acre. Por vários motivos, a ficção de Olivia atrai o interesse do leitor. Primeiro, pelo modo firme como suas narrativas são construídas, proporcionando um bom equilíbrio entre os elementos memorialísticos e a invenção dramática. Segundo, pela qualidade do humor, que não interfere na viagem ao interior dos personagens, mas contribui, ao contrário, para revelar sua riqueza ou pobreza interior. Finalmente, porque ela capta os movimentos da existência no âmbito do próprio ato de viver, levando suas criaturas a entrar e sair vivas das histórias, e não apenas a circular sem propósito no interior de cada página.



O cearense Mario Pontes é jornalista e escritor. Publicou diversos livros de ficção e ensaios. Traduziu 25 livros, entre os quais “O saber grego”.

(O livro de Olivia também está disponível na Livraria Hildebrando, na UnB, fone 3307-1333.)

(Veja fotos do lançamento no fotolog à direita.)
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domingo, 19 de setembro de 2010

Escrevo porque...




Gabriel Marinho

Escrevo para exorcizar fantasmas. São muitos e alguns se esquivam. Escrevo para espantar e trazer meus sentimentos à tona, sendo louco e, ao mesmo tempo, curando a minha loucura. Escrevo por destinação, vício, doença, patologia. Escrevo para justificar uma vida que eu não gostaria que fosse minha.

Imagino e idealizo sempre. Todos os defeitos são louváveis perto dos meus. Cada vida sofrida e amaldiçoada é a dádiva que anseio. Toda família desajustada e cada má influência são o âmago de um lar que jamais tive.

Dos meus mundos, apenas quem surge na minha imaginação participa. Cada derrocada, irregularidade, queda, quebra, choro e dor são perfeitamente dinamizados para me causar admiração e inveja, atingindo a beleza que os meus problemas jamais revelam.

Escrever é uma dádiva e uma maldição. Às vezes, mais um do que outro.

Muito suor e sangue nos dedos. Uma centrífuga acende na cabeça. Está bom? Está horrível? Nunca estará como eu pretendo.

O escritor é um guerreiro indômito nos dias de hoje. Há quem se cansa dessa batalha. No meu caso, persisto com os ossos quebrados e o orgulho intacto.

Em época e país errados, a dádiva e a maldição abrem chagas. Que arderão até que os que maldisseram minha escolha se calem e vejam. Relembrando Luci Afonso:

Um ser humano venceu. O ser humano venceu”.

Espero...

Gabriel Marinho é autor dos romances O mundo depois do fim (2009) e Breve Sonho de Esperança (2010), ambos aprovados pelo FAC/DF.
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sábado, 14 de agosto de 2010

Em rio que menino nada raia não ferra


Em rio que menino nada raia não ferra é o primeiro livro de contos e crônicas de Olivia Maria Maia, que será lançado na próxima terça-feira, 17 de agosto, às 19h30, no Martinica Café, na 303 Norte.

Olivia Maria Maia nasceu em Rio Branco — Acre, onde viveu a infância entre banhos em rios e igarapés e brincadeiras em quintais sem cercas. Mora em Brasília desde 1972.

Uma mulher que se transforma em criança, com a alma cintilando nos olhos. Mulher do norte, firme e forte, que às vezes fraqueja, mas nunca foge da luta; que dança ciranda, frevo e samba, imitando o compasso da vida, e bota muita gente pra dançar quando roda a baiana; que tanto sabe tocar os atabaques como as harpas dos anjos.

E Olivia vai por aí, na procissão da vida, com todo o cuidado com o andor, pois o santo é de barro, lembrando o que lhe disse o Bita, profeta das ruas acreanas: ainda vai chover muito nesse teu roçado. Agradecida, ela roga que as águas do céu sejam abençoadas por Vênus, Atena, Ísis, Yemanjá, que fertilizem a inspiração e favoreçam a colheita de palavras, sentimentos, emoções, infinitude, beleza.






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sábado, 7 de agosto de 2010

Pequeno texto para Cinthia


Luci Afonso

Busco as palavras de Cinthia quando estou sedenta, e nelas sempre me sacio. Uma frase, e a tristeza desvanece; outra, e a solidão se retira, sem argumento.

Tantas palavras!... Se está triste, ela escreve. Se está feliz, também. Inspira, escreve, expira, reescreve. Humaniza sujeitos, esculpe advérbios, semeia adjetivos.

...E tão belas! A florzinha miúda e o jardim recatado nunca mais ficarão sem poda. A saudade descansa, a esperança enflora: há grandeza plantada aqui.

Um parágrafo de Cinthia suaviza dores do corpo ou da alma — um conto inteiro pode curar o câncer.







Veja fotos do lançamento no fotolog à direita.
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sexta-feira, 30 de julho de 2010

Religare



Nascido no Rio de Janeiro e criado em Brasília, o artista plástico Marco Aurélio Tavares, o Lelo, cresceu ouvindo relatos do pai, de origem nordestina, sobre as romarias em Juazeiro do Norte, Estado do Ceará. Ao ver reportagens sobre os devotos do Padre Cícero, o artista sentiu-se atraído pela força da expressão de pessoas humildes, muitas idosas, que tinham na fé a principal razão de viver.

Em 1990, Lelo começou a acompanhar manifestações religiosas pelo sertão do Nordeste. Conheceu de perto os romeiros, compartilhando suas refeições, rezas e cantos. Tirou centenas de fotos, muitas transformadas em telas grandes, outras, em pequenos relicários. Algumas pinturas foram reproduzidas no livro-catálogo Religare, que também compõe esta exposição.

Na mostra Religare, o artista une fotografia, desenho e pintura para dar o testemunho apaixonado da profunda religiosidade do povo brasileiro, que, em meio à pobreza e ao sofrimento, encontra forças para dialogar tranquilamente com Deus. O olhar puro e a mão generosa dos romeiros nos guiam numa peregrinação íntima, religando-nos à essência divina. Ninguém atravessará intacto esses momentos translúcidos de santidade.

Religare

Fotografias e pinturas de Lelo / lançamento do livro-catálogo (prefaciado por Luci Afonso)
3 a 12 de agosto de 2010
Vernissage: 4 de agosto, quarta-feira, 17 horas

Local: Espaço do Servidor, Anexo II da Câmara dos Deputados
Realização: Espaço Cultural Zumbi dos Palmares
Visitação: segunda a sexta-feira, das 9 às 18h
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sábado, 17 de julho de 2010

“Desde pequeno, ouviu dizer que é diferente”


Gabriel Marinho


Luci Afonso pensa como a maioria. Cada um tem a sua própria acepção da palavra. A conotação pode ser boa ou ruim. Tantos julgamentos e ideias que às vezes pensam que eu não tenho a mínima noção de como sou. O que é ser diferente para mim?

As diferenças mudam conforme o tempo, de acordo com a idade, as descobertas e a vivência. Alteram-se os meios, jamais a palavra.

Diferença invisível, fácil de ser misturada com as normalidades, que se agiganta quando provocada, no bom e no mau sentido.

Diferença que te coloca acima do outro e que jamais deve ser admitida. A linha divisória da arrogância é tão fácil de ser rompida que é preciso se policiar.

Diferença que te mantém vivo por dádiva ou equívoco. Os diferentes mudam o mundo, nunca a si mesmos.

Diferença que me faz triste por não ter e feliz por possuir. Enquanto não somos descobertos, o que temos perde o sentido.

Diferença por diferença, quem não tem? Num mundo de valores distorcidos, cabe a todo mundo julgar. Menos você.

Diferença que te flagela por ser o certo inserido no errado. Ou o contrário.

Diferença por acatar cobranças das mesmas pessoas que primam pela sua liberdade.

Diferença que estigmatiza. Sempre contraditória. Sempre confusa. Insistindo na indiferença.

A diferença não é uma abiogênese. Seu surgimento não é espontâneo. Não passeia por um vácuo. Está além da razão e aquém do livre-arbítrio.

Defini-la em frase, parágrafo, capítulo ou romance? Nada de resposta. Assim, a diferença procria de acordo com a imaginação de cada um.

Diferença por diferença, prefiro a falta de respostas e as dúvidas insistentes ao tédio de um mundo já compreendido.



Gabriel Marinho é autor dos romances O mundo depois do fim (2009) e Breve Sonho de Esperança (2010), ambos aprovados pelo FAC/DF.
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domingo, 11 de julho de 2010

Parvoíces




Alexandra Rodrigues

Parvoíces do teu primo – foram as primeiras palavras que li no ar, contaminadas ainda de solo lusitano. Estavam escritas em letra familiar num envelope que acompanhava meia dúzia de presentes escolhidos com a ternura de quem muito bem se quer e pouco se encontrara nos últimos anos. Parvoíces, um termo que se infiltrara nos subterrâneos da minha memória. Uma palavra de sentido duvidosamente pejorativo, que navegava pelo oceano de memórias do meu passado. Sabia que era impossível traduzir. Ainda tentei fazê-lo, mas era uma parvoíce traduzir intenções que só fazem sentido na cultura portuguesa. E assim, pus-me a relembrar as parvoíces vividas na última tarde de visita a Lisboa, na esperança de compreender o sentimento que percorre tão inusitado vocábulo.

Eram três horas da tarde de um escaldante domingo de Agosto. Embrenhei-me pelas estreitezas misteriosas de Alfama na direção do saudoso beco das origens, berço de meus pais. Vi-me cercada pelas alturas apertadas de prédios caiados de história, de narrativas que também me pertenciam na distância do tempo. Aqui e ali, em ruas sem passeios que se bifurcavam a cada instante, como a me perguntar por onde você quer realmente seguir?, eu me indagava sobre o destino que levara a história da minha família daquelas vielas lisboetas carregadas de fado para as amplas avenidas de Brasília, onde a vida não mais que seguia em frente, florida de ipês e de memórias.

Já tinha passado a Sé Velha, com suas ameias de castelo medieval, protegendo a antiga cidade; o Largo do Marquês do Lavradio, cujos degraus escuros e íngremes tantas vezes eu subira em direção ao colo aconchegante da tia Carlota; e seguia agora por ruas minúsculas que se estreitavam, cada vez mais, na minha memória. Via-se um morador aqui e ali, como se a vida se tivesse recolhido nas casas antigas de Alfama e eu dependesse, a cada passo, das vielas da memória para avançar em direção ao meu destino. Parecia uma parvoíce perder-me num espaço que, em tempos idos, me fora tão familiar. Mas, à medida que me aventurava por ruazinhas cada vez mais apertadas, e precisava decidir por qual continuar, crescia a desconfiança de que meus pés pisavam um chão quase imaterial: o da Alfama da minha imaginação.

Parei numa bifurcação onde dois minúsculos restaurantes satisfaziam o apetite dos verdadeiros turistas. Perguntar, a estranhos de outras terras, informações sobre a direção do Beco de Lapa, era uma parvoíce. Um único empregado carregando uma bandeja de cervejas não saciaria a minha sede de passado. Mas a memória desbotada de duas recatadas velhinhas, paradas no meio da rua e do tempo, aconselhava-me a seguir pela Rua dos Remédios.

Isso mesmo! Recordava-me bem da tabacaria da esquina dessa rua, onde, em tempos antigos, vozes amigas saudavam meus pais nas visitas que fazíamos às suas origens. Esse lugar sobrevivera no meu imaginário e ressuscitara dos umbrais da memória numa aula de literatura, ao escutar a recitação de um poema de Fernando Pessoa. Agora, A Tabacaria morava lá, dentro da poesia, recatadamente memória, devastadoramente realidade. Uma parvoíce, essa arquitectura de edifícios poéticos, reerguidos pela engenharia da memória!

Cheguei finalmente à rua dos Remédios, por bifurcações que se bifurcavam ainda mais no meu cérebro de menina-mulher, mapeando o lugar da origem de seus ancestrais. Era íngreme e longa a rua, tão longa e íngreme como os caminhos que me haviam afastado daquele lugar, e eu não sabia em qual daquelas vielas deveria virar para entrar no Beco da Lapa. Não sabia nem mesmo se era de verdade esse lugar tão estreito que mal cabia nas minhas reminiscências.

Foi quando me percebi turista no longínquo território da infância. Ainda existiria aquele Beco onde nos natais da nossa infância entrávamos, felizes, para abraçar a tia Leonor e o tio Augusto, brincar com os primos, rever a madrinha? Para comer as deliciosas línguas de gato com um copo de leite morno, antes de deitar? Para nos deliciarmos com as filhozes da avozinha, empilhadas em travessas de louça antiga com bordas azuis? Para sairmos juntos ao Jardim Zoológico, que visitávamos magnificamente sentados em cadeirinhas, lá do alto de um elefante? Para lancharmos na confeitaria Suíça, em pleno Rossio, os melhores doces que a vida nos faria saborear? Que parvoíce ressuscitar lugares de vida há tanto tempo abandonados na Alfama da minha meninice!

Era ali mesmo e eu nem tinha percebido. A tabacaria da esquina já não marcava mais a entrada no Beco da Lapa, mas continuará habitando para sempre a poesia da minha vida. No entanto, na outra esquina, ainda morava - agora transformada num pequeno supermercado - a mercearia que pertencera ao meu avô. Entrei instintivamente, como que para fazer anunciar uma presença que carregava o sangue de quem tinha inventado aquele lugar. Um lugar de intensa labuta da minha avó, de sol a sol, os sete dias da semana, uma herança do trabalho braçal lá na aldeia da Telhada, de onde saíra para Lisboa, como a maior parte das moças dessa época, para ser criada de servir. E serviria a vida inteira, naquela mercearia, onde tudo se vendia a granel, embrulhado em papel de jornal. Um lugar agora travestido de supermercado, com embalagens e sacos de plástico descartáveis.

Saí da mercearia do passado com as mãos carregadas de recordações e virei pela minúscula viela à direita, onde se lia, com a nitidez que a saudade é capaz de entrever: Beco da Lapa. Parecia uma alucinação aquela placa que assegurava a veracidade da miragem do passado. A primeira porta do beco, pintada de verde escuro, com seu batente dourado, era a mesma paisagem do tempo dos meus avós. Inacreditável! Senti uma vontade lacrimejada de segurar o batente que acabara de bater, com força, à porta das minhas reminiscências. Que parvoíce, essa vontade de gritar:

- Oh da casa!...

Aquele degrau de pedra ainda me convidava a subir a interiores que só às minhas memórias pertenciam, não fosse o temor de que a parede da casa da frente, escorada em precárias estruturas de madeira, quisesse desabar por cima de mim. (Era tão minúscula e perigosa a passagem da Rua dos Remédios para o beco da minha infância!).

Chega, que meu coração ficou encurralado no beco do passado! Chega de visitar o chão de outros tempos numa tarde escaldante do verão lisboeta! Chega de querer decifrar uma palavra incrustada no meu passado linguístico! Que parvoíce querer explicá-la numa crônica gestada nas vielas das minhas entranhas lusitanas!


   Esta crônica obteve o 1º lugar na Modalidade Prosa do Concurso Literário CANTAR PORTUGAL EM PROSA E VERSO, do Elos Clube de Faro, Portugal, no âmbito das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, 2010.

 
 

 
Alexandra Rodrigues nasceu em Lisboa e replantou suas raízes em Brasília. Publicou, em 2004, O Nome das Coisas, e em 2007, Minha avó botou um ovo, ambos pela Thesaurus Editora. Leiam outros textos da autora neste blog.
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quinta-feira, 1 de julho de 2010

Carta de uma estudante do Parque Oziel


Campinas, 14 de junho de 2010


Olá! Luci Afonso, meu nome é Jéssica, tenho 14 anos e queria lhe dizer que gostei muito do seu livro.

Li ele pela metade, mas cada crônica que li, fiquei imaginando as cenas. Eu entendi quase todos, menos o "Suspeito moreno, alto e forte" que eu não entendi o final.

Mas você está de parabéns, o seu livro é muito bom! E interessante. Eu nunca gostei de ler, mas o seu livro despertou a minha imaginação. Quando eu começo a ler, não consigo parar até meus olhos arderem.

Eu gostei da crônica da mulher que consultava um psiquiatra que a tratava muito mal, e no final da história ela descobre que o psiquiatra e mais um homem eram assassinos.

E também gostei da crônica do menino que tinha inflamação nas pernas e ele não andava, achei muito interessante porque você usou muito a sua imaginação e eu também usei para entender a crônica. E foi muito solidário as duas senhoras que o ajudaram.

Parabéns, continue escrevendo!

Jéssica Françoso

 
Brasília, 27 de junho de 2010


Querida Jéssica,

Fiquei muito feliz com sua carta. A maior alegria de um escritor é saber que alguém gostou do que ele escreveu. Que bom que o meu livro despertou a sua imaginação! Para isso servem os livros.

Eu gosto de ler desde criança, mas sempre é tempo de despertar o amor pela leitura. Você é muito jovem e ainda pode descobrir que os livros são grandes amigos e companheiros. Continue lendo. Se você gosta de crônicas, procure ler Luis Fernando Verissimo ou Fernando Sabino. Eles são muito divertidos.

Explico o que você não entendeu: em "Suspeito moreno, alto e forte", falo sobre um episódio de racismo que aconteceu no Plano Piloto, que é o “bairro rico” de Brasília. No final, todos percebem que a mulher chamou a polícia por causa do preconceito contra o homem moreno de aparência humilde.

A crônica sobre o psiquiatra tem um pouco de verdade e um pouco de ficção, como muitos textos meus. Gosto muito da estória e sempre me divirto quando a releio.

O Menino, na verdade, é o galo de estimação da Dona Maria, uma das personagens da crônica “Amém!”. Ele existe mesmo. Em nenhum momento eu disse que era um galo, mas dei várias pistas ao longo do texto. Se você puder reler a estória, procure essas pistas.

Jéssica, obrigada pela carta tão carinhosa, que a Profa. Cida Sepulveda gentilmente me encaminhou. São palavras assim que me incentivam a continuar escrevendo.

Vou publicar sua carta no meu blogue. Se puder, visite: http://luciafonso.blogspot.com/

Um grande abraço,
Luci Afonso

De: Aparecida Sepulveda
Data: domingo, 27 de junho de 2010 12:21
Para: Luci Afonso de Oliveira

Cara Luci,

Não te escrevi antes por falta de tempo. A Jéssica é uma ótima aluna. Quero apenas te informar que o Parque Oziel é resultado de uma das maiores invasões da América Latina. Procure no youtube Parque Oziel vídeos e você conhecerá um pouco do mundo dos jovens que ganharam seu livro. Alguns ganharam como prêmio por terem desenvolvido um bom trabalho. Outros, porque pertencem a uma classe comportada (o caso da Jéssica) e ontem, na Festa Junina, dez livros foram colocados como prenda. Vi dois jovens enlevados porque ganharam o livro. Uma menina, muito pobrezinha, veio falar comigo, com o livro na mão, alisando-o, "dona, eu adoro ler".


A Jéssica não tem dinheiro para comprar livros. De todo modo, é bem possível que sua orientação faça algum sentido para ela. Se ela encontrar na biblioteca os autores que você sugere, certamente, ela os emprestará. Creio que você receberá mais cartas. Na verdade, eu demorei para liberar os livros, exatamente por falta de tempo, porque gosto de fazer as coisas de forma organizada, e não apenas dar o livro, aleatoriamente.

Um abração, Cida



A escritora e professora Cida Sepulveda, formada em Letras (UNICAMP), mora em Campinas, SP. Publicou Sangue de Romã, poemas, em 2004, e Coração Marginal, contos, em 2007. (aparecidasepu@gmail.com)

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domingo, 20 de junho de 2010

Os 4 Rs



Luci Afonso


Os catadores da cooperativa de reciclagem que nos visitam esta manhã são humanidade pura. Cem por cento gente. Altamente recomendados pela Organização Mundial de Saúde.

Janilson é diretor-presidente, motorista, ajudante de serviços gerais, apartador de brigas e técnico de futebol. Trabalha o dia inteiro e, à noite, aprende a ler. Adora a palavra “cidadania”. Sempre foi empreendedor: assim que chegou a Brasília, adquiriu o primeiro cavalo — carinhosamente batizado de César Sampaio, em homenagem ao ídolo — e construiu a primeira carroça. Aos poucos, foi aumentando e terceirizando a frota equina, até não precisar mais trabalhar na rua. Hoje, tem carro. Sua maior revolta é a desclassificação do time da cooperativa no último campeonato da segunda divisão brasiliense.





Cícero tem a mesma idade de Brasília. Baiano trabalhador, para desmentir a má fama dos conterrâneos. Vaidoso e falante, tem muita história pra contar de hoje pra ontem. Foi garrafeiro, andou de carroça pelo país, derrubou árvore com motosserra. Os colegas dizem que é hiperativo: além de fiscal, é mecânico, bombeiro hidráulico, eletricista, marceneiro, técnico em computador e o que precisar. Nas horas vagas, ao som de Chitãozinho & Xororó, monta e desmonta o motor do Azulão, o caminhão da cooperativa. Tem orgulho de contribuir para limpar a cidade.






Fátima, diretora e porta-voz da categoria, fala melhor que advogado. Pernambuco, mulher forte, sim senhor. Estudou até a quinta série, mas fez faculdade de perseverança, pós-graduação em coragem e mestrado em dignidade. Tem crédito na praça. Financiou a casa própria na Caixa Econômica, adquiriu computador em 12 vezes nas Casas Bahia. Os olhos umedecem quando lembra o tempo em que catador era ninguém. Gosta de ler uns romancinhos que encontra, principalmente os de final feliz.





Paloma, 18 anos, ainda é uma garotinha, esperando o ônibus da escola, sozinha. Filha e neta de catador, mantém a tradição enquanto termina o segundo grau e aprende informática. Enfrenta o preconceito dos colegas por causa da profissão. Nas sextas à noite, curte a balada de hip-hop no Recanto das Emas, onde mora. Não confirma se tem namorado.




Paloma, Fátima, Cícero e Janilson ensinam humildemente os fundamentos da reciclagem: raça, resistência, respeito, reconstrução.

Que catador é gente eu já sabia. Agora, aprendi que catador é beija-flor.


(Quatro catadores da Cortrap — Cooperativa de Reciclagem, Trabalho e Produção — vieram até o Cefor da Câmara dos Deputados compartilhar um pouco do seu cotidiano. Os catadores relataram a criação da cooperativa e contaram histórias de vida de quem trabalha e sobrevive dos resíduos. É uma trajetória que a maioria das pessoas não conhece, e que foi narrada em crônicas. Os 4 Rs é uma delas.)
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segunda-feira, 14 de junho de 2010

Alento em Branco Maior




Luci Afonso

O homem construiu o ambiente urbano em concreto e agora busca respirar no vazio branco que lhe resta em meio aos edifícios sem cor. Neste cenário, a natureza é só um detalhe: em vermelho, como a vida, ou em azul, como o céu.

Sufocado pela paisagem árida que forjou com descuido e indiferença, o ser humano procura a sensação de liberdade à beira de um espelho d’água que ainda o refresca ou ao lado de outro ser — um amigo, um pássaro, uma flor — que ainda o compreende.

É difícil fazer o simples. Na mostra Alento em Branco Maior, o jovem Helano Stuckert constrói um diálogo eloquente entre os poucos elementos que compõem suas fotografias. Desapego e simplicidade são marcas na vida e na obra deste artista que, ao longo de quatro anos, registrou momentos de intensa solidão e de luminosa esperança nas metrópoles por onde andou.

Escondido atrás da lente, Helano realça a amplidão branca em contraste às duras linhas do concreto, à sombra de grades e muros que aprisionam e à geometria de escadas que parecem levar a lugar nenhum. As pontes não atravessam, os trilhos não andam, as nuvens se mantêm cinzentas, mas o homem insiste em perscrutar caminhos que o conduzam ao mais branco, ao máximo branco, ao alento em branco maior.



Esta exposição faz parte das comemorações da Semana do Meio Ambiente na Câmara dos Deputados. Materiais descartados pela Gráfica da Câmara foram repensados para servir como molduras das obras.
Latas, tonéis, caixas de papelão, tablados de madeira e chapas de off-set interagem harmoniosamente com as fotografias de Helano Stuckert, mostrando que é possível unir a sofisticação da arte à preservação do meio ambiente.

(Fotos da vernissage no fotolog, à direita.)
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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira