sábado, 27 de dezembro de 2008

Reencontro



Luci Afonso

(Para Marco)


A palavra me chamou, baixinho:
— Volta! Estou com tanta saudade...

Temendo nova separação,
Fui bem devagar ao seu encontro.

Afinal nos reconciliamos:
Hoje passeamos ao pôr-do-sol
E fazemos amor de madrugada.

Eu a trato com doçura;
Ela me chama de meu bem
E faz chuva quando quero dormir.

Não sinto mais a tristeza das manhãs.
Estou feliz
E assustada também.
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A Muriçoca





Emanuel Mazza

Imersa em sua glória ela pousava cantando, cantava não, fruía as asas num som agudo, estridente, em seu passeio de caçadora. O corpo bojudo, saciado de sangue, denunciava-lhe a placidez, a tranqüilidade. Estava no repasto e a noite fazia-se alta, acobertada no silêncio da madrugada. A caça sobre a cama, irrequieta, tentando dormir. Envolvia-se toda no lençol, abraçava o travesseiro em torno das orelhas. Em vão! Não conseguiria o sossego tão necessário para o dia de trabalho a seguir. Por muitas vezes havia levantado e perseguido o inseto repelente que teimava em incomodá-lo. Ele era astuto, porém, rapidamente escapava, camuflado na sua pequenez, inalcançável nas alturas do teto. O quarto sombrio de repouso do hospital denunciava tudo que não poderia ser: uma noite de trabalho perturbada não por pacientes a procura de socorro, mas por um, e apenas um, inseto infame que escapara do banheiro. Maldita a hora em que se lhe abriram as portas da prisão.

Eram dois habitantes que partilhavam a mesma alcova. A noite quente não ajudava a nenhum, aumentando o apetite da feroz devoradora e o desespero da vítima. Sonhava com outros mundos, em escapar dali correndo, em nunca mais precisar voltar. Preocupava-se com o dia fastidioso do porvir, em que teria de enfrentar a sina constante, os olhos semicerrados de sono, as pálpebras inchadas.

Súbito, acendeu a luz mais uma vez, numa tentativa desesperada de capturar o animal. Ali estava ele, ou ela, que são as que têm sede de sangue, repousando na parede, despreocupada. Lentamente ele recorreu a um livro sobre a cadeira ao lado da cama. Seguiu em direção à minúscula fera e tentou acertá-la num golpe. O livro zuniu cortando o ar e bateu direto contra a parede onde estava pousado o inseto. Estava, pois não está mais lá. Fora mais rápido que seu algoz. Ele se desesperou, quase chorando: sabia que não conseguiria ter paz por aquela noite. Uma paz tão preciosa e desejada. O inseto desaparecera por encanto. Não podia ser real, era coisa do diabo. Sim, o diabo estava contra ele e nunca lhe daria sossego!

Tornou a buscar a pequena caçadora, e eis que a viu. Ela estava lá, sobre o colchão, ao lado do travesseiro, um pouco atordoada. Num misto de alegria e desprezo ele ergueu a mão com o livro e desferiu o golpe fatal. Esse é certeiro e espalha todo o sangue do ventre da paladina na pequena porção do lençol. Vitória completa. Com um sorriso nos lábios, esfregou a contracapa do livro, livrando-se para sempre da mancha asquerosa, e apagou a luz para dormir. A caçadora no mesmo dia virou caça. Fez questão de deitar-se ao lado da presa esmagada, junto ao sangue que antes era seu. Agora, talvez, dormirão em paz, lado a lado como dois amantes. Isso se os pacientes não o importunarem noite adentro.
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Será que você merece um ano novo?




Marco Antunes

Prezado amigo! Venho hoje desejar a você um feliz ano novo, mas antes, gostaria de fazer-lhe algumas perguntas pertinentes para saber se vão adiantar de alguma coisa meus sinceros votos em breve formulados.

Tudo bem pra você? Sei que serão muitas perguntas e que você é pessoa das mais ocupadas e que, como costuma dizer, seu tempo é dinheiro, nesse caso, restaria desejar-lhe que seu próximo ano seja um cofre do qual só você saiba o segredo.

É verdade que, se seu ano for assim, há de ser bem escuro e abafado, mas quem sabe você se ilumine com o brilho das barras de ouro de suas ocupações inadiáveis e se abane com as cédulas de tempo produtivo.

Se diante dessa constrangedora imagem, o distinto amigo resolveu sentar-se um pouco e responder às perguntas, sugiro que faça, então, o firme propósito de responder com rigorosa honestidade às minhas curiosas indagações.

Sim, exatamente isso, não porque tema ser enganado, mas porque temo que se engane a si próprio e a franqueza das respostas é essencial para a soma dessa equação que passo a formular.

Está pronto? Sugiro que se sente agora frente a um amplo e nítido espelho de onde se possa ver de corpo inteiro.

Está bem acomodado?

Pois bem, vamos lá então!

Quantas vezes no ano que passou você foi visitado por uma criança? Mais precisamente aquela com quem você se encontrava nas tardes fagueiras à sombra dos laranjais?

Quantas vezes essa criança levou você pra tomar sorvete de manhã no último inverno?

Por acaso essa criança sugeriu que você convidasse um amigo para cabularem juntos uma obrigação social?

Em que mês um rapazinho bateu na sua janela para você vir correndo espiar a nova vizinha com ele sobre o telhado?

Você trocou com ele as figurinhas da vida repetidas para que ambos fechassem o álbum ao mesmo tempo?

Pode ter acontecido de um moço bonito ter ido com você à lanchonete da esquina pelo simples prazer de sentar em um banco e ver o tempo passar?

Nesse dia você contou pra ele que andava inseguro e não conseguia decidir que rumo tomar para chegar a você?

Existe alguma possibilidade de numa dessas noites frias de junho você ter saído sozinho pelas ruas tentando encontrar “por acaso” aquela pessoa que faz o sono faltar e estica as horas da noite com febres sem cura?

Você por essa esperança chorou ao meio-dia no metrô e se prometeu que era a última vez que andava nessa linha?

Desceu numa estação improvável e teve a nítida impressão de ter visto o vulto amado entre milhares de transeuntes banais?

Conta só pra mim, você trocou receitas de felicidade com sua melhor amiga este ano que passou?

Ela contou pra você que num distante país asiático encontraram uma nova deusa entre as crianças do lugar e vocês riram imaginando se ela não seria uma divindade ocidental?

E no dia do seu aniversário você fugiu mais cedo do trabalho dizendo que ia tomar um chopp com os amigos e na verdade foi ver o pôr-do-sol sozinho no parque?

Agora, em segredo, conta só pra mim, você sonhou que tinha embarcado num cruzeiro no mediterrâneo com sua atriz de cinema favorita e só por isso ficou vermelho quando alguém lhe perguntou se estava apaixonado?

Tá certo, tá certo, perguntas mais simples, já que anda desacostumado de brincar com a imaginação.

Você amou?
Você sonhou?
Você fez planos?
Você dedicou algum tempo pra ser feliz?
Você finalmente percebeu que perder um tempo sem propósito faz de você uma pessoa mais livre?
Você cresceu nesse ano que passou?
Você não quis crescer mais nesse ano que passou?

Então, se respondeu sim a pelo menos uma dessas perguntas:

Há uma esperança para o seu ano
Sim, é possível que seja um feliz ano novo
Independente de que eu o deseje a você
Independente de que alguém o profetize
Sim, é possível que o novo ano seja pleno de novas surpresas e pequenas felicidades
Sim, é possível que você se pegue rindo à toa
Que você pregue uma peça na vida e aja de modo impróprio para sua nova idade
Sim, é possível que novas estrelas surjam no firmamento de sua vida
Sim, é possível que nesses novos 365 dias você encontre um ano feliz
Ou que um ano possível encontre você feliz
Sim, é provável que você mereça um ano novo
E que o ano seja novo em você de novo
E que o novo seja feliz
Sim, é possível! E a melhor notícia
É provável que você seja possível de novo!
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Mensagem de Natal



Luiz Carlos Ribeiro Borges


Em dezembro cintilam
os signos de natal.

Não, não luzes e estrelas
ou paisagens com neve;
nem, ao redor da árvore,
as caixas coloridas.

Outros signos existem,
sutis, quase invisíveis,
expressos nos olhares
e silêncios tácitos:

uma alegria urgente
perambula nas ruas,
mostra-se em cada esquina
nos rostos transeuntes.

Insensata alegria,
ancestral e pagã,
em que, sem dizer nada,
no outro me reconheço.

As luzes do natal
são o signo visível
deste diverso símbolo:
a chama que nos anima.

A esse entusiasmo,
em que nos descobrimos
parceiros de viagem,
irmãos de travessia,

a essa chama vital
podemos chamar: Deus;
ou então, simplesmente,
dizê-la: humanidade.

Luiz Carlos Ribeiro Borges nasceu em Guaraci, no interior do Estado de São Paulo, e reside em Campinas desde 1956. É escritor, crítico e cineasta, membro da Academia Campinense de Letras. borges.luiz@terra.com.br
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sábado, 20 de dezembro de 2008

Bifurcação


Luci Afonso

Na manhã de quinta-feira, resolvi encarar a chuva e o trânsito até o Parkshopping para comprar o presente do meu filho: um jogo eletrônico recém-lançado, que eu esperava encontrar no templo FNAC da tecnologia. Este ano estou sem dinheiro, graças a Deus, e só vou dar esse presente.

Eu planejava desincumbir-me da tarefa em pouco tempo e ainda voltar para o almoço em casa. A compra foi rápida. Demorada foi a chegada ao shopping.

Em vez de ir pelo Eixão, como sempre faço, decidi usar a EPIA. Dirijo pouco fora do Plano Piloto, e por isso não conheço as recentes duplicações e viadutos construídos pelo GDF. Após a Rodoferroviária, percebi que estava na faixa da direita, em direção à Estrutural, e que deveria pegar a da esquerda. Não deu tempo. Resultado: fui parar na rodovia sem retorno que leva a Taguatinga e Ceilândia.

Tentei ver a situação de forma positiva. Quem sabe, aquele era um sinal de que eu não deveria ir ao Parkshopping naquela hora, naquele dia? Lembrei-me de experiência semelhante vivida há apenas uma semana, quando uma amiga e eu procurávamos um endereço num condomínio no Lago Sul. Rodamos quase duas horas, indo e vindo pela Ponte JK — pontes também não têm retorno —, até que, exaustas e mal-humoradas, desistimos. Deus escreve certo por caminhos errados.

Pois bem. Agora eu estava na Estrutural, na direção oposta da que pretendia. Já estava conformada em fazer o longo trajeto quando avistei um retorno providencial. Não tive dúvida: entrei na Cidade dos Automóveis, procurando placas que me devolvessem ao destino correto. Placas havia de sobra: “compra-se”, “vende-se” e “troca-se”, mas nenhuma de sinalização.
Fiz balões e mais balões até parar numa extensa fila de carros, caminhões e ônibus. Motivo: obras na pista e um desvio de terra transformado em atoleiro pela chuva. Não estava preparada para o rally, mas enfrentei os buracos com coragem até chegar de novo ao asfalto, essa maravilhosa invenção humana.

Para minha surpresa, o atoleiro levara diretamente ao Setor de Indústrias, que conheço relativamente bem. Encontrei a saída para a EPIA e segui tranqüilamente o caminho, até descobrir mais à frente uma nova bifurcação à direita para o Parkshopping — desta vez, eu estava à esquerda. Felizmente, a antiga estrada para o Guará continua no mesmo lugar e também dá acesso ao paraíso das compras.

No final, deu tudo certo. Achei o presente e consegui evitar o tumulto de pessoas enlouquecidas pelo espírito natalino. Ano que vem, se Deus quiser, compro um carro com GPS.
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Asa negra


Emanuel Mazza

Ele sempre sonha com aquela rua. É uma rua estreita, coberta com pedras antigas de um calçamento que desce a ladeira e vai dar numa praça. A praça se abre em muitas outras vias, cercada de uma igreja e tantas outras casas que se perdem no arcabouço da memória. Dessa vez ele voa baixo, pesado, quase arrastando. Por mais que se esforce não consegue alcançar o tão almejado céu, o que vê é um céu escuro e opaco da noite de breu sem fim.

Não há nuvens no horizonte límpido e frio da consciência, exceto uma ou outra carregada de chuva, que, tão pesadas como ele, parecem se arrastar com o vento. Na verdade, não há horizonte, e toda natureza conspira contra ele naquele momento, nem o vento o suporta. Nem ele mesmo se suporta.

Assim, fatalmente será agarrado. Sim, há um perseguidor, é então que ele o vê, a poucos passos, não consegue uma noção concreta de quem está por trás, é tudo um sonho mesmo, e se virar muito a cabeça certamente irá cair. Ele voa, tenta em desespero bater mais forte as asas, mas não consegue. Essas asas que não são feitas das penas de um anjo, mas de negras membranas dispostas entre longas alças arqueadas que as sustentam e terminam em garras, como as de um demônio.

Será pego, isso está certo, e a idéia o atormenta, o devora, como ele estava acostumado a devorar. O caçador finalmente torna-se presa. O assassino incansável para quem pouco importa a vida ou a morte, exceto a dele mesmo. Acossado, ouve a respiração forte e regular, os passos firmes e cadenciados de quem não tem nenhuma dúvida de que o irá apanhar. O homem corre, apenas segue veloz, e é mais forte que ele.

Fraqueja, sente-se mortal como há muito não sentia. Não suporta a idéia de ser um homem comum, desacostumara-se com isso. O coração começa a falhar, um peso o abate, a esmigalhar o peito e o ventre, e se espraia pelo corpo, como ondas de choque que vibram num pulso. Suas asas ruflam contra o vento enquanto ele em vão emite um guincho medonho.

Sim, sabe que vai perder aquela luta, que de nenhuma maneira poderá escapar, já está condenado, é o fim...

Os olhos se abrem lentamente na escuridão. A respiração, a princípio rápida e entrecortada, vai suavizando. Sente o suor frio e pesado como um manto pegajoso e glacial agarrado à sua pele e que lhe dá nojo. A roupa encharcada numa realidade que se impõe sobre o sonho. Ou um sonho que não é senão parte de uma inesgotável realidade.
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Você é ilunga?



A empresa britânica Today Translations ouviu mil tradutores de todo o mundo para selecionar as dez palavras mais difíceis de ser traduzidas. A palavra saudade, exclusiva da língua portuguesa, está em 7º lugar. A primeira posição ficou com a palavra ilunga. Ela pertence ao idioma tshiluba, do Congo, e traduz “uma pessoa que está disposta a perdoar uma ofensa numa primeira vez, a tolerá-la numa segunda ocasião, mas que jamais perdoará pela terceira vez”.

Em segundo lugar ficou a palavra shlimazi, em ídiche (língua germânica falada por judeus, especialmente na Europa Central e Oriental), que significa "uma pessoa cronicamente azarada"; e em terceiro, radioukacz, em polaco, que significa "uma pessoa que trabalhou como telegrafista para os movimentos de resistência ao domínio soviético nos países da antiga Cortina de Ferro".

Lista das dez palavras consideradas de mais difícil tradução:

1. Ilunga (tshiluba) - uma pessoa que está disposta a perdoar qualquer maltrato pela primeira vez, a tolerar o mesmo pela segunda vez, mas nunca pela terceira vez.
2. Shlimazl (ídiche) - pessoa cronicamente azarada, de forma vitalícia.
3. Radioukacz (polonês) - pessoa que trabalhou como telegrafista para os movimentos de resistência ao domínio soviético nos países da antiga Cortina de Ferro.
4. Naa (japonês) - palavra usada apenas em uma região do país para enfatizar declarações ou concordar com alguém.
5. Altahmam (árabe) - um tipo de tristeza profunda.
6. Gezellig (holandês) - aconchegante, de uma maneira excentricamente especial.
7. Saudade (português) - sentimento mais ou menos melancólico de incompletude, ligado pela memória ou ausência de algo/alguma coisa.
8. Selathirupavar (tâmil, língua falada no sul da Índia) - palavra usada para definir um certo tipo de ausência não-autorizada frente a deveres
9. Pochemuchka (russo) - pessoa irritante que faz perguntas demais.
10. Klloshar (albanês) - perdedor.


(Texto da Internet)
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Dicas para escrever bem


· Desnecessário faz-se empregar estilo de escrita demasiadamente rebuscado, conforme deve ser do conhecimento de V.Sa. Outrossim, tal prática advém de esmero excessivo, que beira o exibicionismo narcisístico.
· Evite abrev., etc.
· “não esqueça das maiúsculas”, como já dizia carlos machado, meu professor lá no colégio santa efigênia, em salvador, bahia.
· Fuja dos lugares-comuns como o diabo foge da cruz.
· Estrangeirismos estão out.
· Seja seletivo no uso de gírias, bicho, mesmo que sejam maneiras, sacou?
· Nunca generalize: generalizar sempre é um erro.
· Evite repetir a mesma palavra, pois essa palavra vai ficar repetitiva e a repetição vai fazer com que a palavra seja repetida.
· Não abuse das citações. Como costuma dizer meu pai: “Quem cita os outros não tem idéias próprias”.
· Frases incompletas podem causar.
· Cuidado com a orthographia, para não estrupar a língua.
· Não seja redundante, não é preciso dizer a mesma coisa de formas diferentes, isto é, basta mencionar cada argumento uma só vez. Em outras palavras, não fique repetindo a mesma idéia.
· Seja mais ou menos específico.
· Use a pontuação corretamente o ponto e a vírgula especialmente será que ninguém sabe mais usar o sinal de interrogação
· Quem precisa de perguntas retóricas?
· Nunca use siglas desconhecidas, conforme recomenda a A.G.O.P.
· O exagero é 100 bilhões de vezes pior do que a moderação.
· Evite frases exageradamente longas, por dificultarem a compreensão da idéia contida nelas, e, concomitantemente, por conterem mais de uma idéia central, o que nem sempre torna o seu conteúdo acessível, forçando, desta forma, o pobre leitor a separá-la em seus componentes diversos, de forma a torná-las compreensíveis, o que não deveria ser, afinal de contas, parte do processo da leitura, hábito que devemos estimular através do uso de frases mais curtas.

(Texto da Internet)
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sábado, 13 de dezembro de 2008

Resolvida


Luci Afonso

Você finge que não me vê. Eu a enxergo em todos os detalhes.

Sua roupa tem um colorido deslumbrante. Seus acessórios são grandes e caros.

Sua voz tem um verniz que se despedaça à menor contrariedade. Seus olhos bem maquiados choram lágrimas rasas.

Seu umbigo é uma cratera em que se perdem até grandes obras da história universal. O pensador de Rodin foi tragado para o fundo e nunca mais pensou.

Você tem cursos, nós já entendemos, mas quem não os tem?

Sua música é paródia. Seus versos, caricatura. Sua voz, desafinada. As pessoas a aplaudem para puxar o saco.

Seus pés estão gordos e mal cabem nos sapatos de grife. Você está achatada como um sapo no pântano. Logo começará a coaxar.

Ah, se você me visse!...

Eu me espelharia na sua autoconfiança.

Apreciaria seu bom gosto, sua sofisticação, sua sensibilidade.

Aplaudiria sua música, seus versos, suas criações, e poderia até acreditar em... genialidade!

Admiraria sua silhueta madura e seus pés bem fornidos. Sua voz soaria doce como a de um pássaro no bosque.

Mas você finge que não me enxerga, e eu a vejo em todos os detalhes.
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Reciclagem


Emanuel Mazza

O dia ainda não amanhecera. Era madrugada escura e uma névoa seca, bem fria, cobria o ar, sugerindo vagamente a lua e algumas estrelas. O homem despertou de um torpor, demorando em reconhecer onde estava, mas então se recorda: era um pequeno quarto feito de partes de papelão entrelaçadas por fitas adesivas. Ele limpou os olhos com os dedos da mão e mirou o subir e descer do colo da mulher a seu lado, enquanto ouvia o respirar calmo dos filhos no chão, protegidos por folhas de jornal. O frio invadia o quarto com seu peso de chumbo, e penetrava fundo nos ossos. Sentiu o crepitar de uma fogueira acesa lá fora, disposta no centro de um círculo de outros quadrados de papel, que o chamava como o apelo de um farol aos navegantes. Sua vontade, entretanto, era de caminhar lentamente em direção ao fogo, e se fundir com ele, na tentativa de acabar com o frio medonho, largar a própria carne ao sabor das chamas e com essa aflição final dar cabo de sua dor infinita.

Chegou o mais próximo que pôde da fogueira e cumprimentou os amigos num aceno, os dentes expostos em desalinho, tentando ocultar o desespero. Ainda não despertara por completo. Sentia a náusea da noite anterior e a cabeça ribombava sob o efeito da embriaguez contínua a que se submetia lentamente para suportar seu destino, presa de um alcoolismo calado e servil, guardado entre as paredes do quarto de papel, num ardor murmurativo que lhe dissolvia as entranhas.

Não atinava com o novo dia.

“Você não vai trabalhar hoje?” lhe fala uma voz um pouco mais distante da fogueira. A pergunta lhe caiu como um raio, teria que ir logo, antes do lusco-fusco, senão não encontraria mais nada. O homem levantou-se, saiu cambaleante e buscou um pouco de água na bacia para lavar o rosto, depois um café de cor amarela disposto em um grande bule armado sobre um tripé de pedras, curtidas por galhos e gravetos que estalavam em outro arranjo, e buscou pela carroça. O filho já o esperava, instalado comodamente diante do estrado de madeira. Pegou pelos cabos com a mão e, fazendo as vezes do animal, foi à cata do lixo.

O primeiro sol da manhã os encontrou com a carroça cheia, apinhada de latas e papel, cuidadosamente arrumados para que não ocupasse muito espaço, o homem dobrado ao peso do próprio corpo, o peito brilhante de suor, o olhar fixo no chão enquanto puxava o conjunto, que era a maneira que havia de render mais força; o menino de camisa aberta ao vento, num sorriso lesto, olhos fixos em outros monturos. Os dois, homem e menino, calados na espera irremediável das horas, a cidade recrudescendo nas próprias cinzas, restos de outros homens que inopinadamente esperam, e esperam por dias melhores.

Depois, o de sempre, o converter de lixo em centavos, o transmutar de centavos em comida, o eterno arrastar de dejetos, produtos de uma cidade que tem vida própria, respira e come e bebe, e não tem mais onde expurgar sua angústia.

(O homem passa sobre uma ponte; abaixo, a fileira desmedida de veículos que estertoram outros sonhos. Se saltasse dali não haveria como não morrer, ou pela queda, ou pelo atropelo das máquinas apressadas).

Só lhe restava esperar, ao fim do dia, pelo calor íntimo da garrafa de bebida, e deleitar-se com o aconchego frio do seu castelo de papel, até o descortinar certeiro de outra madrugada para, assim, sem que soubessem, renovar em eterno sua servidão.

Um clarão de luz lhe avisa que não precisa mais sentir dor. Tudo tão rápido que nem lhe dá tempo de compreender, apenas o menino percebe o carro desgovernado chocar-se contra a carroça, apenas o menino assiste o pai morto, ossos e sangue dispersos no chão ante uma cidade silente, aquietada no som grotesco da indiferença.

O enterro teve que seguir rápido, não havia tempo para rituais, somente o baque seco da terra sobre a carne, uma carne despida de si mesma, envolta no pano fino com que costumava dormir. Ao menos agora não sentiria mais frio.

Dia seguinte o menino segurava a carroça, o irmão mais novo sobre o estrado, o trabalho por fazer, a fome que não dava trégua.

Afinal, aquele era um país vencedor, campeão de reciclagem de lixo!
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Mais Uma de Almoço (Geme Geme)

Isolda Marinho



Esta é mais uma das manjadas histórias de almoço
que já aconteceu comigo, com você, e com todo mundo.
É a história do cara que perdeu o almoço e do almoço que perdeu o cara
Diz mais ou menos assim



Perdi meu almoço... lá no Porquinho
Dou tudo que eu tenho... por um lombinho

Seja com sal ou com suco de uva
Minha barriga geme por suflê


Geme geme, uh, uh, por suflê
Geme geme, ahh, por suflê (2 vezes)


Não durmo de noite
Passando mal
Será que foi o óleo
Ou foi o sal


Seja sem o sal ou com suco de uva
Minha barriga geme por purê


Geme geme, uh, uh, por purê
Geme geme, ahh, por purê (2 vezes)

Vocês podem estar pensando
Que eu não tenho grana
pra comer lá no Porcão,
e não tenho mesmo

Mas no Porquinho tem sobremesa
Que é de graça
Isso então é uma beleza

Mesmo sem o sal ou com suco de uva
Minha barriga geme por patê

Geme geme, uh, uh, por patê...
ieh ieh por patê (2 vezes)
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“É nóis”


Ladrões invadiram uma agência bancária no interior do Estado do Mato Grosso do Sul e levaram uma grande quantia. O assalto só foi percebido quando os funcionários do banco chegaram para trabalhar e viram que havia um buraco no teto.

Um recado escrito à mão foi deixado no local do crime pelos assaltantes com os seguintes dizeres:

“Cem arma, cem drogas, cem violência — agradecemos a preferencia e acima de tudo nossa percistencia — é nóis”.

(Revista Língua Portuguesa nº 37, novembro de 2008)
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Qual a maior palavra?

Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico


A expressão médica, rara no Brasil, tem 46 letras e descreve quem caiu doente por aspirar cinzas de um vulcão. A segunda maior palavra do idioma é “anticonstitucionalissimamente”, com 29 letras.
(Revista Língua Portuguesa nº 35, setembro de 2008)
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sábado, 6 de dezembro de 2008

Não tem anos em que você gostaria que o Natal chegasse mais cedo?


Se este for um desses anos, saiba que o Núcleo de Literatura do Espaço Cultural atendeu seu desejo e segunda, dia 8, às 20h, no Teatro Garagem, nós prometemos emocionar você com a mais bela coleção de músicas e poemas de Natal que você jamais ouvirá! Venha e traga seus amigos!

Nesta noite especial, o coral Serenata de Natal da UnB interpretará canções como Noite Feliz, Deixei Meu Sapatinho, Cavaleiros Reis e Boas Festas enquanto o cantor Alírio Netto, com seu teclado, interpretará Christmas Song e a histórica e divertida 12 Days of Christmas.

Poemas de Drummond, Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Fernando Pessoa, João Cabral de Melo Neto, Olavo Bilac e Marco Antunes.

Quer mais? Pois tem!

Será a noite de revelação dos vencedores e a entrega dos prêmios do 2º Desafio aos Escritores do Espaço Cultural da Câmara dos Deputados. Entregaremos o Troféu Sindilegis em 8 categorias e aos 3 finalistas dessa impressionante maratona literária.

Na ceia, estrogonofe, salpicão natalino, farofa sofisticada, vinho, espumante, palha italiana e sorvete de panetone.

Lançamento dos livros ABC de Vladimir Carvalho, de Gustavo Dourado; e o Sentido do Amor, de Stella Rodopoulos.

Você não acha que é uma noite pra ficar na memória? Nós achamos!
Mas essa noite só será perfeita se você estiver conosco!

29º SARAU DA CÂMARA DOS DEPUTADOS
8/12/08
Teatro SESC Garagem - 913 Sul
A partir das 20h


Entrada franca
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Fodopa



Luci Afonso


— E aí, belezinha? Joinha? Tudo em paz? - Dois beijinhos, o sorriso franco, o aperto de mão.
—Bem-vinda, querida! - A risada solta, a voz forte, o abraço sincero.
— Saudações poéticas! - O olhar amoroso, o passo firme, a onda de calor.
— Oi, véi! - O frescor, o futuro, a juventude.

Assim sou recebida no portal intergalático a que cheguei depois de longa viagem.

— É dia de batismo! - Sou levada ao jardim e batizada com a água fresca que esguicha da mangueira, antes de começar o trabalho do dia.

Trabalho, não: paradinha.

As paradinhas são resolvidas uma a uma, com a ajuda de todo o grupo. Algumas são estranhas — estranhas, não, bizarras: onde colocar as enormes cabeças de papel que servirão como vírus para a nova campanha de divulgação? As figuras parecem não caber em nenhum lugar da Casa.

— É fodopa! - todos concordam, enquanto se sentam ao redor da mesa para o brainstorming:
— Eu pensei num móbile gigantesco, absolutamente impregnante.
— E se a gente... tipo... pendurasse nas árvores?
— Vamos usar espelhos, saca, com música ao fundo!
— Poderia ter um machado bem grande, assim... abrindo as cabeças...
— Que tal uma dança das cadeiras, para desestressar?

A última idéia é acolhida por unanimidade.
Todos se posicionam e giram em volta das cadeiras até que a música pare. Uma rodada, duas, três, e sou a vencedora! Será que me deixaram ganhar? Não importa. Estou empolgada por ter participado da primeira atividade lúdica com minha nova família fodopiana.

Sinto-me belezinha, joinha, em paz. Fora do padrão, e finalmente em casa.
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O ponto




Emanuel Mazza


Meu sangue percorre caminho entre ruas escusas, intransponíveis, obstruídas na ânsia de si mesmas, num entrave certo à vida. Ele faz o que tem de fazer, segue sua sina, busca o aconchego de outros mares, e eu, não sei se quero ir com ele, ou apenas me deixar ficar, soltar amarras e ansiar a morte, naturalmente como deveria ser, se hoje não fosse, longe de tantos recursos, paralisado no cansaço do corpo, preso na inércia de mim.

Melhor não pensar, uma vida inteira pautada em razões, em caminhos e atitudes racionalizadas, em porquês delineados, essa conduta de herói, de dominador, daquele que dispõe dos fins e dos meios (ilusão), me levou aonde estou, ao trombo. O trombo é um ponto no caminho. Um ponto de sangue coagulado no tempo.

Procuro não pensar. Há tantos significados que pensar seria crime, há tantas variáveis na matemática do existir que é impossível o pensar. Apenas deixar vir, as imagens cintilam como idéias, estrelas que pulsam na noite, ao acaso. O sopro seco do vento no inverno. Queria realização quando a vida me cobrou seu momento, e me senti aquém, aquele que não viveu senão o compromisso, cujo destino principal não estava em si mesmo.

E quando o acaso, senhor absoluto de todas as coisas, veio buscar o que é seu, e trouxe na mão uma balança, percebi que o muito que havia era quase nada, que outros eram os sonhos, que o que havia em mim estava calado, recôndito, estagnado no ponto.

Quando a comichão da morte me tocou eu não me senti à vontade, gritei por mim na iminência do não ser, e o que ouvi foi um eco, o baque surdo da minha voz contra as rochas, e as rochas eram o trombo.

Vejo minha mão e percebo como se minha não fosse, uma parte inerte presa em sua anestesia. Mais um quarto escuro, uma caverna que se resguarda em si, e tantas já são. Despojos de guerra atirados no sótão, distraidamente, ao longo dos anos, até que não sobrasse muito, mas que a própria memória não dá por falta, exceto por uma nesga, uma fincada cruciante de que algo de mim se perdeu, e esse algo talvez fosse tudo.



(Imagem: Le modèle rouge, René Magritte, 1935)



Emanuel Mazza de Castro nasceu em 3 de maio de 1967, em Teresina, PI, e mora em Brasília desde 1992. Formou-se em Medicina pela Faculdade Federal do Piauí. Trabalha em Clínica Médica e Terapia Intensiva na Câmara Federal e TCU. Casado pela segunda vez, é pai de dois meninos, Chael e Breno. Como contista, foi premiado em diversos concursos. Também é autor de estórias infantis. Publicou “Vôo Livre”, contos, em 2003, e “O Rei, o castelo e o dragão”, estória para crianças, em 2004. (emanuelmc@tcu.gov.br)
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sábado, 29 de novembro de 2008

29º Sarau da Câmara dos Deputados



O Núcleo de Literatura convida para o último sarau do ano, que será a festa de encerramento das atividades em 2008 e noite da entrega dos 8 prêmios do 2º Desafio aos Escritores, que serão conhecidos durante o sarau.
Haverá apresentação do Coral da Serenata de Natal da UnB e do cantor Alirio Netto.

Os mais belos poemas de temática natalina serão lembrados nesta noite mais do que especial.

Coquetel: Ceia literária

Venha, convide seus amigos, participe!

8 de dezembro
20 h
Teatro SESC Garagem - 913 Sul

Entrada franca

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Morzinho



Luci Afonso

9h
— Bom dia, morzinho!
— Bom dia.
— Dormiu bem?
— Acho que sim. Não lembro.
— Já tomou o seu todinho?
— Ainda não.
— Pede à Dôra para fazer bem quentinho.
— Tá.
— Já começou a tarefinha?
— É.
— Então, começa e pega firme. Depois eu ligo de novo. Um beijo e um abraço.

10h30
— Oi, morzinho!
— Oi.
— Terminou a tarefinha?
— Sim.
— Fez direitinho?
— É.
— Então, descansa um pouquinho até o almoço. Enche a barriguinha, viu? Um beijo e um abraço.

13h
— E aí, morzinho, já está prontinho?
— Tô.
— Escovou os dentinhos?
— É.
— Penteou o cabelinho?
— Sim.
— Tá cheirosinho?
— Acho que sim.
— Pede à Dôra o dinheirinho do lanche, viu? Cuidado no elevador.
— Tá.
— Vai com Deus. Boa aulinha. Um beijo e um abraço.

18h
— Oi, morzinho!
— Oi.
— Tá cansadinho?
— Sim.
— Foi boa a aulinha?
— É.
— Tá com saudade de mim?
—Tô.
— Me dá um beijo e um abraço. Hum! Te amo, filhinho.
— Eu também, mãe.


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O que vejo


Isolda Marinho


Quando olho quase tudo e nada vejo
Apenas fito leves riscos de lampejo
Não vislumbro o horizonte que almejo

Contemplo o sonho invisível que não olho
sob a luz indivisível do meu olho
Miro enfim o que aparece, não escolho

Quando observo as tantas curvas que tracejo
Prevejo até além das linhas de minha palma
É que atingi o ritual do meu cortejo
Então me vejo com o olhar da minha alma



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sábado, 22 de novembro de 2008

Sonho bom



Luci Afonso


...Segunda-feira
Grande festa com crianças. Coloco broche de borboleta na minha roupa. Rapaz me convida para olhar estrelas e depois namorar.

Terça-feira
Um homem de uma tribo me põe vários colares e pulseiras. Dois cômodos grandes são meu ateliê. Adoto menina que é menino.

Quarta-feira
Encontro jóias pelo chão. Balanço bem alto. Pessoas gostam de mim.

Quinta-feira
Todos estão com o cabelo mais bonito. Homem com filho pequeno se interessa por mim. Dou meu livro ao Presidente Lula.

Sexta-feira
Príncipe me convida para ir na carruagem com ele no dia da coroação. Homem bonito me ajuda a mudar a casa.

Sábado
Rapaz toca violoncelo para mim numa plantação de morangos. Passo mel nas coisas. Seguro menininha preocupada numa biblioteca.

Domingo...
Rapaz me leva para a casa dele por um caminho de cetim. Homem tatua poema da paciência no meu braço.
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Poética


Isolda Marinho

A poesia em mim se infiltra,
penetra, invade, adentra, habita.
Quando faço verso bom,
sou Drummond.
Quando crio rima boa,
sou Pessoa.
Musicando os ideais,
vem Vinícius de Morais.
Quando a carne se desnuda,
Neruda.
Se aos 80, sou menina,
quero Cora Coralina.
Se escrevo até sem eira,
por que não ser o Bandeira?
E na arte de rimar
como é bom o meu Gullar!
Se na métrica sou a tal,
quero ser João Cabral.
Se um poema não me engana
posso ser Mário Quintana.
Versifico o que é belo,
sou Tiago, o de Melo.
Nas Vertentes de Jovina,
minha palavra se anima.
E se escrevo para o céu...
são Tremores de Emanuel.
Tremo, vibro, queimo e ardo
num poema de Abelardo.
Poetando a vida infinda
vem Elisa, a Lucinda.
No Rubi de Amneres,
sou Cecília "Meio reles".
No meu verso submerso,
eis aí meu universo.
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28º Sarau da Câmara dos Deputados

O Sarau da Consciência Negra trará os cantores Angela Regina e Wilson Bebel e os atores PC Sanvaz e Vanessa di Farias, entre outros, interpretando textos de Castro Alves, Elisa Lucinda, Conceição Evaristo, Luiz Gama e Marthin Luther King.

Participação especialíssima de Máximo Mansur & Jorge Amâncio.

Coquetel com pratos da culinária de origem africana.

Entrada franca.
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sábado, 15 de novembro de 2008

Rouxinol, Pombinha e Cotovia


Luci Afonso

Olhou para os quatro cantos do teto, como sempre fazia ao acordar. Fez o sinal-da-cruz da direita para a esquerda, depois ao contrário. Recitou a Oração da Serenidade em voz baixa. Era tarde, o dia já clareava.
— MEU BEM, ESTOU COM SAUDADE. VAMOS NOS VER HOJE? ROUXINOL. - Selecionou os dois números.

Alongou-se, fez a ginástica dos safenados, passou um fax para o Fernando Henrique.

Inclinava a cabeça bem para trás para tomar os remédios dispostos em ordem alfabética no criado-mudo. Guardou o pijama preferido, que sua filha lhe dera de aniversário há 20 anos. Só dormia bem quando o vestia e calçava meias, costume herdado da tia Albertina. Conferiu o cabelo no espelho do banheiro e decidiu que não caíra nenhum fio desde o dia anterior. Ajeitou os poucos que restavam.
— PRECISO DE VOCÊ. ESTOU COM MUITO T... BJS. - Enviou para ambas. Estava a perigo, não conseguiria passar a noite sozinho.

Duas bananas, uma lima-da-pérsia, um iogurte de morango, que ele tomava aos goles, movendo a cabeça rápido como um pombo. Alguém tinha comido o seu queijo.

No elevador, olhou de novo para os cantos do teto. Contou as marquises — oito, como sempre. Em frente à Igrejinha, parou o carro e rezou, de olhos fechados, duas ave‑marias. Só depois se sentiu pronto para começar o dia.

Conferiu a agenda: fazer depósitos, levar o relógio para consertar, buscar o carro do neto na Cidade dos Automóveis. Por último, se desse tempo, passar na sala dos aposentados para saber as novidades sobre as ações na Justiça. Ah, seria bom prevenir uma caixa de chocolates para a noite, ou melhor, duas: licor e menta.

Ao meio-dia, passou na Santo Antônio para chupar um picolé de coco. Teve uma idéia:
— ESTOU DOIDO PRA FAZER AQUILO QUE VC ADORA E QUE EU TB GOSTO. - Ele conseguia levá-las muito além do ponto G, e elas sabiam disso.

Almoçaria em casa, pois sobrara muita comida do domingo. O que não comesse, daria ao porteiro. Aproveitaria para lembrá-lo dos dez reais que lhe devia.

Pôs o jornal em ordem antes de ler. Procurou notícias sobre a Amazônia: por que nenhum avião havia sido derrubado após a Lei do Abate? Estavam escondendo os fatos — escreveria à Presidência da República a respeito.

Antes de cochilar, encostou a vassoura na parede do corredor, para que ninguém o surpreendesse. Os netos lhe davam cada susto! Desligou os telefones, pôs o aviso na porta: “Não perturbe”, tomou meio Lexotan e se preparou para a sesta. Quando acordasse, certamente teria recebido resposta.

Não tinha. Apelou para o último recurso, pois eram quase 5 horas:
— MEU BEM, HOJE É LUA CHEIA. - Ele ficava particularmente inspirado nesses dias.

Nunca falhava. O celular acusou, imediatamente, duas mensagens recebidas:
— ROUXINOL, ESTOU DOIDA PARA VC FAZER AQUILO QUE EU ADORO E QUE VC TB GOSTA, MAS HOJE NÃO POSSO. AMANHÃ AINDA É LUA CHEIA? COTOVIA.
— AMORZÃO, TE ESPERO ÀS 7. ESTOU LOUCA PRA... POMBINHA.

Foi se arrumar, feliz. Pegou os bombons... de menta e apagou todas as luzes antes de sair. Parou um momento na porta, com a sensação de ter esquecido alguma coisa. Provavelmente não era importante... A noite com Pombinha seria ótima! Amanhã cuidaria de Cotovia.

A noite foi um fiasco. Na pressa, esquecera-se de tomar o Viagra.
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Cigarras



Isolda Marinho


Cigarras soturnas
sibilam
cintilam
simulam
sob sol setembro

Cigarras singelas
solenes
sozinhas
silenciam
sob céu cidade

Cigarras sinceras
se soltam
soletram
suspiram

Cigarras são seres
sinistros
sensatos
sedentos

cigarras sonoras
sossegam
sussurram
saciam

cigarras são santas
sinais
silentes
silvestres
cigarras sinfônicas
seus essessssszzzzzzzzzz
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sábado, 8 de novembro de 2008

Pesadelo


De: luci.afonso@terra.com.br
Enviada em: segunda-feira, 3 de novembro de 2008 10:52
Para: elza.sobrinho@uol.com.br
Assunto: Lista

Querida Elza,

Aqui vai a lista que você pediu para analisarmos na próxima sessão. Ela se refere ao mês de outubro. Tentei organizar por assunto, para facilitar. Bj

Ataques

Atacada por um tarado de toalha.
Um poeta louco me atacava.
Monstros atacavam a cidade.

Animais

Cachorro nos mantinha em cima de uma cerca.
Tentando escapar de cidade escura. Galo queria me bicar.
Um lobo atacava a casa e eu o dominava pelo pescoço.
Lindo pássaro assassino.

Corpo

Limpando meus dentes removíveis.
Pernas não conseguiam subir escada.
Batendo em mulher que tinha queimado meu olho.

Sexo

Sexo selvagem com surfista prateado.
Ex-alcoólatra com tendências suicidas queria me namorar, mas a mãe dele exigia caução em dez vezes.

Culpa

Arrumando coisas para ir para a cadeia, mas era perdoada.

Violência

Mulheres invadiam festa, torturavam e matavam.
Parque de horrores.
Fugindo da guerra.
Brigando numa festa.
Presa num acampamento palestino.
Eu era uma psicopata.
Pesadelo sanguinolento.”

De: elza.sobrinho@uol.com.br
Enviada em: segunda-feira, 3 de novembro de 2008 16:23
Para: luci.afonso@terra.com.br
Re: Lista

Querida Luci,

Dei uma olhada inicial e acho que não há com o que se preocupar. Você está fazendo progressos importantes. Te vejo na sexta. Bjs
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Poeta com P







Isolda Marinho





Poeta com P
pisa no palco
pede a palavra
e propõe poesia.

Pincela um poema
promete o perfeito
produz paraíso
projeta no peito
o ponto preciso

Poeta com P
parece Picasso
pinta palhaço
pulsa, pranteia
na praia passeia

Poeta com P
primeiro procura
a página pura
prepara o pincel
pega na pena
perturba o papel

Poeta
percebe
permite
proclama
persiste

pinça princípios
preenche a penumbra

Poeta com P
é profeta
pressente o perigo
passa, tem pressa

Poeta com P
parte prá Passárgada

Poeta com P
é porreta
provoca
publica
protesta
propaga
pratica

Poeta é
presente
propala o
perfume
prateia o
pretume

Poeta
professa
protege
penetra
perfaz

Poeta com P
pretende
Paz





Isolda Marinho é alagoana que chegou a Brasília ainda menina. Formou-se no Curso de Letras da Universidade de Brasília e foi professora da Fundação Educacional do Distrito Federal. Poetisa desde os 14 anos, recebeu premiações em vários concursos literários. Publicou "Sementes de Amora", em 2000, e "Viço do Verso", em 2004. Alguns de seus poemas foram musicados. É presença marcante em saraus e eventos culturais. Seu nome consta no "Dicionário de Escritores Brasilienses".
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Cordel das Festas Populares



Gustavo Dourado


A Ciência do Folclore:
Aprendi com o Cascudo...
Patativa deu o mote:
Ariano conteúdo...
Vitalino esculpiu:
Cartola nos disse tudo...
Baião de dois:Farinhada
A sagrada rapadura
Bebo uma talagada
Gole de cachaça pura
Para cantar o Brasil:
E os festejos da cultura...

São muitos ciclos festivos:
Ano-Novo...Carnaval...
Ciclo das Águas e do Divino:
Sacro ciclo quaresmal...
Ciclo junino e julino:
Papai Noel no Natal...

As doze noites festivas:
Iniciam-se no Natal...
O culto ao Sol Invictus:
Antigo e tradicional...
Vai até 6 de janeiro:
Reis Magos universal...

Diversas festividades:
Festas do Cristianismo...
Divindades, santos, santas:
Eclético ecumenismo...
Nosso Senhor, Nossa Senhora:
Procissões do sincretismo...

Folguedos, bailes e cultos:
Práticas devocionais...
Os índios também celebram:
Fazem os seus festivais...
Tropos, autos, malhações:
Votos sobrenaturais...

Mani.fest.ações de rua:
O Galo da Madrugada...
Trio Elétrico da Bahia:
No Cerrado a cavalhada...
Catira...Coco... Cordel:
Cateretê e congada...

Juninas festas julinas:
Sobressai o São-João...
Quadrilhas, arrasta-pé:
Fogos, fogueira, balão...
Pamonha e milho assado:
Festa boa é no Sertão...

Crisma, batismo de fogo:
Dançar e pular fogueira...
Baião de Luiz Gonzaga:
Com forró a noite inteira...
Quentão, pinga, cantoria:
Pra curar a pasmaceira...

Música, teatro, dança:
Sinônimo de alegria
Uma lona colorida
O palhaço que arrelia...
Desde Maximus em Roma:
O circo nos fantasia...

Sociedade do Espetaculo:
Des.Ilusão, malabar...
Platéia - arqui.bancada:
Gol na festa popular...
Futebol circo moderno:
A multidão a sonhar...

Garrincha,alegria do povo:
Fez a massa delirar...
Driblava Zé e João:
Era festa popular...
O anjo das pernas tortas:
Soube carnavalizar...

Bailes em todo o Brasil
Centro, Sul, Sudeste, Norte
O Nordeste pega fogo
Alma em teletransporte
Carnaval é poesia:
A vida ilude a morte...

Abre Alas com Chiquinha
No entrudo, teve origem
Cordões pelas avenidas
Balanço que dá vertigem
A multidão se sacode:
Manda embora a fuligem...

Noel, Ary, Pixinguinha
Jacob com seu bandolim
Trio elétrico na folia
Armandinho, serafim
Dodô e Osmar no ritmo:
Salve o Senhor do Bonfim...

Carmen Miranda, Tropicália:
Bumba-Meu-Boi sedutor...
Maxixe, afoxé...lundu...
O samba interlocutor...
Todo mundo na folia:
Ritmos de paz e amor...

Sortes e adivinhas:
Simpatia e acalanto...
Pai-Nosso, Salve-Rainha:
A festa é um encanto...
Santo de cabeça pra baixo:
Atrás da porta no canto...

Dancei no Boi do Teodoro:
Desfilei no Pacotão...
Charles Preto na surdina:
Perfilou na contra-mão...
Cassetete da Polícia:
Abaixo a Repressão...

Cantigas...Contos... Brinquedos:
Nos sonhos do dia-a-dia:
Oktoberfest, micarê...
Máscaras da fantasia:
Joãozinho Trinta - Jamelão:
Nossas festas têm magia...

Amazonas Parintins:
Caprichoso e Garantido:
Cunhã Poranga e Pajé:
Saci e boto atrevido...
Gigante Juma - Curupira:
Boitatá bem sacudido...

Bumbódromo tupiniquim
ilha Tupinambarana:
Mapinguari e Mãe-Dágua:
A floresta nos irmana...
Açai...Cupuaçú:
Ecos da sussuarana...

Dança a Mula-sem-cabeça
Mãe-de-ouro na folia...
Corpo-Seco, Pisadeira:
Destranca a rua, Maria:
Com as sete chaves da vida:
Consagrada epifania...

Nosso Senhor dos Navegantes:
Linda Conceição da Praia...
Fui à Pesca do Xaréu:
No mar se via arraia...
Na Festa de Iemanjá:
Capoeira, mini-saia...

Nossa Senhora do Rosário:
Pirenópolis-Catalão...
Goiás Velho e Trindade:
Juazeiro no Sertão:
Lampião e Padim Ciço:
Reza de Frei Damião...

Raízes culturais do Brasil:
Questão de identidade...
Círio e Aparecida:
Interior e cidade...
Procissão do Fogaréu:
Festa...Multiplicidade...

Candomblé Umbandaum:
No Pelô o saravá...
Mãe Menininha, a bênção:
Iluminou Gantoá...
Os orixás da Prainha:
No Lago Paranoá...

No ritmo do improviso:
Inácio da Catingueira...
Cego Aderaldo na rima:
Desafia Zé Limeira...
Festa em Campina Grande:
Xaxado...Mulher Rendeira...

Repercutem os tambores:
Oferenda a Iemanjá...
Oxum, Xangô,Iansã:
Oxóssi, Ogum, Oxalá...
Macumbanda...Candomblé:
Iaô...Ylê...Iaiá...

Cristão e mouros em luta:
A famosa cavalhada...
Pastoril e seus cordões:
Sebastião na congada...
Zabumbas e maracás:
Sacodem a caboclada...

Nossa Senhora Aparecida:
Festa da Boa Viagem...
Santos Reis, São Benedito:
Chegança...Camaradagem...
Pajelança...Uca-Uca:
Nossos ritos de passagem...

O Brasil se sassarica:
Se sacode na noitada...
Pula, dança e festeja:
Pagode e marujada:
Xoxoteia xaxaxando:
Se remexe na lambada...

Nas festas de hoje em dia:
Tudo está muito mudado...
Tem show e tecnologia:
Se perdeu o rebolado...
Saudade do forrobodó:
No terreiro e no roçado...

Nas noites de minha infância:
Não tinha eletricidade...
A luz era à luz da lua...
Tinha estrelicidade...
Dos festejos de menino:
Lembro e morro de saudade...

Nosso povo é sonhador:
Deseja o essencial...
Terra, amor, casa, comida:
Trabalho, vida normal ...
Quer a paz e equilíbrio
E festejar o Carnaval...

Valorização da Arte
É ação de resistência
A cultura é vital
Pra nossa sobrevivência
Livros, arroz e feijão
Na festa da consciência.

Pra você tudo de bom:
Saúde...Fraternidade
Um Natal de harmonia:
Luz...Solidariedade...
Paz...Amor e Alegria:
Sucesso e Felicidade...

Um Ano-Novo de glórias:
Sua estrela vai brilhar...
Que tudo se concretize:
Possa a vitória alcançar
Universe a fantasia:
Numa Festa Popular...


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sábado, 1 de novembro de 2008

Meninas gordinhas



Luci Afonso


Sempre fui perseguida por meninas gordinhas, feias e míopes.

Lembro-me, especialmente, de três.

A da escola primária nunca me deixava entrar na roda do recreio:
— Ela, não!

As colegas obedeciam com medo do punho forte, que derrubava até meninos. Eu me sentava na escada do pátio e comia o lanche. A gordinha, com ar de triunfo, não tirava os olhos de mim. Terminado o primário, ela se mudou da cidade.

A da adolescência tinha uma bunda enorme, que fazia sucesso entre os rapazes. — Fala “chuchu”! - Ela provocava, imitando o biquinho que eu fazia ao pronunciar essa palavra. Todos achavam muita graça. Depois do ginásio, nunca mais tive notícias dela.

Encontrei a terceira gordinha na Comunhão Espírita, onde trabalhávamos como voluntárias. Na primeira vez em que conversamos, ela abriu um meio sorriso e comentou: — Você parece uma freira! - juntando as mãos, como numa prece. Sempre que nos víamos, ela repetia o gesto. Algum tempo depois, ela deixou a Comunhão e nunca mais a vi.

Sempre amei meninas gordinhas, feias e míopes.

Lembro-me, especialmente, de três.
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Fiapo d’água




Antônio Cardoso Neto

Não muito longe do mar, o fiapo d’água desembrenha-se da rocha nua no pé da serra para mais adiante emendar-se com outras águas, mudando inúmeras vezes de nome e de dono como um cão vadio. Logo mais, passa a chamar-se Tietê.

Ao contrário das corredeiras que se desgarram das encostas escarpadas da serra e se lançam no vazio buscando o mar desesperadas, o rio recém-nascido inicia sua sina cabocla de costas para o Atlântico, levando na corrente mansa quem ou o quê se destine ao interior. Antes, passa pela urbe desmesurada, onde recebe mais detrito que qualquer outro rio do universo. Torna-se uma gosma que a perpassa lentamente e empesta o ar, devolvendo-lhe os insultos. Só muito depois é que reaparecem alguns lambaris e lambe-pedras. Não recupera mais a transparência.

Depois de cruzar cafezais e pastagens, se enfia pela vastidão pálida e vulgar dos canaviais. Acolhe o Piracicaba, intumesce o ventre em Itapuí, encontra o Paraná e se embaralha a outros nomes tupis vindos como flechas de ambas as margens: Sucuriú, Aguapeí, Taquaruçu, Paranapanema, Amambaí, Ivaí, Piquiri.

As águas se alargam, diminuem o passo e escorrem vagarosas sobre o sudário lacustre que cobre as sete quedas de Guaíra. Escorregam pelo cimento, desabam espremidas entre as paredes de aço, se arrebentam nas turbinas e, em meio à espuma, unem-se às do Iguaçu, que despencam de um precipício perto dali.

***

Margeada por palmeiras e araucárias estrangeiras, a correnteza segue seu curso até juntar-se ao Paraguai que traz no rastro a lama das torrentes pantaneiras e as areias quíchuas do Pilcumayo. O caudal prossegue indiferente às canhoneiras de Mitre e às fragatas de Tamandaré, envoltas pelo lodo escuro das profundezas. É aí, entre a esquadra inteira de Solano López ancorada no negrume do fundo do rio, que habita escondido o coração guarani.

A corrente circunda a Mesopotâmia Austral e fende-se em veredas líquidas que se derramam na boca do rio dos pássaros pintados. O que são a tesoura das Parcas e o alfanje do arcanjo negro para todo sangue é o tridente de Netuno para essas águas todas. O deflúvio agoniza no leito de prata.

Ao lado da cidade colossal que se lhe apresenta como aquela da infância de suas águas, chega o Tietê ao destino que pensava ter evitado quando era um fiapo d’água no pé da serra.

e não fosse sua teimosia em contrariar o senso lusitano e fugir do mar, talvez bandeirantes e emboabas não tivessem se animado a subir corredeira à cata de bugre e pedra na fundura das matas. Aí, mais dia, menos dia, genocidas iguais a eles teriam surgido do poente, falando castelhano. E então, quem sabe, ao Brasil não restasse mais que ser uma tripa litorânea do Pará à bela Meiembipe. Um enorme Chile oriental.

***

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Breakfast



Marco Antunes


Calling you

(Bob Telson)

A desert road from vegas to nowhere
some place better than where you've been
A coffee machine that needs some fixing
In a little cafe just around the bend
I am calling you
Can't you hear me
I am calling you



Era uma estrada deserta entre Vegas e nenhum lugar que me pareceu merecer um nome — e talvez Mojave haveria de ser o sobrenome de qualquer ponto no mapa — se houvesse a possibilidade de encontrar algum no porta-luvas abarrotado de papéis sem ordem (ou motivo de arquivo) sobre trastes com aspiração a lembranças.

Parado no acostamento com os dedos queimados pelo copo de café desproporcional, eu olhava a mulher recostada em meu carro com seu jeans imundo e me perguntava em que limite da solidão eu começaria a usar de algum critério para não dormir sozinho.

O vento empoeirado da estrada sugeria aflito um rumo para os lados da Califórnia, mas a possibilidade de chegar sem mim a algum destino, impressão que oceanos sempre me causam, aconselhava mais vagar.

Um lagarto espreitava a manhã com fome paciente e um caminhão saía do posto tomando ridículo cuidado antes de entrar na via.

Na janela do carona, um menino sonolento colava o rosto contra o vidro, curioso de nós ali parados e pode ser que o pai apertasse a aba do boné a significar uma saudação aos estranhos no acostamento.

Solidão mais silenciosa depois.

O velho frentista guardou o pano no bolso do macacão puído e entrou porta a dentro.

Então, éramos, de novo, eu a mulher cujo nome, se soube alguma vez, me faltava agora, o lagarto e a estrada.

O olhar dela, emoldurado em rugas, não se animava a me indagar de seqüências, mas tampouco parecia conformado ao silêncio de minha vontade.

O lagarto desistiu de nós ou da manhã e sumiu atrás de uma duna.

O café chegava ao fim e a mulher desenhou com o pé um arco na areia.

Agora o sol estava autorizado a queimar forte e começava a trabalhar com diligência.

— O que tem pra lá? – Eu disse apontando a margem esquerda da estrada.
— Cold Creek – Disse a vagabunda sem me olhar diretamente.
— Onde quer ficar?
— Se for voltar a Vegas, me deixe em Big Plantation; se resolver seguir, fico em Indian Spring, a 3 milhas daqui, pode ser?
— Na boa! – Respondi pela metade ignorando a pergunta intrínseca: “O que vai ser?”

Olhei o bustiê nojento que, de noite, cheguei a tirar com os dentes e cuspi para o lado a borra de café com essa lembrança.

O corpo era disforme, desproporcional: ancas enormes, barriga flácida e seios tão exageradamente falsos que me deu vergonha de ter chupado.

O dia seguinte de todas as minhas escolhas tinha sempre a mesma náusea e arrependimento inútil. A dura verdade é que, se quisesse ir a algum lugar, estaria fora de rumo e provavelmente atrasado.

Ter saído do motel sem banho era o remorso mais imediato, porque subia um vapor quente de minha virilha enquanto urinava na areia e, injustamente, me deu ganas de espancar a vadia. “Mulher porca!”, pensei, mas já sabendo que iniquamente.

De cabeça, fiz as contas e parei em cinco mil pilas, que era o fôlego ainda no bolso para essa viagem sem roteiro.

Ela me olhou menos tolerante: queria saber uma direção...

Olhei os dois destinos prováveis e escolhi a solidão mais imediata.
— Vou te deixar em Indian Spring!

Ela balançou a cabeça e entrou no carro. Fingi precisar qualquer coisa na mala e me demorei um pouco mais olhando o letreiro em néon do Bagdá Café, ainda aceso mas onde há muito devia estar queimado o “B”.

Me perguntei se era ali o lugar que inspirou o filme e bati a tampa da mala com força desproporcional e tola, porque, depois de ouvir o barulho, ficou bem claro que não dizia o que eu estava pensando,e, se dissesse, aquela mulher não entenderia...nem a estrada.

Entrei rendido no carro, mas foi então que me surpreendeu uma certa inocência azul de olhos que, se mais nada explicava ou inspirava, contavam um pouco da noite por trás da bebedeira e o mundo pareceu menos mal.
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Sarau Festas do Povo




O Espaço Cultural e o Cefor convidam para o Sarau Festas do Povo, que celebra as raízes culturais brasileiras e está entre as comemorações do Dia do Servidor.

As manifestações culturais de um povo são as raízes de uma nação, a sua "marca" e trazem consigo as histórias e as lendas do seu passado, conscientizando as pessoas do caminho traçado até chegarmos aos dias atuais. Um povo que preserva sua cultura sabe direcionar o rumo a ser seguido e possui identidade própria.

Cacuriá, Folia de Reis, Viola Caipira, Catira são alguns exemplos destas manifestações que serão apresentadas no evento.

Venha participar desta festa!

Programação

19h Recepção – Cia. Mambembrincantes
Hall de entrada
19:30h Catira e Folia de Reis – Grupo Irmãos Vieira
Hall do auditório

Cuitelinho (Paulo Vanzolini) – Marcos Mesquita, viola caipira
Saudades da minha terra (Goiá) – Marcos Mesquita
O Lema do Nordestino (Amigão – Alberto R. da Silva) – Anabe Lopes
Carnaval em Pirapora (Adilson Cordeiro) – Isolda Marinho

Prenda minha (domínio público) – Marcos Mesquita
Ensaboa (Cartola) - Marcos Mesquita
Vertentes (Adilson Cordeiro) – Roberto Klotz
Procissão do Fogaréu (Cinthia Kriemler) – Cinthia Kriemler
Abre-asas-da-mata (Robson Corrêa de Araújo) – Mathias Moeller
A entrada da prostituta no céu (J.Borges) – Grupo APA - Companhia de Comédia
Cordel das Festas Populares (Gustavo Dourado) – Gustavo Dourado

Churrasquinho (Adilson Cordeiro) – Liana Ferreira
Romaria (Carlos Drummond de Andrade) – Marco Antunes
Profundamente (Manuel Bandeira) – Marco Antunes
Forró é pra todo mundo (Adilson Cordeiro) – Arlete Sylvia
Círio de Nazaré (Goya e Ubiratan Aguiar) – Goya
Cacuriá

Coquetel: Comidas típicas

Patrocínio:
Sindilegis

Auditório do Cefor - Setor de Garagens Ministeriais Norte, Via N3 Coordenação de Transportes da Câmara dos Deputados (atrás dos anexos dos Ministérios)

3 de novembro (segunda-feira) às 19h
ENTRADA FRANCA

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sábado, 25 de outubro de 2008

Relatório sobre a mamãe




Luci Afonso


De: claudia@terra.com.br
Enviado em: segunda-feira, 27 de junho de 2005
Para: fabio@tecnomix.com.br
Assunto: Relatório sobre a mamãe

Querido irmão,

Tudo bem por aí? E a viagem à Disney? Adorei a sua foto com o chapéu de pirata e a caneca do Mickey.

Ontem, eu e o Claudinho fomos à chácara, depois de muito tempo, e fizemos uma triste constatação: a mamãe está retornando ao estado selvagem, talvez ao nível do primitivo Homo Sapiens. Qualquer dia vamos encontrá-la em cima de uma árvore, e não será de se estranhar!

Os indícios dessa regressão são vários:
1. Ela se alimenta do que encontra na natureza, por exemplo, frutas ou verduras que ela mesma plantou;
2. Bebe água diretamente do poço, porque acabou a mineral;
3. Raramente penteia o cabelo (agora está ruivo, por causa do sol) e toma banho a cada três dias;
4. Vive no escuro — guia-se mais pelo olfato, ainda que a visão de longa distância funcione precariamente.

O mais grave, mano, é que mamãe está quase surda e só abre o portão por um lance de extrema sorte.

Ontem, por exemplo, ela estava chupando uma laranja na varanda, após ter comido uma cenoura. Eu a observava de fora do portão, enquanto o Claudinho insistia na buzina e eu, no grito. Já íamos embora, famintos e exaustos, quando de repente ela avistou o vulto grande e escuro do carro e veio correndo saber quem era. Ficou superfeliz ao ver o neto, é claro, e insistiu em fazer o bolo de cenoura que ele adora. Andou pelo quintal, meteu-se no galinheiro e embrenhou-se na cozinha escura, da qual emergiu, orgulhosa, com o bolo e o café fumegantes.

Claudinho já se acostumou a conversar com a avó. Primeiro, toca-lhe de leve o ombro; depois de fazer contato visual, fala bem devagar, movendo cuidadosamente os lábios, até que ela entenda a mensagem. Mamãe parece ter desenvolvido um sistema próprio de leitura labial, pois são necessárias, no máximo, três tentativas de comunicação. Ela, então, responde alto, rindo muito, independente do assunto. Só não entende quando falamos em aparelho para a surdez.

Fábio, vc sabe que ela tem mania com roupas. Atualmente, usa uma bermuda preta cortada em bicos, como a de Peter Pan, e um par de tênis de cor indefinível, com grandes buracos no peito do pé, talvez para ventilação. A blusa é aquela florida que vcs deram no Natal e a faixa no cabelo é a que eu dei no aniversário.

Quando forem lá, levem água potável, provisões e algum tipo de sinalização luminosa. Se conseguirem entrar, ajam naturalmente e finjam não estranhar nada. Aceitem o café e o bolo e prometam voltar logo. Mamãe ficará feliz com a visita.
Na próxima ida à Disney, traga uma caneca do Mickey para o Claudinho e uma da Margarida para mim. Se vc trouxer, nós acertamos.
Abraços.
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Coriandrum et Petroselinum



Antônio Cardoso Neto

Tanto os sérvios quanto os croatas falam a mesma língua, mas a escrevem de maneiras diferentes. Por imposição católica romana, os croatas usam o alfabeto latino, ao passo que os sérvios utilizam o alfabeto cirílico por determinação ortodoxa bizantina. O Híndi, que se fala na Índia, é a mesma língua que é chamada de Urdu no Paquistão. Mas por ser o Paquistão majoritariamente muçulmano, o Urdu é grafado no alfabeto em que o corão foi escrito: o arábico. Já o Hindi é escrito no alfabeto devanagárico ou Devanágari, que significa, literalmente, “escrita sagrada” em Sânscrito.

De qualquer maneira, o idioma é o som, não a escrita; é como se fala, e não como se registra a fala em um papel. Senão, o sinônimo de “idioma” seria “dedo”, e não “língua”. No frigir dos ovos, essas pequenas diferenças na maneira de escrever, por serem frutos de diferenças maiores, são suficientes para que sérvios e croatas se trucidem mutuamente, da mesma maneira que o fazem paquistaneses e indianos.

Nenhum povo gosta de ser confundido com outro, e talvez seja por isso que haja tanta rivalidade entre povos não muito diferentes entre si. A rixa entre poloneses e russos é brava. Brava e velha, muito anterior aos bolcheviques. E a diferença entre eles não é lá tão grande. Vistos de longe, brasileiros e argentinos são a mesma coisa, tão iguais como, digamos, birmaneses e cambojanos que, aliás, esses sim, não têm nada a ver uns com os outros.

Mas por que é que estou falando disso? Só para lembrar que o povo mais parecido com o português é o brasileiro. Os piadistas de plantão que esperneiem, mas não há no mundo povo mais parecido conosco que os portugueses, o que é muito bom, na minha opinião. Portugal é o único país da Europa cujo povo fala só uma língua. Além disso, fora dos guetos lusófonos de grandes cidades como Paris e Frankfurt (ou Franqueforte, como dizem os patrícios lá da Terrinha), o Português só é falado em Portugal. Daí é que o mapa político de Portugal coincide com o mapa lingüístico e étnico dos portugueses. Já a Espanha é uma zoeira total. Há o Galego, o Catalão e o Basco, além do Espanhol propriamente dito, com seus diversos falares: o Andaluz, o Castelhano (por que não é Castelão em vez de Castelhano?), o Valenciano, o Murciano, o Aragonês e muitos outros. Pode ser que, mais ou menos por conta disso, a América Espanhola tenha virado vinte e tantos países, enquanto a Portuguesa ficou uma coisa só, essa nossa querida bagunça auriverde.

Retomando o fio da meada, quero dizer que a diferença entre um sérvio e um croata é muito maior que entre um gaúcho e um pernambucano. Para os meus ouvidos, o sotaque amazonense não é muito diferente do carioca. Pode-se perceber que ao sul de Belo Horizonte, o fonema erre deixa de ser gutural e passa a ser mole, o erre caipira. Continuando rumo ao sul, o sotaque continua cada vez mais caipira e, de repente, no litoral catarinense, começa-se a ouvir o erre gutural de novo, como no Rio de Janeiro.

Não há dialetos no Brasil e tem pão-de-queijo, feijoada, churrasco e guaraná no país inteiro. Quase todos os brasileiros torcem para um time estadual e para um time do Rio. O Brasil não é somente a principal proeza da navegação portuguesa. Acho que foi o Darcy Ribeiro quem notou que, por ser o mais extenso e populoso país latino do mundo, o Brasil não deixa de ser também a maior conquista do Império Romano, a mais colossal vitória das legiões de César. Pobre César...

Tudo isso leva a crer que nossas parcas diferenças internas jamais farão do Brasil o que foi feito da Iugoslávia. A gente fica contente com isso, pede uma cerveja e um prato com arroz, feijão, bife, ovo frito e salada de tomate, unanimidade nacional. Está tudo muito bem, tudo muito legal, até o momento em que o garçom ¾ ou garção, moço, criado, mancebo, ou seja lá como é que o chamem, a gente não liga para essas picuinhas bairristas ¾ traz um condimento verde para colocar na comida.

Às vezes, isso pode resultar em tragédia. Já ouvi em todo canto gritos furiosos quando isso acontece. Alguns berram “salsinha de novo?”, outros vociferam “até aqui eles colocam coentro?”. Prevejo o dia em que, durante um banquete oferecido a industriais e políticos, alguns comensais virem a mesa aos berros de “chega de coentro”, seguido do desembainhar de peixeiras e de feroz luta corpo-a-corpo. Suo frio quando imagino a revolta popular contra a salsinha nas ruas de Recife, Fortaleza e Salvador. Perco o sono quando penso no encontro dos dois exércitos, na fronteira de Goiás com Tocantins, com os brados de “coentro” e “salsinha” a se alternarem, como os hinos francês e russo na Abertura 1812.

Se a polícia continuar a gastar dinheiro com a destruição de plantações de maconha e a fazer vista grossa com a produção de coentro e de salsinha, ainda vamos acabar mal, muito mal. Depois não me digam que foi por falta de aviso.



***


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Almofada de cetim



Maria Amélia Costa

O aparelho celular vibrou no bolso interno do paletó. Era sábado pela manhã, estava em uma reunião de trabalho e não pôde atender. Olhou depois na caixa de mensagens o convite para uma festa. Ficou alegre e surpreso porque há muito não recebia convites. Ligou para confirmar. Doravante o dia ficou mais iluminado e sua participação na reunião, mais ativa. Chegou até a levantar-se e gesticular na defesa de seus argumentos. No corpo uma palpitação e o desejo de encontrar o Alfredinho que decerto estaria lá.

Sorriu olhando com olhos distantes para a colega que, à sua frente, perguntou o que ele achava daquela proposta. Disse-lhe que sim, que era muito interessante e que podiam contar com ele. Nadava em um mar de possibilidades e tudo se revestiu no sabor de uma doce espera.

Durante o resto da manhã escapou em devaneios sobre o seu romance com o Alfredinho. Os olhos fundos nadando em palavras lentas, os dedos bem torneados, o caracol dos cabelos ruivos e sempre com aquele cheirinho de banho recém-tomado, a voz barítono e as pernas cruzadas do Alfredinho. Baladas, noites sem fim, beijo na boca, sanduíche nas madrugadas, almoços prolongados e uma sobremesa para dois: mouse de maracujá com aquelas sementinhas boiando. O Alfredinho adorava cozinhar, nos finais de semana ia para a cozinha e os dois convidavam amigos para almoçar.

Foi sozinho a um restaurante self-service e tendo a emoção lhe tirado o apetite não comeu quase nada, mas deixou-se ficar ali, distraído. Expressava uma surpreendente desenvoltura porque agora havia um convite e já antevia o glamour daquela noite. Ficou muito tempo olhando para a vegetação lá fora e resolveu que usaria a camiseta preta de gola rolê, o jeans justinho e o casaco que o padrasto trouxe-lhe de uma viagem que fez a Nova York. Agradeceu a Deus porque as noites estavam com um friozinho de inverno tropical. Ninguém haveria de estranhar aquele casaco de frio intenso.

Foi saltitando aconchegar-se no apartamento de quarto e sala. Tomou um banhinho rápido, colocou na vitrola um bolero de Ravel, vestiu um pijama curtinho e usou a colônia Chamma da Amazônia preparando-se para sonhar abraçado ao azul de uma almofada de cetim. Aquele final de tarde seria um prelúdio da noite que estava por vir. Dormiu sem sonhos. Antes de levantar fitou o abajur, pensativo: aquele lugar ainda estava impregnado pelo tempo que moraram juntos.

Tomou uma coca e desceu para a rua comercial. Compraria logo um vinho chileno para levar. Detestava sair para festas e ainda ter que passar em supermercados. Havia sempre a sensação de que ali ficaria uma parte dos seus trajes, seu perfume, a performance da ocasião e isso o deixava enciumado.

De volta ao apartamento ligou mais uma vez na amiga para saber quem estaria na festa.
— Bom... Disse-lhe a amiga: A Verônica... lembra? Aquela que você conheceu na casa do Ricardo e que estava toda de preto com cílios postiços enormes?
— Lembro, claro, depois daquele dia eu a encontrei no Café Martinica. Estava com um bofe maravilhoso que vestia preto, também.
— Então... Continuou a amiga: A Suzi, o Gui com o namorado, a Tati com o namorado e mais uma amiga que está de passagem por Brasília; um pessoal do trabalho que você não conhece... E uma pessoa que eu acho que você vai gostar de encontrar: o Alfredinho.

As pernas tremeram com aquela confirmação e, de repente, uma coisa estranha no estômago. Depois do telefonema fitou o abajur aceso e sentiu medo. Não, não estava preparado para encontrar o Alfredinho... Andou até a janela e se debruçou sobre o vazio lá de fora. Já era noite, havia faróis, gente indo e vindo, roupas na vitrine, guardador de carros, pão quente na padaria, solidão. O Alfredinho estaria lá. Dedos torneados, olhos fundos, pernas cruzadas e aquela capacidade de se fazer distante e ao mesmo tempo envolver tudo. Que tortura. E que doce agonia. Água, precisava tomar água. Não, melhor uma coca. Tomou água. Depois tomou coca.

Vestiu-se e sentou no sofá de dois lugares. Pensou e ligou outra vez para a amiga para dizer que não poderia ir que lamentava muito, mas houve um imprevisto e, por favor, me desculpe. Mas não disse nada disso, apenas perguntou se já havia chegado alguém e que iria demorar um pouco porque acabou de acordar depois do cansaço de uma manhã de trabalho. A voz estava trêmula, sabia. Ficou mais um tempo sentado sentindo o peso daquela coisa estranha no estômago. Tomou outra coca encostado na pia da cozinha. Lembrou com o olhar fixo na borda o maravilhoso talharim que o Alfredinho preparava nas manhãs de domingo enquanto trocavam olhares carinhosos, deslizavam para o sofá da sala e ali mesmo faziam amor.

No caminho quis pensar em algo. Chegaria alegre e desenvolto e diria o quanto está bem, trabalhando, viajando muito, sim, namorando também, diria encabulado se perguntassem, mas o namorado não estava se sentindo bem, uma gripe forte o colocara de cama — completaria olhando para o lado. Subiu pela escada até o terceiro andar. Chegou suando embaixo do casaco nova-iorquino. A amiga ofereceu bebida, seja bem-vindo, fique à vontade e apresentou-o aos que ali estavam. Depois se afastou para outro canto da sala onde havia um animado grupo discutindo sobre as delícias da comida árabe. Ele aproximou-se de tudo olhando em volta, procurando. Precisava mesmo de uma bebida.

Uma sensação de desconforto o invadiu e tudo em si pareceu inadequado: a gola rolê, o casaco quente, o cabelo curtinho, a calça justa, a taça de vinho. Cambaleou para perto de um casal conhecido e disse qualquer coisa para disfarçar. Tomou mais vinho. Sorriu e pediu licença para ir ao banheiro. No espelho a imagem desfocada. Demorou muito tempo olhando a imagem. Ao sair aproximou-se da dona da casa e disse alguma coisa junto ao ouvido dela, despediu-se do casal e foi embora.

Dormiu cedo demais e acordou na madrugada com o barulho da tv refletindo no amarelo reflexo da almofada de cetim.

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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira