domingo, 30 de dezembro de 2007

A retrospectiva do velho menestrel

Nestor Kirjner



Andei um bocado por Brasília no ano de 2007, fazendo o que gosto e trabalhando pela cultura da cidade. Não vi tudo, participei apenas daquilo a que pude assistir. Mas, modestamente, destaco algumas coisas que vi e ouvi com emoção e prazer, nesse triste ano político de nossa existência.

E ELES CONTINUAM POR AÍ: No ano em que Renan, Mônica Veloso, George Bush e Hugo Chávez reinaram absolutos nas manchetes brasileiras, fica difícil falar em esperança. Meu xará argentino também deu uma força ao caudilhismo emergente na América Latina, promovendo a segunda ressurreição de Evita, desta vez com o nome de Cristina Kirchner. A “prima” é minha, mas vai sobrar pra todos nós! E o Evo boliviano? Que que é isso, Sílvio Luiz? Mas deixa pra lá! Coluna cultural não deve falar de política. Talvez seja melhor esquecer os perigos de 2008 e dar um passeio pela música do Planalto Central em 2007. Vamos lembrar o que houve de bom por aqui. Alô, Joaquim Barbosa! Vê lá, Mermão! Não vá decepcionar a gente em 2008! Segura aí um pouco de ética, que a gente num “güenta” outro 2007, ano do cinismo descarado e da desmoralização da classe política atual, que absolveu o Renan pra fechar o ano com “chave de ouro”.

ANDANÇAS CULTURAIS DO VELHO MENESTREL: Preocupado com tudo isso, e bastante acabrunhado! Mesmo assim, o Velho Menestrel não pode queixar-se de 2007, que lhe propiciou saborosas andanças pelo ambiente cultural de Brasília. Pude ver o Coral Alegria, onde exerço a Direção Musical, ser incorporado pela CODEPLAN, crescer, refinar-se e sobreviver à mudança do Governo local, sem descontinuidade de suas atividades sócio-culturais. Parabéns à regente Ana Boccucci, vitoriosa nessa luta! Assisti também a grandes reuniões no Clube do Choro, que continua a ser um marcante agente cultural desta cidade. Parabéns, mais uma vez, a Reco do Bandolim, o eterno homenageado! Pude participar da 100ª reunião do Clube da Bossa Nova, até para me convencer de que não sou mesmo um bossanovista. Mas não posso deixar de assinalar o trabalho de Dickran Berberian à frente daquela entidade, apoiada pelo sempre maestro Bohumil Med, que cede as dependências de sua livraria para a realização dos encontros do Clube. Já os “Seresteiros do Cerrado” continuaram a realizar reuniões em que a tônica foi a preservação do cancioneiro mais tradicional da MPB. Os parabéns, agora, vão para Dom Wilson, incansável batalhador dessa causa um tanto inglória, mas que tem nos Seresteiros um grande foco de resistência. Sônia Ferreira, presidente do Centro de Cultura do Centro-Oeste, conseguiu reeditar sua luxuosa antologia dos artistas dos quatro Estados de nossa Região, viajando o ano todo na busca desse intento. A Feira do Livro foi testemunha de sua vitória sobre todas as dificuldades que a ela se antepuseram. Salomão di Pádua, com sua voz privilegiada e rigorosa seleção de repertório, foi o anfitrião brasiliense naquele que acredito ter sido um dos shows do ano em Brasília. Ele recebeu Vânia Bastos, extraordinária cantora brasileira que a mídia insiste em ignorar. Divina Vânia, uma Elizeth renascida! E, por falar em divas, Célia Rabelo, sempre muito talentosa, mostrou uma capacidade de trabalho incrível e esteve em todos os lugares em que a boa música poderia dizer “presente”. Foi a “formiguinha do ano”, incansável como artista e brilhante como cantora. Conceição Salles ameaçou nos deixar de vez, mas cedeu aos apelos do grande Antônio Miranda, que, além de conduzir com brilho essa primeira fase da Biblioteca Nacional, reintegrou Conceição à cena brasiliense. Miranda foi homenageado pelo Sindicato dos Escritores nas dependências do UniCeub, onde o coordenador cultural Victor Boccucci e a professora Lúcia Leone, da Associação de Docentes, estimulam a trajetória de muitos artistas brasilienses e valorizam datas importantes do calendário cultural, como a Semana do Artesão e o Dia do Idoso. Como reverência ao trabalho desses educadores, devo informar que foi no auditório do UniCeub que encontrei guarida para minha arte e minhas canções, e onde fiz a mais bem sucedida apresentação deste ano de 2007. Cabe citar, ainda, a brilhante participação de Ydê Afonso e Luiz Carlos Cerqueira na Diretoria da Casa do Poeta Brasileiro, que fez ressurgir a entidade na cena cultural da cidade com base no trabalho criativo e pertinaz desses dois consagrados artistas candangos. Finalmente, quero destacar a personalidade do ano, aquela que mais marcou minhas andanças culturais pelos teatros e ambientes culturais de Brasília. Os brilhantes saraus, aulas, oficinas e palestras levam-me a apontar Marco Antunes e o Núcleo de Literatura da Câmara dos Deputados como a grande presença do ano nas atividades culturais de Brasília em que tive oportunidade de participar. Além de ativo e profícuo produtor cultural, Marco é um excepcional intérprete de textos e poemas. De Brecht a Caetano Veloso, de Clarice Lispector a Cecília Meirelles, de Drummond a Mário Quintana, tudo o que for genial tem abrigo na atividade desse iluminado cultor das artes e da beleza espiritual.

CULTURA É FUNDAMENTAL: Muito mais do que entretenimento, cultura é comportamento, é o desenvolvimento intelectual do ser social, aquilo que realizamos (ou não) a partir da educação e da informação que recebemos. Participar da vida cultural não é luxo nem requinte, mas necessidade essencial do ser humano. Pense nisso, e incorpore essa preocupação nos planos que você está formulando para 2008! E tenha um feliz período de 365 dias, quando seu espírito, elevado pela cultura, saberá mais bem compreender os absurdos e paradoxos da vida que nos é oferecida como dádiva. Ou, traduzindo tudo isso num lugar-comum: Feliz Ano Novo, Mermão!!!! Tudo de bom pra você!!!




LAGO NOTÍCIAS NO. 131
DEZEMBRO DE 2007














Nestor Kirjner é autor da "Sinfonia da Cidade Nova" e mantém a coluna "Toques Culturais", há oito anos ininterruptos, no jornal Lago Notícias.


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sábado, 22 de dezembro de 2007

Convite para o aniversário de um perdedor

Marco Antunes








Eu quero convidá-lo
para comemorar o nascimento
de um cara que viveu muitos anos atrás.


Um sujeito franzino
que nunca teve porte de general
e não sonhou jamais
conduzir exércitos e batalhas.


Um pobretão de família obscura
cujo pai não passava de um simples operário
e a mãe, pelo que se sabe, fora apenas doméstica.


Nosso homenageado
jamais se sentou
entre os letrados de sua época
como um igual.

Suas letras eram mínimas,
sua erudição inexistente
e jamais investigou as sutilezas da filosofia
ou enfrentou os mistérios da ciência.


Dir-se-ia um homem comum
que respeitava os costumes
e cumpria as datas culturalmente acordadas.


Você, com todo direito me perguntará agora
pelos feitos que o notabilizam
para que se o comemore.


É uma justa pergunta
sem resposta previsível
ou com respostas povoadas
mais de negativas que de afirmativas.


Não lutou batalhas
nem ganhou uma guerra;
Não construiu monumentos
nem governou seu povo;
Não viajou pelos campos abstratos da mente
nem descortinou novas terras;
Não escreveu livros,
aliás, nada escreveu
além de umas poucas palavras na areia,
depois apagadas.
Não fez eloqüentes discursos
às portas da lei,
Não pintou a sublimidade,
Não esculpiu a grandeza humana,
Não compôs cantos aos deuses.
Nada!

Nada fez ou realizou
daquele tipo de feitos
que mereça estátuas
e odes heróicas dos poetas deslumbrados.
Nada!


Pior, foi derrotado publicamente
e sofreu morte sem dignidade
entre ladrões.
Era, em suma, um daqueles homens
a quem os americanos chamam de perdedor:
um zero à esquerda entre nós, brasileiros.

Mesmo assim, jamais reabilitado
pelos tribunais que o condenaram,
mesmo relegado à própria sorte
pelos poucos que o seguiram no mundo...
Mesmo sepultado em túmulo de empréstimo,
mesmo vilipendiado e zombado de todos,
Mesmo perseguido depois de morto
pelos historiadores e dialéticos
mesmo questionado e até confinado
em limites folclóricos
como lenda improvável,
mesmo remorto a cada
nova moda filosófica que surgiu
nos longos séculos que mais o soterraram,
mesmo demolido por discípulos
a serviço de seus próprios egos,
mesmo desonrado a cada dia
pelos que ainda se lhe dizem fiéis...
Ele, um erro na ortografia
do livro da história.


Mesmo assim,
Ele faz aniversário
e é preciso comemorar.

Porque mesmo garantindo
trazer uma espada contra a paz,
nunca se ouviu dizer que dela tenha tomado
contra outro homem qualquer;

Porque mesmo sem que se tenha provas
de que pôs os pés fora de sua terra
não há nação suficientemente distante
em que alguém não jure de pés juntos
que o tenha encontrado um certo dia
quando precisou de um amigo;



Porque mesmo sem ter escrito
uma única palavra para a eternidade
numa época sem recursos de mídia e gravação,
tudo o que disse sobreviveu no coração
de alguns que lhe entenderam a mensagem;


Porque morto, sem provas empíricas
de ressurreição além de um túmulo vazio
e da palavra de uns poucos como ele,
e mesmo que não a tenha experimentado jamais...
Mesmo assim,
Ele dividiu o tempo impalpável em dois:
um que o precedia, outro que se lhe seguia!
Ele derrubou impérios
e em seu nome se ergueram outros!
Ele foi autor de algumas poucas palavras
que o vento não esqueceu
e que sobrevivem como tesouros de sabedoria!
Ele é o improvável que se fez indispensável!
Ele é o impossível em forma de Epifania!
Ele é o mais cabal desmentido
de nossa solidão universal!
Ele é o Deus de carne, osso e sangue visíveis
que sempre procuramos!
Ele ainda é a melhor resposta,
mesmo que nunca perguntemos!










Marco Antunes é professor de Literatura, escritor, ator e Coordenador do Núcleo de Literatura do Espaço Cultural da Câmara dos Deputados.


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Por quem os jingles dobram




Eneida Coaracy








Queridos amigos (do batente do dia-dia, não tão distantes, distanciados pelas circunstâncias da vida, de além-mares, daqui e de acolá),

Cá estamos novamente encerrando este ciclo temporal chamado ANO, criado pelo homem para ajudá-lo a demarcar etapas, ciclos, movimentos, passagens. Sinos rebimbam, jingles ecoam repetidamente na mídia, urgindo todos a comprarem, presentearem-se, confraternizarem-se. O Natal está chegando! Um Novo Ano anuncia vida nova, promessas de realizações pessoais e de sonhos, mudanças e viagens. Tudo é mágico e possível. O verdadeiro sentido do Natal, perdendo-se nesta ruidosa confraternização consumista inventada pelo homem.

Entretanto, torna-se praticamente impossível escapar do redemoinho natalino, de cuja força magnética ninguém parece conseguir escapar, inclusive eu própria, que aqui estou tentando me conectar aos meus amigos queridos e não me deixar fragmentar por esta ventania salpicada de falsas estrelinhas douradas — que cegam de tanto que cintilam, que tanto dançam ao vento que pinicam nossas peles curtidas e amaciadas pela poeira da vida. Nesta hora, não me agradam estrelinhas dançantes, nem excursões a shoppings lotados, nem repetidas confraternizações, uma após a outra, tudo no mesmo mês, quando na realidade, gostaria de me confraternizar com todos que me são queridos em momentos oportunos a cada grupo de amigos ao longo do ano que sempre avança nossas vidas adentro. Mas sei que isto nem sempre é possível, pois o tempo é indomável, segue sempre seu galope; nós, agarrados a nossas selas precárias, segurando-nos como melhor podemos, tentando manter o prumo.

Mas, que fazer? Estamos próximos ao Natal, momento em que somos cercados de uma enorme euforia, muita (falsa?) alegria e (alguma) esperança. Esperança que algo mude, talvez até o próprio sentido do Natal. Que algo mágico aconteça, que livre o homem do compromisso com o sentido essencialmente consumista que esta data passou a ter; que face à pobreza desconcertante que prevalece nas sociedades modernas, é desatualizado, hipnótico e propositalmente confuso. Comemoramos uma data que celebra o nascimento de um grande Homem, um Deus, que por aqui esteve há muito tempo atrás, que pregava a simplicidade e a harmonia entre os homens, a singeleza e a doçura. Palavras que foram reinventadas e passaram a significar sofisticação, desarmonia, complexidade e amargura. Tudo ao contrário. O que celebramos, então?

Eu, particularmente, nesta minha pequena comunicação natalina, celebro a amizade com todos vocês, o carinho que recebi ao longo deste ano, as alegrias compartilhadas, as oportunidades que tive de crescer como pessoa graças à nossa amizade e, principalmente, a prazerosa oportunidade que todos me deram, por serem meus amigos, de me sentir viva por ter um grupo de amigos com quem compartilho, de diversas formas, a Vida.

Assim, celebro a Vida, a Amizade e o Carinho entre nós!

Beijos,
Eneida








Eneida Coaracy é professora de inglês, poetisa premiada no Prêmio SESC de Poesia e cronista.







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Felicidade, eu tenho!

Sábado à tarde, comemoração do Dia das Mães na escola. Pela manhã, já ganhei o presente: um cartão tridimensional feito na aula de artes. No centro dele, um menininho com um coração pregado no peito diz que sou legal e que gosta muito de mim.
O estacionamento, insuficiente em dias normais de aula, hoje cospe os carros para as quadras vizinhas. Paramos a quase um quilômetro de distância e fazemos o trajeto a pé, no sol escaldante das 15 horas. Dezenas de famílias fazem o mesmo.
O pátio está lotado. Levo meu filho ao camarim, enquanto vou à Secretaria pegar a camiseta que devo usar no evento. Ela é preta e tem frase estampada em vermelho: “Felicidade, eu tenho!” A das crianças é branca, com os mesmos dizeres. Por precaução, encomendei o tamanho GG. Foi exagero: ela quase chega aos meus joelhos, mas não há outra disponível.
A diretora lê um bonito texto, ao qual ninguém presta atenção. Todos se fazem a mesma pergunta: “Quando vai começar?”, ou melhor, “Quando vai terminar?”
Com meia hora de atraso, ouvimos tambores, flautas e chocalhos. É a “centopéia” que vem nos buscar. Professoras vestidas de inseto vão recolhendo as mães e os convidados para levá-los ao auditório. Sou puxada por uma desconhecida, que me segura firme pela cintura até chegarmos ao nosso destino. Ensaio os passinhos, mexo a bundinha e canto, indecisa, o refrão composto pela professora de música:

“A centopéia me mandou te convidar
Para esta festa de sorrir e de cantar
Mão na cintura
Cai pra lá, depois pra cá
Essa alegria veio pra contagiar
Hey! (levantam-se as mãos)”.

Por sugestão da diretora, cada turma se apresenta três vezes: a primeira, para o deleite dos pais; a segunda, para as fotos; a terceira, para a troca de posição no palco, de modo que todos tenham a chance de ficar na frente. As vozes são desencontradas e os sorrisos, desdentados. Algumas crianças choram e são socorridas pelas mães; outras, em cadeiras de rodas, participam à sua maneira do espetáculo. Todas são lindas.
Dezenove horas: é a vez do ensino fundamental. Meu filho entra, ansioso, e me procura com o olhar. Eu me levanto, mostro a ele que estou usando a camiseta e, não fosse minha timidez, também assobiaria alto e daria uns pulinhos de incentivo. Ele sorri e me aponta aos colegas. Tento fotografá‑lo, mas justamente nesse instante um enorme traseiro passa na frente da câmera.
A apresentação tem início com uma complexa coreografia, que consiste em extrair sons do próprio corpo com as mãos. O maestro é um desinibido aluno da 2ª série. Fico sabendo depois que o “peito, estala, bate; peito, estala; peito, bate” é dolorido, pois é preciso bater forte para conseguir bom resultado. Multipliquem-se os tapas por três...
É também de autoria da professora de música a homenagem que eles cantam, desafinados:

“Mamãe, eu te dei meu coração
E olhe só o que você fez:
Abriu-lhe a porta devagarinho,
Encheu de amor, ternura, luz e carinho.

Não sou anjinho, eu sei.
Piso na bola, eu sei.
Por isso, eu preciso muito de você.
Mamãe querida,
Meu paraíso é você na minha vida”.

A emoção toma conta da platéia. Mães, pais, avós, bisavós, babás e outros presentes disfarçam as lágrimas, pedem bis e “tris”. É a música mais linda que já ouvi!
Mais tarde, em casa, ele pergunta se pode dormir com a camiseta. Digo que sim, e também vou dormir com a minha. Felicidade, nós temos! Estou decorando o refrão da centopéia para a festa do ano que vem.
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Comentário sobre "Velhota, eu?"

Cara Luci,

Muito agradou-nos receber seu primeiro livro de crônicas e, mais ainda, ler o texto Felicidade, eu tenho!
Dialogar com você por meio de seus enredos ambientados em Brasília foi um prazer. Parabéns pela sensibilidade, espontaneidade e sutileza de seus textos que, certamente, fazem-lhe porta-voz de muitos brasilienses no cotidiano de nossa cidade.


Um abraço,

Márcia







Márcia Gomes Fernandes é diretora do Colégio Arvense.
http://www.arvense.com.br/
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sábado, 15 de dezembro de 2007

Enamoramento 2

Maria Amélia Costa


Coisa estranha essa de querer o outro por perto, acercando-nos com paparicos e cuidados e a um passo poder tocar o seu braço e mergulhar pela abertura côncava entre o tecido e a pele em busca de um músculo contornado pelos movimentos do homem.

Num instante se sentir em um tamanho que cabe nos poros que moldam o corpo e nesse mesmo instante deslizar inundando-se em abismos de sensações perpendiculares, doces, cegas. Confundir-se nele, movida pela inocência angelical que conduz a luz por olhos moventes numa posição que, abaixo, é de entrega confortável e dolente.

Ele, sempre crescente, contorna o espaço e o tempo, alonga a paisagem.

Os dedos dela, cúmplices no gesto, tateiam imprimindo marcas digitais reunindo, ali, a consciência do mundo. Depender dele. Ser, apenas nele. Sentada ao lado, não precisa de nada, apenas ficar ali e se deixar... Como um corpo sem alma, desprovido de essência e de sentido.
Se deixar. Sem medo, sem angústia, sem pressa, sem frio.

Um não ser.
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Sem trololó nem xurumela



— Eu vou lhe incomodar, mulher.
A voz possante, o sotaque potiguar, as implicações que ela adivinhava no verbo “incomodar”, tudo isso dava à frase um forte apelo erótico. Será que o antigo colega de ginásio, agora reencontrado num curso de reciclagem na empresa, era igualmente vigoroso em outras áreas? Havia evidências disso: três ex-mulheres e sete filhos.
Ela acabara de trazer das férias o minúsculo Dicionário de Potiguês e o volumoso Dicionário do Nordeste, com 5.000 palavras e expressões. Procurou em ambos, no verbete “incomodar”, algum sentido que confirmasse sua intuição — encontrou “perturbar”, que, por sua vez, remeteu a “desassossegar”. Sim, ela queria ser desassossegada. Aproveitou para estudar o minidicionário. Quem sabe usaria seus conhecimentos muito em breve?
Por coincidência... não, por força do destino, reencontravam-se após 30 anos. Ela sempre o admirara de longe, na escola. Quem sabe era o homem da sua vida, como naquele filme do Tom Hanks? Imaginou-se desfrutando a lua-de-mel nas dunas de Genipabu.
A oportunidade de se verem extraclasse surgiu quando ele faltou a duas aulas importantes e precisou recuperar o conteúdo perdido. Quando ela se ofereceu para ajudá-lo, ele segurou o braço dela com força e disse, pela primeira vez, a frase que a deixava levemente excitada.
— Mulher, eu vou lhe incomodar.
— Por favor, me incomode muito e logo - ela teve vontade de responder.
Nas três semanas seguintes, ele repetia a frase ambígua no intervalo da aula, sem nunca concretizar a promessa. Chegaram ao final do curso sem que ele a tivesse incomodado.
No dia do encerramento, ela vingou-se aplicando o vocabulário adquirido no Dicionário de Potiguês:
— Eu vou lhe incomodar, mulher - disse ele, despedindo-se.
— Deixe de trololó, homem.
— Tu tá mangando de mim? - estranhou ele.
— Não, eu tô é aperreada com essa xurumela!
— Ôxi, mulher! Então, eu não vou mais lhe incomodar. - Foram as últimas palavras do brocoió.
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sábado, 8 de dezembro de 2007

Um recado amoroso para minha amiga Rosângela

Maria Amélia Costa









Querida Rosângela:
Ontem pela manhã e em tempos anteriores eu dizia pra você:
Querida, tenha cuidado. Sei que você não está enxergando direito e por isso não consegue manter-se no seu eixo. Confusa, nesse labirinto das labirintites, você anda em zigue-zague numa cadência estranha.
Por vezes, num movimento em espiral que a faz levar a mão à cabeça você diz:
Por favor, me ajudem eu ainda não estou bem.
Todo mundo sabe o quanto sofrem aqueles — e, principalmente, aquelas — que se distanciam do eixo que os mantém. Dizem que labirintite é uma coisa horrível! Mas é o distanciamento (de eixo, quero dizer!) o que nos maltrata.

Mais uma vez, querida, cuidado. Por esses dias você estava saindo, a duras penas, de uma depressão. Todos sabem, também, que depressão é um buraco fundo, escuro e escorregadio. Há até quem escute línguas estranhas e promessas vãs quando adentra por buracos assim.
Para uma pessoa com depressão e labirintite parece que não há salvação.

Mas...
Ontem, ainda, eu a vi dançar com seu traje de cigana, como uma cigana.
Linda!
Leve e graciosa, na pontinha dos pés, você rodopiou espalhando em torno do seu eixo o desvario de quem se lança ao mais sedutor dos abismos. Em seu torno voavam franjas prateadas em pequenas peças que se desprendiam para compor a sua aura iluminada.

Você dançava para o seu novo amor.
Do seu sorriso vi saindo partículas da alma que não se suportando mais em si mesma precisava, docemente, espalhar-se por aí.

Na cumplicidade dos quatro ou cinco elementos que aqueciam o céu do meu viver guardei aquela imagem e você continuou a bailar noite adentro enfeitando a noite.

Ontem, ainda em cuidados que nos aprisionam eu insistia, dizendo: — Querida, não vá se machucar nas solturas desses tempos doces. São tempos que nos seduzem e nos deixam assim, cegas e fora do eixo; sem rumo, sem prumo, sem norte. Esses tempos, sem nos avisar, nos levam num bailado de loucas por caminhos que não têm volta. São caminhos de perdição.
Querida, não perca o juízo.

Mas, isso foi ontem.
Hoje eu quero tecer um tapete de flores para você e acompanhar esses passos que te levam...
A ti e ao teu amor, tenro ainda.
Hoje, quero dizer que você está pura e linda nesses tempos de entrega. Esses são os melhores tempos. Os de loucura. Abra todas as compotas e se deixe inundar por esse vinho novo. Embriague-se. Enlouqueça e diga ao mundo dessa boa nova. Espalhe-se pelas ondas desse rodopio desvairado e envolva céus, terras e tudo o mais que houver entre esses céus e terras.

Viva! Seja intensa com o seu amor.

E que Deus me perdoe porque é nisso que, finalmente, eu acredito.
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Istrogonofe com safrão








— O que tem de almoço, Ana?
— Fiz istrogonofe, Ci.
— Por que está amarelo desse jeito?
— Tava muito branco, pus um pouquinho de safrão.
— Oba! Você fez mousse de chocolate?
— É arroz doce, Ci. O açúcar parece que queimou demais.
— O baixinho almoçou?
— Igual um leãozinho.
— Ele comeu o strogonoff desse jeito?
— Não, ele quis núguets com molho babicu. E um copão de Coca-Cola!
— Levou o quê de lanche?
— Orkut e chips.
—Tem café novo, Ana?
— O pó acabou, Ci. O coador também.
— Vai lá comprar. Estou doida para tomar um café.
— Tem outro problema.
— Qual?
— Vieram cortar o gás.
— Por que você não me ligou?
— Não gosto de incomodar a Ci. O moço disse que se pagasse na hora, não cortava.
— Ai, ainda bem! Você pagou?
— Não tinha mais dinheiro.
— E o que eu deixei, Ana?
— Gastei na floricultura. Ci gostou das gerbras, gostou?
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sábado, 1 de dezembro de 2007

Caminhos por dentro

Maria Amélia Costa


Era um desses finais de manhã de sol quente.

Acabara de sair do consultório e se dirigia para o shopping. Em breve o calor do sol ficaria lá fora. Combinara com o filho de se encontrarem, mas ainda era cedo para o almoço e ele talvez demorasse a chegar. A porta automática se abriu, ela entrou e logo sentiu o conforto fresco que circula pelo interior de lugares assim. Ao seu lado havia muita gente nesse ir e vir que marca a humanidade inquieta dos humanos. Estava cercada por essas criaturas e sentia-se confortável. O conforto a fez sorrir enquanto subia pela escada rolante evitando segurar naquelas laterais que também rolam, mas que não acompanham com a mesma velocidade os degraus que sobem e descem como se tivessem vida própria – observara. Num pensamento solto avaliou que havia uma cumplicidade velada porque o consultório do psicólogo, o da massagista e o do dentista que ela, agora, freqüentava ficavam todos ali, nas imediações do lugar. Mas não se deteve nesse pensamento preferindo ver o lado prático de coisas assim. Naquele dia fora ao dentista.
Se perguntassem ela diria que não gosta de freqüentar esses ambientes, mas, estranhamente, passava sempre por ali e sentia o conforto que já mencionou. Era nessas horas que se evidenciavam seus paradoxos e contradições e ela aproveitava para dar para si mesma, lições complexas da sua humanidade. Lições impositivas. Lições que ultrapassavam o espaço das lousas que usava, mas que ela, numa rebeldia juvenil, preferiria mudar de assunto. No fundo, o que não queria era se perder em elucubrações vãs e sem rumo deslizando por lousas invisíveis, não confiáveis. E não podia ficar parando, o tempo todo, para se dedicar a essas lições, por vezes, exigentes.

Andou sobre saltos firmes, com passos firmes de quem já sabe aonde vai. Usava saia na altura dos joelhos deixando-lhe à mostra as pernas bronzeadas. A gola da blusa preta contornava-lhe o pescoço até a altura do queixo tocando-o a cada movimento lateral que ela fazia com a cabeça, involuntariamente. Ou fazia-o voluntariamente para sentir a carícia da gola e sabê-la sua. O preto da blusa compunha um contraste com o colorido floral da saia estampada. Enquanto ela andava, já no piso superior, a seda do tecido fazia movimentos em contornos sinuosos formando um desenho ondular que tocava, levemente, uma e outra perna. Dobrou para a direita e entrou pela porta da livraria que dá acesso ao café. Dirigiu-se à moça do caixa e ao sorrir para a moça a moça perguntou:

— Pois não...O que vai ser hoje?
— Olá... - Disse num cumprimento alegre e acrescentou: — O de sempre, um café pequeno, com leite, e um pão de queijo. Obrigada.

Não sentia fome. Estava de certa forma, preenchida de algum tipo de alimento que ela não conseguia dizer o que era. Só sabia que estava satisfeita e por isso não precisava satisfazer esse tipo de necessidade. Mas o café com pão de queijo fazia parte daquele ritual.

Como a atendente não tinha troco para a quantia em dinheiro que lhe dera pagou com cartão e dirigiu-se a uma mesa. Não era sempre que encontrava mesas para ficar sozinha. Parece que lugares com gente desconhecida e se movimentando era um nicho para sua solidão – convenceu-se em seguida numa lição ligeira. Talvez por isso ela se refugiasse ali todas as vezes que queria ficar só ao passar por aquele lugar. Enquanto aguardava o pedido olhou por todo o ambiente como se estivesse procurando alguém ou alguma coisa que, de fato, não queria encontrar. Foi até uma das prateleiras que já conhecia e escolheu um livro. Em seguida voltou e sentou para esperar, sem pressa. Gosta de se sentir assim, livre para levantar, ir até a prateleira, escolher um livro e voltar. No seu ritmo. No seu tempo. Voltar e sentar.

(Uma pausa para dizer do seu jeito de sentar.)

O seu jeito de sentar expressa uma cadência que vem, como que, carregada de alguma intencionalidade. Antes de ocupar a cadeira por inteiro, cruza as pernas colocando a esquerda sobre a direita, suavemente, como se buscasse conforto, sem urgência, no primeiro movimento. Dobra o braço direito sobre a coxa esquerda a qual está sobre a direita e os dedos de ambas as mãos se entrelaçam segurando-se num encontro finalizador. Só então ela recosta-se com leveza de plumas para levantar a cabeça, altiva.

Naquele dia os cabelos estavam soltos e, no movimento jogou-os, levemente, para trás.

Do lugar que estava via as duas portas de entrada e toda a extensão do balcão da cafeteria. Observou que as demais mesas que compunham o ambiente estavam ocupadas apesar de haver poucas pessoas no interior da loja de livros. Dali estava exposta, de frente, mas não se importava em ser vista. Outrora isso a incomodaria, agora, se diverte porque lhe parece que tudo é muito simples. “Você não precisa mais se esconder” – releu daquele lugar, em algum outro lugar de um passado recente.

Sentia no corpo o conforto. Esperava sem pressa repousando naquela sensação de que as coisas estão nos lugares que devem estar. Em cada respiração profunda sentia expandir espaços de interioridade que possibilitavam essa visão crescente de si mesma, de um ser que nasce e vai ocupando superfícies de frescor e de fertilidade. Na maturidade, os brotos da juventude. Observar do lugar que está dá um sentido novo para coisas que ela gosta de guardar. Distraiu-se em pensamentos tecidos na presença desse estar assim. Tessitura só possível na solidão de quem se vê por dentro. No contraponto desses pensamentos, mas ainda se vendo por dentro, lembrou do filho que estava a caminho, apressado, em algum lugar por onde ela já passara. Saber que pode ver por cima do ombro, pontos de ultrapassagem. Doloridos pontos que exibem, ainda, pingos escurecidos de líquidos vertidos. Alguns doloridos pontos. Doce sabedoria dos que fizeram caminhos. Poder estar ali sentada. Saber que vai ser encontrada sem precisar sair do lugar. Não naquele momento.

— Aqui está... Bom apetite! - Era a moça com o café.
— Obrigada... - E pediu, sorrindo: — Açúcar mascavo, por favor?!

Tentou se concentrar na leitura do livro enquanto tomava o café e comia o pão de queijo, mas sem que pudesse ou quisesse impedir, deslizava, suavemente, para lugares ora próximos ora distantes. E ficou assim, indo, vindo e se demorando em movimentos de percursos que delicadamente seguravam a xícara, viravam a página do livro e vasculhavam dobras, cavidades, atalhos, numa varredura singular de quem decifra, docemente, cada um dos seus mistérios e segredos. Em busca de mais conforto e como se quisesse manter conexão com o mundo cruzava e descruzava as pernas em regularidades que só a intuição responde. O livro. O café. E tudo o mais. Nessa aderência de si mesma percebeu-se íntima da própria intimidade em movimentos que adquiriram a velocidade de um tempo lento, ofegante. Velocidade própria de urgências que não são urgentes. Acercou-se de si em meio a toda aquela gente sabendo que podia mergulhar, revirar tudo, fazer contornos e ninguém iria perceber. Desbravar espaços tão familiares e tão desconhecidos.

Sentia-se um pouco acima. Mais acima. Distante. “Isso é soberba!” Disse em viva voz o amigo tão presente, numa carinhosa e mesurada censura. Mas ela não deu bola para aquele comentário porque, vindo dele, chegava como um afago. E ela se entregou, sorrindo, para a querida lembrança...

— Podemos sentar aqui? - Levantou a cabeça. Era um casal que se aproximara.
— Sim... Claro! Por favor. É um prazer. - Disse com a expressão de quem, em viagem, acabara de chegar, em um lugar estranho.

Era um bonito e sorridente casal na faixa etária dos sessenta anos (supôs), desses que depois de longos percursos (supôs) se deleitam em perambulagens de quem tem o tempo a seu dispor (supôs). Ela parou para dar atenção ao casal, ou atenção a si mesma naquele desdobrar-se.

O tempo passou. O casal foi embora. O filho chegou e saíram abraçados na intimidade de quem cedeu às entranhas.
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O pequeno capitão

— Mãe, se eu fizer uma pergunta, você não fica triste, deprimida, nem com cara de preocupada?
— Não - respondeu a mulher, já acostumada com a abordagem do filho.
— Jura?
— Juro.
— Como se faz uma adoção?
Chegara o doloroso momento que ela vinha adiando e do qual não podia mais fugir. Tentou desconversar:
— De bebês?
— Não, mãe, de animais.
Ficou calada, esperando que ele desviasse a atenção para outro assunto. Sabia bem aonde a conversa ia levar. Ele lhe estendeu um papel:
— Está aqui o número do canil. Deu na televisão. Posso? Posso? Posso?
— Pode - ela concordou, refém da velha promessa e do olhar suplicante. Há algum tempo ele vinha pedindo um cachorro. Nas longas férias de janeiro, sentiu-se só e voltou a insistir no pedido.
— Tem certeza? Tem certeza de que tem certeza? Você está brava comigo? Não mesmo?
— Sim, sim, não, não.
Estava prestes a se iniciar a terceira experiência canina da pequena família. A primeira: Vivi, Yorkshire emotiva e carente, objeto de abaixo-assinado no prédio devido ao tumulto que provocava se deixada sozinha. Adotada pela babá, que ainda hoje traz notícias da cadelinha já anciã. A segunda: Jerry, salsicha tranqüilo e auto-suficiente, de pouco latido, mas que se ocupava roendo os móveis. Dado a um casal com crianças e rebatizado de Chicão. Situação atual ignorada. Com Skipper — nome já escolhido pelo filho — seria diferente, a mulher prometeu a si mesma.
Uma vez decidido o inevitável, convocou o ex-marido, entendedor de cachorros e outros bichos, para procurar um filhote. Pai e filho percorreram vários canis até encontrar um exemplar de raça exótica — Schipperke — e de linhagem nobre: herdeiro legítimo de Lady Sofie de Baktharan e Lorde Ivo de Baktharan. Por telefone, ela autorizou a compra. Custava uma pequena fortuna, mas tudo bem, desde que o menino ficasse feliz.
Chegou em casa à noite, curiosa para conhecer o filhote. Deparou com um cachorro preto, de pêlo brilhoso, parecido com um lobinho. Tinha uma aparência comum e na rua talvez fosse confundido com um vira-lata bem cuidado.
Ela esperava algo mais exótico, porém, não mostrou a decepção.
Na fonte das fontes descobriu que a raça era originária da Holanda, onde o nome significava “pequeno capitão”, e que esses cães serviam tradicionalmente de guarda nos barcos holandeses, nos quais ajudavam a capturar ratos. Não havia ratos no apartamento, mas, quem sabe, um dia, mãe e filho teriam um barco?
Esperançosos, compraram o Pipi Dog e o aspergiram num canto escondido para que Skipper fizesse ali suas necessidades. Adotaram a tática do rolo de jornal para corrigi-lo, especialmente quando se aproximava do novíssimo sofá branco.
Nos primeiros dias, o filhote dormiu muito e latiu pouco. Era de temperamento reservado, como o deles. Vivia no colo ou na cama do menino, até que as aulas recomeçaram e, com elas, outras distrações. Navegar no MSN era mais divertido que tomar conta de cachorro, e este foi deixado aos cuidados da mãe humana. Tudo bem, ela já se apegara ao lobinho.
À medida que se sentiu à vontade, Skipper começou a latir mais alto e com maior freqüência. Só dormia embaixo da cama da mãe, tomou gosto pelo passeio matinal e o exigia assim que acordava, por volta de 5 horas da madrugada, com o latido firme e o olhar decidido. Ela precisava mesmo se exercitar e o sol da manhã era ótimo para prevenir a osteoporose.
Passaram-se três meses. Apesar do esforço inicial, nenhuma das medidas educativas funcionou. O cão escolheu seus próprios locais para as necessidades n° 1 e n° 2, respectivamente, o ponto central da sala e a porta de entrada. A casa, as roupas, a alma cheiravam a cachorro.
Chegam as férias de julho. Skipper já fez o passeio matinal e agora corre no jardim. Na noite anterior capturou o primeiro rato. O casal idoso do Park Way que adotou o maldito cachorro o observa com orgulho.
Enquanto o pequeno capitão navega outros mares, a mulher acorda devagar no apartamento, espreguiça-se e espera o café da manhã que a secretária lhe traz na cama, pontualmente, às 8h20min. Sorri, satisfeita: a vida voltou ao normal, foi-se o cheiro, o latido, o cachorro.
O rosto do menino aparece à porta:
— Mãe, se eu fizer uma pergunta...
— ...
— Por que todos os brinquedos maneiros são importados?
Ela saboreia o café, aliviada, antes de convocar o ex-marido para levar o filho à Feira do Paraguai.
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quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Enamoramento 1


Maria Amélia Costa


Olha-o por trás. Sentada ao lado dele fez com o olhar um contorno impossível. Ela gosta de olhar por trás, comedida em feições que se expressam na clandestinidade de quem acredita que pode ver além. Não ser vista e assim cercar o ser amado com cercanias quadradas, redondas, perpendiculares, transversais. Trazer fiozinhos sutis e delicados das entranhas da terra para o atravessarem, o fixarem e o aprisionarem no tempo que é só dela. No tempo que é dela quer, também, vê-lo pelo lado do lado dele: nem à frente, nem atrás, nem de cima. De cima, talvez. Contudo, de lado. Mas, não quer ser vista. Nessa condição clandestina o olhar o atravessa na pretensão de luz que tudo ilumina, decifra, expõe, constrange. Ele está distraído com alguma coisa, tocando alguma coisa ou, simplesmente, olhando em frente enquanto fala com ela. Mas ela não quer falar. Talvez até queira. Talvez até fale uma banalidade qualquer. Mas, definitivamente, não é falar o que ela quer. Não naquela hora. Naquela hora o que ela quer é olhar para ele e se concentrar nesse encantamento, com a intensidade de uma posse solitária. Aquele tempo era só dela por isso precisava se entregar e fazer tudo por inteiro. Pára de respirar por um instante, naquele instante que ela insiste na imobilidade do tempo. Fixa o olhar carregado de alma em algum ponto dele. O ponto adquire dimensões grandiosas porque está emoldurado em um retângulo que contorna o infinito, para abrigá-lo.

Há, também, uma criança de cabelos lisos que se mexem porque ela se mexe em movimentos naturais de criança, subindo e descendo por degraus de um lugar rústico. Ela, a criança, está fora do quadro, do tempo, do espaço. A criança se move.

Mas ela... Ela não podia se dispersar em movimentos. Poderia dizer-se que precisa renovar os esforços de atenção para não sair daquele contorno que ela elegeu e o colocou no centro. Mas não vai dizer isso porque ela traz a alma no olhar e assim está inteira naquele gesto que não quer chamar de gesto porque esta é uma palavra insignificante demais para representar o conjunto daquele instante. O cabelo dele estava com os fios sobrepostos em pontos irregulares formando uma superfície uniforme. Quis tocar um a um aqueles fios e se demorar muito nisso, na imobilidade intensa de quem toma para si, em posse, a finitude e infinitude de arranjos assim. Tomar para si um si que é só seu. O cabelo contornava e ela foi deslizando o olhar acompanhando aquele contorno que marcava a testa, a orelha, a nuca. Marcava o ser. Quis acariciar, mas ela não podia fazer isso porque estava sem respirar na intensidade da entrega. Na imobilidade da posse. Ela o amava e o olhava de lado. Na clandestinidade. Na clandestinidade podia fazer qualquer coisa e nessa liberdade o possuir por inteiro aprisionando-o naqueles contornos que ela mesma desenhou. Mas não eram os contornos que davam o sentido para aquele momento de êxtase que ela insistia em não dividir.

Assim, na liberdade, ela o fez levantar-se e sair.
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Barriguda

— Quantos meses?
— Que barriga linda!
— Já sabe o sexo?
Por onde eu andava, recebia olhares e perguntas gentis. Nas filas do banco, o guarda ou gerente vinham me lembrar do atendimento preferencial às gestantes. Jovens e idosos se levantavam para me ceder o lugar. Mulheres me olhavam com inveja. Uma senhora de cabelos brancos no parque pediu permissão para tocar meu ventre e se emocionou ao ouvir um coração batendo. Uma colega disse que minha pele estava linda; outra previu que seria menino, pelo formato pontudo da barriga.
Durante meses fui alvo de incontáveis delicadezas. Só havia um problema: eu não estava grávida. Na verdade, eu tomava um remédio que dilatava o abdômen e causava a protuberância. Quando surgiram as primeiras perguntas, eu tentava explicar a situação. Depois me cansei e resumia a resposta a “não estou grávida”. Em seguida, adotei o comportamento passivo-agressivo:
— Onze meses.
— A sua também.
— É gay.
Encolhia a barriga e prendia a respiração sempre que me aproximava de uma pessoa ou entrava num ambiente. Pensei em colocar um anúncio no mural: “Não estou grávida”.
— E aí, barrigudinha, vai um pão-de-queijo? - Perguntava todo dia a moça do lanche.
— Temos vestidinhos lindos para gestante - me ofereceu a vendedora de uma loja infantil onde entrei para comprar um presente de aniversário. Passei a odiar a palavra “gestante”.
Uma barriguda desperta enorme atenção aonde quer que vá. Talvez a espécie humana reconheça ali o triunfo da sobrevivência. Talvez a memória da vida uterina seja reativada. Talvez as pessoas devessem cuidar de suas vidas em vez de encher o saco.
Seguindo o conselho de um amigo, comecei a recitar a Oração da Serenidade diariamente e superei o comportamento passivo-agressivo. Respirava fundo e triunfava sobre meus instintos mais primitivos toda vez que precisava dizer: “não estou grávida” — certo dia, contei cinqüenta vezes.
Finalmente, terminei o tratamento e deixei de tomar o remédio. Aos poucos, o barrigão voltou ao normal e não mais suscitava perguntas embaraçosas.
Passado algum tempo, uma colega novata pediu que eu participasse de uma pesquisa de ergonomia do curso de pós-graduação na UnB. Concordei, solícita, e ouvi a primeira pergunta:
—Você considera que a perda do seu bebê se deveu às más condições no ambiente de trabalho?
( ) Sim ( ) Não Justifique: ____________________________________
Respirei profundamente antes de responder:
— Barriguda é a puta que te pariu!
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sábado, 10 de novembro de 2007

Pessoas que nos atravessam

Maria Amélia Costa




Eu o encontrei.

Entrei na livraria fazendo uma daquelas coisas que se faz por hábito, como esse que tenho de pesquisar em livrarias cada vez que vou a um shopping center.

Um pouco melancólica e entregue ao acaso não coloquei atenção nas pessoas que se movimentavam no interior da loja. Estava distraída quando fui surpreendida por um “oi” vindo ao meu encontro. Virei. Era ele. Abraçamos-nos e nos dissemos alguma coisa, ao mesmo tempo, numa surpresa única.
Não consigo imaginar a expressão do meu corpo naquela hora. O que disseram os meus olhos ou a minha boca trêmula. Ele estava ali, na minha frente, como um milagre.



Tantas vezes conversei contigo nos tempos de ausência. Disse tantas coisas!
Compartilhei momentos. Contei histórias e feitos meus. Falei da falta que sinto
das vezes que sorrimos juntos por coisas banais. Falta dos cuidados teus. Que
por vezes me vejo em atitudes tolas, iluminando pequenas coisas que vieram de
ti. Emoldurando. Ilustrando. Colocando sentido. Fazendo história. Contigo ao meu
lado, por noites sem fim, chorei e disse da saudade que sinto.



Agora ele estava ali, na minha frente. Sorrindo. Amoroso. E eu não sabia o que fazer. Não sabia o que dizer. Paralisada, reparei na camisa listrada que conhecera outrora, no cabelo de fios levemente dourados e no sorriso. Dei-me conta, mais uma vez, de que ninguém sorri como ele! Sei que fiquei olhando, sem vida, porque tudo parou em mim. Tentei disfarçar. Girei em torno daquela emoção que tomou conta de tudo o que estava em volta e me deixava mole, lerda, inerte.

Quis desaparecer e parar o presente a um só tempo. Aprisionar o universo para que nada se movesse e tudo se aquietasse na eternidade daquele momento.
Meu Deus, como quis que o tempo parasse... Eternizar o instante e nele fazer tudo o que sonhei fazer, dizer tudo o que desejei dizer. Tocar e sabê-lo quente.

Segurava um livro em uma das mãos. Explicou que era para a filha que se formara em Arquitetura e que estava esperando no carro estacionado em fila dupla lá fora e que por isso, lamentava muito, mas tinha que ir.
Uma angústia singular e a sensação de impotência amoleceram os meus ossos.
Disse uma despedida e novamente me abraçou.
Fiquei ali. Esvaziada, abatida, sem forças sequer para olhar e vê-lo se afastar, sair pela porta de vidro e se
perder.
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Deu zebra


Tarde de sábado, 30 graus, umidade a 20%. Mãe e filho vão ao cinema no Pátio Brasil. Escolhem um filme sobre uma zebra que, abandonada ainda filhote pelo zoológico, é encontrada por um fazendeiro e cresce ao lado de cavalos puro-sangue, pensando ser um deles. Stripes, como passa a ser chamada, é motivo de chacota de animais e homens, mas não desiste do sonho de vencer a corrida mais importante da região.
O menino corre para pegar a almofada infantil. Na fileira de trás, uma velhinha corcunda e cheirosa também foi colocada numa almofada e balança os pés, satisfeita, enquanto se delicia com um saco de pipoca. Durante o filme, será a vez de chupar balinhas, com um ruidoso movimento de sucção que se contrapõe à trilha sonora.
Enquanto o filho se diverte com a estória, a mãe volta no tempo e constata, com alguma tristeza, que, ao contrário de Stripes, sempre se sentiu zebra, e que para isso contou com a ajuda de muitos que não lhe perdoavam a estranhez nem a superioridade.
Na infância, Magrela, Palito, Esqueleto.
- Quantos ossos tem um esqueleto? - Perguntava-lhe a tia infeliz na frente de todos, para humilhá-la. As aulas de Educação Física eram um suplício. Além de não conseguir dar as cambalhotas obrigatórias, os cambitos pareciam esticar ainda mais no short de elástico. As meninas riam, em vingança contra o desempenho excelente nas outras matérias.
Na adolescência, Eucalipto, Seriema, Espigão.
- Vai, Espigão! - gritava a torcida de handebol, quando ela partia para o ataque. Era o nome de uma novela de sucesso à época, e foi também o apelido dado por um rapaz de 1 metro e meio que a perseguia no ginásio.
Depois dos 20, foi enchendo de corpo, até ostentar, com orgulho, a fama de “falsa magra”. Abusava das saias curtas, conquistou inúmeros namorados, era invejada por outras mulheres. Achou que duraria para sempre.
Estava redondamente enganada: na gravidez, ganhou 20 quilos que nunca mais perdeu.
- Você tinha um corpo tão bonito! - comentavam as colegas, com indisfarçado prazer.
O sobrepeso a deprimia, assim como a extrema magreza na juventude. Aos 40 anos, simpática e roliça, sentia-se tão desajeitada quanto a menina esquelética no grupo escolar.
Sua mente se volta para o filme. Chegou o grande dia: Stripes está em último lugar, mas vai ultrapassando um a um os puros-sangues. As crianças batem os pés e a velhinha, palmas — as balinhas acabaram, e agora ela tem as mãos livres. A mãe se junta à torcida pela zebra, que, no último minuto, vence a corrida.
As luzes se acendem. Mãe e filho agora se acomodam no McDonald’s. Ela vê sua imagem multiplicada nos espelhos do shopping e, no instante silencioso e súbito, compreende: sente-se zebra porque nunca se soube puro-sangue. Ainda é tempo: enquanto pede 2 Mclanches Felizes, cheeseburger sem picles e Coca-Cola, olha timidamente para si mesma e recebe de volta uma multidão de sorrisos encantadores.
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sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Uma pessoa em busca de palavras



Maria Amélia Costa












Ela gosta de livrarias, principalmente aquelas que têm, anexo, um café. Gosta de ficar ali para folhear, apalpar, procurar, sentir. Sentir cheiro de livro tomando café. Foi em uma livraria que encontrou a professora e escritora da qual ela prefere não dizer o nome, agora.

Conversa vai, conversa vem foi feito o convite para conhecer uma oficina de literatura. Levou o convite nas páginas de um livro de crônicas que acabara de ser autografado. Naquele momento o convite já estava aceito.

Depois da decisão veio a dúvida. Será que deveria ir? Pesquisou pelas páginas da internet - nessa bisbilhotice tão, aparentemente, fácil nos dias atuais. Da pesquisa ficou a impressão de que se tratava de um grupo muito específico de funcionários da Câmara dos Deputados. Deve ser um monte de gente metida a besta, pensou. Mas, sem que falasse nada, o convite foi reforçado e então resolveu ir e ver o que acontece.

No calor de quase meio dia de um dia quente de início de primavera no ano 2007, foi. Deu várias voltas à procura de uma vaga no estacionamento público e quando já pensava em desistir, encontrou um cantinho para deixar o carro. Agora não havia mais desculpas. Subiu para o oitavo andar e pelo caminho ia pedindo informações sobre a sala tal em frente à sala tal onde o grupo estaria reunido.

Abriu a porta devagar, entrou e sentou em uma cadeira posicionada próximo a porta. Cautelosa, não queria incomodar e se manteve ali, observando. Durante os primeiros momentos só queria ficar assim, compondo o sentido de estar ali. Percebeu-se acolhida e se entregou para aquela possibilidade. Atenta e curiosa deixou que cada poro seu se abrisse para entrar aquela sensação boa de alimentar-se com a arte em forma de poesia e de música. De música e de poesia.

Mas havia, também, alimento em forma de comida. Ofereceram-lhe, mas ela, tímida, não aceitou. Não aceitou porque achou que seria abusado chegar assim na hora do almoço e almoçar. Ao mesmo tempo se deu conta da indelicadeza. O cheiro bom que fazia voltas em seu torno lhe dizia que não deveria ter recusado. Por vezes, enquanto cantavam, liam poesia e comiam, ela sentiu um misto de prazer e fisgadas de arrependimento. Nas horas seguintes daquele dia não conseguiu esquecer o cheiro da refeição e meditou: a poesia, a música, o encontro, tudo isso poderia experimentar em outros momentos, mas a comida... E isso lhe enchia a boca de frustração úmida. Ela ainda não sabe direito porque coisas assim causam efeitos assim – duradouros.

Diante do pequeno grupo, no interior das indagações que fazia, ela se perguntou: Por que, nesse lugar, com tantas pessoas em salas fechadas se fecham para encontros assim? Era uma pergunta de criança, ela sabia.

Nesse dia, saiu com a certeza de que voltaria. E voltou.

Chegou mais cedo para o segundo encontro. Percebeu que o grupo havia aumentado com a presença de outras pessoas. A primeira coisa que pensou foi se não estaria sobrando na sua estrangeirice inusitada.

Sentou, cruzou as pernas e ocupou o espaço porque queria que o espaço, também, se sentisse ocupado por ela, num momento de verdadeira comunhão. Depois de um tempo se deu conta do próprio silêncio e que a sua presença, feita de um corpo atento e miúdo, poderia causar estranhamentos. Nesse estado disse para si mesma que precisava falar, dizer alguma coisa, uma bobagem que fosse. E continuou calada. Melhor que dizer besteira. Convenceu-se num monólogo de si para si.

No espaço aéreo da pequena sala as vozes, os risos, os feitos, os escritos, e os silêncios de suspiros profundos se entrelaçavam tecendo uma trama densa, quase visível. Ela apreciava, num tipo de paquera, como se não conseguisse ultrapassar a soleira de entrada. Não sabia, ao certo, se estava dentro ou se estava fora.

Nesse dia ninguém cantou ninguém comeu. Houve no que lhe pareceu, uma saciedade absoluta causada pelo tão presente Manuel Bandeira que veio como presente numa bandeja cheinha de poesia. De história, também. E ninguém, tendo aguçado os seus cinco ou seis sentidos, precisava de mais nada.

Foi embora prometendo que voltaria e se apresentaria dizendo: esta sou eu. E deixaria que o tempo cuidasse do resto. Mas aí aconteceu de alguém querer perguntar: Quem é você? E ela respondeu: Uma pessoa em busca de palavras.











Viver de palavras tem sido o meu ofício.
Sou professora com formação em Pedagogia, especialização em Filosofia e mestrado em Educação. Trabalhei com crianças por alguns anos, mas é atuando em magistério superior com formação de professores/as que experimento estimulantes desafios.
Nasci no Maranhão, mas desde meados da década de sessenta que Brasília é a minha morada. Foi aqui que nasceram os meus dois filhos.
Aprecio muito a cidade, notadamente, quando as tardes de agosto pintam o céu com nuances avermelhadas e quando ela se veste com o colorido da primavera.
Gosto de leitura, de música, de dança; de silêncio e contemplação, ar puro, amigos. Gosto do verde no meu quintal; do cheiro de terra molhada; de ver a chuva caindo.
Identifico-me com a simplicidade e com a complexidade que há em tudo.Gosto, também, de um casal de jandaias barulhentas que faz amor sob o telhado da minha casa.

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quinta-feira, 25 de outubro de 2007

A visita


Não vejo o Sr. José Maria há alguns dias e não consigo esquecê-lo. Em algum ponto do trajeto entre casa e trabalho, certamente à vista de algum ipê amarelo úmido de chuva, os desejos do meu taxista de confiança se misturaram aos meus.
Decido visitá-lo à noite no ponto-casa. Encontro-o sentado num banco de madeira, assistindo à TV. Ele se espanta com meu vulto vermelho emergindo do escuro — estou de vestido vermelho, salto alto, brincos de argola e pulseira. Ele está à vontade, de chinelos. Não sei qual de nós está mais surpreso com a improvável visita.
Ele se levanta para me cumprimentar e pela primeira vez o vejo de pé. Meu amigo é de uma feiúra cativante: magro, um pouco mais baixo que eu, rosto pequeno, olhos pretos minúsculos, nariz grande, orelhas enormes. As mãos rústicas e miúdas parecem gravetos. Os dentes que não perdeu estão escurecidos.
Ele me indica o banco, pega uma cadeira e começamos a conversar. Observo à minha volta: os sapatos debaixo do banco, algumas camisas em cabides pendurados numa corda, o colchão enrolado numa cama improvisada. Uma televisão e uma cômoda velhas. Tento justificar minha presença no ponto de táxi malcuidado: vou comprar uma torta de frango na Torteria di Lorenza, ali do lado, estacionei dentro da quadra porque na comercial não tinha vaga, avistei seu carro e resolvi dar um “alô”.
Entrego-lhe a última crônica que escrevi baseada em seus relatos, ele a guarda junto às outras numa pasta para ler depois. Fico sabendo que já foi personagem de outro cronista, um cliente admirador que teve o texto publicado no Correio. Na parede ainda há a marca do durex que segurava o recorte de jornal, que lhe trouxe fama durante algum tempo e causou muita inveja entre os colegas. A irmã tem a matéria, e ele vai me trazer uma cópia.
O celular toca ao som da marcha nupcial. Ele responde que já vai, mas se senta novamente e retomamos a prosa. De repente, estamos na varanda da sua casa no sítio. É fim de tarde. A velha empregada passa o café cheiroso em coador de pano e o serve em copinhos de alumínio esmaltados. Saboreamos o café enquanto ouvimos a chuva no telhado e o grito das araras nas mangueiras carregadas de frutos.
Ele me conta que o dentista o está enrolando no tratamento. Eu lhe confidencio que estou trocando de carro e vou fazer uma surpresa ao meu filho. Trocamos detalhes sobre os dois assuntos, inventamos outros. Ele me convida para o churrasco de inauguração do sítio, ainda sem data marcada — antes é preciso construir a casa e comprar o boi; eu o chamo para um cafezinho em meu apartamento.
Os cabides balançam na corda como galhos ao vento. Estamos agora debaixo de um carvalho antiqüíssimo iluminado por vaga-lumes. O Sr. José Maria é o duende-chefe da floresta nevoenta. Tem uma barba comprida, usa um gorro verde e fuma cachimbo enquanto me conta os segredos de todas as criaturas. Promete me transformar numa fada se eu me casar com ele.
De novo a marcha nupcial. A cliente está aflita pelo táxi, ele diz, sem entrar em detalhes. Talvez vá seguir o marido, talvez vá procurar companhia para a noite ou, simplesmente, precise ir para casa. O Sr. José Maria se torna sério, diferente do motorista tagarela que me conduziu por uma semana e coloriu minha rotina nos primeiros dias de primavera.
É hora de nos despedirmos. Tenho vontade de envolvê-lo num abraço quente e apertado, mas me limito a dar-lhe boa noite. Sinto-me absurdamente feliz pela invasão nos seus domínios e anseio a próxima visita para roubar sem piedade os tesouros ocultos na boca sem dentes.
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terça-feira, 9 de outubro de 2007

Dente de Coelho









— Quando a senhora se sentir apta a tratar os dentes, me procure. - O endodontista bateu o telefone. Por que estava com raiva? Ela só desmarcara três consultas, e por um bom motivo: estava no auge da TPM. Enfrentar o motorzinho nessas condições seria tortura. Magoada, não o procurou novamente.
Próximo na lista: Dr. Teógino, cirurgião-dentista indicado por uma amiga, que abrira bem a boca para lhe mostrar o trabalho que ele fizera. Parecia bom. Marcou e foi.
— Tenho um medo de dentista! - Ela disse, tentando sorrir. Sempre os alertava.
O Dr. Teógino pareceu não ouvir:
— Seus dentes estão péssimos! Preciso refazer tudo - Ele já calculava, mentalmente, quanto poderia cobrar. Estava num aperto danado.
Sentiu pena dele: era quase um anão, a voz desproporcionalmente grossa. Tinha barba de bode. Deixara aberto na mesa um antigo livro ilustrado de dentística para impressioná-la.
— Então, está disposta? - indagou, esperançoso. Precisava retomar a clientela, pois abandonara a profissão por vários meses, depois de ser traído pela esposa com o protético. A mulher lhe arrancara a casa, os bens e os filhos. Ele decidira se aventurar no comércio, mas não levava jeito. Trocara o empreendimento falido por um lote num condomínio distante, onde reconstruía a vida com a segunda esposa, bem mais jovem, e o filho que acabara de nascer.
Ele repetiu a pergunta. Cansada de peregrinar por tantos consultórios, ela resolveu apostar na indicação da amiga. Deixou as radiografias e marcou a primeira consulta. Ele lhe pediu uns cheques adiantados, para trocar no factoring.
Por medida de economia, o Dr. Teógino aproveitava a nova esposa como assistente. Só havia um problema: ela não suportava ver sangue. Por isso, segurava com força o sugador e fechava bem os olhos. Não tinha paciência para ficar sentada muito tempo e, sempre que podia, dava uma desculpa para ir conversar com as moças da portaria: — Vou lá embaixo buscar os moldes, meu bem. Volto já. - Ele continuava o trabalho sozinho, resmungando.
— Não dou sorte mesmo!
Enquanto esperava secar a resina, olhava pela janela e contava sua infância triste no interior. Muito pobre, se formara com sacrifício e guardava grandes mágoas daquele tempo. Ele se emocionava, os olhos ficavam úmidos.
— Aquelas ladeiras! Tem coisa que a gente nunca esquece... - Ela concordava, balançando a cabeça.
Nas primeiras consultas, tudo transcorreu bem, apesar do nervosismo dos três. Ela saía aliviada, pensando que agora fizera a escolha certa.
Na quarta vez, o Dr. Teógino chegou abatido: passara a noite em claro, com a espingarda em punho, à espreita de um mucura que atacava seu galinheiro em busca de ovos. Não conseguira pegar o bicho. A esposa também não dormira bem. Estavam atrasados e se ajeitaram às pressas para o atendimento.
Anestesia aplicada, sugador posicionado com firmeza, motorzinho à máxima potência, ele se lembrou, com raiva, do mucura e dos tempos de menino. Distraiu-se por um momento com suas recordações, esqueceu o que estava fazendo e deixou escorregar a broca. Seus óculos se cobriram de vermelho.
Ela gritou, assustada: o aparelho lhe fizera um corte profundo na língua. A assistente saiu correndo da sala, enquanto o dentista, tentando manter a calma, lhe enchia a boca de gaze para estancar o sangue.
— Não se preocupe, isso acontece. Esta região é muito rica em vasos. - Com três pontos na boca, ela ficou dias sem poder falar nem comer direito. Não voltou mais, apesar da insistência dele, e sustou os cheques.
Depois de algumas semanas, deparou com um anúncio: Dra. Clélia, especialista em dentística e hipnodontia — pesquisou esta palavra na Internet e ficou animada com o que descobriu. Quem sabe era melhor procurar uma mulher? A mão, pelo menos, seria mais leve, e o tratamento sob hipnose, certamente, mais fácil. Imaginou-se flutuando, inconsciente, sem medo nem dor, enquanto uma mão delicada e maternal cuidava de seus dentes. Acordaria de um sono repousante e não se lembraria de nada.
Simpatizaram-se de imediato. Depois de uma sessão de relaxamento na poltrona magnética e de uma deliciosa massagem nos músculos faciais, abriu a boca, confiante. Há muito tempo não se sentia tão bem. Ao fundo, a música tranqüila da Enya, combinada com uma essência calmante de flor de laranjeira. Dormiu profundamente, sonhou que era criança e que brincava de roda no sol morno do fim de tarde.
— Pode acordar agora, querida! - Uma voz suave a chamava, de longe. Ela despertou aos poucos, espreguiçou-se e pegou o espelho que a Dra. Clélia lhe dava, sorrindo. — Veja como ficou bonito!
Ela olhou, curiosa, e sentiu um arrepio de horror: no lugar dos incisivos, estavam implantados dois enormes dentes de coelho.
— Feliz Páscoa! - gritou a hipnodontista, às gargalhadas. Ela achou graça e começou a rir também. As duas se deram as mãos e giraram pela sala, cada vez mais rápido, rindo e cantando alto, até que ela acordou, desta vez de verdade.
De manhã consultaria novamente a lista.
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Poema em flor maior

Anabe Lopes


O amarelo do ipê sobre o chão vermelho do cerrado
Prenuncia o fim da aridez na alma da cidade
Enfim, hão de vir as primeiras chuvas...
Águas coloridas e perfumadas de primavera
Reverdecerão os gramados do plano alto de Brasília

Caem as últimas flores do ipê,
Cessam os ventos e os dias são mais quentes,
Adormeço a espera da primavera que virá...
Sonho a umidade do beijo da chuva...
Rociando humanidades em gotas pelo ar.

Vivas flores de vivas cores de manhãs de primavera
Correm vera no meu sangue.
O cheiro da terra molhada, e o sol nascente
Faz germinar a poesia e a semente
E revela a beleza da espera

Delonix regia, vem re-velar o mistério inexplorado,
Escondido nas entrequadras dos nossos desejos.
Em cada flor revela e oculta um beijo...
E há tantas flores...

Incandescentes olores
Ainda flamejam nos olhares...
A divina flor do paraíso!
Dá a cor e tira o siso.

Flamejante volto à infância, onde flamejam as últimas flores da estação...
Espadas pendem dos galhos e flores forram o chão
Em guarda, a criança luta contra a força da suavidade da beleza da flor vermelha encantada,
Delonix regia, é preciso seguir a estrada...
ficar parada a olhar as flores...
As flores caem e a vida segue...

Entre flores, amores e dores...
janeiro virá.

Todos os meus sentidos, sentidos, habitam entre flores
Almas flutuantes na copa de amores do velho flamboyant...

– Hei de amar pra sempre a flor de Madagascar.

Mas ainda sonho a primavera...
As flores ensaiam perfume e cores
Os pássaros realizam seus amores
E fazem a harmonia do jardim de Alá.
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sábado, 29 de setembro de 2007

Bandeira 2








Acordo sentindo uma leve tristeza na manhã de sábado. Cai uma chuva fina desde a noite passada.
Finalmente vou buscar meu carro na oficina. A revisão demorou mais que o esperado, e por isso andei de táxi uma semana. Chamo o Sr. José Maria para nossa última corrida, já com saudade das suas histórias.
Ele quase não dormiu. Está com os olhos vermelhos e a barba por fazer, mas ganhou um bom dinheiro com as chamadas noturnas:
21 horas. Jorge contrata uma garota na 314 e a leva até o Colorado. As preliminares têm início já no carro e se prolongam no estacionamento do motel, enquanto o casal aguarda uma vaga.
21h40min. Selma segue o marido até uma boate no Conic. Há muito tempo ele não a procura. Está desconfiada de que tem outra mulher.
22 horas. Mel vai comemorar 45 anos com amigas no Gilberto Salomão. Seu pedido secreto de aniversário é encontrar um homem bonito e carinhoso com quem passar a noite.
23 horas. Bernardo, viúvo há um ano, vai até o Alpino’s, no Parque da Cidade, tomar um chope e procurar companhia. Pode ser feia, mas tem que ser alegre.
23h30min. Rosilene termina o trabalho no banco. São apenas 2 quadras até a quitinete onde mora, mas a esta hora ela não se arrisca a ir a pé. Como faz toda noite, o amigo taxista espera embaixo do bloco até que ela suba em segurança.
1 hora. Selma flagra o marido com um travesti, sente-se mal e precisa ser levada ao HRAN. O Sr. José Maria acompanha o atendimento no hospital, certifica-se de que ela está bem e informa a família sobre o ocorrido.
3 horas. Mel encontrou um belo rapaz de 20 anos e o traz para casa. No trajeto, os dois homens conversam sobre futebol.
4 horas. Bernardo despede-se das novas amigas, que o colocam no táxi. O porteiro ajuda a levá-lo até o apartamento. Pagará a corrida no dia seguinte, como de costume.
6 horas. Jorge acerta a conta do motel e dá à garota 70 reais pelo programa. O táxi os espera no portão. O casal se aconchega e cochila no banco de trás.
O Sr. José Maria retorna à casa-ponto. Faz café, fecha os olhos por alguns minutos e sonha com sua plantação de milho molhada pela chuva fina. Adormece sentindo uma leve tristeza na manhã de sábado.
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sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Linguagem

Anabe Lopes









Busco nos recônditos da lembrança
a linguagem da plebe em que fui formada
e linguagem do amor e da dor em que fui gerada

Sorverei o perfume dessa flor teimosa
Que vomitará o tédio,
Sobre o negro asfalto,
De piche, de pedra e de sangue


Ela expressará o sentido da seiva
corrente nas artérias
do homem morto sob o asfalto
que fará nascer uma esperança amarela
De um futuro negro,
E haverá mais flores rompendo o nojo
Teimosas e amarelas flores
Amarela esperança.

Decifrará dor de que somos feitos
Desfará o nó de existir

Despencará no mundo escurecido
Iluminado canto alegre
de pássaros teimosos
ao nascer de um dia
teimoso e ensolarado
que vencerá a poluição
e simplesmente

brilhará!!
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domingo, 23 de setembro de 2007

Cala a boca, cachorro!

Acabamos de nos mudar para o apto. 105. Quem mais sente a mudança é nossa cadelinha Vivi, que, acostumada a ficar solta na chácara durante quase cinco anos, agora está confinada.
No primeiro dia, nervosa, faz o n° 1 no elevador, por azar, no momento em que o vizinho do 106 desce, descalço, para pegar o jornal. Ele pisa na poça, percebe o que é e vai direto reclamar à síndica.
Recebo a primeira notificação do condomínio, lembrando os cuidados necessários com os animais. Curiosamente, o cachorro da síndica, seu amigo inseparável, tem livre trânsito no prédio. Engulo a advertência.
Vivi está mais calma. Uma manhã, porém, não se segura a caminho do parque e faz o n° 2 ali mesmo na escada — a empregada tinha sido instruída a não mais usar o elevador. O vizinho também não o usa mais e sai nesse instante para o trabalho. Desce, apressado, e resmunga quando um chiclete parece pregar no sapato. Chegando à garagem, olha melhor e dá um grito ouvido em toda a vizinhança. Segunda notificação, ameaçando o descumpridor das regras com multas.
Passam-se algumas semanas. No domingo, eu mesma levo Vivi para passear. Ponho sua coleira. Saímos. A luz do corredor está queimada, e levo um minuto para encontrar a chave. Uma porta se abre, de repente, um vulto aparece na escuridão e ela avança nele, para me proteger. O vizinho do 106 vai à lixeira, solta um urro e volta correndo para o apartamento. Desta vez, a carta do condomínio cita artigos do Código Penal.
Três meses sem incidentes. É sábado. Vou passar a noite fora e não posso levar Vivi. Arrumo sua caminha, ponho ao lado água, comida, brinquedos e saio, tranqüila. No dia seguinte, o porteiro me informa que ninguém dormiu no prédio porque ela uivou e arranhou a porta a noite toda. O vizinho do lado também passou a noite gritando com ela para que calasse a boca, sem sucesso. Começo a pensar em levá-la de volta, mas seu olhar meigo me comove. Resolvo não deixá-la mais sozinha.
Alguém bate à minha porta. É ele.
— A senhora sabe o que aconteceu? Por que não opera as cordas vocais dela? Eu não agüento mais! - E desabafa: no apartamento de cima, dois cachorros latem sem parar e não o deixam dormir; agora que Vivi mora ao lado, ele olha duas vezes antes de pisar no corredor; em frente, um Rotweiller enorme e feroz rosna sempre que o vê.
Eu lhe respondo que não maltrato animais e sugiro que vá morar numa casa ou num local mais distante. Ele se sente indignado, e avisa que fará abaixo-assinado para expulsar Vivi. Escrevo carta de desabafo ao Correio Braziliense, que é publicada sob o título Preconceito. Muitos leitores se solidarizam comigo. Um deles sugere uma campanha: Salvem Vivi! O caso gera polêmica e, depois, cai no esquecimento.
Faz um ano que moramos no apto. 105. O abaixo-assinado obteve poucas assinaturas e foi arquivado. Vivi andava triste e está de novo na chácara, onde corre atrás de passarinhos, borboletas e outros bichos sem incomodar ninguém. O vizinho do 106 se mudou. Os cachorros continuam latindo.


(Vivi morreu no mês passado. Que esteja em paz no céu dos cachorros!)
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sábado, 22 de setembro de 2007

Canção de amor


Anabe Lopes






Te encontro no beijo do vento,
um sopro no tempo.

Nos olhos da lua te vejo,
a todo momento.

Almas de flores flutuam,
no céu de um abraço.

No abraço um beijo de vida,
remanso, riacho.

Mágica essência da terra,
desliza o momento.

A voz suave da chuva,
sussurra o teu beijo.

Olho no céu um lampejo,
no azul horizonte

Da água que escorre em meu corpo,
renasce um desejo.

Da espuma das ondas do mar,
divino carinho.

Ao som dessas águas azuis,
grito seu nome.

E o mar te entrega um segredo,
na areia da praia.

E na eternidade das ondas,
eu posso te ter.
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sábado, 15 de setembro de 2007

O eqüino estrangeiro

Leonardo Oliveira







O eqüino estrangeiro, despedaçado pelo seu passado, avistava o horizonte, deslumbrado, quando chegou à fazenda. Receoso, logo avistou uma criança no alpendre da enorme casa. Foi quando os olhares se entrelaçaram.
Por trás do sorriso sutil e dos olhos famintos, a criança escondia um amor puro e colorido, como as violetas e margaridas sorridentes em sua janela. Não havia brutalidade ou manchas de uma vida desgastada. Era puro.
O olhar da criança confortou o eqüino.
Aos poucos, ele foi juntando seus remendos e renasceu pelas mãos da criança que, todas as manhãs, acordava para contemplá-lo do alpendre de sua casa.
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sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Silêncio



Anabe Lopes










E de repente acordei
E tudo era silêncio
Um silêncio que cortava o corpo do sonho ao meio
Uma enorme cachoeira silenciosa
Os pássaros ensaiavam os sons
e produziam só o silêncio
e o silêncio reproduzia um grito de dor
As crianças vinham a mim sorrindo
e suas palavras silenciosas
calavam mais a minha alma
que vertia lágrimas silenciosas
E a nossa música passou a ser o silêncio...






Tenho (?) 41 anos e 4 filhos. O tempo que tenho é o que virá, se vier,e passará, porque quando paramos para pensar o agora ele já é passado. Os filhos são do mundo e os consagro a Deus, e que sejam atores e construtores da vida e da fé. A poesia é minha forma de provar intensamente a vida, de vivenciar a sensação de habitar o espaço entre o ser o não ser, o crer e o não crer, o viver o não viver, o fazer e o não fazer... o dizer e o não dizer; esses espaços plenos de sentimento de mundo em que nossas almas dançam entre a realidade e o sonho. É minha forma de não calar, mesmo sabendo que a palavra escrita é só a ponta do iceberg dos sentimentos e sentidos que moram em nós... Não calar é a forma humana de lutar e de ser um elo na corrente que, fortalecida, resistirá às opressões, e a resistência é o princípio da mudança...

As crianças têm flores nos olhos
E sonhos nas mãos!
Os brutos, armas nas mãos e pedra no coração.
Os homens, a poesia.


anabels@tcu.gov.br




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domingo, 9 de setembro de 2007

É meu!



— É meu! É meu! É meu! - A mulher saiu correndo da outra ponta do bloco e veio gritando furiosa em minha direção, debaixo da forte chuva. Já eram 14 horas e, aparentemente, ela também estava atrasada para o trabalho.
— Não, dona, eu sou é dela - explicou calmamente o Sr. José Maria, saindo do táxi e apontando para mim.
— Mas eu chamei faz tempo! - ela insistiu.
— Foi radiotáxi? É assim mesmo: a senhora paga menos, mas espera mais. Já deve estar chegando.
Ficamos os três ensopados, enquanto ela se convencia de que eu não roubara o táxi que ela esperava há mais de 20 minutos.
— A senhora pode me ceder a vez? - suplicou ela, me oferecendo uma nota de 10 reais. Eu estava meio dura, mas nem me passou pela cabeça aceitar a oferta. O Sr. José Maria valia muito mais.
— Desculpe, o chefe corta o meu ponto - menti. Para sorte de todos, o radiotáxi dela chegava nesse instante. Despedimo-nos e nos acomodamos nos respectivos carros.
— Tem gente que se desespera à toa, né? – comentou meu motorista. Enquanto falava, ele passava um pano grosso no vidro. A chuva se transformara em tempestade, e em poucos minutos o carro estava completamente embaçado.
— Ainda bem que eu estou tranqüilo - continuou ele. — Só esperando desinchar a gengiva para fazer o implante. Tem que cortar no osso e...
Fiquei preocupada com a possibilidade de um acidente.
— O senhor não prefere ligar o desembaçador? - sugeri.
— Seria bom, mas quebrou.
Ele viu o meu cabelo molhado.
— A senhora quer uma toalha? No porta-luvas tem uma que eu sempre uso.
— Não precisa...
— Está limpinha, lavei a semana passada...
— Obrigada, não.
— A senhora imagina que está difícil até lavar roupa? No ponto não tem tanque, só uma pia...
— Ponto?
— É, eu não contei para a senhora? Estou morando no ponto de táxi, para economizar. Só até janeiro, quando eu termino de pagar umas dívidas. Tem um quartinho bom lá, o pessoal me deixou ocupar. O problema é o telefone, que toca sem parar. De noite diminui um pouco, eu dou umas cochiladas. Também aproveito a bandeira 2. Faltam dois cheques da cerca...
— Cerca?
— É, comprei umas terras no Goiás, tive que cercar antes de comprar as vacas. Saiu quase 10 mil. Mais 6 mil do dentista... Quando eu pagar os cheques, vou morar na roça. O problema é que roça não dá dinheiro. Vou ter que alugar a permissão do táxi para pagar a maldita...
Desta vez, interroguei-o somente com os olhos.
— Minha ex-mulher. A senhora acredita que pago 500 reais a ela todo mês? O pior é que não pode atrasar, dá cadeia. Já se foi a casa, agora é a pensão. Será justo?
Não tive tempo de pensar numa resposta.
— Parece que ela arrumou outro, bebe feito um condenado, nem trabalha. Estou sustentando dois vagabundos.
A esta altura, estávamos envoltos num denso nevoeiro, como nos filmes americanos, só que dentro do carro. Os outros veículos eram vultos assustadores que se moviam à nossa volta. Comecei a temer pela nossa segurança, mas o Sr. José Maria parecia acostumado a dirigir nessas condições.
— O seu marido também é funcionário público? - indagou, tranqüilo, como se o sol brilhasse firme naquela tarde de quarta-feira.
— Sou separada - respondi.
— A senhora me desculpe, mas bonitona desse jeito? - O olhar curioso me encarou no retrovisor, enquanto a mão continuava esfregando o vidro.
— Fui eu que quis - justifiquei.
Um vulto gigantesco apareceu à nossa direita: era o Anexo IV.
— Como é que a senhora consegue vaga aqui a esta hora?
— Tenho vaga privativa - respondi, procurando o dinheiro na bolsa.
— Amiga dos figurões?
— Não, cargo de direção.
— Hum, a senhora deve ganhar bem... - insinuou ele, piscando o olho direito.
Na próxima vez, definitivamente, o radiotáxi.
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Nostalgia



Leonardo Oliveira










E todos aqueles momentos mais do que especiais que tive o privilégio de viver um dia continuam guardados a sete chaves dentro do meu peito. São como cachorrinhos recém-nascidos: frágeis por demais. Tenho medo até de relembrá-los além da conta para que não sejam mudados. Não quero estragá-los. Não, em hipótese nenhuma! Seria irreversível. Seria como perder um amigo num acidente de carro. Mas acho que foram no mínimo corrompidos por mim e pela minha terrível necessidade de praticar o verbo "lembrar". É como se fosse um antidepressivo: a nostalgia cura meus momentos de dor e solidão. O que posso fazer?
O melhor mesmo é que tais momentos continuem guardados até que chegue a próxima tarde vazia e nostálgica. Quem sabe amanhã, talvez.
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Experiências em Palavras




(Revista da Casa — Câmara dos Deputados, n° 76, 04/09/07)





Traduzir pensamentos e experiências em palavras, esse é o objetivo da servidora do Departamento de Taquigrafia (Detaq) e escritora, Luci Afonso. De suas vivências do cotidiano, a mineira de Araxá tirou os temas para suas crônicas que geraram o primeiro livro publicado pela funcionária da Casa. “Velhota, eu?” que foi lançado no dia 2 de abril e garantiu à escritora a participação na 26ª Feira do Livro de Brasília.
Luci Afonso, filha mais velha de quatro irmãos, mudou-se para Brasília ainda criança, em 1971, acompanhando o pai comerciante e a mãe, que foi funcionária da biblioteca da Câmara. A servidora do Detaq, que ingressou na Casa em 1985, conta que seu interesse pelas letras surgiu ainda na infância e foi retomado agora com a participação nas oficinas culturais da Câmara. Ela revela que o livro foi todo escrito nas Oficinas de Crônicas do Núcleo de Literatura do Espaço Cultural Zumbi dos Palmares. Do convívio nesses grupos surgiu a idéia e o apoio para construção da obra.

A servidora lembra que sempre escreveu o mesmo tipo de texto, mas que foi somente nas oficinas, sob coordenação do professor Marco Antunes, que descobriu o que eram: crônicas. Sua primeira produção publicada foi uma crônica, no 1° livro de Literatura de Câmara de 2004, uma coletânea de textos dos participantes das Oficinas da Casa.

A escritora, mãe de um menino de 11 anos, diz que escreve sobre temas do cotidiano, geralmente coisas que acontecem durante seu dia-a-dia. A crônica que deu nome ao livro, foi escrita a partir de um episódio envolvendo a autora e um jovem que se dirigiu a ela como velhota, relata a mineira de gestos contidos, que completa “deu uma crônica engraçada”. Bom humor, aliás, é o ponto em comum dos escritos da servidora do Detaq.

No prefácio do livro “Velhota, eu?”, escrito pelo professor Antunes, ele destaca: “É crônica tudo aquilo que for manchete na alma do cronista. Desabem sobre o mundo as torres da insensatez humana, para o cronista, no entanto, sem traumas ou vergonha, a grande notícia do dia pode ter sido a morte de um simples quati na garagem de seu prédio”.

Para escrever, Luci Afonso conta que possui um espaço bem tranqüilo em casa e prefere se dedicar à atividade pela manhã. O prazer em escrever pode ter vindo de outro hábito: a leitura. Entre as prediletas dela estão os poetas Manoel de Barros, Carlos Drummond de Andrade e Adélia Prado; e os cronistas Fernando Sabino, Rubem Braga e Caio Fernando Abreu. Por falar em Sabino, o escritor define crônica dizendo que ela “busca o pitoresco ou o irrisório no cotidiano de cada um”.

Desde os 11 anos morando em Brasília, a mineira diz que aprendeu a gostar da capital. Ela participa de saraus declamando poemas. Foi em um desses saraus, que acontecem de dois em dois meses, que foi lançado o livro “Velhota, Eu?”, no teatro Sesc Garagem.

A servidora cursou letras na Universidade de Brasília (UnB) e trabalha com revisão de textos aqui na Casa, o que acredita facilitar seu trabalho como escritora. O artesanato também faz parte da rotina da escritora, que produz garrafas com sementes e figuras para presentear amigos.

Luci diz incentivar seu filho a ler, mas revela decepcionada: “por enquanto ele ainda não gosta”. Para ela cada um tem seu tempo para simpatizar com os livros. “De repente pode surgir o interesse pela leitura”, opina.

A participação na 26ª Feira do Livro de Brasília foi um incentivo da editora, segundo Luci Afonso. “Eles reservaram um horário no estande deles para eu divulgar o livro”, diz ela. Sobre a experiência? “Estou muito animada, já contratei até fotógrafa”.

Além do livro “Velhota, eu?”, Luci Afonso mantém um blog onde são publicados seus textos inéditos e o trabalho de amigos escritores. O espaço permite a ela ter um retorno sobre seu trabalho. “No blog tem a opinião de alguns autores, inclusive portugueses, sobre o meu livro. Mandei pedindo uma opinião e eles responderam”, afirma.

Futuramente, a escritora planeja publicar mais uma coletânea de crônicas e adianta que o 2° livro de Literatura de Câmara já está em fase de revisão e terá um texto de sua autoria. Luci Afonso ainda participa como jurada do 1º desafio dos contistas promovido pelo professor Marco Antunes.
Para conhecer mais o trabalho da escritora: http://luciafonso.blogspot.com/

Participação na 26ª Feira do Livro de Brasília: dia 04/09/07 das 14h às 15h e dia 06/09 das 21h às 22h. Stand 9, da Thesaurus Editora.
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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira