sábado, 1 de setembro de 2007

História de uma vida após a morte

Leonardo Oliveira




Ainda não estava certo de sua missão. Não, certeza era algo que ele nunca havia tido. Talvez fosse mesmo só mais um indeciso no meio da multidão, ou talvez tivesse mesmo nascido para mudar o mundo. Nem que fosse de forma anônima, com a ajuda do seu “eu” escondido no mais profundo infinito de si mesmo, ele mudaria o mundo.
Quando criança, teve medo de fantasmas. Não tinha medo de cobras, altura ou mesmo da morte, mas de fantasmas. Eles espreitavam seus pensamentos e o perseguiam até em seus sonhos. Já não bastasse toda aquela metamorfose infernal pela qual os garotos tinham de passar a certa altura da vida, as coisas só fizeram piorar. O seu céu, mais lindo que uma pintura expressionista, mais claro que a água do alto mar e mais limpo que a areia das dunas do deserto, se fechou. Uma nuvem negra apareceu de supetão, trazendo consigo um temporal e, em seguida, uma neblina. Era tão forte que chegou a embaçar seus olhos, deixando-o permanentemente cego. Durou.
Todo aquele medo que parecia ter sido enterrado junto ao seu passado voltou à tona, medo esse tão poderoso que acabou por consumi-lo em sua totalidade, destruindo-lhe os órgãos vitais — cérebro, pulmões e coração — e deixando-lhe uma mancha marrom-escura permanente em seus sonhos e lembranças. Até que, num dia nublado e vazio, algo aconteceu.
Não havia tempo para aquele desespero humano desnecessário, pois tudo passou num piscar de olhos. Ele pôde sentir sua garganta comprimindo-se cada vez mais e sua pele transpirando sem hesitar. Sentiu também algo espremendo seu coração até que gotas cristalinas de sangue começaram a escorrer pelos cantos de seus lábios. Durante os últimos batimentos cardíacos que esta terra haveria de ouvir, sua vida inteira passou diante de seus olhos, como se ele estivesse em um cinema sombrio. Foi nesse filme da vida que ele viu um garotinho trancado em seu quarto, escondido debaixo de suas cobertas e rezando para que os fantasmas não o pegassem. Porém, aquele garotinho era como um elefante: não sabia a força que tinha.
De repente, como uma nuvem de poeira, todo o seu medo desapareceu, e o grande mistério fora então desvendado: ele havia nascido para mudar seu próprio mundo. Ele, então, renasceu.
(Imagem: "Beatrice", Odilon Redon, 1885.)
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© LUCI AFONSO| A Crônica Brasileira