sábado, 5 de dezembro de 2009

O estranho ofício de escrever


Fernando Sabino

Éramos três condenados à crônica diária: Rubem no Diário de Notícias, Paulo no Diário Carioca e eu no O Jornal. Não raro um caso ou uma ideia, surgidos na mesa do bar, servia de tema para mais de um de nós. Às vezes para os três. Quando caiu um edifício no bairro Peixoto, por exemplo, três crônicas foram por coincidência publicadas no dia seguinte, intituladas respectivamente: “Mas não cai?”, “Vai cair” e “Caiu”.

Até que um dia, numa hora de aperto, Rubem perdeu a cerimônia:
— Será que você teria uma crônica pequenininha para me emprestar?
Procurei nos meus guardados e encontrei uma que talvez servisse: sobre um menino que me pediu um cruzeiro para tomar uma sopa, foi seguido por mim até uma miserável casa de pasto da Lapa: a sopa existia mesmo, e por aquele preço. Chamava-se “O preço da sopa”. Rubem deu uma melhorada na história, trocou “casa de pasto” por “restaurante”, elevou o preço para cinco cruzeiros, pôs o título mais simples de “A sopa”.

Tempos mais tarde chegou a minha vez — nada como se valer de um amigo nas horas difíceis:
— Uma crônica usada, de que você não precisa mais, qualquer uma serve.
— Vou ver o que posso fazer - prometeu ele.
Acabou me dando de volta a da sopa.
— Logo esta? - protestei.
— As outras estão muito gastas.

Sou pobre mas não sou soberbo. Ajeitei a crônica como pude, toquei-lhe uns remendos, atualizei o preço para dez cruzeiros e liquidei de vez com ela, sob o título: “Esta sopa vai acabar”.


(Texto publicado no livro "A falta que ela me faz", Editora Record, 1980.)

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segunda-feira, 30 de novembro de 2009

O massacre dos quirópteros



Luci Afonso

— Mãe, olha o passarinho preto!
— Quieto, meu amor, já vai começar!
O auditório estava lotado. O diretor dava as boas-vindas ao público e anunciava o primeiro item do programa.

O menino só conseguia prestar atenção no bicho esquisito que surgira de repente do teto. Parecia um passarinho, mas tinha cara feia e asas sem penas. Apareceram mais dois e começaram a sobrevoar o palco.

— Mãe, olha! – Desta vez, ela enxergou as pequenas criaturas, mas não conseguiu identificá-las. — Fique quietinho, meu bem, é parte do cenário, - mentiu. Estava concentrada no recital.

À medida que transcorria a apresentação, outros saíram do telhado e passaram a voar também sobre a platéia. O salão estava muito quente e as portas, fechadas. Algumas pessoas notaram a estranha movimentação, até que um sussurro percorreu o recinto:
— Morcegos!

A partir daí, o público passou a observar os mamíferos voadores. Seu número parecia aumentar a cada salva de palmas. Um casal na última fileira tentou, discretamente, deixar o auditório, mas a porta principal estava trancada — por medida de segurança, o zelador só a abriria às 22 horas, quando terminasse o evento. Ainda eram 20h30min. As portas laterais, por sua vez, estavam obstruídas pelo equipamento de som. O casal voltou ao seu lugar em silêncio.

A esta altura, todos acompanhavam o voo das criaturas, agora mais numerosas. O diretor, ao perceber a apreensão geral, tentou relaxar os presentes:
— Estamos com sorte! Para os chineses, os morcegos trazem muita felicidade. – Como ninguém ali era chinês, não funcionou. Todos estavam visivelmente tensos, e alguns já se levantavam para ir embora, sem saber que ainda não poderiam sair.

Para segurar a plateia, o diretor pulou alguns pontos do programa e anunciou a última atração, o cantor Fred Jr., que executaria algumas músicas da Bossa Nova. Em seguida, passariam ao coquetel. As pessoas voltaram a se sentar, contrariadas.

Fred Jr., muito conhecido na cidade, sofrera recentemente de síndrome do pânico e há muito tempo não se apresentava em público. Hoje seria sua volta ao palco. Não conseguira decorar as letras e ensaiou o tempo todo nos bastidores, sem perceber o que se passava lá fora. Surpreso, foi chamado antes da hora combinada.

Entrou, decidido, e já começava a dedilhar o violão quando notou que algo estava errado. As pessoas olhavam para o alto, nervosas, e pareciam não notar a presença dele. Olhou também e sentiu um arrepio. Tinha medo de tudo que voasse, de mosquito a avião, mas tinha pavor irracional e incontrolável das criaturas horripilantes que agora enchiam a sala.

Respirou fundo e tentou distrair o público e a si mesmo com uma brincadeira:
— Acho que estão promovendo o filme do Batman! – Ninguém riu. Ele começou a cantar, mas a voz saiu fraca e desafinada. Os morcegos se agitaram, e um deles fez vôo rasante na cabeça de Fred Jr. Aterrorizado, ele largou o microfone e saiu correndo para a porta. Muitos o seguiram.

— Está trancada! – avisou o casal que tentara escapar. As mulheres se desesperaram, as crianças começaram a gritar. Os morcegos se inquietaram ainda mais. Os homens fingiram controlar o medo.

Um ambientalista argentino subiu numa cadeira e gritou em portunhol:
— Calma, pessoal, ellos son pacíficos!

Um senhor careca, de óculos minúsculos, pediu a palavra. Além de apreciador de poesia, era biólogo e doutor em quirópteros (nome científico dos morcegos). Para tranqüilizar os presentes, explicou que 90% da ordem Chiroptera eram sementívoros e apenas 10%, hematófagos, ou seja, era mínima a probabilidade de alguém ali ser mordido. Além disso, argumentou, os morcegos vampiros, ou Desmodus rotundus, só atacavam em zonas rurais para se alimentar ou se defender — como, aliás, havia acontecido, há poucos dias, num condomínio do Distrito Federal.

A explicação teve efeito oposto: os homens se juntaram, pegaram a mesa de madeira maciça e tentaram derrubar a porta. Aumentaram os gritos e o choro. O frenesi se instalou entre bichos e humanos. Os celulares foram acionados para chamar a Polícia, o Corpo de Bombeiros e o IBAMA.

O auditório se transformou em campo de batalha. O ambientalista, contrariando seus princípios, abateu com sua pasta alguns morcegos, para defender as damas em perigo. Uma poetisa que sempre se apresentava com um cachecol aproveitou-o para enforcar uns três. As mulheres mais valentes usavam seus chales para capturar e matar os nojentos animais. Os homens recorriam aos paletós. O menino que os vira primeiro pegou um filhotinho e guardou-o para dissecação, um de seus hobbies.

Fred Jr. se escondeu atrás do palco, mas um morcego havia chegado ali antes e estava à espreita — um Desmodus rotundus, o único na sala. O cantor, desesperado ao ver tão próxima a repugnante criatura, tentou atingi-la com o violão, acertando, sem querer, a cabeça do diretor, escondido no mesmo local. Ambos desmaiaram, um, pelo golpe, outro, pelo pavor, e o vampiro pôde se alimentar à vontade.

Todos os quirópteros foram abatidos, exceto o Desmodus, que depois de satisfeito se refugiou novamente no telhado, à espera de nova vítima. A porta foi arrombada, e descobriu-se o zelador em sono profundo no subsolo do prédio. A Polícia e os Bombeiros chegaram e atenderam prontamente aos dois homens inconscientes, que tinham dois grandes furos no pescoço. Eles despertaram, desmaiaram de novo, ao saber que haviam sido mordidos, e receberam dose preventiva de vacina anti-rábica. O IBAMA não foi encontrado.

A sindicância instaurada pelos proprietários do auditório não concluiu de quem foi a culpa pelo incidente. Muitos a atribuíram ao zelador; outros, a Fred Jr., enquanto os estudiosos apontavam causas naturais, como a baixa umidade e o período de acasalamento, o que tornaria os quirópteros mais irritadiços.

Não se chegou a laudo conclusivo, mas o evento ocupou o noticiário nacional por várias semanas e ficou registrado no imaginário brasiliense como o mais aterrorizante sarau literário-musical realizado na Capital da República.
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domingo, 22 de novembro de 2009

As marcas do clichê


Frases e expressões sedimentadas podem facilitar a comunicação, mas não contribuem para a renovação do idioma.

Braulio Tavares

Nos cursos de jornalismo, professores mandam a turma redigir um trabalho qualquer e depois vão anotando os clichês que aparecem: "Ferragens retorcidas... os bravos soldados do fogo... tórrido romance... corpo escultural... posição privilegiada...". São clichês, lugares-comuns, junções de substantivos e adjetivos que um dia, quando foram usadas pela primeiríssima vez, provocaram no leitor um agradável susto-de-novidade. Hoje, após milhões de repetições, são indício de preguiça mental.

Os clichês são invisíveis e onipresentes e só damos pela sua existência quando estamos à sua procura. Basta escrevermos pensando apenas no assunto, e não na linguagem, para que eles desabrochem. Não os vemos porque eles fazem parte da paisagem, como os semáforos e os orelhões. São expressões prontas, "prêt-à-porter", que nos dispensam de pensar.

Exemplo

Por exemplo: usei acima o termo composto "susto-de-novidade", que não pode ser encontrado em nenhum dicionário. É uma expressão rara, mas acho que qualquer pessoa entende. (É também uma expressão metalinguística: a reação que produz em nós é seu próprio significado.) Se eu continuar a usá-la, ela se tornará familiar. Se todo mundo começar a usá-la, daqui a alguns anos será um insuportável clichê.

Há uma anedota sobre o sujeito que foi ver o Hamlet pela primeira vez e queixou-se de que a peça estava cheia de clichês: "Ser ou não ser, eis a questão", "Tem algo de podre no reino da Dinamarca", "O resto é silêncio"... As grandes frases, quando se popularizam, viram lugar-comum. É o perigo de autores como Nelson Rodrigues, cujas expressões extremamente criativas acabaram virando chavões: "Óbvio ululante", "Calçar as sandálias da humildade", "Elas gostam de apanhar", "O olho rútilo e o lábio trêmulo"... São ótimas, mas devemos evitá-las. Deixemos que repousem apenas nas páginas imortais (olha o clichê!) do velho Nelson.

Relatividade

O clichê serve de atalho, quando estamos com preguiça de pensar e queremos chegar logo ao ponto principal. Em vez de passarmos cinco minutos à procura de uma maneira nova de dizer algo, dizemos da maneira que todo mundo já se acostumou a ouvir. Mas parar para pensar neles pode ser um bom exercício nas faculdades: fazer uma lista de clichês e inventar uma nova maneira de dizê-los. Quem os criou não os criou do nada e sim a partir de uma situação, um fato concreto, uma associação de ideias. Este processo pode ser refeito para produzir um resultado novo, desde que você seja um redator de mão-cheia. (Olha o clichê!)

Os estudiosos da poesia oral já observaram que grande parte dessa poesia é feita de clichês que se repetem. São expressões que, metrificadas de acordo com o ritmo usado nos poemas, podem ser transpostas de um poema para outro para novas utilizações. Uma descrição vívida e sonora passa de poema em poema, de personagem em personagem, incorporando-se ao estilo.

Estudiosos do nosso romanceiro popular registram muitas dessas expressões. Um personagem diz:
"Sou conde barão
de espora no pé
e espada na mão".

É uma descrição simples, sonora, com uma imagem visual forte... E pode ser encontrada em numerosos romances em versos. É um clichê - ou melhor, foi um clichê, dentro da cultura em que esses romances eram recitados. Você talvez a esteja encontrando pela primeira vez, e isso mostra que conceitos como clichê, originalidade, novidade e tradição são relativos.

Instrumentais

Existem também os clichês instrumentais. São aquelas expressões que não denotam coisas nem seres, apenas servem de conectivos entre as partes do discurso. Estes são ainda mais invisíveis, transparentes, e por isso mesmo mais perigosos.

Se pegarmos qualquer artigo de jornal ou revista vamos encontrar expressões como "é forçoso observar que", "e por que não dizer", "a obra gira em torno de", "faz-se necessário ressaltar", "cumpre registrar que", "não é outra coisa senão", "e como não poderia deixar de ser"...

É crime usá-las? Felizmente não, mas quando precisamos fazer cortes num texto porque ultrapassamos a quantidade de caracteres-com-espaços sugerida pelo editor, são essas expressões as primeiras que cortamos sem dó nem piedade.


Sedimentada

"Sem dó nem piedade", aliás, é um belo dum clichê, concordam? O clichê não é feito propriamente de palavras, porque nunca nos damos o trabalho de ler individualmente cada uma das palavras que o compõem. Lemos o sintagma inteiro e compreendemos com que intenção ele foi posto ali. Dó, piedade, nenhum destes termos será levado ao pé da letra ("ser levado ao pé da letra...?"). Importa apenas a função semântica que o conjunto irá cumprir dentro da frase.

O clichê pode ser um vício de linguagem, mas é um vício inevitável, porque não podemos ser criativos o tempo todo. A comunicação ficaria difícil se cada vez que disséssemos algo tivéssemos de fazê-lo de uma maneira completamente nova. O lugar-comum é linguagem sedimentada, previamente aceita, que já foi decodificada, assimilada e nos serve porque é instantânea como café solúvel, rápida como aquelas saladas já cortadinhas e embrulhadinhas em plástico. Se eu digo que Fulano é um espírito de porco ou que Sicrano meteu os pés pelas mãos, posso confiar que serei compreendido sem dificuldade. O clichê torna a linguagem mais rápida e mais coletiva, mas ao mesmo tempo a torna menos criativa e menos pessoal.

Não se pode evitar totalmente o clichê, mas é possível policiar seu uso. O melhor exercício é ler coisas escritas pelos outros e anotar numa folha todos os clichês encontrados. Depois, fazer o mesmo com os próprios textos e tentar criar formas alternativas de dizer aquilo. Em vez de "Fulano e Sicrana tiveram um tórrido romance", podemos dizer: "Tiveram um caso daqueles de incendiar os lençóis".

Braulio Tavares é compositor, autor de Contando Histórias em Versos (Editora 34, 2005). btavares13@terra.com.br
(Revista Língua Portuguesa nº 49, novembro de 2009)
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O lugar do lugar-comum



Em O Pai dos Burros, o jornalista e escritor Humberto Werneck reúne frases feitas que um dia já foram "novidade"

Edgard Murano


Tão involuntário quanto o uso de uma expressão clichê foi o nascimento de O Pai dos Burros (Arquipélago Editorial), coletânea feita por Humberto Werneck (do excelente O Santo Sujo, Cosac Naify, 2008). A obra surgiu da preocupação do jornalista com expressões que, de tão usadas, perdem a força, como "beleza efêmera", "mistura explosiva" e "sonora vaia".

Cliché é termo de origem francesa para a chapa metálica usada na impressão gráfica. Na literatura, é o estereótipo, o chavão. A ideia de produzir sua própria coletânea do gênero é dos anos 70, quando Werneck partilhava, no Jornal da Tarde, dos preceitos do "jornalismo literário", que evitava a todo custo expressões batidas.

— Por volta de 1972, comecei a anotar lugares-comuns, além de provérbios e expressões idiomáticas muito chapadas. Virou brincadeira, da qual alguns colegas passaram a participar. Virei, sem perceber, uma espécie de gari da semântica. Só mais tarde, nos anos 90, eu me dei conta de que havia ali um embrião de livro - conta.

Todo clichê já foi expressão feliz ou, diz Werneck, um "lugar-incomum". Foi o jornalista Augusto Nunes, diz Werneck, que nos anos 80 teria pela primeira vez usado, na revista Veja, "porões da ditadura" e "anos de chumbo", expressões que acabaram vítimas do próprio sucesso. Para Marcelo Módolo, professor de filologia e língua portuguesa da USP, sem tentativa deliberada de estilizar-se o que se diz, usar clichês é só um vício de linguagem.

— Clichês não são necessariamente negativos. Há uma história da fraseologia por trás deles - afirma Módolo.

Força vital

Módolo ressalta a expressão "o pulo do gato", "aquilo que o mestre não ensina". Viria da história, coligida em Contos Populares Brasileiros (Melhoramentos, 1965) por Lindolfo Gomes, sobre o gato que ensinou artes à onça. Após tudo aprender, ela quis comê-lo. Ele se safou pulando para trás, coisa que não ensinara à onça.

Os clichês são como esse gato. Se os desdenhamos, crendo que não nos ensinam mais nada, corremos o risco de ignorar a força que ainda não lhe foi roubada.

(Revista Língua Portuguesa nº 49, novembro de 2009)
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sábado, 14 de novembro de 2009

Sobre cavalos mansos e unicórnios




Rubem Alves


(...) Então você está confusa com os seus sentimentos. Ele apareceu tão de repente na sua vida, com aquele brilho manso no olhar, com aquela meiguice na voz, sem pedir coisa alguma, meio como um Pequeno Príncipe caído de um asteróide.

Aí você me veio com a terrível pergunta, querendo diagnóstico. Você queria saber se você estava sofrendo da doença proibida — você, uma mulher de meia-idade, que foi sempre irrepreensível em pensamentos e ações. Aquela doença que põe tudo de cabeça para baixo e começa a querer começar a vida de novo, com outra pessoa, mesmo que já seja tarde demais e tudo aconteça só na imaginação.

É muito fácil responder: “A presença dele traz alegria?”. Isso é tudo o que importa. Se trouxer só prazer, é fogo de palha. Prazer é coisa do corpo, só acontece quando o corpo do outro está lá. Alegria é coisa da alma, acontece só de lembrar.

Você sofre, é claro, porque isso lhe parece infidelidade. Você continua a gostar do seu marido. Há bonitos sentimentos de amizade entre vocês dois — mas é como aquele cavalo domado que fica amarrado no pau, paciente, sem pressa, arreado para qualquer eventualidade.

O que você pode fazer se você sonha é com o branco unicórnio que coloca a cabeça no seu colo e adormece? Amor não é lei, é graça, imprevisível como o vento, sopra numa direção, depois sopra em outra. O apaixonado é uma vítima inocente.

Muitas coisas podem ser prometidas e cumpridas, mas não posso prometer que ficarei sorrindo ao pensar no seu nome, não posso prometer comoções na minha carne ao ver o seu corpo.

Dizem os entendidos que os unicórnios são animais em extinção. Cuide bem do seu. Pode ser que seja o último a lhe aparecer.


(Trechos de crônica publicada no livro “Um céu numa flor silvestre — A beleza em todas as coisas”, Verus Editora, 2005.)
(Imagem: Marc Chagall)
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sábado, 7 de novembro de 2009

Comentário sobre "Velhota, eu?"


De: Roberto Campos da Rocha Miranda
Enviada em: terça-feira, 3 de novembro de 2009 08:23
Para: Luci Afonso de Oliveira
Assunto: Adorei o "Velhota eu?"

Cara Luci,

Adorei seu livro e vejo que temos a veia cômica em comum.
"O massacre dos quirópteros" é fantástico!
Grande abraço,

Roberto

Roberto Miranda é autor do livro de crônicas e contos “Dança das horas”, Editora Thesaurus, 1995.
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A última crônica



Fernando Sabino


A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.

Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.

Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho — um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular. A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.

São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "Parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura — ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido — vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.

Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.
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segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Ouse




Lou Andreas-Salomé

Ouse, ouse… o
use tudo!
Não tenha necessidade de nada!
Não tente adequar a sua vida a modelos, nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém.
Acredite: a vida dar-lhe-á poucos presentes.
Se quer uma vida, aprenda … a roubá-la!
Ouse, ouse tudo!
Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer.
Não defenda nenhum princípio, mas algo de bem mais maravilhoso: algo que está em nós e que queima como o fogo da vida!!
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domingo, 25 de outubro de 2009

Escrever é...



O escrever, assim como o pintar ou o trabalhar numa atividade qualquer, pode virar uma segunda natureza. O escritor verdadeiro é aquele que converte todas as sensações e pensamentos em linguagem. O mundo lhe vem filtrado através das palavras. Affonso Romano de Sant’Anna

Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador. Clarice Lispector

Sou mesmo forçado a escrever? Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Rainer Maria Rilke

Por que escrevo? Simplesmente porque é da minha natureza. Só consigo mesmo é fazer brotar palavra, história e ideia. Ana Maria Machado

Se você tem um dom, a coisa mais agradecida que pode fazer em relação a ele é aceitar, cuidar disso como um operário. Adélia Prado

Escrever é difícil, sim, aquele duro corpo a corpo com a palavra, mas assim que entro no imaginário, na fantasia me sinto bem porque essa é a zona do mistério, a criação literária é um mistério. Lygia Fagundes Telles

Há mil maneiras de dizer uma coisa e só uma é perfeita. Para descobri-la, a gente pode levar a vida inteira. Fernando Sabino

O importante, no fim, é escrever com leveza. Luís Fernando Veríssimo

Quero que meus textos sejam comidos. Mais que isso: quero que eles sejam comidos com prazer. Esse é o sonho de cada escritor. Rubem Alves

Extraída de mim a leitura, que ser humano eu seria, e que ponto de partida teria para uma escrita? A leitura me precedeu abrindo portas, fornecendo respostas a perguntas que eu ainda não havia conseguido formular. Marina Colasanti

A marca dos livros que dão alegria é que se parecem com poemas: voltamos sempre a eles, para lê-los de novo. Livros que dão alegria entram no sangue. Rubem Alves

Para os poetas não existe parto sem dor. Mário Quintana

Ler e reler poesia/ é acender a luz/ que clareia o dia. Elicio Pontes

O nome das coisas mora nas palavras, circulando entre corredores de mistério e de espanto. Alexandra Rodrigues

Não há melhor fragata que um livro/ para levar-nos a terras distantes. Emily Dickinson

A melhor maneira de começar a sonhar é através dos livros. Fernando Pessoa

Minhas crônicas são fotografias. Escrevo para fazer ver. Rubem Alves

Para mim não existe diferença entre a literatura e a vida. A literatura foi o caminho que eu encontrei para enfrentar essa bela tarefa de viver. Ariano Suassuna

Escrever para mim é indagar. Escrevo para obter respostas que — eu sei — não existem. Lya Luft

Palavras são silêncios acordando para a Vida. Alexandra Rodrigues

Na vibração da voz grave/ o estremecimento/ de um terremoto suave. Elicio Pontes

Depois que uso uma palavra nova, ela me beija. Quer dizer que gostou de mim. Eu sou de bem com as palavras que uso porque elas me são. Manoel de Barros

Escrever é o meu jeito de ficar por aqui. Cada texto é uma semente. Depois que eu for, elas ficarão. Quem sabe se transformarão em árvores! Torço para que sejam ipês amarelos... Rubem Alves

Por que algumas pessoas têm necessidade de viver duas vezes? Uma vez quando vivem e outra quando escrevem? E por que esta segunda vez é mais importante que a primeira? O escritor é aquele que pode ler a noite. Marguerite Duras

É o compromisso mais avançado que eu tenho com a vida: nada me enriquece mais do que quando eu passo em revista a realidade da criação. Nélida Piñon

Escrevo para salvar a alma. Fernando Pessoa

Silêncios são palavras descansando do mundo. Alexandra Rodrigues

O mundo ao nosso redor,/ Sendo nós que o habitamos,/ Também nós o transformamos/ Com poesia e suor. Carlos Augusto Cacá


(Frases escolhidas para o estande O Servidor Escritor, em exposição no hall de entrada do Centro de Formação, Treinamento e Aperfeiçoamento (Cefor), da Câmara dos Deputados, de 27 a 30 de outubro, das 9 às 18h.)
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domingo, 18 de outubro de 2009

Clickr & Flickr


O que seria da palavra sem a imagem? Como explicar esta sem aquela?

Em Clickr & Flickr (à direita da página), artistas multitalentosos — designers, ilustradores, pintores, fotógrafos —enriquecem as palavras com criações ousadas, polêmicas, líricas e sempre instigantes.
Alguns estarão envolvidos com a nova safra de belos projetos recentemente aprovados pelo Fundo da Arte e da Cultura. Outros, como Felipe Cavalcante e Eudaldo Sobrinho (flickr ainda não encontrado), são autores do projeto do Guardião da Manhã, que encantou pela delicadeza com que refletiu as crônicas do livro.
Muitos jovens, uns maduros, todos promissores. Desfrutemos da sua sensibilidade.

(Imagem: Detalhe da instalação "O Sonhador de Moradas", de Lelo.)


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Twitter ou não twitter?

“Os tais 140 caracteres refletem a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido.”

José Saramago

(Revista Língua Portuguesa nº 48, outubro de 2009)
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segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Quinta Crônica Especial



Em comemoração ao Dia do Professor, o Centro de Formação, Treinamento e Aperfeiçoamento da Câmara dos Deputados tem o prazer de convidar para a 7ª edição do projeto Quinta Crônica, no dia 15 de outubro, às 16 horas, no Auditório do Cefor. Esta edição, especialmente dedicada aos educadores, trará crônicas de Rubem Alves, canções de Noel Rosa e terá a presença da cronista Alexandra Rodrigues e do poeta Elicio Pontes.

O mineiro Rubem Alves, um dos intelectuais mais conhecidos do Brasil, é teólogo, filósofo e psicanalista. Escreve crônicas, estórias infantis e livros sobre Filosofia da Educação. Segundo ele, “educadores não podem ser produzidos. Educadores nascem. O que se pode fazer é ajudá-los a nascer. Para isso eu falo e escrevo: para que eles tenham coragem de nascer”.

Alexandra Rodrigues, nascida em Lisboa, Portugal, e Elicio Pontes, natural do Ceará, dedicam-se à formação de professores na Faculdade de Educação da UnB e têm obras publicadas. Noel Rosa, o Poeta de Vila Isabel, revolucionou a música popular brasileira ao incorporar o samba produzido nos morros cariocas.

O espetáculo será conduzido pelo ator Jones Schneider, idealizador do projeto, acompanhado pelo músico Alex Souza. O evento é aberto ao público em geral, que poderá fazer perguntas aos convidados. Em seguida, haverá sessão de autógrafos.

Celebre esta data na companhia de educadores que também vivenciam o prazer da escrita. Esperamos você para uma estimulante troca de ideias sobre a alegria de aprender e de ensinar.

Quinta Crônica Especial
Dia 15 de outubro
16h
Auditório do Cefor
Entrada franca
Informações: 3216-7678



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O lobo da literatura



(Trecho de entrevista com o escritor português António Lobo Antunes, por Terciane Alves.)


O senhor diz que escrever é difícil, trabalhoso. Como é, na prática, essa dificuldade?

Escrevo sempre à mão. Fiz assim com todos os meus livros e seguirei fazendo assim nos próximos. É um ir e vir constante. Dois terços das palavras que você escreve são inúteis. (O escritor argentino Julio) Cortázar costumava dizer: "Esses adjetivos são umas putas". Há palavras que surgiram para ser simplesmente cortadas, advérbios de modo, adjetivos. Se você escreve dez horas, duas você passa realmente escrevendo. As outras, cortando.

O que deve entusiasmar num livro?

O leitor sentir as emoções por meio de suas palavras. Não vou deixar que o livro me vença. É preciso criar o máximo que se possa. Encher os livros de silêncio.

Sobre a arte da leitura

O leitor é quem está escrevendo o livro. Ler é um ato criativo. E há poucas pessoas que sabem ler. Ler não é um ato passivo como quando a gente vê novela. Os livros que eu gosto de ler são os livros que exigem muito de mim. Daí eu estou a pensar se os livros em vez de ter o nome do escritor, deviam ter o nome do leitor na capa. Ele é quem de fato escreve o livro. Quem começa a ler um livro bom sempre descobre coisas acerca de si mesmo. Livros extraordinariamente simples são os mais complexos.


(Revista Língua Portuguesa nº 47, setembro de 2009)

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domingo, 4 de outubro de 2009

Procura-se




Luci Afonso

Não aprendi a miar, só a gemer. Fui abandonada no matagal e perseguida por seres gigantes (aprendi que eram pessoas), que mataram meus irmãos. Meu pelo branco se sujou de lama e minha barriga doeu pelo lixo que comi.

Uma noite, enquanto dormia, puseram-me numa caixa e levaram-me para um lugar cheio de bichos como eu (fiquei sabendo que éramos gatos). Ganhei água e ração. Fui arranhada e mordida e, para me defender, mordi e arranhei.

Colocaram-nos numa gaiola, e fomos para um lugar grande e barulhento (uma pétishóp, disseram). Pessoas entravam e saíam, carregando um de nós. Todos foram levados, menos eu. Ouvi coisas como “feinha”, “selvagem”, “doente”.

Depois de algum tempo, alguém perguntou:
— Só sobrou ela?
— Só, mas ela é muito boazinha.

Fiz barulho para chamar atenção. Queria muito sair dali.
— Ela não mia?
— Não, mas a senhora pode ensiná-la.

Feinha, selvagem, doente e sem saber miar? Quem iria me querer?
— Vou ficar com ela.

Mudei-me para um apartamento grande e confortável, onde nada me faltava. Ganhei um ratinho de brinquedo, um colar com meu nome, uma casinha. Procurava retribuir os cuidados da senhora comportando-me bem, engolindo os comprimidos que ela me dava, usando sempre a caixinha de areia e não derrubando nada.

— Miau! - ela tentava me ensinar todo dia, pondo-me no colo. — Miau! - ela insistia.

Engordei, meu pelo ficou brilhante, não precisei mais de remédios. Todos me achavam linda.

A senhora é que não estava bem. Dormia quase o dia inteiro, andava devagar pela casa, a cabeça baixa, os olhos molhados. Um dia resolvi fazer-lhe uma surpresa: pulei na cama bem cedo, cheguei perto do seu rosto e disse “Miau!” pela primeira vez.

Ela não acordou (entendi o que era saudade).


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domingo, 27 de setembro de 2009

Mantra



Luci Afonso


SAT PATIM DEHI PARAMESHVARA
SAT PATIM DEHI PARAMESHVARA
SAT PATIM DEHI PARAMESHVARA
SAT PATIM DEHI PARAMESHVARA
SAT PATIM DEHI PARAMESHVARA
SAT PATIM DEHI PARAMESHVARA
SAT PATIM DEHI PARAMESHVARA
SAT PATIM DEHI PARAMESHVARA
SAT PATIM DEHI PARAMESHVARA
SAT PATIM DEHI PARAMESHVARA
SAT PATIM DEHI PARAMESHVARA...

Instruções: Repetir 108 vezes ininterruptas, por 40 dias. Se esquecer um dia, recomeçar a contagem.

Propósito: Encontrar um parceiro.

Tradução: “Abençoe-me com um divino marido”.

Resultado: Comecei hoje, mas estou confiante.
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domingo, 20 de setembro de 2009

Guidons e garupas



Luci Afonso


As pernas doíam, o fôlego acabava, o suor escorria enquanto eu levava Neusa ladeira acima, na velha bicicleta. Fazíamos o trajeto todo dia até a pracinha onde brincávamos. Ida e volta, eu no guidom, ela na garupa.

Conhecíamo-nos há meses. No aniversário da menina, a mãe deu uma grande festa. Coloquei o vestido novo, peguei o presente e esperei no portão, até o último minuto, o convite que não veio. Fui dormir imaginando o que eu fizera de errado para não merecê-lo.

Cresci pensando que grosserias, esquecimentos e agressões eram, de alguma forma, minha culpa. Engoli tantos sapos, e tão gordos, que logo precisei de ajuda para expeli-los.

O Dr. Martelo, assim conhecido pelos contundentes e eficazes métodos de trabalho, ensinou-me (pow!) a regra de ouro para identificar os falsos amigos — um mais zero dá um; zero mais zero dá zero; um menos um, também. Quando um mais um são dois, dois mais dois são quatro e assim por diante, não há dúvida: são verdadeiros.

Sapos regurgitados, contas refeitas, alta médica. Continuo perdoando indelicadezas, mas sem maquiar os fatos. Nas palavras de uma sábia cronista, quem tem só uma cara apanha muito (pow!) até distinguir amizades autênticas de meras “experiências”.

Não sei se ainda fabricam bicicletas com garupa; é que eu não carrego mais neusas.
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sábado, 19 de setembro de 2009

A era do miniconto




Dos contos tradicionais aos concursos de textos em uma linha, histórias enxutas brincam com a imaginação do leitor

Braulio Tavares



Que tamanho deve ter um conto? Os critérios editoriais definem a extensão de um texto pelo número de caracteres ou palavras. O mercado literário norte-americano, mais industrializado e preciso do que o nosso, define quatro faixas de extensão: conto, até 7.500 palavras; noveleta, de 7.500 a 17.500; novela, de 17.500 a 40 mil; romance, de 40 mil em diante.

Edgar Allan Poe definiu o conto, de maneira pragmática e intuitiva, como "narrativa curta, cuja leitura atenta requer de meia hora a uma ou duas horas". Tinha em vista o que ele chamava de unidade de efeito. O conto deveria ser curto para não ser interrompido. Ser uma experiência mental única, contínua, do começo até o fim, para que não se diluíssem as tensões, e o desfecho tivesse toda a carga emocional preparada pelo autor. Curiosamente, a duração que ele preconizava para o conto é a que tem um longa-metragem comercial. E qualquer espectador de cinema mais exigente sabe que a experiência de ver um filme na TV "quebra o efeito" por causa dos intervalos comerciais. Tanto conto quanto filme devem, idealmente, ser uma experiência mental ininterrupta.

Isso se torna mais fácil quando praticamos o "miniconto". Para ele não há limite específico, mas podemos considerar minicontos aqueles de duas páginas ou menos. Revistas literárias de língua inglesa promovem de vez em quando concursos para contos com só seis palavras. O modelo é um texto de Ernest Hemingway: "For sale: baby shoes, never worn" (Vendem-se: sapatos de bebê, sem uso). Há toda uma tragédia familiar por trás desse minitexto.

Concisão

O miniconto procura sugerir, já que não pode descrever ou narrar muita coisa. Em oficinas literárias ou de roteiro, vez por outra os alunos recebem a tarefa: "Conte sua história em uma frase. Depois, em dez linhas. Depois, em trinta linhas; e em 200 linhas". Quem for capaz de manter precisão e coerência ao longo dessas etapas provavelmente será capaz de escrever um roteiro de 120 páginas. A concisão é virtude em jogo na era eletrônica e seu espaço sem limites. Antigamente, escrevíamos pensando no número de toques por linha (eram 70) e no de linhas por lauda (30). Compactar qualquer história em seis palavras nos traz de volta essa antiga disciplina.

A revista Wired promoveu certa vez um concurso de contos fantásticos e de ficção científica em seis palavras. Tarefa difícil, uma vez que é preciso sugerir, além da história, uma ambientação com a qual o leitor, a princípio, não tem familiaridade. Mesmo assim, houve tentativas bem-sucedidas. Como a de Eileen Gunn: "Computador? Trouxemos baterias? Alô! Computador? Computador?." Não precisa mais nada para imaginarmos uma nave silenciosamente à deriva no espaço, cheia de astronautas congelados. (...)

Não ficção

O interessante nessas experiências é que o autor conta com a imaginação do leitor, sua capacidade de recorrer a um banco de dados comum para preencher as partes não explicadas. As seis palavras funcionam como um cartum, criando uma unidade de sentido que se percebe de um só relance, sem ficar esmiuçando "como" e "por quê". São como título de livro ou manchete de jornal: exigem que a gente seja capaz de "já saber" e de imaginar.

(...) Há um grande romance latente em cada meia dúzia de palavras, desde que bem escolhidas.

Braulio Tavares é compositor, autor de Contando Histórias em Versos (Editora 34, 2005). btavares13@terra.com.br


(Trecho do artigo publicado na Revista Língua Portuguesa nº 45, julho de 2009)
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Estive em Lisboa e lembrei de você



Acaba de sair, publicado pela Cia das Letras, o novo livro de Luiz Ruffato, Estive em Lisboa e lembrei de você.

Em mais um volume da coleção Amores Expressos , um dos mais bem-sucedidos autores brasileiros contemporâneos revela sua mão segura e inventiva ao narrar a história de Serginho, mineiro (de Cataguases) desiludido com o casamento e a falta de emprego que decide se aventurar em Portugal, em busca de redenção financeira e, quiçá, amorosa.

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sábado, 12 de setembro de 2009

Dom de menina



Com entrada franca, Quinta Crônica mistura as histórias de Gracia Cantanhede com as canções de Caetano Veloso.


O gosto da escrita nasceu no tempo de menina, lá no interior de Minas Gerais. A escritora Gracia Cantanhede lembra o dia em que descreveu uma viagem de navio completamente criada na sua imaginação. Tinha 9 anos quando a redação foi lida e elogiada em sala de aula pela professora. Naquele momento, ela decidiu que não se separaria mais das palavras. Jura cumprida. Hoje, em casa, essa mineira-brasiliense tem uma pilha de cadernos com frases feitas em caneta de tinta. Alguns se transformaram nos livros Palavra de mulher e Jogo de persona. “Mesmo na era do computador, continuo criando a próprio punho porque assim acredito que escrevo com o coração”, confessa.


Na quinta-feira, dia 17 de setembro, às 19h30, no Auditório do Cefor (Centro de Formação da Câmara dos Deputados, Setor de Garagens Ministeriais Norte, Via N3, atrás dos anexos dos ministérios), Gracia Cantanhede ficará diante de suas histórias. Ela é autora homenageada do projeto Quinta Crônica. As narrativas serão dramatizadas pelo ator e diretor Jones Schneider e mescladas às canções de Caetano Veloso, interpretadas por Alex Souza (músico do projeto Caraivana). A autora estará presente e o clima será de um talk-show ao vivo. “Gracia enviou os livros pra mim e encontrei ali uma escritora tocada pelo ser humano. São histórias de uma mulher, que é observadora atenta do outro”, observa Jones Schneider, que também desenvolve, neste mês, o Terça Crônica na Ceilândia, com patrocínio do Fundo de Apoio à Cultura (FAC). À qualidade nata de observação, Gracia Cantanhede atribui à vida no interior, onde se atenta a detalhes do cotidiano, perdidos nas grandes cidades. “O de ver um passarinho fazer o ninho. Cresci com a sensibilidade para olhar as coisas, de atentar para todo o tipo de gente, os personagens folclóricos do interior, a prostituta que passava na minha janela”, lembra Gracia Cantanhede, que, nos projetos literários, pretende escrever biografias.


QUINTA CRÔNICA

Auditório do Cefor (Centro de Formação da Câmara dos Deputados, Setor de Garagens Ministeriais Norte, Via N3, atrás dos anexos dos ministérios, 3216.7678). Dia 17 de setembro (quinta), às 19h30, crônicas de Gracia Cantanhede e canções de Caetano Veloso. Direção e atuação de Jones Schneider. Com o músico Alex Souza. Participação especial: Gracia Cantanhede. Entrada Franca. Classificação indicativa livre.
http://www.tercacrônica.com.br/
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Coletânea Poética do Guará




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domingo, 6 de setembro de 2009

Menino Pai



Luci Afonso


Menino, chegou a hora. Nasça devagar, não tenha pressa.

Brinque de carrinho, jogue bola. Namore as duas irmãs, case com a mais bonita.

Daqui a vinte anos serei sua filha.

Você me levará a todo lugar. Vai me mostrar aos amigos, tirar fotos, me encher de presentes. Vai me ensinar a nadar, sentirá orgulho no recital de piano e no balé.

Quando eu fizer dez anos, me deixará pela primeira vez. Perguntarei, aflita, aonde vai, e ouvirei apenas: — Para longe, querida.

Aos quinze, desejarei a nova separação. Terei pesadelos de que você voltou e está no bar da esquina.

Você não conhecerá meus homens, todos parecidos com você. Não levará seu neto para tomar sorvete.

Não nos falaremos mais. Ao telefone, não conseguirei dizer o quanto sinto sua falta, apenas ouvirei sua respiração ansiosa. Receberemos a notícia num domingo bonito demais para se partir.

Pai, até chegar a hora, celebrarei sozinha, com uma lágrima de cristal, o dia em que você nasceu.


(Imagem: "Materna", pastel a óleo de Luci Afonso)
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sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Querida, Meu Bem



Luci Afonso


Arrasto-me pela casa com roupão branco e chinelos atoalhados, esperando que ela vá embora. Na infância éramos inseparáveis. Depois, afastamo-nos um pouco, mas ela insiste em aparecer de surpresa e em se demorar:

— Vim o mais rápido que pude, Querida.

Meu Bem é sozinha: não tem família, nem amizades, nem bichos de estimação, nem plantas. Quando chega, espalha-se pelos cômodos, revira o quarto, desliga o computador e esconde os óculos para que eu não leia, não escreva, não faça nada além de cuidar dela. O telefone emudece, as persianas se fecham, as violetas murcham. Os gatos param de brincar.

Durmo o dia inteiro para que passe mais rápido, mas ela se deita comigo e quer brincar como antes:

— Lembra?

Ainda não consegui dizer que já estou esquecendo, que agora...

— Lembra? - ela insiste.

— Sim - eu minto, fingindo uma lágrima para deixá-la contente. Ela também chora e diz, já em sonho:

— Que bom!

No dia seguinte, ela se vai sem despedida. Guardo os chinelos, ponho o roupão para lavar, tomo banho e vou pintar o cabelo e as unhas, talvez ambos de vermelho.

Na próxima visita, contarei que tenho outras amigas, que não preciso mais dela. Direi também que sou... — não, isto ainda não consigo admitir nem a Querida, nem a Meu Bem.


(Imagem: "Infância", pastel a óleo de Luci Afonso)
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Prefácio ao Guardião da Manhã



Nestor Kirjner


A artista ousa! Cercada de literatos, respeitada por seu talento, ela poderia qualificar sua obra recorrendo a um nome de peso da literatura brasiliense. Mas Luci Afonso acredita em seus signos, e o convite para este Prefácio chega surpreendentemente ao Velho Menestrel, com a constatação de que há música, e muita música, nas crônicas com que Luci enfeita nosso cotidiano.

Não escolher um escritor consagrado, mas um poeta musical desconhecido! A ousadia de Luci me faz personagem de uma confissão. Ela confessa que seus poemas são temas musicais que, como diria Paulinho da Viola, só não têm melodia, pra não perder o valor.

E a leitura das crônicas confirma essa suspeita! A música da vida permeia as palavras da escritora, a poesia caracteriza a prosa cotidiana, Luci compõe musicalmente belos textos e, convidando-me ao prefácio, me faz parceiro de sua arte! Infelizmente, não sei “cantar” suas deliciosas crônicas plenas de leveza, e permaneço estático, apenas um humilde e ávido espectador de sua percepção do cotidiano.

Mas não pense o leitor que leveza e delícia pressupõem superficialidade. Absolutamente! A denúncia está em cada palavra que Luci escreve. Tu encontrarás nos textos aparentemente leves a solidariedade em face das dores da condição humana, perceberás a indignação com o egoísmo e a gratuidade da violência, vivenciarás a revolta da autora para com o cinismo e a indiferença da competitiva e absurda sociedade de consumo que todo santo dia nos obrigam a engolir, sem digerir. A diferença é que, forjadas na linha precisa e preciosa de autores como Rubem Braga, Fernando Sabino e Veríssimo, as crônicas de Luci Afonso associam pitadas femininas de ternura e poesia a diálogos ágeis e bem-humorados e, tal como na valsa de Orestes Barbosa, ela “pisa nos astros, aparentemente distraída”. E tu, leitor, sorris da tragédia do dia-a-dia e te divertes com a ironia da desgraça cotidiana, sem perceber que a poesia sutil de Luci permanecerá na corrente do teu sangue, impregnada definitivamente nos poros de tua perplexidade.

A cada crônica, tu quererás mais, pois a sensação pós-leitura é de um extremo bem-estar. E, sem querer, uma música qualquer virá a tua memória, para atestar que a poesia de Luci Afonso vai muito além que um simples ato de literatura. Os Velhos Menestréis que o digam! Leitores atentos, o que lhes resta é ser guardiães das manhãs e cantar canções que lhes venham à memória e ao coração. Versos que Luci Afonso repetirá com arte extrema, arrancando lágrimas da platéia. E que gerarão, depois, uma nova “safra” de crônicas cotidianas e profundas, dando (quem sabe?) a um pintor ou a um fotógrafo sensível a chance de atender a um novo pedido da escritora, e prefaciar um terceiro (e cada vez mais brilhante) livro de crônicas. Pois, como já “entreguei” a vocês, Luci Afonso vai muito além da simples literatura. A crônica de Luci é arte, e arte não se define com rótulos ou com limites...


Nestor Kirjner é poeta e compositor de Brasília.
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sábado, 15 de agosto de 2009

A vida é um grande Biscoitão



Luci Afonso


From: Eudaldo Sobrinho <eslsobrinho@gmail.com>
To: Luci Afonso de Oliveira <
luci.afonso@terra.com.br>

Quinta 23/04 09h57
Luci,
O orçamento é um pouco acima do montante de que dispomos, ainda assim eles ofereceram o projeto mais completo. Considero essa edição muito luxuosa em vários sentidos: o papel e a tinta são os melhores possíveis. Na capa, a impressão é dos dois lados. O livro ficaria realmente um chuchuzinho.

Segunda 27/04 09h42
O Edson fez o melhor que pôde pra baixar o preço. Fiquei triste de não conseguir cópias adicionais. Agora temos que correr pra fazer a prova e imprimir! Me mande os textos que você quer incluir. Acho que cabem umas duas crônicas não muito grandes.

Quinta 30/04 01h48
Em anexo segue o pdf. Mil perdões por não ter enviado mais cedo. Hoje o dia foi uma montanha russa que eu não queria ter vivido. Gostaria de saber se é possível ter mais uma crônica, mas ela só pode ter 2 páginas. “Umas” não é possível, e 3 é inviável. Se você tiver uma na sua caixa mágica do cotidiano, ia ser legal.

Quinta 30/04 20h39
Como anda a solicitação do isbn? O ideal seria ter isso na segunda para a prova já sair com o código. Caso não seja possível, não poderemos atrasar a produção porque, infelizmente, eu já atrasei tudo o que foi possível (foi mal!). Foi um fim de noite muito agradável reler algumas crônicas. Durante a correção, os parágrafos eram lidos até o fim, mesmo quando as vírgulas e os itálicos já estavam em seus lugares!

Quarta 06/05 7h49
Tem dois pdfs já com algumas alterações. O primeiro sem as páginas juntas dá pra ficar grande no A4 e o segundo é pra você poder ver como as páginas ficam juntas.Mais tarde envio com as ilustrações. Teremos que ir na gráfica acertar o pagamento.

Quinta 07/05 0h20
Em anexo vai o preview com as ilustrações que finalizei. Estou tendo problemas com meu monitor, as cores nem sempre ficam fiéis. Esse preview não está tão bom quando deveria, mas já tem alguma coisa do livro pronto. Estou sonhando com ele impresso.

Quinta 07/05 23h55
Acabei a correção, segue em anexo o pdf. Amanhã você pode conferir. Note que eu troquei o adorno, achei esse mais discreto. Não precisa sofrer muito com o lance do texto. Ainda não troquei a ilustração da folha de rosto, mas está aqui anotado.

Terça, 19/05 22h24
Trabalhei na ilustração a tarde inteira, mas a verdade é que eu não entendi bem o que devo mudar. Por mim já avançaríamos como uma moto aplainadora, fazendo asfalto novo. A verdade é que estou agoniado, querendo ver o livro pronto. Se eu estou assim, imagine você. Por favor, continue sendo esse poço enorme de paciência! Estamos quase lá.

Quinta, 28/05 10h15
O livro está na fase final de impressão! Podemos buscá-lo à tarde.

Quinta, 28/05 14h10
A impressão teve que ser suspensa por causa de outra encomenda mais urgente. O Edson informou que será impossível entregar a tempo para o lançamento às 19h.

Quinta, 28/05 18h50
Graças a um telefonema de um figurão da Câmara, nosso livro está pronto. Venha urgente com o segundo cheque. A vida é um grande biscoitão!
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Comentário sobre O Guardião da Manhã



Isolda Marinho

Como um refresco doce num momento de amargura; um sorvete de pinha no calor do verão; uma massagem relaxante após um dia cansado; um abraço de aconchego na horinha da tristeza; uma xícara de chã de hortelã com bolo de amêndoa no vazio da tarde; uma fonte de esperança quando tudo já parece esvaído. Esta é sensação que sinto quando leio um texto da Luci. A cada crônica, um lampejo de ânimo para termos a certeza de que vale a pena ser.


Isolda Marinho é autora dos livros de poesia "Sementes de Amora" e "Viço do Verso".
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Os olhos do tempo, de Elicio Pontes






Os Olhos do Tempo é o segundo livro do poeta Elicio Pontes e será lançado na próxima segunda-feira, 17 de agosto, às 19h30, no Martinica Café, na 303 Norte. Classificação: imperdível.
Elicio Pontes nasceu em Nova Russa, Ceará. Em Crateús, para onde se mudou aos cinco anos, escutava cantadores e poetas populares na feira da cidade. À noite, lia romances de cordel para ouvintes não leitores; ganhava aplausos (e, às vezes, algumas moedas).
Aos 13 anos foi para Fortaleza, onde mais tarde tornou-se jornalista e radialista. Formou-se em Pedagogia pela UFC. É mestre em Educação pela USC, de Los Angeles, EUA, e doutor pela Uned de Madri, Espanha. É professor da Universidade de Brasilia.
Publicou, em 2001, Corpos Terrestres, Corpos Celestes (Poesia).



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sábado, 8 de agosto de 2009

Felis cattus domesticus L., SRD



Luci Afonso

Gatos são amaldiçoados, desde que um deles serviu urina a Jesus. Têm pacto com o Demônio e com feiticeiras. São dissimulados, interesseiros e preguiçosos. Quando não gostam de uma pessoa, atacam-na diretamente na jugular, sem chance de defesa. Não se apegam a ninguém, não fazem carinho nem gostam de ser tocados.

Eu acreditava firmemente nessas ideias e chegara a afirmar, em diversas ocasiões, que odiava gatos, que eles me davam medo e agonia. Por isso, fui apreensiva à feirinha de doação de animais, na manhã de sábado, procurar um gatinho para meu filho, disposta a enfrentar meus temores para que ele tivesse a companhia de um bicho de estimação. Ainda estávamos traumatizados por várias tentativas fracassadas de criar cachorros e sabíamos que pássaros, tartarugas e peixes não interagem com o dono.

Avistei imediatamente o filhote de pelo claro e listrado, no meio de outros que miavam nervosos e assustados com os barulhos da feira. Ele nascera há dois meses em apartamento, portanto, era de família, meigo e dócil, e não tinha maus hábitos adquiridos na rua. Meu filho o abraçou até chegarmos em casa, já com a ração, a caminha, a areia e as caixas que serviriam de banheiro.

Nos primeiros dias, um ou outro xixi fora do lugar, depois o uso correto e espontâneo das caixas de areia, seguido por um som que significava: “Acabei”. Uma ou outra planta derrubada, na exploração do novo território, depois o andar leve e gracioso entre os móveis e objetos. Um ou outro pulo mal calculado, seguido de exibições impressionantes de agilidade e equilíbrio.

Apaixonamo-nos pelo gatinho sem raça definida e resolvemos chamá-lo Patinha — sobrenome Oliveira, na ficha da clínica veterinária. Ele se reveza em nosso colo e em nossa cama, dorme a tarde inteira num buraco que fez na parte de baixo do colchão, fica quietinho quando saímos e nos recebe com gemidos de saudade.

À noite, nós três ronronamos, aconchegados e tranquilos: jamais, em hipótese nenhuma, haverá latidos no meio da noite nem surpresas indesejadas no tapete da sala. Meu receio se esvai, como se a vida inteira eu esperasse ter um gato. Prometo a mim mesma nunca mais odiar o que não conheço.

Sempre que chego do trabalho, jogo a bolsa no sofá e pergunto, com a mesma voz que usava com meu filho ainda bebê:
— Cadê o gatinho da mamãe?
Ele aparece com cara de sono e dá um miadinho de contentamento:
— Estou aqui, mamãe, estou bem aqui.


(Imagem: Gato Amarelo, de Aldemir Martins)
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Comentário sobre O Guardião da Manhã



"De: Luiz Ruffato
Data: terça-feira, 4 de agosto de 2009 09:00
Para: Luci Afonso
Assunto: olá

Olá, Luci,

fiquei muito feliz em reencontrar você.
No aeroporto, li O Guardião da Manhã, de uma só vez...
Além da edição lindíssima (invejável pelo bom gosto e pela elegância), os textos são primorosos. Alguns, como Parabéns pra você, Promessa, Escambo de natal, extrapolam o gênero e se querem contos - e são muito bons. Outros, como Dente mole e sua continuação É meu, ou Moreno, alto e forte, são mostras do melhor da crônica.
Parabéns, Luci.
Grande abraço deste
lr"

Luiz Ruffato nasceu em Cataguases (MG) em 1961. Recebeu importantes prêmios literários nacionais. Seu mais recente livro é Vista Parcial da Noite, terceiro volume da série Inferno Provisório, publicada pela Editora Record.
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4º Desafio dos Escritores



Está lançado o 4º Desafio dos Escritores (Conto) do Núcleo de Literatura do Espaço Cultural Zumbi dos Palmares, da Câmara dos Deputados.

Já estão na página do Núcleo as regras, a ficha de inscrição e o cronograma.

Certamente,como nas edições anteriores, o Desafio revelará grandes talentos. Seja um deles!

Início: 27 de agosto.

Inscreva-se já:

http://literaturadecamara.sites.uol.com.br/
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sábado, 1 de agosto de 2009

Assim no Céu como na Terra


Luci Afonso


— Nome?
— Clodoaldo José Paulino, às suas ordens.
— Idade?
— Oitenta e um. Oitenta e dois no mês que vem, se Deus quiser.
—Apelido?
— Pernambuco.
— Nasceu em Pernambuco?
— Não, no Rio Grande do Norte.
— Motivo que o trouxe?
— O coração estufou, o peito ficou pequeno.
— Causa natural, então. Deixou bens?
— Filhos, netos, amigos e clientes.
— Profissão?
— Lavador de carros.
— Que tarefa gostaria de realizar aqui?
— A mesma. Por dentro e por fora, no capricho.
— Não usamos carros. O senhor sabe fazer mais alguma coisa?
— Eu sei alegrar as pessoas que acordam desanimadas.
— Essa atividade não consta em nossa lista. É nova?
— Não, é velha como eu.
— Como era feita?
— Eu só cumprimentava, desejava bom serviço e dava minha benção.
— O senhor tinha permissão para abençoar?
— Precisava?
— Um momento, por favor. Apresente-se amanhã bem cedo, no portão principal.
— Se não for pedir muito, seu moço, posso ter crachá?
— Veremos se é possível. Próximo!

No dia seguinte:

— Bom dia, doutor!
— Bom dia... Sr... Pernambuco... - o velho alto, com a cintura carregada de chaves, lê o crachá do novo guardião.
— O senhor tá bom? A família tá boa?
— Tudo bem, graças a Deus.
— Bom serviço. Deus lhe acompanhe.
— Amém - responde São Pedro, quase feliz.


(O Sr. Pernambuco, o Guardião da Manhã, faleceu em casa, no dia 20 de julho, à tarde, devido a problemas cardíacos.)
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Comentário sobre O Guardião da Manhã



Cristina Leme

21/07/09

"Querida Luci,

Adorei seu filho mais novo, seu "benjamim".
Você merece muitos maços de gerbras! Agrada-me muito seu aguçado senso de humor, presente nas crônicas que abordam os tratamentos ditos alternativos (para o corpo e para a alma): você se submete a eles sem abdicar do senso crítico.
No dia em que vc veio me trazer o livro, esqueci de comentar sobre o grande destaque que o Correio Braziliense deu no dia do lançamento, com matéria de página inteira, fotos, revelando quem é o guardião da manhã. Achei ótimo!
Ah! você é a Ci, LuCi?
Abração,

Cristina "



Cristina Leme é Assessora Parlamentar e personagem da crônica “Equinócio”.
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sábado, 18 de julho de 2009

Estamos de férias!



Voltaremos em agosto...

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sábado, 11 de julho de 2009

Sarau dos Estados Unidos


07/07/2009

Sarau EUA faz homenagem a Michael Jackson.

O Sarau "Estados Unidos", organizado pelo Espaço Cultural da Câmara com o apoio do Sindilegis, foi a atração da noite desta segunda-feira.

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sábado, 4 de julho de 2009

32º Sarau da Câmara dos Deputados

Sarau dos Estados Unidos

Depois do sucesso e da grande repercussão obtidos pelo sarau "Uma noite na Índia", o Núcleo de Literatura do Espaço Cultural da Câmara dos Deputados presta homenagem aos Estados Unidos. O sarau será realizado no próximo dia 6, segunda-feira, às 20 horas, na Casa Thomas Jefferson (L3 - 606 Norte).

No cardápio musical, Frank Sinatra, Tony Bennett, musicais da Broadway e uma homenagem especial ao criador da música pop, Michael Jackson. As músicas serão interpretadas pelo Jazz Quinteto e pelo Dinner Show. Serão lidos poemas de Walt Whitman, Edgar Allan Poe, Robert Frost, William Carlos Williams, T. S. Eliot, Ezra Pound, Elizabeth Bishop, Sylvia Plath, Emily Dickinson, Hart Crane e Cole Porter.

Para encerrar, delicioso coquetel temático.

RESERVE SEU CONVITE

Envie e-mail para literaturadecamara@uol.com.br informando o número de convites que deseja. Em seguida, receberá uma confirmação da sua reserva e o aviso para que retire os convites no dia do sarau, na portaria do Teatro da Casa Thomas Jefferson, até as 19h50. Os convites não retirados serão repassados para o público presente.

Os saraus da Câmara vêm sendo realizados há seis anos, desde a fundação do Núcleo de Literatura, e já se tornaram parte do cenário cultural de Brasília. A principal atividade do Núcleo, que oferece diversas oficinas e cursos totalmente gratuitos e abertos à comunidade, é o Ciclo de Leitura.

Nesses encontros semanais, que ocorrem nas sextas-feiras, ao meio-dia, os participantes leem em conjunto obras do autor ou tema escolhido. Os Ciclos são bimestrais e, ao final de cada um, monta-se um sarau inspirado no mesmo tema. O evento já foi realizado na Embaixada de Portugal, na Aliança Francesa, em auditório da Câmara, no Teatro SESC Garagem e no Teatro Nacional, sempre com casa cheia.
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sábado, 27 de junho de 2009

Muito além do gênero

Em entrevista exclusiva, Luis Fernando Verissimo fala sobre seu novo romance policial, "Os Espiões"


Luiz Costa Pereira Junior

Luis Fernando Verissimo criou como quem não queria nada uma marca de estilo difícil de imitar: a de tratar cada texto, o mais insignificante bilhete, a crônica mais apressadamente escrita ou o livro mais ambicioso, como peça única a conjugar elegância, criatividade e bom humor.

É combinação notável em quem se fez conhecido, no trato direto, pela timidez e conversa em monossílabos. Fato é que a timidez não o isola do mundo, nem sua crônica padece de contágio do laconismo. Aos 72 anos, com mais de 50 obras, Verissimo une o afiado humor ao refinado senso de observação da vida e da fala brasileiras, manifestos tanto na crônica e no romance como nos quadrinhos e roteiros de TV.

Acha, sem ironia, que a ironia não pega no Brasil. Ao menos por escrito. Para escrever com ironia, diz ele, é preciso ser lido ironicamente. O brasileiro, tão sagaz ao falar, levaria tudo ao pé da letra, e da seriedade, ao escrever.

Leva seus prazeres a sério. Aceitou de imediato integrar uma das mesas do II Festival da Mantiqueira, em São José dos Campos (SP), no fim de maio, só para falar de um ídolo: Edgar Allan Poe, pai do romance policial, gênero do qual o cronista gaúcho é fã de carteirinha. Já criou seis romances do gênero desde 1984 (com Jardim do Diabo), o mais novo deles acaba de sair do forno, Os Espiões, uma paródia aos livros de John Le Carré.

Ele se diz fascinado pelas palavras, mas confia em que um escritor deve encarar o idioma com liberdade. "A gramática precisa apanhar todos os dias para saber quem é que manda", escreveu em O Gigolô das Palavras. Aqui, ele fala da experiência acumulada na expressão em língua portuguesa, a técnica da crônica e do romance policial. E diz que, para escrever com molho, é preciso pensar o mundo com leveza. Sua obra leva isso ao pé da letra.

Se você pudesse resumir a técnica da crônica, como seria?

É difícil dar uma receita, pois a crônica é um gênero indefinido, desde sempre. Você pode falar do que quiser e chamar o que escreveu de "crônica", e o que sair será efetivamente uma crônica. Como sob esse rótulo cabe tudo, há também muito de invenção, muito exercício de estilo. Agora, tirando a grande geração de cronistas, como Rubem Braga, Antonio Maria e Paulo Mendes Campos, não sei se o termo "crônica" caberia ao que se escreve hoje com esse nome. A crônica que eles faziam estava mais perto do lírico, sem ser alienada. Hoje em dia, o que se escreve como "crônica" é muito mais factual do que antes. Paulo Mendes Campos podia fazer crônicas que eram genuínas peças literárias, o próprio Rubem Braga escrevia um tipo de texto com aquele seu jeito despojado, mas ainda assim lírico. Hoje, a ênfase do que se lê por aí é comentar, é testemunhar o momento.

Com o que você mais se preocupa quando vai escrever uma crônica?

Busco, quando posso, imprimir certa variedade ao material, seja na maneira de escrever ou na abordagem. Mas tudo depende de ter ou não tempo para pensar muito sobre um assunto. Às vezes, há questões obrigatórias no ar. Fora essas, traço o tema que me ocorre. Já houve tempo em que me era indiferente a dificuldade de encontrar o tema de uma crônica ou as observações que dão molho a ela. Mas, ultimamente, tem sido cada vez mais complicado encontrar o tema sobre o qual falarei. Tenho a impressão de que tudo já foi escrito, tudo já foi dito. Tenho, nessas horas, certa hesitação. Sempre.

Como vencer o desafio de escrever "com molho"?

Podemos abordar qualquer tipo de assunto, desde que com leveza. Mas a ironia é sempre perigosa no Brasil, pois nem sempre é entendida. Ser "irônico, brasileiramente" é o sujeito escrever com ironia, mas não ser lido com ironia. Falando, o brasileiro diz que uma mulher feia é bonita, quando de fato ela é horrorosa. Mas, por escrito, sem muita habilidade, o comentário passa por verdade. É lido como tal. Parece que a ironia no Brasil não funciona por escrito. Pois há uma certa reverência com a palavra impressa, uma ideia difusa de que está ali no papel um preto no branco que, decerto, não pode ser brincadeira. Mas o importante, no fim, é escrever com leveza.

Haveria relação entre literatura e música, dois campos que você domina?

Uma vez tentei fazer um paralelo entre a crônica e o jazz. Afinal, ambos expõem seu tema, mas há as variações do tema e a volta ao tema principal. Mas, no fundo, não vejo relação. Na música, deve-se ser mais espontâneo, coisa que na escrita não se dá tanto, pois se pode voltar atrás e revisar o que se fez.

Como é sua rotina? Escreve todo dia a uma mesma hora; é indisciplinado?

Sou muito desorganizado. Para meu trabalho render, tudo depende da obrigação do dia. Divido a obrigação de escrever três textos por semana, para (os jornais) Zero Hora, O Globo e Estadão, com outras demandas.

Como a do novo romance, imagino. Com este, você criou seis livros policiais. O que o atrai no gênero?

O romance policial é sempre uma leitura atraente. Se há um crime e uma investigação, sempre é possível "prender" o leitor. De certa maneira, o primeiro passo de um livro, que é o contato com o leitor, já está contido na ideia de espiar os passos dados até a solução de um mistério.

Há algo ainda a ser tentado em romances policiais que já não o foi?

Quem escreve um romance policial escreve um gênero antigo, tentando sempre encontrar uma maneira nova de escrever. Quando fiz Clube dos Anjos, tentei algo. O leitor sabe, desde a primeira página, quem é o assassino; então o ponto de desenvolvimento do livro foi desvendar o motivo. Mas não há muito o que ser inventado desde que (o romancista Edgar Allan) Poe inventou o gênero. Ao inventá-lo, ele também já esgotou todas as variações. A que mais me encanta é a do narrador não confiável, aquele que conta a história, mas mente o tempo inteiro para o leitor.

Além de um crime, é claro, o que necessariamente um romance deve conter para ser considerado policial?

Na verdade, todo romance é uma espécie de investigação, é um desvendar por meio de uma história, há sempre um mistério, que pode estar todo contido numa mesma personalidade. Todos os livros são policiais, alguns com crime, outros não. A distinção do gênero é apenas conter o policial e a vítima, a investigação e a solução.

Mas você não vê algum tipo de evolução no jeito de escrever policiais desde Poe?

Há as maneiras humorísticas, por exemplo, e muitas das tentativas de romances policiais são paródias. Há também as mais pretensiosas, que tentam transformar o gênero em algo maior. Esses tipos de variações dialogam com as duas tradições clássicas. A europeia, em particular a inglesa, ambienta suas histórias muitas vezes numa cidade do interior com um crime desvendado pela capacidade dedutiva do investigador. A americana já traz o detetive particular, é mais violenta e ácida que a europeia e o investigador chega à solução do crime por meio da ação.

Você reconhece em sua obra policial alguma influência decisiva de outros autores?

A tradição europeia, em especial. Criei um personagem que é uma sátira a essa linha europeia, que é o Ed Mort. Parodiar o estilo europeu por meio dele foi uma homenagem que me deu prazer.

Sobre o que trata o novo romance?

Busquei fazer um livro de espionagem ao estilo de John Le Carré. Daí o título temporário de Os Espiões. Ele fala de dois espiões amadores que fazem uma incursão a uma cidade do Rio Grande do Sul, de nome fictício: Formosa. Um deles trabalha numa editora quando recebe originais que despertam seu interesse e resolve investigar com um amigo quem foi que mandou o original. O narrador é um grande admirador do Le Carré e gosta de escrever como ele. Mas a personagem, na verdade, é apenas provinciana. A espionagem numa cidade do interior, as trapalhadas e as ciladas da vida interiorana fazem a trama se desenvolver. O livro é quase uma paródia ao livro de espionagem típico.

Você costuma ter a ideia inteira planejada antes de começar a escrever ou a cria à medida que escreve?

No caso deste livro, eu tinha a ideia geral da história, mas não, não costumo criar antes e escrever depois. Normalmente parto de uma ideia muito genérica do que quero e deixo o ato de escrever entrar pelos seus naturais desvios. Com isso, a ideia original muda muito ao longo do processo. Para você ter uma noção, em abril, faltavam dois ou três capítulos para eu concluir o livro, mas ainda não tinha um final definido.

O brasileiro já usou o idioma como argumento contra Lula em eleições. O que mudou? Lula melhorou ou o país não liga mais para esse tipo de coisa?

Grande parte da rejeição histórica que ele sofreu é puro preconceito social, evidente por meio da linguagem. O Lula líder sindical já dominava o português que lhe servia como luva para comunicar-se com uma massa e, já nessa época, o país sobrevalorizava o problema. Existe uma linguagem de elite e uma popular, há um contraste muito grande, e a própria reação histórica à maneira de falar de Lula é evidência disso. Tivemos presidentes doutores que, sem errar concordância, construíram o país mais desigual e injusto do mundo.

O estudo da gramática ajuda (ou atrapalha) a formação de um escritor?

Todo escritor tem de ter uma base, mas não pode ser prisioneiro dela, precisa escrever com liberdade. Eu, de minha parte, tenho muitas dúvidas de português, mas nada que me impeça o ofício. Ainda não aprendi, por exemplo, como usar o verbo "haver", saber qual a flexão do verbo, qual a concordância a ser usada em cada caso. Na dúvida, simplesmente busco não usar o verbo "haver". Não sofro por isso.

(Revista Língua Portuguesa, nº 44, junho de 2009)
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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira